Começarei meu texto pela última parte do título, pois ela constitui, na verdade, o início de minhas indagações. No último ano da faculdade comecei a atender mães, bebês e crianças cujos singulares modos de enlaces desdobravam-se em uma diversidade de sintomas, atuações, somatizações, inibições e quadros de angústia. Bastante tempo depois, passei a atender mulheres que deram outras respostas a sua condição feminina, os quais compareciam em discursos reivindicatórios, queixas de injustiça, de falta de reconhecimento, ou colocando-se repetidas vezes em relacionamentos abusivos, sendo maltratadas, humilhadas, machucadas, violentadas. E mais recentemente encontrei na clínica também homens nessa mesma posição. Deparando-me diversas vezes diante da questão acerca do feminino, comecei, em 2016, dar lugar às minhas questões em um grupo de estudos com a temática da feminilidade. E assim encontrei alguns caminhos, algumas respostas, porém, a cada vez que articulava esses estudos com os eixos de estudos da alpl novas questões se abriam, complexificando ainda mais o tema.
E esse ano não tem sido diferente. Esse texto é então a amarração de uma tentativa de articular esses conceitos, realizado ao longo desse ano de 2017. Seguirei a sequência de meu percurso.
Comecei com Freud[1], em minha prática e teorização, onde a problemática da mulher é discutida a partir do Complexo de Édipo (girando em torno da lógica falocêntrica), cuja resolutividade é a inveja do pênis. Diante disso, a mulher tem três saídas: a histeria, a inibição (frigidez) ou a feminilidade (que implicaria em uma compensação na maternidade). Freud mesmo, porém admite que essa conclusão não responde por completo acerca do desejo feminino.
A seguir veio Lacan[2], no encalço de Freud, mudando porém, o estatuto do falo, ao atribuir a ele a função de significante[3]. Posteriormente ele desloca a questão da sexualidade humana do falo para os diferentes modos de gozar, distribuindo os sexos dentro destas modalidades de gozo. Assim, a partir de 1973 (O aturdito) ele passa a situar a mulher a partir de uma referência outra, não mais pela negativa do homem, porém ainda em relação a ele. No seminário XX[4] ele distribui as posições feminina e masculina dentro do quadro da sexuação.
A partir desse quadro, eu vinha tentando descobrir em que implica essa posição de objeto de desejo de um homem no qual uma mulher se coloca na feminilidade. Qual o estatuto desse objeto?
Então, ao estudar o conceito de fantasma ao longo desse ano, deparei-me com o primeiro texto de Freud, que trata da fantasia de mulheres (de uma fantasia feminina?). Em “Bate-se em uma criança” Freud (1919), no relatos de seus pacientes, Freud encontra três tempos. No primeiro a criança cria a fantasia do pai batendo em outra criança, sua rival. Esse ato é interpretado como: "O meu pai não ama essa outra criança, ama apenas a mim", denotando seu ciúme pelo amor do pai.
No segundo tempo, a criança é espancada pelo pai, e a interpretação de Freud é: "Não ele não ama você pois está batendo em você". Desta forma a fantasia da 2ª fase é uma expressão direta do sentimento de culpa, sendo um castigo pelo desejo edipiano na menina. Porém Freud também encara essa cena como uma forma de amor regressiva, podendo também significar: “se ele me bate é porque me ama”. Esta fantasia é uma construção da análise, permanecendo inconsciente.
No 3o tempo da fantasia há uma substituição do pai por professores ou figuras de autoridade,e a criança que cria a fantasia aparece como espectadora. A criança espancada transforma-se emvárias crianças do sexo masculino. Lacan (seminário 4) faz uma leitura do texto freudiano, destacando, na terceira cena, o aspecto despersonalizado dela. Na afirmação “bate-se numa criança” não aparece quem é o personagem que bate, nem o que apanha. Ele coloca a ênfase na função do pai (não o pai da realidade, mas o pai simbólico). E ainda destaca que o fato de serem várias crianças aponta novamente para uma desingularização da situação. O sujeito, então, se reduz a um olho.
Lacan reposiciona a questão do desejo no humano como consequência de uma falta estrutural (seminário 17, 1969-70). Segundo Lígia Víctora (2005), Lacan especifica no francês o termo Fantasma, que é diferente de Fantasia. Lacan divide a cena do fantasma em duas partes, a primeira sendo a cena, na qual o sujeito fica estanque:
Com a fantasia, encontramo-nos diante de algo (...) que fixa, reduz ao estado de instantaneidade, o fluxo da memória, detendo-se nesse ponto que se chama lembrança encobridora. Pensem na maneira como uma sequência cinematográfica que se desenvolve rapidamente fosse parar de repente num ponto, imobilizando todos os personagens. (Lacan, 1958, p. 121).
