Quando parei para pensar sobre o que este tema provoca, algumas questões apareceram. Surgiu um cri... cri... cri... Nas conversas e discussões com colegas, ideias e angústias foram compartilhadas, e navegando entre o saber e o não saber que eu topei com o conceito: a Douta Ignorância - e é nessa via que vou contemplando esse tema fazendo uma articulação com essa marca subjetiva. Para fundamentar, articulo com alguns conceitos do RSI do Seminário 22 do Lacan, embora não muito discutido nos encontros. A marca no RSI se dá em um desses três termos: Nominação do Imaginário como Inibição; Nominação do Real como Angústia ou Nominação do Simbólico como Sintoma, conforme Lacan no Seminário RSI. Assim, o sintoma da ignorância está nominado no simbólico, (LACAN, 1974/1975 pág. 299).
O significante: Douta ignorância equivale de um lado - a “saber que não se sabe”, mas esse saber que não é sabido equivale à elaboração de um limite, o reconhecimento do desconhecimento da verdade. Por outro - há uma verdade que concerne ao sujeito do inconsciente de modo particular, observável na clínica, onde cada encontro marcado pela diferença e descolagem vai manter o intervalo, a abertura que possibilita ao analisante percorrer seu caminho no processo analítico em busca de um saber que está no eixo do discurso do sujeito do inconsciente, como um sujeito estruturado como uma linguagem, que se articula também com o encadeamento borromeano que comporta três paixões primordiais: o amor que sai do objeto a em direção ao Outro; o ódio que sai do objeto a em direção ao sentido, e a ignorância que se relaciona com o gozo fálico. Na via da formação do sujeito em termos subjetivos coexistem o amor e o ódio. São posições fundamentais que definem a relação do sujeito com o Outro e a própria falta, pontos que estão imbricados nas questões do sujeito.
Já a ignorância está na via do recalque - que não é o mesmo que esquecer. Fazendo um gancho com Rabinovich, ela articula o Fingir esquecer que também não é o mesmo que um esquecimento comum, refere à uma ignorância que diz respeito ao esvaziamento do lugar de “sujeito suposto saber”, diz de uma ironia, pois, o analista ocupa o lugar que o analisante supõe, mas não se apropria dele, Fingir esquecer inclusive de seu fantasma. Há também um contraponto entre essa dualidade: o primeiro está no início de uma análise para o analisando como aquele que supõe um saber enquanto ignorância, e a segunda, é a queda desse significante àquele que além de estar relacionada ao gozo fálico, está também vinculado com o saber sintomático, que não é ausência de saber, ou seja, uma passividade vinculada à própria estrutura; melhor dizendo, de um ser que depende do reconhecimento do desejo ou desejo de reconhecimento dirigido ao Outro, revelando assim, que a ignorância enquanto Douta é o saber de um não saber, o que não tem a ver com a negação do saber, porém, uma forma mais elaborada que implica na superação do mesmo, que se articula com o falo. Sobre esse conceito Rabinovich cita Nicolau de Cusa:
Como o saber do que o saber ainda não sabe, já que tudo o que sabemos pode ser melhor e mais completamente sabido. Nada é sabido como poderia ser sabido... O Outro sempre tem em si um ponto de ocultamento... a realidade das coisas não pode ser sabida como poderia ser sabida. (Habinivich apud Cusa, 2000).
Pode-se dizer que, o Outro ex-siste ou seja, faz furo. Vale pontuar que o saber ex-siste àquele que não tem como dizer, o que não quer dizer que não tem efeitos. Por outro lado, fica um resto inassimilável referente ao objeto a - como causa resultante da falta fundamental, que é estrutural. Ao que remete à estrutura podemos encontrar diferentes formas de amarrações que Lacan propõe no R S I. Nessas amarrações pode ocorrer uma falha conforme se dão os trançamentos do Real, do Imaginário e do Simbólico em forma de elos que ao entrelaçar de modo simples: é passar por baixo o que está por cima e passar por cima o que está por baixo, por exemplo: quando a corda do Imaginário não passa por baixo do Real quando deveria passar por cima, faz-se um lapso. Esse lapso surge como uma irrupção de um insabido. Em termos borremeanos, em Lacan, se articulam as nomeações dos Nomes do Pai, sustentado pela corda do Real. Porém, a construção de um quarto elo é o reparo do enodamento que des- enodou, ou seja, é a elaboração do sintoma para sinthoma.
Assim, os trançamentos do RSI como marca subjetiva que é composta pelo enodamentos dos mesmos, que, ao ser elaborada, ocorre a perda significante, mas que não retira algo nesta operação, pois, ao instituir a falta o que é incurável, é a própria cura do desencontro. Nesse sentido, o desencontro é uma elaboração daquilo que ficou de fora – um insabido, como um meio de não saber, porém, como pensa que sabe recai no sintoma da ignorância, que o analista elabora na própria análise como Sinthoma, ou seja, a Douta ignorância àquele que destituiu o saber enquanto gozo fálico. E por que Douta? Vale lembrar que, faz equivalência em ser tolo da estrutura para fazer laço transferencial. É um outro ponto importante bem articulado no Seminário 21 Os Não - Tolos Vagueiam, mas não vou adentrar neste conceito.
