Sobre Nomes e Sobrenomes

Eu não gosto
do meu nome,
não fui eu
quem escolheu.
Eu não sei
por que se metem
com o nome
que é só meu!
O nenê
que vai nascer
vai chamar
como o padrinho,
vai chamar
como o vovô,
mas ninguém
vai perguntar
o que pensa
o coitadinho.
(Trecho do Poema “O nome da gente”, de Pedro Bandeira)

Júlio é um nome. Tavares é um sobrenome. Juntos constituem a particularidade de uma criança e a pertença a uma família. Todos os dias Julio Tavares é chamado por seu nome completo pela tia do portão, na escola, quando seu pai vai buscá-lo. No auge de seus três anos, ele obviamente ainda não sabe escrever, mas ao ouvir seu nome, pára toda a brincadeira, pega a lancheirinha e vai para o portão, em retorno à sua casa. Ele também não sabe ainda, mas seu pai biológico, com quem nunca teve contato, através de uma ação jurídica de reconhecimento de paternidade, quer retirar-lhe o Tavares e substituí-lo por Monteiro.

Todo mundo tem nome, sobrenome, às vezes apelido. Até que se resolva freqüentar o divã de um analista, poucas vezes pensamos sobre o nome que temos, o que significa carregá-lo. O próprio Lacan adverte: “vocês tem sempre que prestar atenção em como se chama seu paciente. Nunca é indiferente” (Lacan, 1961-1962, p. 81).

Sabemos que “fundamentalmente ninguém pode levar um nome sem ter sido nomeado por outro. O ato de nomear permite que a criança entre na ordem das relações humanas. Ter, possuir, levar um nome, significa adquirir um lugar no sistema simbólico. Ninguém escapa da assinatura de um nome próprio” (Tesone, 2009, p. 142)

Paula Santana Sato, com seus olhinhos puxados e seus 5 anos completos, me contou sua história: “furei meu dedinho porque ele está gordinho. Nesse dia o meu pai estava lá no hospital, mas me confundiu, eu falei ‘oi’ para ele, mas ele achou que eu fosse sua prima, porque ele disse ‘eu não sou seu pai’. O dedinho gordo é culpa da ansiedade, Paula come desde o dia em que a intimação para realização de exame de DNA, através de um processo de negação de paternidade, pode retirar desta criança o sobrenome de seu pai, já que de sua memória e de sua construção fantasmática o pai não sai, mesmo sem vê-lo há mais de 3 anos.

A nomeação, como ato de reconhecimento, está indissoluvelmente ligada à função simbólica do parentesco” (Tesone, 2009, p.143). O nome marca o mundo simbólico, cava-lhe um buraco que antecede e antecipa o parletre, lhe confere um lugar que só-depois ele poderá ocupar, rejeitar, aceitar ou ceder, mas com o qual certeiramente há de esbarrar. Dado o ato de reconhecimento, dado o nome, é possível retirá-lo?

Quando pergunto a um menininho de 4 anos sobre o nome que tem, ele afirma: meu nome é João Paulo Soares. Soares é o sobrenome da família que cuida dele desde que tinha 6 meses de idade. Esta família quer adotá-lo. Ele já a adotou faz tempo. Mas a família Soares está judicialmente impedida de filiar João Paulo da Silva, seu nome de registro. A mãe que lhe deu a vida o coloca diante de uma morte simbólica, ao requerer o retorno da criança para a casa dela. “Eu já tenho mãe e pai, meu nome e o meu time”, diz a criança à sua mãe biológica, no momento de uma visita monitorada, dispositivo criado pela justiça para a aproximação de vínculos rompidos.

Não é meu propósito abordar sobre as questões jurídicas, que nos conduziria por outros caminhos. Se cito trechos advindos deste campo é porque eles nos impõe reflexões acerca do ato de nomear: o que significa portar um nome? O que pode significar, para uma criança pequena em plena estruturação psíquica, sofrer alteração no sobrenome, marca de seu pertencimento familiar?

