Penso que a escolha por esse tema não se deu ao acaso. Ela se precipitou de uma trajetória percorrida pela ALPL em um encadeamento que nos levou a essa pergunta, balizada pela formação ou produção de um analista e também pela transmissão em psicanálise que nos concerne.
Pensei então em retomar parte desse percurso, daquilo que pude produzir em meus escritos, para então dar início ao nosso novo tema de eixo de trabalho deste ano.
Em 2023 nosso eixo de trabalho foi a sexualidade e a clínica psicanalítica. Um ponto que me despertou a atenção naquele momento, foi a dificuldade do manejo clínico diante do contexto contemporâneo. Destaco a posição do analista diante das aceleradas mudanças sociais, assim como a invasão do discurso científico, que tomam conta do discurso e do posicionamento de nossos analisantes. Em seu seminário “De um discurso que não fosse do semblante” (1971), Lacan formaliza o conceito de sexuação apresentando-o como uma forma de mostrar a lógica inconsciente de gozo, que se localiza no registro do Real. Isso muito nos interessa, já que estamos sempre percorrendo esse caminho de uma lógica do inconsciente. Não somente para pensarmos o sujeito, mas também a condução clínica, a formação do analista e a transmissão em psicanálise. Nessa época, Lacan estava preocupado em circunscrever aquilo que entendia como a lógica de funcionamento discursivo do gozo, escrito no registro do Real, mais além do Simbólico e do Imaginário, mas não sem relação com eles. Na cena contemporânea, inúmeras são as tentativas de tapar os buracos que se apresentam. O consumismo desenfreado, o culto ao corpo perfeito, as identidades de gênero, a parentalidade sem falhas, o profissional de alta performance, enfim um imperativo de gozo a todo custo. E o que vemos é o aumento de sofrimento dos sujeitos, as manifestações sintomáticas graves, as atuações mortíferas, o aumento das medicalizações ganhando cada vez mais espaço e apagando cada dia mais o sujeito. Tal movimento social aparece diariamente em nossos consultórios. Diante disso, o que me convoca enquanto analista é a posição do analista na atualidade. O que não é sem a implicação de uma lógica do inconsciente a ser sustentada em sua práxis e também na produção de um analista.
Continuando nosso percurso do eixo, em 2024 estudamos os discursos. Nosso tema foi “O discurso do psicanalista, hoje”. Mais uma vez em cena, a lógica inconsciente que rege nosso trabalho, a posição do analista e o discurso do psicanalista, e a cena contemporânea.
Entendo o discurso do psicanalista como um operador que norteia o manejo de nossa clínica. No Seminário 17, Lacan articula a relação entre gozo e saber no campo dos discursos, mostrando como o saber pode ser estruturado como um gozo do Outro. O saber não é neutro ou puramente cognitivo; ele se inscreve na economia do gozo. O saber também opera como um limite ao gozo. No discurso do analista, que Lacan apresenta como aquele que subverte a lógica do discurso do mestre, o saber é deslocado de sua função de dominação e posto em um lugar de falta. O gozo absoluto, ou gozo pleno, é impossível precisamente porque o saber, ao ser articulado simbolicamente, impõe uma estrutura que o regula e o delimita. Lacan produziu a noção de discurso a partir de seus desenvolvimentos teóricos juntamente com seu ofício de analista. O sujeito do inconsciente não só vem a corresponder a uma resposta frente ao real, como tem por função organizar esse buraco em forma de (a). Um buraco que tem uma consistência do real, e por assim ser, se esvazia do gozo desse campo do Outro. Será nessa relação entre o gozo e o saber que se constitui esse dispositivo chamado de discurso.
