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O Objeto de uma Psicanálise: o sujeito entre a estrutura e a topologia

por Mônica Fujimura Leite

Tentarei articular neste breve trabalho o início de meu percurso, num avanço teórico em topologia, para dar conta de teorizar o que verifico em minha prática clínica: uma variedade nas manifestações deste sujeito que me propus a escutar, no trabalho com a Psicanálise. Sujeito, estrutura e topologia, passarei por cada um deles, para em seguida articulá-los, da maneira como venho pensado esta questão.

Partindo do seminário 13 (LACAN, 1965-66/2018), que norteia o eixo de estudos da ALPL este ano, de saída me deparo com o paradoxo de que o objeto da Psicanálise é o sujeito. E o objeto.Isso me fez lembrar do que o Aurélio Souza sempre trouxe em sua transmissão, de que o sujeito é o objeto, e de como isso sempre fez enigma para mim.

Até então, o que eu havia conseguido articular, a partir do que estudamos sobre o Fantasma em 2017, e que na época desenvolvi na jornada daquele ano foi que: o sujeito, ao pedir reconhecimento de seu ser ao Outro, não o encontra. No seminário 6 Lacan (1958-59/2016) diz que o Outro não tem um significante que autentique e garanta a sequência de significantes (p. 400), e que neste momento aparece o S/ (barrado), separado de seu objeto de desejo. Assim, a partir disso, o objeto a é o que passa a designar o sujeito[1] . Seguindo este raciocínio, Tsyler (2014, p. 31) coloca que a escolha do sujeito (enquanto suposto objeto que completa o Outro) é a resposta que ele dá à pergunta “O que o Outro quer de mim? ”.   

A partir dos estudos com os colegas da ALPL, do seminário 13 (LACAN, 1965-66/2018), avanço nesta articulação sujeito-objeto, a partir da topologia. Nele, Lacan fala da banda de moebius (apresentada pela primeira vez no seminário 9), dizendo que ela não tem superfície (interna/externa), é uma única borda (p. 70). E em seguida ele demonstra como a banda de moebius é feita a partir de um corte no cross cap (p. 73) resultando também num resto, que seria o objeto a.

 A característica do crosscap é que ele se interpenetra, não havendo direito ou avesso na superfície.

Lembrei-me neste momento, de que, em 2017 tivemos a experiência, com a transmissão da psicanalista Lígia Víctora, de construir esta figura topológica. Naquela época, cortando e costurando pedaços de tecido, vimos, na prática, como, ao cortar o cross cap em forma de oito interior, surgem duas figuras: a banda de moebius -  que seria o sujeito - e um cone - que seria o objeto a.

Esta questão do corte, falarei sobre isso mais adiante em meu trabalho.

Voltando ao sujeito/objeto, quem estuda psicanálise sabe que estes dois, em relação, constituem o que Lacan chama de Fantasma. Lembro-me de como fiquei extasiada ao me dar conta disto, e como vi sentido em passar a usar a topologia para pensar a clínica.

Neste ponto, introduzo o ultimo conceito que me propus a tratar e ancoro a minha questão clínica, deste momento de minha prática: a estrutura.

               Parti do entendimento, no início de meus estudos e prática da Psicanálise, de uma ideia de estrutura que se tripartia, tendo o Édipo como referência, as chamadas “estruturas clínicas. Após isso, há cerca de uns 15 anos atrás, no último ano da faculdade, iniciei minha clínica atendendo bebês e crianças pequenas e me ancorei em uma leitura da Psicanálise que defende a possibilidade de uma mudança estrutural, a partir da intervenção em um momento lógico anterior ao fechamento da estrutura clínica.Nesta época, minhas leituras e intervenções embasavam-se nas funções parentais e os efeitos das intervenções de um Outro encarnado ou simbólico sobre o falasser.Tais intervenções possibilitariam a inscrição das marcas primordiais que possibilitariam a constituição de um sujeito desejante.