Quando iniciamos o estudo sobre o seminário 9 de Lacan, intitulado Identificação, o que me movia era uma curiosidade sobre o conceito de traço unário, algo que me assusta e me fascina, e ainda não sei bem o porquê. Muitas vezes, muitas vezes mesmo, essa palavra “traço unário” me fazia abrir os ouvidos e ao mesmo tempo me fechar para o entendimento dela. No decorrer deste trabalho de cartel fui me apropriando, de um jeito que não tinha conseguido antes, sobre este conceito. Ao longo do seminário, Lacan articula o traço unário ao nome próprio, e me aproximar desta articulação é o que tentarei transmitir a vocês, e é o que também me fez pensar sobre a função dos nomes e sobrenomes enquanto marcas distintivas, aquilo que para Lacan é o mais próprio da identificação.

É que o traço unário demarca uma possibilidade de contagem das diferenças e serve de referencial simbólico para o significante. O traço unário não é o significante, mas a base, o fundamento para o seu nascimento. É o traço unário que vai permitir que a inscrição do significante possa denotar uma diferença no real.

Lacan salienta que a inscrição significante ocorre em três tempos, e o traço unário seria o primeiro deles: a marca indelével, que por si só não diz nada, mas que sem ela não há como se dizer. O traço unário marca a experiência por não mais estar ali, é como apagar aquela pista que você não quer deixar, o pé ante pé de quem chega as 5 da manhã de uma balada e não quer ser visto, registra, por não estar lá, o que só-depois poderá ser dito.

Seguindo este raciocínio, o nome próprio é comparável ao traço unário por anteceder o sujeito, inscreve-o no mundo simbólico antes mesmo de sua existência, tal qual o traço inscreve a experiência antes mesmo que ela possa ser dita. Além disso, o nome é a marca da unidade e também da diferença, traz consigo o registro da ordem e da pertença familiar, ainda que não a garanta é a base para tal. E também – sua função é binária – o nome  permite que o sujeito seja contado como um, repetidas vezes, a cada vez que responder pelo seu nome. No portão da escola, será que Julio Tavares poderá responder por Monteiro?

E porque repete, é importante pensarmos que, no campo do registro, importa mais a escrita; o que faz o nome próprio ser diferente dos outros significantes é que seu suporte é menos o fonema que a letra. Com Lacan sabemos que a existência de um significante só se torna possível na relação com outro significante, uma vez que ele não comporta em si nada que possa atribuir-lhe uma identidade. É por sua negatividade, por oposição, portanto, que um significante se define. Já a letra é designada por Lacan como a “essência do significante, meio através do qual ele se distingue do signo” (1961-1962, p. 83).

Assim, o traço unário demarca uma possibilidade de contagem das diferenças e serve de referencial simbólico para o significante, que passa a ser entendido como tudo aquilo que, na fala do sujeito, pode ser contado como um.

O que podemos extrair do seminário sobre a identificação é que o nome próprio é um significante que funciona como traço unário. Diferente dos outros significantes, cuja função é de representação, o nome próprio possui uma função distintiva, através da qual o sujeito poderá contar a si mesmo, reconhecer-se como um.

Dadas essas considerações, pode-se pensar que não é sem conseqüências para uma criança que seu nome seja alterado, que o sobrenome que comporta sua história familiar seja trocado ou retirado. Comprometimentos na transmissão do desejo, na nomeação paterna, nos enlaces que encadeiam amor, desejo e gozo, sintomas no corpo, muita ansiedade. De qualquer modo, fazer o próprio nome é tarefa de cada um, artesanal e única.

 

Autora: Josani Campos 

Referências Bibliográficas

LACAN, J. A identificação: seminário 1961 – 1962; tradução: Ivan Corrêa e Marcos Bagno – Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2011.

TESONE, J. E. Inscrições transgeracionais no nome próprio. In: Jornal de Psicanálise, São Paulo, 42 (76): 137-157, jun. 2009.

O Sujeito e Sua Escrita Através do Sinthoma

Primeiramente gostaria de dizer algumas palavras sobre a importância do presente trabalho para mim. É um trabalho que é fruto dos efeitos do generoso ensino dessa importante figura no cenário psicanalítico, Aurélio Souza, que está aqui nos escutando e nos prestigiando; mas, sobretudo, este trabalho que compartilho com vocês, hoje, testemunha o entusiasmo que se renova a cada texto e seminário lido e, principalmente, testemunha a renovação do meu desejo de acolher o sofrimento
de nossos pacientes.

