Para compor este texto parti de duas palavras que ecoaram após os encontros e escutação dos debates no dispositivo mais diálogos, as palavras foram: inventar e separar, pensando que ambas as palavras podem brincar com escansões, in-ventar, ventar dentro pra poder fazer passar e se-parar, entre o termo separação e se parar, proposição verbal reflexiva a qual omite o sujeito. Pensei nessas duas palavras em torno da dificuldade que escuto, que pego no ar, em apresentações de casos clínicos e escrito nos seminários, dificuldade de se separar da demanda do Outro, o quanto soa estrondoso e perturbador esse lugar de ser para o Outro na vida, numa análise, o quanto é difícil e cheio de enganos se separar disso e como que se trata disso na clínica.
A partir disso, o que o desejo do analista opera? O que nesta função produz separação? E, de que se trata o que se inventa de fazer passar numa análise? São essas questões que sustentarei ao longo do texto.
Trago aqui um trecho que me ajudou bastante acerca deste termo “função” do analista, Torezan (2013) cita “não é uma profissão, não é uma ocupação, não é uma condição, muito menos um dom. Diz-se que é uma função”. Segundo Torezan (2013), Lacan define o analista como função matemática no que diz respeito “a existência de uma relação – entre duas variáveis”, “o desejo do analista e a demanda de análise na dependência da transferência”. Assim, “a sustentação deste lugar se dá na cena analítica” e na “dependência do operador fundamental que é o desejo do analista”. O analista não é em si mesmo, faz-se analista.
Lerner (2024. p. 37) afirma nesse mesmo sentido que “o que funda a práxis é o desejo de analista, o qual o leva a sustentar, contra a força da gravidade da “comunicação humana”, o chamado discurso do analista, que, ao oferecer-se ao ensinamento, leva o analista à posição de analisante”. Para exercer tal função faz-se necessário então passar pela experiência da psicanálise e há algo que se passa aí.
O que se sustenta contra a força da gravidade da comunicação humana? Penso que Lerner esteja comparando aí a força da gravidade com a força insistente da comunicação humana de deixar as coisas baixas, a força exercida para deixar os objetos no chão, no sentido de uma certa razão e sentido das coisas e ponto final, enquanto entendimento completo da mensagem. Enquanto que o discurso do analista vai apontar para um outro nível de coisas e da Coisa em si; segundo Lacan (p. 257) no seminário 7, da ética da psicanálise, a Coisa em si, das Ding, é de “onde se projeta algo para além, na origem da cadeia significante, lugar onde tudo o que é lugar do ser é posto em causa”. E o nível do significante, do ser incorpóreo de palavra, ser este o qual assim como o analista, não é em si mesmo, ser de linguagem, que é quem vai determinar no começo, meio e fim das coisas, e até mesmo antes do começo de cada um, vai determinar o que vai ficar baixo e o que vai sempre estar saltado aos olhos.
O fazer do analista traz em cena o campo da articulação significante naquilo que esta se articula com o nascimento do sujeito, “Vemos verdadeiramente se produzir diante de nós o isso fala”. Lacan (p. 247) diz disso “para avivar a dimensão ética da psicanálise” no que “nossa experiência é guiada pelo pensamento freudiano”. E é em um segundo tempo que nessa estrutura significante o homem vem a situar suas necessidades. No seminário 4, sobre a relação de objeto, Lacan (p. 48) cita “o Isso (Es) de que se trata em análise é de que há significante e está já no real, há significante incompreendido”, não se trata de uma “propriedade primitiva e confusa” mas sim a noção de que “há significante – já estruturado que ali funciona há tão longo tempo quanto vocês podem lembrar”, “literalmente, não podem lembrar-se para além disso, falo da história da humanidade em seu conjunto”. Lacan vai afirmar que “desde que existem aí significantes que funcionam, os sujeitos estão organizados em seu psiquismo pelo jogo próprio desses significantes”.
Por tal motivo que não se trata de pensar que “existem a linha e a agulha, a moça e o rapaz, e entre um e outro uma harmonia preestabelecida” (p. 48). Com isso, não se trata de segundo Lacan “ir buscar o Isso nas profundezas, não é algo tão natural assim, a existência disso é o contrário mesmo da noção de natureza, e a respeito do escândalo desse fato, aí está onde reside a posição analítica” (p. 49).
Retornando ao seminário 7, a respeito dessa relação do sujeito com a articulação significante, Lacan postula que ele não é seu agente, porém o suporte, uma vez que ele não saberia suputar (calcular) suas consequências, “é em relação com a articulação significante que ele, como sujeito, surge como consequência” (p. 263).