 E esse trabalho tinha efeitos, crianças saíam do fechamento autístico, passavam a se comunicar, aprender, sentir prazer na relação com o outro, se relacionar com outras crianças...  Posteriormente, trabalhando com bebês, era assustador verificar a permeabilidade destes pequenos ao discurso do Outro. Era inquestionável a continuidade da fantasmática materna com as respostas do bebê. Mas eu sempre me perguntava, era mesmo um autismo? Tais efeitos foram mesmo resultado das intervenções? Hoje eu entendo que carecia de um avanço teórico para compreender o que se passava de fato nesses efeitos de trabalho.

Conforme já disse, nesta época me apoiava na teoria edípica de Lacan, a partir de um retorno a Freud. Foi necessário avançar, junto com Lacan, anos mais tarde (1961-62), encontrando, no seminário 9, a dita topologia, na figura do toro para tratar desta questão.

No seminário 13 (LACAN, 1965-66/2018), ele retoma esta questão, ao dizer que o furo tem uma função essencial no funcionamento da linguagem (p. 44)[2]. O furo causa, e faz o homem trabalhar para dar conta disso. E é disso que a Psicanálise se ocupa, este é o objeto da Psicanálise. Nas palavras de Lacan (p. 64): “que o objeto esteja ligado, enquanto queda, à emergência, à estruturação do sujeito enquanto divisão”, e mais adiante ele diz que é o corte que traz como resultado a queda do objeto e o sujeito enquanto dividido (p. 69).

Aqui, o corte de que me comprometi a falar lá atrás. Lacan neste momento (LACAN, 1965-66/2018, p. 50) coloca o sujeito como corte e o objeto como falta, e ambos enquanto sendo objetos da ciência (p. 51). Retomando o que Lacan coloca sobre a construção da banda de moebius, foi possível entender o que Lacan nos apresenta neste seminário, de que o sujeito é “determinado por um corte” (p. 74), uma vez que é um corte que produz a banda de moebius, e também um corte que a desfaz (evanescência do sujeito).[3]Ou seja, a topologia me permitiu visualizar que o corte, promovido pelo significante, resulta na estrutura, separando o sujeito e objeto.

A topologia permitiu a Lacan uma ferramenta para teorizar e trabalhar isso na prática clínica. Os objetos topológicos se delineiam a partir de um furo, de cortes e movimentos, e são estes os mesmos elementos de uma análise lacaniana.

A partir da topologia é possível compreender essas variações na fenomenologia clínica do paciente. Daí compreendi o entusiasmo de Lacan em fazer uso deste recurso. Um pouco mais adiante, no seminário 13 (1965-66), Lacan fala que a estrutura (da linguagem) é maleável, permitindo que as conexões permaneçam, mesmo com a modificação das proporções. Ele chama isso de um “mundo topológico”. E mais adiante ele nomeia esta propriedade de homeomorfismo. Sobre este conceito, em meus estudos, encontrei com a Ligia Víctora (2016), que na topologia o formato das figuras pode variar, elas podem ser transformadas em outras, contanto que se mantenha algumas condições, a vizinhança entre seus pontos, a fronteira entre eles e o número de faces. Nasio (2011) coloca como condição do homeomorfismo que os objetos correspondam a duas propriedades: a todo ponto de um dos objetos corresponde um ponto e um só ponto do outro, e vice-versa. E a dois pontos vizinhos de um correspondem dois pontos vizinhos do outro, e vice-versa.

Além disso, na topologia, é possível fazer imersões e mergulhos em outras dimensões, o que possibilita ultrapassar a rigidez das ditas estruturas clínicas. Ainda não consegui alcançar a complexidade de tais conceitos, trago-os em sua definição, mas ainda não me vejo em condições de apreendê-los de fato, ficando como ponto de partida para aprofundamento na continuidade deste trabalho, posteriormente. Nasio (2011) explica que tanto o mergulho quanto a imersão são
a transformação de um objeto inicial em um objeto final, quando introduzido em um meio específico. No caso do mergulho o objeto final equivale ao objeto inicial e verifica-se entre eles o homeomorfismo. Ou, quando as condições do espaço no qual a transformação se desenvolve produzam um objeto final não totalmente equivalente ao objeto inicial, seria a imersão.

Ligia Víctora (2016) coloca que Lacan se utiliza de estruturas biláteras fechadas (toro, esfera e seus homeomorfos) para tratar das psicoses; e superfícies uniláteras (banda de moebius, cross cap e garrafa de Klein) para falar da estrutura do sujeito dividido, ou seja, pós castração.

