Reflexões Sobre o Narcisismo

O interesse sobre o tema do narcisismo surgiu a partir do que se iniciou como um grupo de estudo e se transformou em estudo de cartel, do qual participo desde 2014. Começamos estudando Freud e neste ano iniciamos o estudo dos textos de Lacan com esse fio condutor: estudar o narcisismo em Lacan. Embora sejam reflexões proponho um direcionamento que aponta para a estruturação do sujeito como também para o trabalho com a clinica.

O que trago hoje tem muito mais de Freud e algumas primeiras reflexões sobre a teoria Lacaniana.

Freud trabalha esse tema principalmente no texto de 1914 que leva o narcisismo no título: Narcisismo: uma introdução. Nele ele trata do funcionamento libidinal a partir de três modos sequenciais: autoerotismo, narcisismo e escolha de objeto.

Tendo em mente a concepção do sujeito, como um ser faltante que buscará o reencontro com o objeto suposto de satisfação plena. Podemos entender que Freud vai então dizer que inicialmente o sujeito irá empreender essa busca de uma forma auto erótica, dando como exemplo a tomada do corpo, ou de partes do corpo como fonte de prazer e de satisfação pulsional. Um corpo fragmentado, que produz satisfação em suas diferentes partes. Ele dá como exemplo o bebê que suga o seu dedo buscando reproduzir a satisfação que foi encontrada ao sugar o seio materno.

O narcisismo demarca a saída desse modo de funcionamento libidinal auto erótico. O que seria para Freud o narcisismo? O investimento libidinal no próprio eu. Ou seja, não é mais em partes fragmentadas do corpo, mas em uma unidade – o eu. Assim ele diz que para sair do auto erotismo é preciso que uma ação psíquica aconteça que é a constituição do eu.

Temos que para que o sujeito possa investir em objetos externos é preciso que ele tenha a possibilidade de armazenar um quantum de libido no eu, para que ela possa ser, a partir disso, investida em objetos externos. Concomitante ao narcisismo temos a possibilidade do sujeito em unificar uma imagem corporal.

Lacan traz com a sua formulação sobre o estádio do espelho uma possibilidade de
compreendermos esse processo e o que se passa nessa relação com o outro. Embora se
localize essa fase por volta dos seis meses de idade, e nessa relação com a possibilidade de o
bebê contemplar a sua imagem no espelho, o estádio do espelho não se refere a essa
experiência concreta, mas aos efeitos dela, ou seja, ao tipo de relação da criança com o outro,
uma relação imaginária. Ao procurar a realidade de si, o sujeito – a criança se aliena a essa
parte com a qual ela se identifica e que lhe chega a partir do outro.

Aqui, nessa proposta de refletir sobre o narcisismo, gostaria de marcar essa importância do outro, da presença do outro. É importante para o sujeito que exista esse outro que devolva para ele essa imagem com a qual ele se aliena. Como também é importante que ele possa de forma um pouco mais autônoma investir em objetos externos. Um pouco mais autônoma, mas nunca completamente assim, pois como Freud já afirmava esse investimento em objetos externos é uma tentativa de reencontrar uma ilusão idealizada vivida na fase narcísica.

Uma primeira questão que levanto é: será que podemos pensar essas etapas (autoerotimso, narcisismo e escolha de objeto), não em tempos cronológico, mas em tempos lógicos?

Como um processo, uma operação, inserida nos tempos lógicos de constituição psíquica. Considerando esse sujeito em sua constituição a partir do enodamento dos três registros do Real, Simbólico e Imaginário.

Assim tanto no plano do autoerotismo, do narcisismo e da escolha de objeto estariam implicados também o modo de enodamento nessa estrutura de amor, desejo e gozo. Se não pensamos em cronologia não desconsideramos as possibilidades que o sujeito tem de se valer de sua estrutura para responder as demandas que lhe chegam. Não dá para desconsiderar o estado de dependência que um bebê de seis meses, por exemplo, possui, mas também não devemos desconsiderar as possibilidades que ele já tem de resposta.