A estrutura discursiva é proposta por Lacan, também como aquela relativa ao encadeamento transferencial. A psicanálise, portanto, não se sustenta na reprodução, mas na invenção. Ao invés de buscar a legitimação em um saber constituído, trata-se de interrogar os efeitos do discurso e produzir novas articulações que possam responder ao que escapa às fórmulas já dadas. É nesse movimento de criação que podemos realmente sustentar a psicanálise, não ao repetir o ensino do mestre, mas ao desdobrá-lo em novas direções e produções tanto para o analisante quanto para o analista.
E por último, em 2025, trabalhamos a ética da psicanálise. Tema esse que também nos lançou diretamente a essa questão da formação e produção do analista. Na ética psicanalítica, o que está em jogo não é um caminho seguro para o bem-estar, mas o compromisso com o enfrentamento da verdade do desejo e suas consequências. A psicanálise abre assim, um campo de interrogação sobre a condição humana, onde cada sujeito deve encontrar ou inventar sua própria resposta ao desejo e a produzir um estilo que responda à singularidade de cada um. No Seminário XXI, Lacan aborda a questão da ética propondo alguns avanços em relação ao Seminário VII. Nesse momento de trabalho ele desloca seu eixo central do desejo para a estrutura dos discursos, porém sem abandonar a ideia anterior e sim no sentido de ampliá-la. Nesse momento ele interroga novamente a posição do sujeito no laço social e sobretudo a posição do analista, a partir da formalização dos discursos.
A partir dessa perspectiva, a ética então não consiste em desmascarar o discurso ou colocar-se fora dele, mas em assumir a posição que sua estrutura exige. Pretender não ser enganado pela linguagem é ignorar que o sujeito é efeito dela. Trata-se de se reconhecer como efeito de um saber que não se domina, de consentir ao fato de que o sujeito é estruturado por um saber que o ultrapassa. A ética da psicanálise, nesse ponto, implica uma relação específica com o saber inconsciente e não negá-lo é a possibilidade de sustentar sua estrutura.
A ética, portanto, diz respeito à posição do sujeito frente ao real que o determina e, sobretudo, à posição do analista enquanto efeito de uma produção que não é somente teórica, mas estrutural. Trata-se de uma ética do discurso, fundada na estrutura do inconsciente e articulada à produção do analista como objeto. Aqui penso se entrelaçarem os três temas trabalhados anteriormente.
Volto então à questão da produção do analista e acrescento a questão: “Por que uma escola de psicanálise?”, eixo de nosso trabalho para esse ano de 2026. A resposta não é institucional ou pela via de uma formalização, mas estrutural. O analista ocupa o lugar de objeto a, causa do desejo. Ele não fala como mestre, nem com o saber, mas sustenta-se como resto, como aquilo que encarna a falta no Outro. E essa produção é efeito de uma experiência que requer a travessia de sua própria fantasia e a destituição subjetiva experimentadas na carne, por meio de um processo de análise pessoal. Assim, entendo que a ética e a produção do analista são dois aspectos de uma mesma estrutura, a sustentação de um discurso que não recua diante do real. O analista é aquele que, tendo sido reduzido à função de objeto a em sua própria análise, pode sustentar um dizer que não vela o real, mas o bordeja.
Seguindo então esse percurso, temos toda uma construção acerca da lógica do inconsciente, tanto no que diz respeito ao sujeito e seu funcionamento, como também em relação ao manejo dessa lógica na direção da cura, portanto na produção de um analista. Segundo Alba Flesler, em sua fala na biblioteca freudiana de Curitiba, que tive a oportunidade de acompanhar uns dias atrás, as intervenções do analista não são pautadas em uma técnica e sim em uma lógica que nos serve de bússola. Trata-se de elementos de uma lógica que nos são necessários na direção e condução do tratamento. Assim como o sujeito se faz e não se nasce, penso também o analista como aquele que se produz pela via do efeito de um percurso analítico e pela ética psicanalítica, e não se torna por meio do conhecimento. Um outro paralelo que pude traçar a partir da fala de Alba sobre o sujeito é que, assim como o sujeito se faz se se realizam operações, como o desejo materno e o nome do pai, assim se faz ou se produz o analista se se realizam operações como não recuar diante da lógica inconsciente e do Real, atravessar um processo de análise que permita sustentar o operador desejo do analista e sustentar a ética da psicanálise. E também se realiza na transmissão o que se recolhe na clínica deixando-se afetar pelos efeitos desta. Se pensarmos que cada resposta ao Real é um tempo da construção do fantasma para o sujeito, assim também é a formação do analista que se dá em tempos. Um analista se produz em uma operação de escrituras. Por isso, penso eu ser fundamental o trabalho de transmissão e o trabalho entre pares em uma escola de psicanálise. Somente assim é possível se dar testemunho de uma prática e se submeter aos efeitos de uma produção e escrita psicanalíticas.