Ele (Lacan, 1958-59) diz que essa cena que o sujeito conta na análise é do Imaginário. Lembro-me de dois casos, um no qual a paciente se coloca como “a babaca”, e enumera cenas em diversas situações, no trabalho, nos namoros, na família, nos estudos, nos sonhos, onde diz que sempre faz “escolhas pra se ferrar”. Literalmente, ela dorme com o inimigo. E um outro caso em que a paciente se sente responsável por desencadear surtos de violência nos homens, e conta de cenas muito parecidas, vividas com o pai e o marido, em que considera tê-los provocado, e obtido como resposta, violência por parte deles. Nas duas situações são relatos em que mudam as épocas, os personagens, porém o sujeito se vê congelado na mesma cena.
Tsyler (2014) coloca que no seminário “A lógica do Fantasma (qual lição?), Lacan retoma o “Bate-se em uma criança”, distinguindo a parte estrutural da parte imaginária (p. 22). Esta dimensão trata da relação do sujeito com a falta do Outro. Segundo Tsyler (2014), essa parte seria impossível de dizer, e ele equipara com o segundo tempo da fantasia relatada por Freud. Nesta, o sujeito é o objeto de gozo do Outro, marcado pela linguagem “eu sou batido pelo significante” (p. 42). Aqui o corpo é erotizado e se recortam os objetos parciais. Amigo (2005) complementa que, no processo de construção do Fantasma, Lacan destaca o objeto do sujeito, nomeando-o de objeto a[5].
A Construção do Fantasma em Lacan
De acordo com Amigo (2005, p. 25-26), existem três tempos da montagem da Fantasia: expulsão do Real pela entrada da linguagem, moldura do Real, por meio do significante fálico e desenho de um objeto no meio da moldura (seria o objeto a?).
Silvia Amigo (2005) coloca que o significante fálico é necessário para a entrada do sujeito na linguagem. Este significante tem uma vertente dupla: ele significa o sujeito por um lado, e por outro, ele goza falicamente dele (p. 13). Ainda segundo a autora, ao ser gozado pelo Outro, o sujeito produz sintomas. De acordo com Silvia Amigo (2005), a fantasia é a resposta que o sujeito dá ao que supõe ser o desejo do Outro. Essa resposta é construída no Édipo e se torna definitiva em sua reedição, na adolescência (p. 22).
De acordo com Lacan (1958-59), o lugar do Outro é ocupado pela mãe, que articula a Demanda (p. 369). O sujeito porém, quando busca um reconhecimento de seu ser no Outro, não encontra. Citando Lacan: “É na medida em que...no discurso do Outro[6], que é o inconsciente, algo falta ao sujeito (...) que permite ao sujeito identificar-se a isso (...) o sujeito desaparece aí como tal” (p. 388/393). Ou seja, não há uma garantia da verdade no Outro.
Citando Lacan(1958-59), “O fantasma marca o momento do fading do sujeito em que o sujeito não acha nada no Outro que lhe garanta .... que lhe permita situar-se e nomear-se no nível do discurso do Outro, isto é, como sujeito do inconsciente” (p. 400)”.
Dizer que o significante não pode nomear o sujeito seria porque existe algo que extrapola o significante? Seria o que Lacan encontra na relação do sujeito com o gozo? Pois em seguida ele diz que é nesse momento se coloca o objeto a. Nas palavras de Lacan (1958-59, p. 389): “a é o que intervém para suportar esse momento...em que o sujeito apaga-se...para se designar no nível do desejo”.
Aqui acontece a montagem do fantasma, quando então o sujeito passa a ser um sujeito desejante, e ao mesmo tempo, nomeia-se enquanto objeto, ou mais precisamente, em sua relação com esse objeto (de gozo). Na relação do bebê com a mãe, enquanto Outro da linguagem que não tem um significante que autentique e garanta a sequência de significantes (p. 400), S barrado, separado de seu objeto de desejo.
Ao mesmo tempo que funda $, aparece o a, que é o que cai do sujeito, separa-se dele. Essa separação é dada pela entrada na linguagem. “Esse objeto é o suporte ao redor do que, no momento em que o sujeito se esvaece diante da carência do significante que responde de seu lugar ao nível do Outro, (ele) encontra o seu suporte nesse objeto” (p. 400).
