Desejo de Analisar Crianças

Vamos lá, você vai gostar… encare como desafio: afinal, quem atende criança atende adulto e nem sempre quem atende adulto… atende criança.

Foi com esta proposta de desafio que iniciei meus estágios e meus estudos com crianças. Esta frase veio de uma professora, durante a minha graduação em psicologia, diante da minha recusa em atender “este tipo de paciente”.

Assim, o interesse de atendê-las e escuta-las começou enviesado: na tentativa de compreender o adulto e, para tornar mais fácil o trabalho com estes ouvia e brincava com crianças.

Que adulto era este que queria atender e que criança era esta recusada em ser escutada?

O Grupo de estudos sobre crianças da ALPL neste ano teve como objetivo o desejo do psicanalista de crianças e, é um pouco do que foi trabalhado e as marcas em mim produzidas que irei falar hoje. Dentre várias particularidades desta clinica, focarei na escolha do analista em trabalhar com crianças.

São muitos os desafios e as particularidades que envolvem esta clinica e em meio aos brinquedos, irmãos, avós, pais, escola, médicos o analista se vê convocado a responder e atuar. E, diante de tantas transferências e lugares remetidos a ele que a pergunta: “que ordem de desejo faz alguém psicanalisar crianças?” deve ser revista e repensada.

Leda Bernardino1 esclarece:

“(…) a clinica com crianças provoca nos que se aproximam da psicanálise seja uma grande fascinação, ou então, inversamente, o horror. Sabemos, desde Lacan, que estes efeitos se manifestam a cada vez que há algo de real na experiência. Há uma criança real, que ao mesmo tempo fascina e horroriza. Não se trata das crianças da realidade, que encontramos no dia – a – dia de nosso consultório, mas d’A Criança, presença que remete à origem, para sempre perdida, irresgatável, de todo sujeito”. (Bernardino 2004, p.60)

Continua a autora:

“Trata-se da criança de cada sujeito, núcleo da neurose infantil, matéria – prima fundamental que clama por se manifestar. (…) Por isso, quer se trate da Criança Real, ou da criança recalcada, a aproximação desta clinica deve nos conduzir a uma investigação desta “vocação”, no sentido de poder afasta-la do que poderia ser uma busca sintomática por um encontro finalmente bem sucedido com estas crianças, na qual o paciente não teria outro lugar senão o de objeto” (p.61).

Ou seja, a direção de tratamento depende da resposta a pergunta “por que psicanalisar crianças?”

Se a resposta for salvacionista, protegendo-a de todo trauma e castração gerados pelo encontro com o Real, sustentando o tão sonhado ideal de resguardar a criança da falta do Outro, propondo um Outro sem falhas, reparador e onipotente… de qual criança se trata?

Se a resposta for atender a demanda dos pais, na tentativa de restituir as feridas narcísicas que o sintoma da criança provoca, “consertando-a” para que continue respondendo ao ideal parental… de qual criança tentamos reparar?

Como diria Alfredo Jerusalinsky2, nestes casos, se atendermos a queixa da criança, imediatamente ficando contra os pais, nos transformamos numa espécie de goleiros das bolas que endereçam à criança: os que aparam, param um pouco os pais, aí a criança pensa “aqui posso gozar de certa tranquilidade que não vão me encher o saco”, e na relação com o analista não tem sintomas, fora dali se torna o diabo, atacando todo mundo, atrapalhando possíveis enlaces e intervenções analíticas.

Porem, se atendermos a queixa dos pais, de sermos agentes corretivos do que nelas está mal, faz com que evidentemente a coloque numa posição de desconfiança em relação a nós, não havendo possibilidade de realizar um trabalho analítico com ela.

Então, o que fazer?

Manoelle Descamps3 (p.62) indica que “o trabalho do analista em sua própria análise é identificar as motivações conscientes e sobretudo inconscientes, de sua escolha profissional e dos desejos que o engajam a trabalhar como analistas e em particular com crianças. Se, como ocorre nos melhores casos, o caminho pessoal da analise vai apresentando a iniquidade destas escolhas e derrubando uma a uma suas sustentações narcísicas inconscientes, podemos nos perguntar o que resta desta operação, que resultou em uma vocação, em uma escolha”.

Porque o lugar que o analista deve oferecer é um lugar vazio, vazio de demanda, de identificações pessoais, de narcisismo para que com este silencio, esta não – demanda, faça com que a criança se confronte com algo inédito: “Um adulto que não é imperativo, complementa Bernardino, que mesmo que seja colocado por ela mesma numa posição de mestre, não a ocupa; um adulto que não dá orientações, não dá ordens, não ensina, nada pede a não ser que a criança ocupe um lugar ali. (…) Este novo abre a possibilidade, para a criança, de localizar seu desejo como podendo ser diferente do que interpretou como desejo do Outro, destacado deste.

O analista convida a criança a assim uma expansão do imaginário, em que ela poderá encenar os ideais a que deve responder, dotando o seu ato com a importância significante, que tem ali uma função; e, ainda, há que representar esta função de Outro que compartilha o faz de conta, dando lugar a associação livre da criança. Torna-se a função do analista dar lugar e mergulhar na rede significantes que a criança arma, sobre o plano de fundo dos significantes familiares trazidos pelos pais.

A questão dos pais não pode ser vista de maneira desconectada no tratamento da criança, escuta-los faz parte do manejo da transferência na sustentação da analise da criança. O que deve ser escutado é em que lugar a criança está situada na fantasia do Outro, no desejo dos pais, no discurso que se mantêm sobre ela e a partir disto delinear a direção de tratamento, considerando cada caso. 

E, amparado pela transferência dos pais, que o analista intervém no sentido de produzir uma mudança subjetiva do sujeito em relação ao sintoma. Para finalizar, cito Colette Soler4 : “Trata-se de uma operação que vai do Real em direção ao Simbólico, ou seja, trata-se de propiciar que a criança passe da posição de objeto que ela foi chamada a ocupar na fantasia do Outro para o acesso ao seu desejo na condição de sujeito”.

Somente abstendo do meu ser e do meu saber que se torna possível desprover de significantes próprios, me incluindo no universo significante do analisando e me emprestar enquanto lugar, no qual o analisando depositará as suas demandas, propiciando a emergência do sujeito deste pequeno analisando.

A “frase desafio” que marcou meu percurso no atendimento com crianças permanece e continua verdadeira, porém sem identificações narcísicas, sem a intenção de tornar fácil os atendimentos com adultos. E se renova a cada vez que tenho que dar conta de produzir o ato analítico ( que nem sempre é bem sucedido) tanto em intensão, na relação com a criança, quanto em extensão, na relação com os pais, familiares, escola, instituições. Questão revista e recolocada a cada novo analisante, a cada próxima sessão de um mesmo analisante.

Autora: Michelle Hattori Fuziy

 

BERNARDINO, Leda M F (org) “Psicanalisar crianças: que desejo é esse?” Bahia: Algama, 2004.

2 JERUSALINSKY, Alfredo “Seminário de Psicanálise de Criancas” 07 dezembro de 1996.

3 Apud Bernardino, L M F, id ibidem.

4 Soller Colete Apud Costa, Teresinha. “O desejo do analista e a clinica psicanalitica com crianças”. In: Psicanálise e Barroco em revista v7, n2:86-102, dez 2009.

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