Acolher o sofrimento alheio a partir de uma posição que para mim é nova, mas que trouxe efeitos que acredito que favorecem a minha sustentação do desejo do analista. Trata-se de uma posição que faz da psicanálise lacaniana uma prática respeitosa, acolhedora e que tolera as manifestações sintomáticas e dificuldades de nossos pacientes, uma vez que pode ser o melhor que o sujeito pode ter naquele momento. Enfim, podemos fazer dela uma prática suave. Mas vejam bem, não confundamos tudo isso o que disse. Conduzir uma análise ou deitar no divã não é, de maneira alguma, algo fácil. Muito ao contrário, todos sabem da dificuldade que é isso!

Para ilustrar o que estou dizendo e marcar a diferença entre a “velha escuta” (porque eu utilizava) e uma “nova escuta” vou contar uma anedota sem mencionar nomes. Certo dia estava lendo, com interesse e entusiasmo, um texto de um psicanalista de renome. Ao descrever um caso, disse que seu paciente, em certa sessão, estava enchendo linguiça e o que dizia era somente para agradá-lo. Fazia associações que não eram associações, mas falas vazias. Neste exato momento simplesmente perdi todo o interesse sobre seu texto. No entanto, quem aqui já não pensou isso de nossos pacientes: “esta sessão não rendeu; o paciente não trouxe nada de novo; só se defendeu e resistiu; etc.”. Confesso que já fiz dessa forma e por isso acho importante compartilhar algumas questões que surgiram a partir do texto citado: o que dava ao suposto psicanalista o direito de supor que o que o seu paciente dizia era uma fala vazia destituída de verdade? A partir do quê, de quais referências, que podia fazer tal afirmação de que seu paciente estava enchendo linguiça?

Depois de ter começado a me aproximar das formulações lacanianas que irei apresentar hoje, vi a extensão e compreendi a potência da recomendação que Aurélio faz para todos os seus pacientes, que é: “Tudo o que disser em análise, eu acredito; isto é, o tomo como Verdade”. Esta recomendação que faz Aurélio para seus pacientes vai na contramão do modelo clínico do psicanalista citado, pois este modelo – do psicanalista da anedota – parte de um suposto de que existe uma Verdade inconsciente que o ego recalca e cuja função do analista é encontrar a tal Verdade. Portanto, a Verdade estaria no interior e o analista deve, a partir do exterior, arrancar tal Verdade. O analisante mente e o analista é responsável por retirar, arrancar, encontrar a verdade do paciente através dos atos falhos, dos sonhos, dos chistes, etc. Este, para mim, é o velho modelo.

Pois bem, é justamente sobre um fazer analítico que meu trabalho versa e que vai de encontro com esta recomendação que Aurélio faz para seus pacientes, que coloca a verdade não como algo que deve ser encontrada, e sim como construída. E foi pensando nesta ideia de construção que pensei o título do meu trabalho: “O Sujeito e sua Escrita através do Sinthoma”. Quando o pensei, intentei jogar com um duplo sentido, com um equívoco. Deste título, podemos depreender dois significados: 1) de que o sujeito escreve algo através do sinthoma; ou 2) o sujeito se escreve, se constrói, através da escrita do sinthoma. Optei, então, pela segunda acepção. Neste sentido, se produz uma frase incômoda, uma vez que a tendência, para aqueles que não têm intimidade com o tema, seria pensar que para que haja escrita é necessário a existência prévia de um sujeito. A segunda acepção do título afirma justamente o contrário, de que o sujeito surge na medida mesma em que começa a escrever o sinthoma, isto é, se produz simultaneamente ao ato de escrever.

Para aclarar, faço uma comparação entre dois modos de se pensar o sujeito que está em Lacan. No Seminário 11, por exemplo, o sujeito é o que está entre dois significantes. Sua principal característica é a de ser evanescente e obedecer uma pulsação temporal. No entanto, no Seminário 23, Lacan afirma que há sujeito quando ocorre um ato de fala que se propõe a construir uma verdade, através da escrita do sinthoma (p. 31).