Nos textos “A psicanálise e seu ensino” e “Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956”, Lacan propõe uma reflexão decisiva sobre o estatuto da psicanálise, sua transmissão e as condições de formação do analista. Esses textos retratam o momento de ruptura institucional da psicanálise francesa, marcado pela crítica de Lacan às derivações pós-freudianas e ao ensino. Lacan propõe nesse momento uma reflexão decisiva sobre o estatuto do ensino da psicanálise. Longe de ser a transmissão de um saber já constituído, o ensino psicanalítico deve ser entendido como uma prática que recoloca em movimento o próprio pensamento freudiano. Lacan insiste que a obra de Freud não pode ser reduzida a um conjunto de conceitos fixos, pois trata-se de conceitos inacabados e em constante construção. Isso significa que o ensino da psicanálise exige um retorno constante aos textos como trabalho vivo de releitura e articulações. A ideia é reencontrar o movimento da descoberta freudiana, e não de cristalizá-la em doutrina.
Lacan aproxima o ensino psicanalítico de certas tradições, como na Grécia Antiga, por exemplo, onde o mestre não transmite um saber pronto, mas intervém pontualmente para provocar no aluno a emergência de uma resposta própria. Assim, o ensino não é expositivo, mas estruturado como um diálogo, no qual o saber se constitui na relação entre os interlocutores. Essa dimensão do diálogo antecipa o lugar central que Lacan dará ao Outro e à linguagem na experiência analítica. Ele sublinha nesses textos que o ensino da psicanálise está intrinsecamente ligado à própria prática analítica. A análise não é uma técnica aplicável de fora, mas uma estrutura marcada pela linguagem, pelo desejo e pela transferência. Assim, o ensino da psicanálise não pode ser separado da formação ou produção subjetiva, e em tempos, daquele que a pratica. Portanto, ensinar psicanálise é transmitir uma leitura e uma posição ética, mais do que um corpo teórico ou de conhecimentos. Trata-se de sustentar um campo onde o saber não está dado, mas se produz na relação com o inconsciente.
No contexto de 1956 Lacan analisa criticamente a situação da psicanálise e as condições de formação do psicanalista. Ele identifica uma crise na psicanálise de seu tempo, marcada pela tendência a transformar a prática analítica em uma técnica adaptativa, voltada à normalização do sujeito. influenciada por correntes como a psicologia do ego, reduz a descoberta freudiana ao registro do comportamento e da adaptação social, apagando assim sua dimensão subversiva. Lacan propõe então um retorno a Freud, entendendo como retorno à primazia da linguagem e do inconsciente estruturado como linguagem.
A formação do psicanalista torna-se para ele uma questão central. Lacan critica os modelos institucionais que pretendem garantir essa formação por meio de critérios burocráticos ou hierárquicos. Para ele, a formação não pode ser assegurada por uma autoridade, pois depende essencialmente da experiência analítica de cada sujeito. É na análise pessoal que o futuro analista se confronta com a verdade do seu desejo e com a estrutura do inconsciente.
