Repetição e Criação

À guisa de introdução, gostaria de agradecer aos colegas que apresentaram ontem seus trabalhos, pois a partir deles pude me dizer/escrever, com mais clareza, as razões que me levaram a escrever este texto da forma como o fiz. Percebi que este trabalho é um esforço, de mim para comigo mesmo, para conseguir pensar a Tychê articulada ao meu fazer clínico; não mais apenas pela pura intuição, mas agora a partir de uma lógica. Vivi este ano me perguntando: como pensar a Repetição (Tychê) na clínica do cotidiano? Como operá-la? Em qual momento? Como ela ocorre? O que produz?

Ao escrever este trabalho, penso que, mesmo que não tenha me dado conta, inicialmente, essas questões estavam latentes e acho que este trabalho serviu para que eu pudesse minimamente respondê-las. Acho que por isso que resolvi escrever da forma mais simples possível; pois assim eu pude me ouvir, desenvolver e avançar um pouco mais a lógica do fazer analítico. Ao terminar o texto percebi que o trabalho está simples, sem muitos termos teóricos. Por outro lado, me vi tentando presentar e desenvolver uma lógica do fazer analítico que possa produzir a Repetição. Para escrever este trabalho, duas sugestões foram muito importantes para mim. Uma que li de Isidoro Vegh que diz que quando servimos de boa lógica, podemos ser mais livres em nossa prática. Livre no sentido de poder criar o seu próprio estilo e não se apegar num modelo ideal de analista. Outra sugestão que me inspirou foi de Zeila (acho que ela nem se lembra disso de tanto tempo que faz). Não contarei os anos, mas apenas digo que isso foi quando eu ainda era bem mais jovem do que sou hoje. Nesta época, tinha começado a ler psicanálise e estava maravilhado com o lacanês. Queria falar esse “idioma” também! Mas Zeila, ao ler um texto meu, me sugere que eu seja simples e que me imagine dentro de um taxi e tenha que falar da psicanálise ao taxista da forma mais simples e clara possível e que ainda me faça entender. Penso que essa sugestão me marcou de tal maneira que ainda hoje sofro seus efeitos. Vejam, passado tanto tempo, pude lembrar-me dela…

Portanto, hoje vou me arriscar em ser um pouco mais livre e com isso desenvolver a lógica de como articular o conceito de Repetição (Tychê) em minha prática. Vocês poderão identificar que utilizo referências de autores que estudamos e que escutamos, mas perceberão também que às vezes direi coisas que não estão nessas referências, mas que, de alguma forma, pude vivenciar em minha experiência. Feita a introdução, inicio meu trabalho comentando o meu título com a seguinte questão:

Só podemos pensar a Criação a partir da Repetição1?

Começo o trabalho com esta pergunta, pois da forma como propus o título, pelo menos para mim, deu a impressão de que coloco uma relação direta entre Criação e Repetição. No entanto, gostaria de relativizar essa ideia, pois alguns eventos que acontecem na clínica me fizeram pensar sobre as diferentes Criações que vão acontecendo ao longo de um tratamento e que talvez sejam importantes para produzir a Repetição Tychê.

Penso que uma primeira Criação que propiciamos aos nossos pacientes é a de sua neurose de transferência ou, melhor dizendo, do próprio sintoma psicanalítico. Isto é, fazer com que o paciente possa transformar um sintoma médico, social ou biológico em algo que possa ser tratável pela psicanálise. A primeira Criação consiste em se Criar uma dúvida, uma divisão entre aquilo que o paciente vem Sabendo e uma suposta Verdade oculta que o analista guarda para si. Neste momento, notamos que existe um saber que tenta dar conta disso que o paciente sofre mas que não é suficiente, pois continua a sofrer.