Para poder desenvolver este algo que já está ali estruturado enquanto estrutura significante, Lacan (p. 256) faz menção a um “ponto de criação ex nihilo”. Ex nihilo é uma expressão em latim que quer dizer “a partir do nada”. Lacan afirma que a colocação desse um ponto de criação que vem do nada, basta para “introduzir a dimensão do ex nihilo na estrutura do campo analítico” desenvolve essa ideia afirmando que é “apenas na perspectiva criacionista que se pode considerar a eliminação da noção, sempre renascente da intenção criadora como suportada por uma pessoa”.
E ainda que a “produção é um domínio original, de criação ex nihilo, uma vez que ele introduz a organização do significante no mundo natural” (p. 256). Assim, o campo da produção porta esse ponto de criação, que pontua algo que vem do nada e marca uma dimensão do campo analítico introduzindo a organização do significante. Lacan (p. 256) mostra que “sem o significante no começo é impossível articular a pulsão como histórica” e chama atenção então para a “necessidade de um ponto de criação ex nihilo do qual nasce o que é histórico na pulsão”.
O ex nihilo, marca algo que é da ordem da criação no sentido que marca uma ausência, marca ali um 0, precisamos fazer notar que esse zero não é equivalente ao nada, como afirma Rabinovich (p. 67) “esse zero é equivalente ao conjunto vazio, que mesmo não contendo nada é, ainda assim, um conjunto”, conjunto vazio que faz marca significante, marcando a presença de uma ausência. Campo de criação a partir do vazio.
Lacan comenta ainda que essa marcação que marca um nada é o que faz com que não possamos encontrar o pensamento presentificado no mundo, “senão nos intervalos do significante” (p. 256). Aponta ainda que este fato, põe na roda que as produções românticas melodramáticas da poesia do amor cortês “se conjuga com o fato, – de que o ser ao qual o desejo se dirige nada mais é do que um ser de significante. O caráter desumano do objeto do amor cortês efetivamente salta aos olhos” (p. 257). Entendo que Lacan traz essas passagens para afinar nossos ouvidos para isso que captura o sujeito quando dizemos da “profunda relação do sujeito com a articulação significante” (p. 263). Penso que essas passagens dão um peso oportuno para alcançar a dimensão significante assim como a marca de um vazio e o que estes representam em termos de apreensão da vida e produção de realidade humana.
Existe então algo que o sujeito não está mesmo a par, ele não está sabendo do que lhe ocorre posto que surge como consequência de uma articulação entre 1 e 2 postos ali a partir da marca de um zero. “O que um sujeito representa originalmente não é outra coisa senão isto – ele pode esquecer. Suprimam esse ele — o sujeito (representa) literalmente, em sua origem, e como tal, a elisão de um significante, o significante saltado na cadeia”. (elisão é omissão, supressão) Tal é o primeiro lugar, a primeira pessoa. Aqui se manifesta o aparecimento do sujeito” (p. 268)
Este primeiro lugar que fica de fora elidido na cadeia, marca um fora-do-significado que remete ao campo inconciliável da Coisa, campo do que ainda não está falado, é sob o fundo repleto de fora-do-significado que as significâncias se dispõe. Sobre a Coisa, das Ding (p. 67): “é o elemento que é, originalmente, isolado pelo sujeito em sua experiência do Nebenmensch (próximo) como sendo, por sua natureza, estranho, Fremde” e “O Ding como estranho, e até mesmo hostil num dado momento” Lacan (p. 67) situa que é em torno deste primeiro exterior que “se orienta todo encaminhamento do sujeito. “encaminhamento de controle, de referência, em relação ao que? – ao mundo de seus desejos” (p. 67). E ainda finaliza dizendo que “é esse objeto das Ding enquanto Outro absoluto do sujeito que se trata de reencontrar e o fazemos no máximo como saudade” (p. 68).
Assim, articula-se o campo dos significantes e campo do grande outro no que vemos se apresentar o campo da Coisa, do fora-do-significado, do não senso também como constituinte do nível a se operar com o desejo do analista no fazer do analista.
Nesse sentido ao trabalhar com a escansão significante propus este escandir enquanto separar, no sentido daquilo que toca também neste campo além do sentido da maquinaria do significante, fazer parada a partir da hiância do que não se pega nos intervalos, cito uma passagem do seminário 11 para nos auxiliar aqui: “A interpretação não visa tanto o sentido quanto reduzir os significantes a seu não-senso, para que possamos reencontrar os determinantes de toda a conduta do sujeito” (p. 207). Bem, o campo da fala faz um caminho sinuoso e isso se apreende um a um passando pela experiência da psicanálise e remete a este “difícil” no ar nos percursos tortuosos, no sentido de não se darem em linha reta, da formação do analista que comentei de início sentir nas discussões.