Sinthoma, aqui, é com th. É uma forma de escrita antiga que Lacan utilizou no seminário 23 para aludir a um elemento que faz junção, que enoda a cadeia borromeana, enlaçando Real, Simbólico e Imaginário. Aqui já lhes adianto que existe uma divergência entre os psicanalistas sobre este conceito. Alguns acreditam que o sinthoma serviria apenas para os casos de psicoses; e outros acreditam que o quarto nó, que é o sinthoma, está presente em todos os sujeitos pois se trata de um elemento singularizador, isto é, que regula o  funcionamento de cada um. Neste sentido, então, acabaríamos de vez com a ideia de que existe a tão famigerada ideia de estruturas clínicas estanques e permanentes. Há, ao invés disso, modos de funcionamentos do sujeito (psicótico, neurótico e perverso) que são efeitos de um enodamento através do sinthoma.

Tenho razões para acreditar, a partir da leitura do seminário, que o sinthoma está presente em todos os sujeitos, e não somente em psicoses, e que é passível de sofrer deslocamentos, ser reescrito a todo o momento em que o sujeito se coloca a falar. Lacan, ao mostrar como se opera na escuta jogando com a homofonia, com as partículas das frases, com as letras, faz a seguinte afirmação: “temos apenas o equívoco como arma contra o sinthoma” (p. 18). Isto nos leva a pensar que existe um sinthoma, anterior, que regula o funcionamento do sujeito, mas que com a análise podemos operar deslocamentos através dos equívocos produzidos pelo paciente reorganizando a cadeia borromeana.

Ademais, Lacan afirma, também, que o sinthoma é uma pai-versão. Isto é, uma versão construída do pai que organiza o funcionamento do sujeito, pois, como vimos, faz a amarra entre as 3 cordas: Real; Simbólico; e Imaginário. Lacan, portanto, diz que a análise permite, através dos equívocos, reescrever novas versões do pai para reorganizar a estrutura do sujeito; o que pode resultar em menos sofrimento. Gostaria de frisar, mais uma vez, que a partir desta leitura, deste modelo teórico, fica insustentável a ideia da divisão das estruturas clínicas (neurose, psicose e perversão) como organizações subjetivas estanques; fixas e eternizadas. Pois, neste modelo teórico, por exemplo, a forclusão do nome-do-pai se trata apenas de uma versão do pai escrita pelo sujeito, que produz efeitos psicóticos. Assim, o sujeito poderia reescrever uma nova versão do pai, um novo sinthoma, que pudesse sair dessa posição psicótica. Portanto, o sujeito não é mais vítima do Outro. O sujeito passa a ser
responsável por seu sofrimento pois é de sua responsabilidade a organização e o enodamento da cadeia borromeana através da escrita do sinthoma.

Um outro ponto que está contemplado no meu título e que foi apenas abordado tangencialmente até aqui, é o termo escrita. Isto é fundamental para se pensar este outro modelo de clínica que não é mais pela via do significante e do significado e sim pela via da letra, do fonema, do som, da polifonia. A impressão que tive do seminário 23, após este cartel, é que a tônica está nesta temática da escrita e não de Joyce. Joyce é apenas o suporte para Lacan sustentar este modelo clínico que não é mais da ordem da escuta e sim da leitura. Portanto, o analista não escuta, mas lê. Muitos leitores deste seminário ficam tão presos à discussão se Joyce era ou não era psicótico, se o sinthoma faz ou não faz suplência, que  deixam escapar algo que insiste em aparecer em quase todas as páginas, que é a fundamentação e ilustração de um outro modelo clínico: a passagem do significante para a letra.

Após o término do Cartel, nos momentos em que ainda estava saboreando todos os enigmas que contemplam o seminário 23, vinha sempre a pergunta: “Por que Joyce?”. “Por que Joyce fisgou tanto Lacan?”. Por enquanto, a resposta que encontrei é a que compartilho hoje com vocês: que Joyce apenas ilustra o conceito de escrita e leitura em psicanálise. Acredito que Lacan encontra em Joyce o suporte daquilo que o analista deve fazer em análise, que é transformar significantes (a fala do paciente) em letras, em escrita. Isto não significa que o analista deva ficar com papel e lápis na mão escrevendo a fala do paciente, e sim de poder pensar que os significantes e as palavras são, em análise, um aglomerado de letras que produzem sons. Está ai, talvez, o encantamento de Lacan por Joyce, pois Joyce faz exatamente isso: subverte toda regra gramatical e faz dos significantes apenas aglomerados de letras que emitem sons, que podem ou não ter sentido. Para ilustrar essa ideia, que é totalmente abstrata, me apoio em Joyce para dar um pouco de concretude a essa proposta de transformar significantes em aglomerados de letras. Vou ler uma citação de Joyce e escutem a minha fala:

rolarrioanna e passa por Nossenhora d”Ohmem’s, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por cominhos recorrentes de Vico ao de Howth Castelo Earredores”.
rolarrioanna (rola; rolar; lar; larri; lá, ri; rio; riu; riu Ana; ã? na…?; etc.)

Enquanto eu lia para vocês essa citação de Finnegans Wake de Joyce, certamente um sentido foi produzido através dos sons emitidos, pois ainda estava no plano do significante, portanto da escuta. Mas agora, quando projeto essa citação e todos são capazes de ler o que estava escrito, podem perceber que alguns significantes são apenas aglomerados de letras que emitem sons destituídos de um referido significado. Portanto, seria exatamente esta manobra que deve ser feita na análise quando se propõe fazer a passagem de uma escuta da fala para uma leitura das letras do analisante.

Neste sentido, então, não são os significados dos significantes que afetam o analisante. O que passa a afeta-lo é o som que as letras são capazes de produzir e que fazem eco no sujeito. Quando estes ecos são produzidos é que podemos considerar que tocamos em pontas de real. E a partir desses ecos é que permitimos ao analisante ir rescrevendo um novo sinthoma que possa regular seu sofrimento.

Para finalizar, cito um trecho de Lacan que está na página 93: “é por intermédio da escrita que a fala se decompõe ao se impor como tal, a saber, em uma deformação acerca da qual permanece ambíguo saber se é caso de se livrar do parasita falador de que lhes faleis há pouco ou, ao contrário, de se deixar invadir por propriedades de ordem essencialmente fonêmica da fala, pela polifonia da fala”.

 

Autor: Edinei Hideki Suzuki

Angústia e estrutura do sujeito

Este trabalho é fruto de um cartel, que durou dois anos, e que se dedicou a estudar o Seminário 10 – A Angústia. Portanto, é uma leitura da psicanálise anterior a chegada da cadeia borromeana, mas que contribui, imensamente, para pensarmos sobre o estatuto do objeto a e sobre a ideia que Aurélio apresentou sobre o conceito de gozo e real. Já advirto que este seminário não é o ponto final do conceito de angústia, mas o começo. Sabemos que até o seminário RSI este conceito sofre algumas modificações. Mas pelo que li até agora, pude perceber que uma das diferenças entre o conceito de angústia deste seminário e do seminário 22 é que neste seminário a angústia está atrelada ao Outro, e no seminário 22 está atrelada a dimensão do registro do real, portanto do gozo. Só por este fato, o estudo do seminário já se justifica, uma vez que para começar a compreender esta difícil noção de gozo, penso que é necessário compreender o desenvolvimento que Lacan começa a fazer sobre o objeto a, neste seminário.

A minha proposta é discutir uma ideia que é colocada por Lacan que faz, ao longo do seminário, uma aproximação entre a estrutura do fantasma e a estrutura da angústia. Para deixar indicado o caminho que percorrerei no meu trabalho, apresento a questão que me fiz, que é a seguinte: sendo a estrutura do fantasma a mesma da angústia, o que opera a passagem de uma para outra? Isto é, por que a estrutura do fantasma afeta o sujeito de uma forma e a da angústia de outra se se tratam de uma mesma estrutura?