A partir dessa primeira Criação, onde a dúvida se faz presente, podemos ajudar nossos pacientes a fazerem sua segunda Criação. Nesta segunda Criação, o paciente começa a criar um novo Saber sobre seu sofrimento ou sintoma. Mas esta criação de Saber está direcionada para a figura do analista, como se o analista fosse fazer algo com o Saber produzido pelo paciente. Então o paciente, aceitando o convite para que fale e associe livremente, cria uma hystória para seu sofrimento; fala de seus pais, os culpa pelo o que são ou o que não são hoje, contam seus traumas, constroem sua neurose infantil, etc. Faz tudo isso na esperança de que o analista, como num passe de mágica, tivesse uma palavra mágica que apagasse memórias desagradáveis, tirasse a culpa de algo que fez, tirasse o peso desse Saber que foi Criado pelo paciente. Neste momento podemos dizer que o paciente Cria seu inconsciente. E com isso, o ser do paciente começa a ficar implicado naquilo que o faz sofrer para além das determinações externas (médicas, sociais, biológicas).

O que podemos notar nesses dois processos de Criação (criação do sintoma psicanalítico e criação do inconsciente) é que estes movimentos vão em direção a criar algo para preencher um vazio.

  1. Vazio de saber que pode ser representado pela dúvida desse primeiro momento do tratamento onde se funda o sintoma analítico e depois
  2. Pela falta de saber sobre este sintoma analítico que o faz produzir seu Saber Inconsciente e dirigir ao seu analista.

Até aqui, poderíamos pensar que os efeitos produzidos não difiram muito de outras formas de psicoterapias, sobretudo aquelas intituladas “psicoterapias com inspiração psicanalítica”. Nesta, a interpretação visa à produção de saber por meio do sentido dado aos sintomas, atos falhos, etc. Lembro-me de um paciente que recebi que mancava muito e andava torto, mas sem ter nenhum motivo orgânico para isto. Ele tinha passado por uma psicoterapia com inspiração psicanalítica e disse numa das sessões que a psicoterapeuta interpretou seu sintoma afirmando que aquilo se tratava de uma inibição que tinha a função de evitar que mantivesse sua vida sexual ativa, uma vez que sua família era religiosa. O fato de mancar e andar torto o deixava envergonhado e por isso não ia mais para as baladas. E obviamente que essa interpretação não produziu nenhum efeito, mas só aumentou o Saber cuja função foi preencher o vazio e manter o paciente nesse mesmo lugar.

Acredito que a produção de Saber, seja ela por parte do paciente (que é a forma como conduzimos o tratamento) ou pelo psicoterapeuta (que é ilustrado pelo exemplo que dei agora), tem o efeito de dar consistência ao Outro, dar um sentido totalizante para esse Outro e negar sua castração, sua falta, sua inconsistência.

Contudo, noto na clínica que essa produção de saber marcha até certo limite. E é justamente nesse limite que percebo o surgimento de uma resistência muito forte no tratamento. Notei, também, que este é um momento em que o paciente parece se desapontar com esse limite do Saber, pois depois de ter falado sobre suas hystórias, seus traumas, seu Édipo, etc. percebe que, de alguma forma, seu sofrimento e seu sintoma ainda estão presentes. Isidoro Vegh tem uma expressão interessante para esse momento: chama de “fracasso do Saber”. Se lembrarmos de Freud, podemos ver que ele descreve algo parecido de sua clínica, pois nota que em determinados momentos do tratamento o paciente começa a resistir de forma mais intensa2. Freud afirma que isto acontece quando o tratamento começa se aproximar daquilo que chamou de núcleo patógeno. Quanto mais se avança em direção a ele, mais as resistências aumentam suas forças contra o próprio tratamento.

Não que anteriormente a resistência estivera ausente, mas neste momento a resistência aparece de uma forma diferente. Se nos momentos anteriores a resistência era a produzir um Saber, agora o paciente passa a resistir por meio da transferência. Cobra o analista, por meio de atuações, por meio da própria dinâmica da transferência, que ele participe da manutenção de seu gozo, do seu sintoma. Começa a tentar encaixar a figura do analista na própria estrutura de seu sintoma, solicitando que faça a função de um grande Outro que goza. Solicita a presença do analista enquanto um objeto recuperador de gozo.

Penso num pequeno recorte em que uma mulher que me pedia com veemência, em transferência, que a xingasse, que desse broncas por causa dos seus comportamentos, que falasse verdades que precisava ouvir para mudar seu comportamento e amenizar sua angústia. Mas a paciente não se dava conta de que este lugar que pedia para que eu a colocasse era o mesmo lugar que ocupava para seu marido e outras pessoas. E é justamente nesse lugar de total submissão e infantilismo que fala acerca de seu intenso sofrimento. Podemos ver que esse lugar lhe causava sofrimento, mas que, paradoxalmente, tinha dificuldades em abrir mão, pois lhe satisfazia.