Lacan afirma que “a Coisa só se apresenta a nós na medida em que ela acerta na palavra, como se diz acertar na mosca”. Isso que acerta na mosca diz do que acontece entre percepção e consciência, o inconsciente, “não apenas enquanto função mas em estrutura” (p. 66). Com relação a estrutura, introduzo a dimensão da invenção em relação à estrutura dos mitos. Diferente da criação poética, o mito possui constâncias em sua narrativa e “um caráter de ficção” com “uma estabilidade que não a torna – maleável às modificações”, pois “toda modificação implica uma outra, sugerindo a noção de estrutura”. “Essa ficção mantém uma relação singular com alguma coisa que está sempre implicada por trás dela – a verdade. Aí uma coisa que não pode ser separada do mito” (p. 258).
Este campo do que está implicado por trás da estrutura de ficção conversa com o conceito de Coisa, no que este dá origem a cadeia significante, a produzindo desde este fora íntimo. Há assim este significante elidido com o qual se trata de trabalhar a partir do que disso se inscreve, para tentar inscrever o que não se inscreve jamais, até que se inscreva e assim por diante. O desejo de analista trabalharia então com insistir nisso? Em relançar entre articulações significantes a escuta de algo desse campo da verdade?
Lacan está apontando que o sujeito nasce aí onde ele esquece algo, a relação essencial que liga o sujeito às significâncias o instaura originalmente como responsável pelo esquecimento.
O analista tem que saber dessa estrutura que está fadada a esquecer algo para sustentar o desejo do analista nisso que responde desde este lugar de esquecimento, partindo da estrutura de ficção que ficcionaliza o campo do real. Operar com o desejo do analista quer dizer sustentar querer saber mais disso aí, do campo da Coisa que está de fora, mas exerce determinação em toda a cadeia, fundando-a.
Lerner cita que “Analisar não é um ato criador, é um ato de invenção e, por isso, podemos chamá-lo de poético” (p. 52). Dizer que analisar é ato de invenção e não ato criador pode apontar para o fato de que analisar se trata de saber e operar com isso que já está aí enquanto material significante em sua estrutura e tal ato pode ser chamado de poético na medida em que toca assim, como a poesia, no impossível de dizer, segundo Lerner “nossa práxis trata de fazer entrar algo a mais – o que não é pouco – no registro do dizível em seu limite com o indizível” (p. 31). Diana e Eva dizem disso de modos diferentes. Esse impossível de dizer joga o jogo com o sujeito como efeito de escansão na cadeia significante.
O discurso do analista visa apontar para o campo daquilo que resta, à parte, que não vive de conversa com o Outro absoluto, campo do real o qual só pode se acessar via significante. Segundo Lerner “é disso que o desejo – do que Lacan chama, de modo geral, o sujeito – se libera no bom enodamento, já que pode se subtrair da demanda corporal na qual o Outro se aninha, em seus restos não barrados” (p. 56). Fazer parada nessa demanda corporal do grande Outro, inventa possibilidade de se separar da demanda do Outro enquanto barrado.
Temos aí três palavras apresentadas: invenção, criação e produção; algo só pode ser inventado contando com essa estruturação do campo significante, uma invenção, assim como a produção do analista não é sem este. Segundo Lerner (p. 57) “inventar o que fazer com o que repete e com o que se mostra sem entrar no discurso”, “se trata de uma ética e de uma invenção a cada vez” (p. 57). Me parece o tipo de coisa que cada um vai precisar dar conta de dizer ao seu modo. Essa tarefa de inventar uma forma de dizer disso, de fazer passar.
Referências
Lacan, J. (1995). O seminário: livro 4: as relações de objeto, 1956-1957. Jorge Zahar Editor. (Trabalho original publicado em 1994)
Lacan, J. (1988). O seminário: livro 7: a ética da psicanálise, 1959-1960. Jorge Zahar Editor. (Trabalho original publicado em 1986)
Lacan, J. (1985). O seminário: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1964. Jorge Zahar Editor. (Trabalho original publicado em 1973)
Lerner, E. (2024). Objeto a: dobra do sujeito. Sinthoma.
Rabinovich, D. S. (2000). O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Companhia de Freud.
Torezan, Z. C. F. (2013, 25 de março). Um analista? Associação Livre Psicanálise em Londrina.https://www.associacaolivrepsicanalise.com.br/publicacao/um-analista