Além disso, Lacan enfatiza a dimensão ética da psicanálise. O analista não deve ocupar o lugar de mestre ou de ideal, mas sustentar uma posição que permita ao sujeito confrontar seu desejo. Isso implica em uma renúncia ao saber totalizante e à autoridade imaginária, em favor de uma escuta que se orienta pelo significante e pela estrutura.
A situação da psicanálise em 1956 revela, para Lacan, uma tensão entre instituição e verdade. Enquanto as instituições tendem à normalização, formalização e à conservação, a psicanálise, em sua essência, opera como uma prática que desestabiliza as identificações e revela a divisão do sujeito. A formação do psicanalista, portanto, deve preservar essa dimensão crítica e não se deixar capturar por modelos adaptativos ou normativos.
Concluo então meu trabalho defendendo a ideia de que “não há analista sem escola”, já que é lá onde o analista, ao dar de si, recolhe os efeitos de sua prática e também da transmissão entre os pares, pela via de um efeito de estrutura, podendo produzir assim essa função, a função analista.
Gostaria de agradecer aos colegas que participaram desse fórum e contribuíram para o início desse tema que será nosso eixo de trabalho este ano na associação. Agradeço também a Zeila pela leitura atenta e cuidadosa e por ter conduzido o debate levantando alguns pontos bem relevantes que nos ajudam sempre a avançar.
Já no início do texto, Zeila levanta um ponto importante sobre a diferença entre a formação e a produção de um analista e sobre a transmissão em psicanálise. Ela propõe inverter ou subverter esta ordem, pois para ela, a pergunta se fundamenta no início, na transmissão ou, ainda melhor, na reinvenção permanente da psicanálise que se dá no dois, no ao menos dois de um analista. Ela entende portanto, que é através disso que podemos pensar em algo da ordem da “formação”. A possibilidade da função analista se produz em análise, a escola é um espaço, um dispositivo, que pode ser usado para o permanente frescor necessário à sustentação disso que se produz em intensão, em análise.
Na sequência Zeila aponta um trecho em que eu digo que o que me convoca enquanto analista é a posição do analista na atualidade. O que não é sem a implicação de uma lógica do inconsciente a ser sustentada em sua práxis e também na produção de um analista. Ela me pede para comentar isso e também questiona se eu penso em particularidades desta posição. Penso que a função analista é a mesma seja em qual momento for, e que isso nada tem a ver com a subjetividade de cada época. Assim como penso no inconsciente operando a partir de uma mesma lógica e estrutura. Não penso que a subjetividade de cada época não tenha efeitos sobre o sujeito, longe disso. E apesar de pensar em uma estruturação subjetiva particular, a cada vez sim mais presente na cena atual contemporânea em razão dos efeitos de nossa subjetividade, ainda penso que a função analista permanece a mesma em sua essência e operação, sem que se produzam particularidades desta, ainda que tenha que se atualizar constantemente diante do que se apresenta na cena atual.
Um outro ponto importante que Zeila levanta é para marcar a diferença entre os conceitos de criação e invenção, que em meu texto vinham se repetindo como sinônimos ou equivalentes. Muito interessante pensar o que ela nos aponta no sentido de que uma criação é algo que se origina a partir do nada, enquanto que a invenção é sempre a partir de algo já existente, portanto mais próxima de nosso trabalho.
Dois outros conceitos que ela salienta como distintos são os de ensino e transmissão. Penso ser este um ponto crucial que nos acompanhará ao longo desse ano e como nos pontua Zeila, o trabalho da reinvenção que se dá na transmissão é o fundamental em uma escola.
E para encerrar a conversa, uma questão em relação à conclusão do meu texto, quando afirmo que não há analista sem escola. Zeila discorda desse ponto e sustenta que a possibilidade desta função é fruto de uma análise. Que o analista, ao menos dois, pode muito bem se dar sem escola. Achei muito importante pensar a respeito deste e dos demais pontos e poder rever minha leitura, e considero que este fórum tenha de fato cumprido seu papel de abertura.