Vejam que até aqui estive falando de algo que repete, ou melhor, que insiste, que é a satisfação com o sintoma ou sofrimento. Esta insistência não produz uma diferença, uma perda de satisfação; mas insiste em uma mesmice que visa manter um sofrimento que é também uma satisfação adoecida. Percebam que até aqui falei de duas Criações de Saberes (Criação do sintoma psicanalítico e do inconsciente) que alcançam um limite e que não o ultrapassaram. Podemos até traçar um paralelo com o achado freudiano do rochedo da castração. Freud chega até esse limite e pensa ser impossível ultrapassá-lo, mas vem Lacan e nos diz que é nesse além do rochedo da castração que algo diferente pode ser Criado. É aqui que penso que podemos começar a articular a Repetição com a Criação.

A pergunta que surge neste momento do trabalho é:

Como podemos transpor esse limite do Saber e com isso mudar a relação do paciente com o sintoma? O que isso tem a ver com a Repetição Tychê?

Para começar a responder essa questão, acredito que é nesse momento de falha no Saber, no limite do Saber, onde pode ser possível produzir a Repetição (Tychê). Já que o Saber encontra um limite, não seria possível pensar em ultrapassar esse limite com mais Saber. Ademais, penso que produzir mais Saber só iria colaborar para que o paciente evitasse ainda mais de se deparar com a inconsistência do Outro, com o real da castração do Outro.

Para que se lembrem, eu disse alguns minutos atrás que o paciente coloca a figura do analista na estrutura do seu sintoma por meio da transferência (Dei o exemplo por meio do recorte). No entanto, é importante que o analista consiga ler isso que se apresenta em transferência e localize o “ponto” onde há essa fixação de excesso de gozo onde o paciente tenta negar, anular, a castração do Outro por meio, por exemplo, de um sintoma. Penso que essa dinâmica se mostra em transferência nesse momento, pois a figura do analista é convocada a encarnar o ‘a’ postiço do paciente que serviria de tampão para esse buraco (castração) no Outro.

Se o analista conseguir ler isso que se apresenta na cena da transferência, ele pode lançar mão de uma manobra que possibilite cair desse lugar que o paciente o colocou e com isso atualizar esse des-encontro, que existe na estrutura do sujeito, entre sua satisfação esperada e a satisfação encontrada.

Trago um exemplo famoso para tentar ilustrar essa manobra.

O exemplo se trata do documentário intitulado “Encontro com Lacan”. Nele há o relato de uma mulher que fez análise com Lacan e que teve uma sofrida experiência com a II Guerra. Dizia que lembranças dessa época atormentavam sua existência de forma insistente. Essa paciente dá o testemunho de uma intervenção de Lacan que podemos articular com o desencontro da Tychê.

Em uma sessão, a mulher relata um pesadelo que tinha como enredo a II Guerra; precisamente que a Gestapo (polícia secreta de Hitler) entrava, às 5 horas da manhã, nas casas procurando judeus. Conta que quando Lacan ouviu a palavra Gestapo, se levantou de sua poltrona e, como uma flecha, andou em sua direção, e fez um “gesto carinhoso na pele” (geste à peau). Notem que Lacan não interviu pela via do Saber, pois não sublinha repetindo a expressão dita pela paciente; não pede para associar; não dá sentido; etc. Parece-me que ali, com sua intervenção, se escancara, se mostra, em ato, esse limite do Saber colocando a paciente num estado vacilante, desconcertante, de extrema estranheza.

Considerando este exemplo, penso que são nesses momentos que, de forma pontual e puntiforme, o paciente é colocado frente a frente com o limite de seu campo representacional (Saber) e com isso é convidado a dar um passo além desse limite (do Saber). Pois nesse mais além do Saber pode encontrar um vazio; com possibilidade de Criação.

Antes de avançar, acho importante precisar um pouco essa ideia de vazio.