Para começar a responder essas questões, parto do ponto em que Lacan apresenta o quadro de divisão do sujeito. Neste quadro, Lacan vai fundamentar a lógica que organiza alguns elementos de sua álgebra – seu sistema formal de letras, que muitos chamam de álgebra lacaniana.  O que podemos visualizar nesse quadro de divisão é a lógica que sustenta um dos pilares fundamentais do seminário que é: entre o sujeito e o Outro não existe uma medida comum, pois sempre resultará em um resto desse processo de divisão. É como se tentássemos dividir 7 por 6. O 6 sendo o divisor e o 7 o dividendo. Desta divisão, 7 dividido por 6, o resultado, o quociente, é 1,1666… e sempre terão dois restos: 1 e o 4. Este último sendo permanente. Sabemos, pois, que a este resto permanente Lacan vai identificar o objeto a. Mas, além do objeto a, outros elementos são decantados desse cálculo. Se fizermos toda leitura do processo divisão do sujeito, ficaria da seguinte forma: quantas vezes o sujeito (divisor) cabe no Outro (dividendo)? A resposta deste cálculo, o quociente obtido, seria: (A/). Isto é, o sujeito cabe no Outro quantas vezes for possível desde que o Outro seja faltante, seja barrado. O primeiro resto desta divisão seria a marca do Outro como desejante ($) e o segundo resto, o permanente, seria o “a”. A partir deste Seminário, Lacan vai passar a chamar este objeto a, resto do processo de divisão do sujeito, como objeto causa do desejo. Portanto o objeto a nunca poderia ser considerado um objeto da realidade, da consciência, do sujeito. Ele não é o alvo, mas é causa, é motor do desejo. O alvo do desejo é o objeto recoberto pelo imaginário. Assim, o objeto a seria o número que indica que para que exista um sujeito desejante, não deve haver encaixe perfeito entre o sujeito e o Outro. 

Gostaria de ressaltar que este cálculo proposto por Lacan não segue a risca as normas matemáticas, pois não se trata de matemática, e sim de um sistema formal denominado álgebra lacaniana.

Pois bem, a partir deste cálculo, como pensar a estrutura do fantasma e da angústia? Sobre a estrutura do fantasma, Lacan é categórico em dizer que está do lado do Outro. Isto nos faz pensar que se a montagem do fantasma está do lado do Outro, cabe ao sujeito responder a este fantasma. Penso que aqui acontece o que Lacan disse, neste seminário, da criação, por parte do sujeito, de uma falsa demanda. Falsa demanda não no sentido de que seja algo inexistente; mas de que seja algo construído pelo sujeito, uma demanda suposta, uma vez que o fantasma está do lado do Outro. Portanto, o sujeito constrói uma suposta demanda no Outro que tenta responder a partir de um ideal imaginando que de alguma maneira este feito pode ser alcançado. Não consegue alcançar porque não é suficientemente capaz e competente de fazê-lo. Outras pessoas conseguem, menos ele. É assim que o campo sintomático está, então, colocado e organizado. Tenta-se, a partir de um recurso imaginário, obturar a falta do Outro, anular o (A/). Lacan vai dizer que o sujeito veste imaginariamente o objeto a para responder a esta estrutura fantasmática com o único objetivo de não se a ver com a falta do Outro.

Agora falarei um pouco da estrutura da angústia para tentarmos trabalhar a afirmação de Lacan de que a estrutura do fantasma é a mesma da angústia. Lacan, em vários momentos, diz que a  angústia é um afeto que surge quando falta a falta. Isto é, quando a falta do Outro (A/) pode desaparecer é que o afeto da angústia aparece como um sinal. Vai afirmar, em vários pontos do seminário, que a angústia surge quando algo que deveria ficar oculto, aparece. Articula este algo que aparece e que produz angústia com o objeto a. Se retomarmos o cálculo da divisão do sujeito para tentar ilustrar essa ideia, é como se por algum acidente o cálculo 7 dividido por 6 desse um resultado exato, sem resto, o que indicaria um encaixe perfeito entre divisor e dividendo, entre o sujeito e o Outro. Isto, como vimos, implicaria numa anulação total do (A/) e o Outro não seria faltante e nem desejante, consequentemente tampouco o sujeito.