O objeto possibilita a existência do sujeito no momento em que o Outro perdeu sua consistência. E também permite a manutenção do desejo. A relação do sujeito dividido com o objeto é a estrutura do Fantasma. Por mais que pareça uma posição passiva, é uma posição ativa, pois é o sujeito que se colocou ali. Penso na fala de uma paciente, que diz ser como folha ao vento, por que gosta de ser escolhida, onde intervenho sua atividade em fazer-se escolher - posição ativa da pulsão. Ou seja, em sua posição de objeto o sujeito é ativo.
Esse objeto de gozo do Outro, penso que seria a primeira forma de apresentação do objeto a que Lacan coloca no Seminário 6; objeto pré-genital, composto pelos objetos pulsionais – oral, anal, seio, fezes e voz). Configura-se em um ou em outro, de acordo com a particularidade da estória de cada sujeito. Alguns podem ser objetos do olhar que provoca vergonha (sonhava que estava nua); ou objeto de um olhar que tudo vê e controla suas escolhas, seu corpo, suas vontades; boca a ser alimentada (uma paciente se pergunta porque sua mãe fazia dieta e a engordava ao mesmo tempo). Tsyler (2014, p. 31) vai colocar que a escolha do sujeito é a resposta que ele dá à pergunta “O que o Outro quer de mim?”, e é isso que vai determinar o seu fantasma.
Por outro lado, Tsyler (2014, p. 36) nos lembra que Lacan atribui ao objeto a o estatuto de uma negatividade, “desmaterializado, um buraco”.
A Posição Feminina[7] (n)o Fantasma
A questão feminina, por outro lado, passa pela condição de colocar-se de objeto de desejo para o homem. Em 1958 (p. 701), ou seja, no mesmo ano em que escreve o seminário sobre o Fantasma, Lacan publica “A significação do falo”, onde coloca que a mulher deseja ser o falo (significante do desejo do Outro), e para isso, rejeita o que ele considera “a parcela essencial da feminilidade”. Assim, na mascarada, a mulher coloca-se para ser amada e desejada pelo que ela não é.
No seminário 6, Lacan (1958-59, p. 398) diz que o falo é o objeto da castração. Por outro lado, na fórmula da sexuação, Lacan (1972-73) coloca a mulher como posicionando-se enquanto objeto a. Seria a posição de objeto a uma posição diferente da de falo? Se tomarmos o Seminário 6, parece que não, pois Lacan coloca que, na verdade, o falo é uma das formas de apresentação do objeto a[8]. Lacan coloca que, a partir da Castração[9], onde o sujeito é mutilado do falo, ele posiciona-se enquanto homem ou mulher. Segundo Lacan, a experiência da Castração orienta a pulsão sexual (o desejo), e “é uma realização do ser no sujeito” (ser homem ou ser mulher?) (p. 409)
Seria possível articular essa relação que a mulher estabelece na fórmula da sexuação em ser objeto do desejo do homem, com a posição de objeto a da fórmula do Fantasma?
Retomemos a construção do Fantasma em Lacan. Na fórmula do fantasma ele diz que essa montagem assegura, por um lado, o sujeito enquanto desejante, e por outro, essa condição se dá por ele identificar-se a um objeto. Esse objeto, conforme trazem Silvia Amigo (2005) e Tsyler (2014)[10] seria aquele em que o sujeito foi gozado pelo Outro, e que, a partir disso, determinou a sua posição de gozo. Isso implica em dizer que o sujeito é ao mesmo tempo o objeto? Voltemos a Lacan (1958-59). Ele diz: “Tomamos hoje a perspectiva terceira desse Fantasma fazendo passar a assunção (elevação) do sujeito por a, o que é tão legítimo quanto fazê-lo passar por $, sendo dado que é na relação de confrontação à $ ^?a a que se mantém o desejo” (p. 387). Se entendermos então a fórmula do Fantasma como uma relação do sujeito com o objeto, não implicaria então em o sujeito estar posicionado de um lado ou do outro, mas em uma alternância entre essas duas posições? Ou implicaria que as duas posições são a mesma coisa? Ainda em outro trecho Lacan coloca que “O sujeito se apaga cada vez que se trata do desejo” (Lacan, 1958-58, p. 393).