Para a psicanalista, a passagem de uma banda simples, bilátera, para uma banda unilátera, moebiana, ilustra o movimento de báscula do fantasma, necessária para a constituição do sujeito neurótico e sua apreensão do Outro, enquanto código, tesouro de significantes. Nas psicoses existe uma impossibilidade desta báscula. Assim, a transformação entre as bandas demonstra uma passagem possível entre neurose e psicose.

E isso me ajuda muito com relação a minha questão inicial, que é a de pensar na maleabilidade das sintomatologias que eu encontrava em minha clínica (isso em todas as idades), não condizentes com a estanquez das nosografias psicanalíticas, advindas da resposta diante da castração (ou da falta no Outro), apoiadas no Édipo. Esta questão se acentuou quando esta teoria pautada nas estruturas clínicas passou a não ser mais suficiente para falar das surpresas, dos impasses, do não saber, da inventividade necessária, todas as nuances da lógica do inconsciente.

E falando em surpresas, qual não foi a minha, ao encontrar no seminário 3 de Lacan (as psicoses – 1955-56) que tenho há muitos anos, mas que somente agora pude (re)encontrá-lo, que a estrutura se define na relação com o analista, são elementos variantes, compreensíveis em um determinado contexto.

Desta forma, quanto mais avanço em meus estudos e na prática da Psicanálise, menos consigo padronizá-la. As intervenções, os clareamentos, as surpresas, a imprevisibilidade que surgem da escuta não condizem com standards de tratamentos. Ao tentar fazê-lo, mata-se a sua essência, esvazia se o que ela tem de mais precioso. No “Discurso de Roma” (1953) Lacan faz uma crítica feroz ao que a Psicanálise havia se tornado naquela época, a partir de tentar padronizar a formação e a prática de um analista, mostrando o quanto isso fere a proposta freudiana e inviabiliza a escuta do inconsciente. Freud já dizia que a formação de um analista passa pelo divã (análise pessoal), a prática e o estudo teórico.

Lacan propõe um retorno à letra freudiana, ressituando a Psicanálise no campo da fala e da linguagem, para além da imaginarização das condutas, disposição dos móveis, quantidade de horas de análise ou atendimento. A Psicanálise é uma invenção, a cada paciente, a cada atendimento é preciso estar aberto ao que vem, sem apegar-se a teorias, modelos ou técnicas. É somente pelo operador do desejo do analista que se pode conduzir uma análise.

Ressituo aqui, neste momento, a responsabilidade do analista, na condução do tratamento. Uma vez que, a partir desta perspectiva, não se garante um situar-se na transferência e na condução, a partir do estabelecimento de um diagnóstico estrutural (observando-se, desde sempre, a unicidade de cada caso), há que se estar mais atento e levar ao pé da letra, o que Lacan diz que cada análise é única, não apenas no caso a caso, mas de sessão a sessão.

Pelo que vimos com Víctora (2016), a depender das circunstâncias ou da própria intervenção do analista, pode haver uma passagem de uma neurose a uma psicose, ou vice-versa. Lembro-me, neste momento, do que já ouvi colegas dizendo que Lacan passa a falar não se neurose ou psicose enquanto estruturas clínicas, mas dos neuróticos, dos psicóticos.

Retomo neste momento, mais uma vez, a questão do corte em topologia, agora articulada com a função do analista. Me apoio no seminário 13, (1965-66), onde Lacan articula sujeito, corte e a posição do analista. Lá ele diz que o sujeito é o corte, que necessita de um analista bem posicionado, e que tudo ocorre de forma evanescente[4]. Aqui encontro na letra de Lacan o que já ouvira dizer diversas vezes, a de que o sujeito se faz em análise (e isso me permite transpor a ideia imaginarizada bem freudiana que já trouxe aqui, de um sujeito como parte de uma família triangular, composta de 4 elementos).  A partir disso, abraçar a ideia de que o sujeito se constitui em análise, e de que quem manipula a tesoura é o analista.