Esse vazio se relaciona diretamente com o real da castração do Outro que é, na neurose, algo a ser evitado por meio do fantasma, do Saber, do sintoma, etc. Esse vazio existe porque a linguagem existe, portanto é estrutural. A partir do momento em que o sujeito é lançado na estrutura da linguagem, ele perde toda e qualquer referência à sua inteligência instintual. Nesse sentido, nunca haverá um objeto que possa se encaixar perfeitamente às necessidades do humano. Como o objeto está sempre mal encaixado, ele pode se soltar e cair desse lugar para ser substituído.

Como não há encaixe perfeito, existe, então, a possibilidade de que esse vazio possa surgir sempre que o objeto postiço se desprenda desse lugar. Podemos pensar que a função do sintoma é sustentar esse objeto postiço para cobrir esse vazio. Como falei anteriormente, o analista, em transferência, num dado momento do tratamento, também é colocado pelo paciente como objeto postiço para tampar esse vazio; sobretudo quando convoca o analista a participar da estrutura do seu sintoma. Acredito que o analista deve se servir disso (ser colocado como tampão para o vazio) para então poder cair desse lugar e fazer com que o vazio seja  atualizado. Assim, a “castração do Outro pode ser interpretada”, nos diz Isidoro Vegh. De objeto mais-de-gozar (tampão do vazio) faz a passagem para objeto causa do desejo (abertura do vazio) no momento da queda. É nesse sentido que o analista é peça fundamental para ocorrência do des-encontro da Tychê, que nada mais é do que essa atualização do vazio, atualização do real da castração do Outro.

Acredito que é a partir desse vazio que se pode fazer uma Criação diferente das que disse anteriormente (Criação do sintoma analítico e Criação do inconsciente). Se antes o paciente Criou para poder tampar um vazio, nesses momentos em que o vazio é atualizado há aí um convite feito do analista ao paciente para que se possa Criar de outra forma, não mais tentando tampar um vazio, mas à maneira do artesão oleiro (aquele que faz vasos). Assim, de tantos desencontros promovidos pela figura do analista, talvez o paciente possa, em algum momento, Criar sua arte sustentando e delimitando um buraco, um vazio, e não mais tentando suprimi-lo.

Para finalizar, gostaria de trazer outro exemplo para ilustrar essa Criação à maneira do oleiro, que, na realidade, é um artesão de buracos, de vazios. Roberto Harari, num dos seminários sobre Joyce, afirma que o autor tem um estilo que não possibilita ao leitor se identificar com a obra. Não há sentidos claros e nem fechamento de sentidos. Ao contrário disso, em algumas de suas obras há muitos enigmas e falta de sentidos; portanto, segundo Harari, há nesse estilo a preservação do vazio. A obra de Joyce nos permite, então, pensar que Criar a partir do vazio é reconhecer sua existência e não tentar suprimi-lo totalmente, mas de poder conviver o menos dolorosamente possível ao lado desse vazio, dos enigmas e dos acasos que a vida nos impõe. Poder se posicionar de forma diferente ao vazio, ser um artesão oleiro de sua vida e hystória.

Penso que a Tychê é o meio pelo qual se permite, de des-encontro a des-encontro, alcançar a tal Criação que veicule e sustente o vazio. Ao contrário daquelas Criações, que citei inicialmente, que tentem tampá-lo. É por meio da Tychê que o analista, ao fazer semblante desse objeto ‘a’, em sua queda calculada do vazio, pode ajudar o paciente a transpor o limite do Saber e, assim, possibilitar ao paciente fazer uma Criação que o desprenda, minimamente, do Saber que o adoecia para que assim possa seguir sua vida… criando, tecendo e transmitindo vazios… Obrigado…

 

Autor: Edinei Hideki Suzuk

 

1Sempre que falar Repetição estarei falando da Tychê, do encontro faltoso e não do automaton. Neste trabalho, em vez de falar de automaton, preferi utilizar a palavra insistência, que penso ter mais a ver com a insistência da satisfação de gozo/sofrimento que um sintoma traz para o sujeito. 

2 Metáfora da cebola. A cada camada retirada em direção ao núcleo da cebola a resistência se intensifica.

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