No quadro da sexuação Lacan (1972/73), coloca a mulher enquanto objeto causa de desejo do homem: $ ? a, e diz que isso é a fantasia (neste trabalho optamos por usar o termo Fantasma em lugar de fantasia). Ou seja, a partir de Lacan, o Fantasma se dá do lado do homem. E a mulher? Lacan mesmo se pergunta. E passa a discorrer acerca da mulher em sua relação com o gozo. Lacan diz que a mulher está não-toda no gozo fálico, e por isso possui um gozo a mais, que ele chama de suplementar[11]. Ele diz que ele não pode dizer do sexo da mulher, porque a mulher não existe, uma vez que ela não é toda. A maneira de acessar o sexo da mulher é por intermédio do gozo do corpo (p. 14), o que ele chama de “gozo do corpo do Outro”. E diz que o que ele chama de corpo pode ser nomeado também enquanto o objeto a, ou resto (p. 13). Desse gozo a mulher não sabe dizer, apenas que o experimenta. Isso acontece porque esse gozo está fora do significante (regido pela norma fálica). Lacan diz que a mulher tem relação com o significante do Outro (barrado). o gozo Outro[12].
Se pensarmos na fórmula do Fantasma, isso implica que o homem colocaria a ênfase no $ e a mulher no a? Soler (2005) responde que, a partir do Seminário 20, é possível concluir que “o sujeito só tem fantasia na medida em que esteja inscrita na função fálica, na função da castração. Nesse sentido, o não todo não pode ser pensado como sujeito na fantasia” (p. 24).
Soler (2006, p. 51-52) coloca que Lacan, em “A direção do tratamento”, modifica a sua primeira concepção quanto ao posicionamento feminino: ao comentar o caso da Bela Açougueira de Freud, ele delimita o desejo de colocar-se enquanto falo para o homem como um desejo histérico. E que a feminilidade implicaria em colocar-se como complemento do desejo masculino. A mulher consente em se deixar desejar pelo homem. A diferença implicaria que no primeiro caso, estaria situada enquanto objeto de desejo (a-), e no segundo, enquanto objeto de gozo (a+). A histérica quer deixar o gozo insatisfeito, enquanto a mulher quer gozar. E, continua, no texto “O Aturdito” (LACAN, 1972/2001), “ele é acompanhado por um querer fazer gozar”. Ou seja, o gozo do parceiro é o objeto causa do desejo da mulher. Assim, se o objeto a não é o da mulher, então seriam diferentes. Posteriormente, ainda segundo Soler, Lacan, na conferência sobre Joyce diz que a mulher é o sintoma de Um homem.
A pós todo esse percurso, ainda fica para mim a questão do fantasma no caso da mulher. A articulação possível que eu penso seria que, como, a partir do quadro da sexuação, Lacan pontua que a mulher também tem acesso ao gozo fálico. Podemos pensar então que o fantasma estaria situado, no caso da mulher, dentro do gozo fálico, e não interferiria no gozo Outro? Soler (2006) coloca que o gozo Outro, a partir de não cair sob a barra do significante, não é causado por um objeto a, está foracluído do simbólico e do inconsciente (p. 37). O que Lacan quis dizer com isso, e como se institui esse gozo Outro?
REFERÊNCIAS
Freud, S. (1996[1931]). “Sexualidade feminina”. In EdiçãoStandard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago EditorA.
Freud, S.(1996[1925]). “Algumas consequências psíquicas dadiferença anatômica entre os sexos”. In Edição StandardBrasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol. XIX.
Freud, S.(1996/1905). Três Ensaios sobre a sexualidade. In EdiçãoStandard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud,V. Rio de Janeiro: Imago EditorA.
Freud, S.Organização genital infantil da libido (1923). In Edição
Standard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol. Rio de Janeiro: Imago EditorA.
Freud, S. Dissolução do complexo de Édipo (1924). In Edição
Standard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol. Rio de Janeiro: Imago EditorA.
Freud, S.Sexualidade Feminina (1931). In Edição
Standard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol. Rio de Janeiro: Imago EditorA.
Freud, S. Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos (1925). In EdiçãoStandard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol. Rio de Janeiro: Imago EditorA.
Freud, S. Novas conferências introdutórias – Feminilidade (1933). In Edição
Standard Brasileira das Obras Completa de Sigmund Freud, vol. Rio de Janeiro: Imago Editora.
Lacan, J. (1999[1957-1958]). O seminário, livro 5: asformações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Lacan, J. (1998[1958]). “Diretrizes para um Congresso sobre asexualidade feminina”. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge ZaharEditor.
Lacan, J. Bate-se numa criança e a jovem homossexual. Seminário 4 (1956-57). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor
Lacan, J. Duas notas sobre a criança (1969).
Lacan, J. A significação do falo (1958, p. 697). Escritos.
Lacan, J. Mais, ainda. (1972/73). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor
Lacan, Seminário 6 O Desejo e sua Interpretação. (1958-59).
Lacan, J. seminário 17 (1969-70). O Avesso da Psicanálise.