Com esse direcionamento penso nas implicações do narcisismo na clinica. Quando recebemos um paciente em analise o trabalho que ele se propõe a fazer ali implica, poderíamos dizer um reposicionamento narcísico. Uma vez que ao se tratar de um tempo lógico, está ai com esse sujeito que, sendo adulto, não está mais as voltas com as primeiras experiências de surpresa e júbilo diante da assunção de sua imagem no espelho, mas são ainda os efeitos disso.

O que me faz pensar nessa relação entre o narcisismo e o percurso de uma análise.

Para me auxiliar nessa reflexão vou me valer de um conto, gosto muito desse estilo literário talvez porque penso que neles o autor construa de uma forma mais livre a história. E gosto do Guimarães Rosa, e tem um conto dele que há dois anos vem sempre a minha lembrança quando penso nesse tema e nessa relação que acabo de propor entre o narcisismo e o percurso de uma análise, uma vez que percebo na empreitada que o narrador faz a semelhança do trabalho feito em uma análise. O conto tem um titulo sugestivo: o espelho.

O narrador trata de uma tarefa que realiza com o proposito de explicar o que é um espelho e convida o leitor a segui-lo. Inicia dizendo sobre como as pessoas passam despercebidas pela importância que tem o espelho. Para explicar essa importância ele se lança em uma experiência que é de analisar a sua própria imagem, em uma tentativa de explicar como ela se constitui, se propondo a um modo de focar a visão de olhar não-vendo, assim diz que pouco a pouco no espelho via reproduzir-se a sua figura de forma lacunar, apareciam os elementos hereditário e exclama: Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto.

Momento de perceber os efeitos que tem para o sujeito o atravessamento da linguagem, desse discurso que o antecede, e que nem mesmo no ovo o pinto está intacto.

O narrador segue relatando a sua empreitada de ir aos poucos se desvencilhando desses aspectos que estão ali na sua imagem, para chegar ao que ele é realmente. Empreitada que poderíamos aproximar a essa busca por encontrar uma resposta que possa dar conta das grandes questões da vida: O que queres de mim? e Podes me perder?

Em um determinado momento ele narra o episódio em que entrando em um lavatório publico avista dois espelhos um de parede e um lateral que estão abertos em um ângulo propício, e assim faziam jogo. Enxerga ali o que descreve como uma figura humana, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo, dava náusea, causava ódio susto. Relata: E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?

Nesse ponto penso no dispositivo da análise que permite esse encontro com o outro em um ângulo que faz jogo, possibilidade de descristalizar pontos de fixação alienante, que permitem com que o sujeito possa se responsabilizar por essa parte desagradável, repulsiva e hedionda que é ele mesmo. Não é só olhar no espelho e não gostar do que vê, mas perceber a sua implicação nessa estética da qual ele se veste.

O narrador segue em sua empreitada, apagando os contornos até o ponto em que um dia ao olhar no espelho não vê nada, e exclama: Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um… desalmado?

Tarefa árdua e difícil, pois a cada contorno apagado é também uma possibilidade de cair no vazio, nessa falta de contornos que sustentem o sujeito.

Penso aqui nesse apagamento dos contornos do que encobre o traço que representa o sujeito, esse traço que o distancia do sentido do Outro, o traço do desejo.

O narrador segue questionando o que é a sua existência, o que ele é? E fala dos sucessos que consegue que são de ordem muito intima, e afirma:

Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei — não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação.

A moldura do espelho continua ali, e mesmo os traços, pois os contornos são apagados, mas os traços não. E a partir dele o sujeito pode ir construindo uma outra estética de si, essa própria.

O narrador diz sobre o que muito mais tarde pode distinguir no espelho: um rosto, o seu rosto, um rostinho de menino, de menos-que-menino.

O narrador a todo momento dirige-se ao leitor na busca de um reconhecimento, e não é sem importância que nos trechos finais do texto essa busca se intensifica. E o texto termina em questão, em uma pergunta. Destaco aqui a importância do outro que o reconheça, autonomia, mas não isolamento.

Freud diz que diante do sofrimento o homem pode se proteger no isolamento, mas se não for capaz de amar pode sucumbir. Talvez pudéssemos dizer que se ele não for capaz, de amar, gozar e desejar.

Autora: Mônica Maria Silva

Texto apresentado no Fórum da Associação Livre Psicanálise Londrina em 27/04/2015.

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