No entanto, na questão do humano: de um lado temos um sujeito quando chega à clínica desancado depois de um evento traumático ou de uma sustentação significante que o ancorou com um arranjo subjetivo até um determinado momento, mas que não funciona mais; haja vista uma pergunta frequente por parte do analista é: - Desde quando você está assim? E antes... como se sentia? Conforme o sujeito vai enunciando seu discurso o analista vai localizando na enunciação uma repetição que muitas vezes o sujeito só vai se dar conta discorrendo com o “ISSO FALA”, o que na questão do saber o que se repete é um discurso que o sujeito monta como uma forma de defender um saber, onde as interrogações, intervenções por parte do analista que mira na falta constituinte, e naquilo que ficou de fora localizável em qualquer um dos elos do RSI. Sobre o que se repete é como se o sujeito do inconsciente buscasse repetir como um meio de elaborar o que se relaciona essa falta que o constituiu. Assim, a escuta no trabalho clínico aponta para esses encadeamentos que compõem a letra, e é pela letra que se fala do real. Nesse ponto de disjunção, o que aparece como repetição acerca daquilo que ex-siste e insiste para o analisante, não significa que não tem efeitos, mas que está no eixo do que se opera com o que ele deixou de fora articulado com o que está dentro, comporta três possibilidades:
1º O RSI opera -se como metáfora, ou seja, articula-se noutra lógica que não é matemática; 2º Se fazer tolo do nó para fazer laço e 3º O gozo é no campo da ex- sistência ou seja, está fora da rede da linguagem e do sentido.
Voltando à questão da ignorância, assim como a Douta... Douta vem de Docta, um conceito do filósofo renascentista que indica um saber mais elevado pelo reconhecimento da própria incompletude. Aí Lacan se apropria dessa contribuição de Nicolau de Cusa para dizer em seu seminário: “O Saber do Analista” à paixão pela ignorância como recusa em saber a verdade. Mas qual verdade, senão aquela que comporta em si duas vertentes, de um lado o saber que o analisante dirige ao analista e de outro, o analista como um Mestre? Assim, a Douta ignorância, além de o analista não cair mais nesse engodo, já que é essa a posição que subverte a verdade dos dois lados. Nessa mesma esteira, ocorre uma subversão que se produz na função como estrutura do saber, que passa pelo conhecimento daquilo que se articula e é estruturado como uma linguagem, em que, Lacan propõe uma aliança entre saber e verdade ao colocar o termo “saber – S 2 no lugar da verdade, zelando pela especificidade de cada um. Cabe ao analista na condução da experiência, tomar uma posição diametralmente oposta ao discurso do mestre, avessa a este, vê-se nesse ponto, o discurso do analista subverter o discurso do mestre àquele que se apresenta na clínica, o analista oferece sua ignorância, mas uma ignorância douta, ignorância sobre este sujeito, permitindo que ele confesse seu desejo e apareça nas fendas o seu gozo.
Significante mestre saber
Sujeito gozo
No avesso da psicanálise, Lacan infere que a verdade é não toda, como já dito, há um resto inalcançável que, paradoxalmente, tem a ver com um saber que faz correlação entre ignorância e saber. A ignorância que aparece como paixão - não como um déficit ou menos valia, a qual é a única paixão que cabe ao analista – assim, o saber ligado à ignorância equivale a um significante que circula por diferentes lugares, exemplificado nos quatros discursos, mas a autora se apropria do discurso do Mestre e do discurso do Analista para este texto.
O discurso do Mestre é o avesso do discurso do psicanalista.
SI ? S2 Mestre
$ a
a ? $ Analista
S2 SI
Conforme a fórmula, “verdade” é um lugar nos discursos, e no discurso do analista, “saber” é um termo que entra neste lugar, no lugar da verdade, mas qual verdade, senão àquela de não saber sustentada a partir de uma ignorância Douta? Assim, o discurso do analista inverte o lugar do saber, colocando o analista na posição de causa do desejo para que o sujeito produza a sua própria verdade, aquela que singularmente o constituiu a partir dessa lógica: se eu sou eu não penso; se penso não sou.
“Em Encore, no seminário 20 - Mais ainda, temos: “A análise veio nos anunciar que há saber que não se sabe, um saber que se baseia no significante como tal”. (Lacan, 1972/1973).
E no seminário19 - O Saber do Psicanalista 1971,1972: Lacan coloca a ignorância ao lado do saber. Ele cita “De Docta Ignorantia”.
Para finalizar, a Douta Ignorância é uma posição significante resultante de um processo analítico que vai se articular com a marca subjetiva daquele que não participa como estrutura da falta em saber, mas como impossibilidade de saber do que se diz de um lado, – e de outro, a partir de uma produção de um saber que Lacan insiste na produção de um resto que, incansavelmente se busca, mas que nunca alcança. É com o impossível do Real como resto que lidamos, que à verdade falta no final de análise.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LACAN, Jacques. O ato psicanalítico (1967-1968). In: LACAN, J. Outros Escritos Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 6: O desejo e sua interpretação (1958-1959)
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 19: …ou pior (1971-1972). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 22: RSI [1974-1975]. Seminário inédito.
RABINOVICH, Diana. O Desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.