Lacan, J. O Aturdito (1972). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2001
Mafra, T.M. Uma Criança é Espancada” e “Édipo”: do objeto “a” ao falo. Disponível em: torodepsicanalise.com.br/site/wp-content/uploads/.../crianca-espancada-edipo.pdf.
Tsyler, J. (trad. Fonseca, P. L).O Fantasma na Clínica Psicanalítica. Recife: Association lacanienne internationale. 2014.
Víctora, L.G.O Conceito de Fantasia na Obra de Lacan. C. da APPOA, Porto Alegre, n.138, agosto 2005.
ANEXO
A POSSIBILIDADE DE RESPOSTA PARA A MULHER: O AMOR
Soler (2006, p. 35) coloca que o objeto causa-do-desejo da mulher é o semblante fetchicizado tirado do corpo do parceiro (o homem torna-se um amante castrado). Lacan, em “A Significação do falo” (p 701) coloca que a condição desejante na mulher comparece ao encontrar “o significante de seu próprio desejo no corpo daquele a quem sua demanda de amor é endereçada” (objeto de amor e desejo). E no seminário 6 (1958, p. 698), diz que “(...) tanto para o sujeito como para o Outro, no que tange a cada um dos parceiros da relação, não basta serem sujeitos da necessidade ou objetos de amor, mas têm que ocupar o lugar de causa do desejo” (a-).
De acordo com Soler (2006), o gozo Outro ulltrapassa o sujeito. Estando o gozo Outro fora do simbólico, impedindo portanto a mulher de nomear-se, ela usaria o amor para identificar-se enquanto ser. “Na impossibilidade de ser A mulher, resta ser uma mulher, a eleita de um homem” (p. 57).
[1] “Três ensaios sobre a sexualidade (1905)”,”Organização genital infantil da libido (1923), “Dissolução do complexo de Édipo” (1924) “Sexualidade Feminina (1931)”, “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos (1925)”,” Novas conferências introdutórias – Feminilidade (1933)”
[2] A relação de objeto (1956-57), As formações do inconsciente (1957-58), Duas notas sobre a criança (1969).
[3] A significação do falo (1958, p. 697) “Ele é o significante a designar, em seu conjunto, os efeitos do significado”. “Os efeitos de significado são resultado de um desvio das necessidades do homem pelo fato de ele falar, no sentido de que, por mais que suas necessidades estejam sujeitas à demanda, elas lhe tornam alienadas” “O homem não pode visar a ser inteiro, visto que o jogo de deslocamento e condensação a que está fadado no exercício de suas funções marca sua relação de sujeito com o significante” (p. 699). “O falo é o significante da própria Aufhebubg (suspensão), que ele inaugura (inicia) por seu desaparecimento” (p. 699). “Mas como esse significante só se encontra aí velado e como razão do desejo do Outro, é esse desejo do Outro como tal que ele se impõe ao sujeito reconhecer, isto é, o outro enquanto ele mesmo é um sujeito dividido pela Spaltung significante” (p. 700).
[4] Mais, ainda. (1972/73).
[5]zona erógena, onde a pulsão circula em volta de um objeto que é vazio.
[6] “lugar da palavra”. Não existe Outro do Outro”, ou seja o Outro também é castrado, falta (Lacan, 1958-59, p. 393).
[7] A inscrição do sujeito na partilha dos sexos nada tem a ver com a anatomia; homem e mulher são significantes. Nem o masculino pode ser identificado ao fálico nem o feminino escapa inteiramente a essa ordem. O feminino é uma posição do ser. Com seu aforismo “A mulher não existe”, Lacan aponta que não há um “segundo sexo”, não há a inscrição do significante mulher no inconsciente (fórmulas da sexuação).
[8] O objeto a da fórmula do fantasma pode aparecer de três formas diferentes: como objeto pré-genital (objetos pulsionais – oral, anal, seio, fezes e voz), como falo ou como delírio.
[9]Por outro lado, para que isso aconteça, é necessário que o sujeito admita o corte trazido pela Castração. É um momento difícil na análise quando o sujeito admite que o Outro é barrado. Eles verbalizam o quanto não querem denegrir a imagem do pai, ou preferem continuar sofrendo pelas tentativas de atender à Demanda do pai, porque entende como um Outro que sabe, não um outro que falta. Como um paciente que prefere sofrer por se considerar burro, incompetente, pelo Outro, a admitir que o Outro pede que ele ocupe o lugar de saber.
[10] “fazer-se objeto do Outro vai liberar, especificar, um tipo de gozo” (p. 15).
[11] “é justamente pelo fato de que, por ser não-toda, ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar” (p. 79)
[12] Neste seminário Lacan equipara o Outro ao outro sexo – além do masculino.