Explico: pelo que pude apreender até o momento, com a ajuda de Víctora (2016), o que Lacan propõe, é que o toro seria para representar o sujeito antes da castração simbólica. Os cortes realizados nesta superfície é que possibilitarão a passagem para a banda moebiana. Segundo Víctora (2016), Lacan propõe que os cortes são feitos pelas palavras do Outro. Ela diz que “os significantes, que lhe forneceram esta primeira estrutura tórica temporária, também irão operar os buracos nele” (p. 59). Para um toro se tornar uma banda de moebius, corta-se no formato de oito interior.

 Os pontos vizinhos, depois do corte, ficam separados. Ou seja, sendo o corte a intervenção do significante sobre o sujeito (o que ela chama de castração simbólica), conseguimos visualizar que os mesmos elementos podem se reorganizar, se dispor de uma forma diferente. “O mesmo tecido de significantes, a mesma história, contada de outra forma” (VÍCTORA, 20216, P. 60).

Achei isso tão fantástico, pois, mais uma vez, algo que eu sempre repeti (a partir da teoria dos significantes), que uma Psicanálise possibilita posicionar o sujeito de uma forma diferente diante de sua própria história, reorganizar os significantes de forma a gerar um novo significado, inventar uma nova narrativa para o que lhe acomete, está aí, palpável, todos os elementos diante de nossos olhos, literalmente, ao alcance das mãos.

               Assim, penso que a topologia pode ser uma ferramenta importante para construir minha prática a partir daqui, pois vai nesta direção de um desapego ao conhecido e pré-estabelecido, e vai na raiz do que Freud propõe, de que é no um a um que a clínica se configura e um saber sobre isso se constrói.

Cortar, colar, torcer, são todas ações, que implicam em movimento e possibilitam representar melhor o que verifico no dia-dia de minha clínica. Por outro lado, isso chama mais a responsabilidade do analista, na medida em que as intervenções ocasionam efeitos na estrutura. Isso que eu fazia (hoje penso que intuitivamente, por mais que me apoiasse em teorias), há 15 anos atrás, hoje eu consigo materializar o que acontece, e de que forma. Com a topologia. Ainda é um mundo muito novo para mim, mas por ora, me apoio nos intérpretes de Lacan, nos estudos e discussões com os colegas da ALPL, e nas intervenções de vocês, para me ajudar a trabalhar com os conceitos.



REFERÊNCIAS

Lacan, J. (1998). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In J. Lacan, Escritos (pp. 238-324). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, J. O Seminário. Livro 3 (1955- 1956): As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

Lacan, Seminário 6 O Desejo e sua Interpretação. (1958-59). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2016.

Lacan, J. (1961-1962) O Seminário, Livro 9: A identificação. Recife, Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

Lacan seminário 13 (1965-66). O Seminário, livro 13. O Objeto da Psicanálise. São  Paulo: Fórum do Campo Lacaniano de SP, 2018.

Nasio, J. D. Introdução à Topologia de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Tsyler, J. (trad. Fonseca, P. L).O Fantasma na Clínica Psicanalítica. Recife: Association lacanienne internationale. 2014.

Víctora, L. G. Topologia e Clínica Psicanalítica. 2 ed. Porto Alegre: Redes Editora, 2016. 



[1] Nas palavras de Lacan (1958-59, p. 400): “Esse objeto é o suporte ao redor do que, no momento em que o sujeito se esvaece diante da carência do significante que responde de seu lugar ao nível do Outro, (ele) encontra o seu suporte nesse objeto” (p. 400).

[2] Nas palavras de Lacan (1965-55, p. 45) “Se não houvesse seres falantes, talvez houvesse cavidades no mundo, poças, depressões, coisas que retêm. Não haveria vasos”.

[3] “Uma vez recortada pela metade, ela não é mais uma banda de Moebius, ela é uma coisa que possui duas faces, uma frente e um avesso (...) é um toro. (LACAN, 1965-66, p. 76-77). 

[4] Em suas próprias palavras, Lacan (1965-66, p. 37) fala de uma “acomodação da posição do analista para com este corte fundamental que se chama sujeito”, e em seguida, coloca o sujeito como “idêntico a este corte, {que} a posição do analista é rigorosa, e “não sustentável.”.

 

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