No entanto, penso que temos de pensar sobre essa ideia de aparição do objeto a. Aparece onde e como? Uma vez que é um objeto totalmente abstrato, pensado a partir de um cálculo lógico que não corresponde com a realidade concreta. Inclusive, para não deixar dúvidas de que esse objeto a não participa de nossa realidade concreta, Lacan vai dizê-lo a partir de figuras topológicas. Bom, penso que é importante abrir um parênteses aqui. Quando estou dizendo sujeito e Outro não estou falando de seres concretos, pois não se trata, como Lacan já nos advertiu, de uma ontologia. É importante ressaltar que quando digo “lado do Outro” e “lado do sujeito” não se trata de dois entes, por exemplo, a mãe e o bebê ou a criança. Ao contrário disso, trata-se de dois lugares lógicos e totalmente abstratos que respeitam as leis da álgebra lacaniana e que nos servem para pensar a estrutura do sujeito; no meu trabalho, por exemplo, a estrutura do fantasma e da angústia. Penso, inclusive, que seja por isso que Lacan utiliza o recurso matemático para falar disso. Para nos advertir que, ao teorizarmos, não devemos nos apoiar, demasiadamente, em entes, em pessoas, para que não façamos da psicanálise uma ontologia.

Fechando o parênteses e retomando a estrutura da angústia. A partir do texto de Lacan é afirmado que a angústia surge não pela aparição do objeto a para o sujeito, mas, ao invés disso, surge quando o sujeito se depara com a aparição daquele que evoca o objeto a, portanto o Outro em sua dimensão devoradora e enigmática. Se pensarmos no caso do Homem dos Lobos e nos interrogarmos o porquê do sonho dos lobos ter produzido tamanha angústia, podemos chegar à conclusão de que os lobos trepados na nogueira, enquanto elementos que apareceram para o paciente de Freud, não eram o objeto a. Ao contrário disso, podemos pensar que os lobos representavam aquele que evoca o objeto através do paciente de Freud. Assim, a angústia sinal surge quando o objeto aparece e o sujeito está identificado a ele, ao objeto a. No caso do Homem dos Lobos, ele estava identificado ao objeto a olhar – relacionado à pulsão escópica.

Se considerarmos, juntamente com Lacan, que o objeto a corresponde ao que Freud chamou de objeto parcial da pulsão, talvez possamos pensar na principal diferença entre a estrutura do fantasma e da angústia. Na estrutura do fantasma, mesmo que o sujeito se coloque como um objeto que tenta tamponar a falta do Outro, este objeto está vestido imaginariamente com o brilho narcísico de um suposto ideal. Por outro lado, se pensarmos na estrutura da angústia, o objeto que aparece é o objeto pulsional sem a vestimenta imaginária, portanto totalmente fragmentado. O sujeito estaria identificado ao objeto pulsional oral, anal, escópico ou invocante. Objetos de exclusivo domínio do Outro que teriam propriedades de ser uma merda, dejeto, fétido, mastigado, invadido, destruído, dentre outros.

Outra diferença importante entre a estrutura do fantasma e a estrutura da angústia diz respeito aos efeitos que cada estrutura produz. A estrutura do fantasma, como dissemos, tem prioridade de organizar o campo sintomático do sujeito. Portanto, de estar enredado numa falsa demanda, construída pelo próprio sujeito, e que o faz sofrer. Por outro lado, os efeitos da estrutura da angústia atentam muito mais contra a vida do sujeito, podendo levar ao suicídio ou a atuações que causem danos graves e irreversíveis ao sujeito. Para não chegar a angústia, o sujeito tem dois recursos: a passagem a ato e o acting-out. A passagem a ato sendo o recurso mais radical, em que o sujeito se precipita para fora da cena para sair dessa identificação maciça com o objeto a pulsional; e o acting-out sendo um recurso que o sujeito tem para solicitar uma intervenção do analista para que o retire dessa identificação. É uma mostração dirigida ao analista, que está na mira transferencial, em que se pede uma intervenção que possa resgatar os recursos simbólicos e imaginários.

Para encerrar e ilustrar essa ideia de acting-out como efeito da angústia, apresento um fragmento de caso, que alguns já conhecem pois trabalhei num contexto mais íntimo e privado. Trata-se de um caso encerrado e antigo de uma adolescente. Foi levada com a queixa de que tinha sérios problemas com o cumprimento das regras na escola. Era agressiva, desrespeitava todas as figuras de autoridade, mas o que mobilizou os pais foi o fato de que começou a roubar os colegas e a escola. Era uma filha adotada e naquele momento os pais diziam que estavam pensando que sua filha não teria mais jeito, que ela era assim mesmo e que só lhes restaria assistir, passivamente, o terrível futuro que estava reservado a ela. Atribuíam essas características aos pais biológicos. A filha, segundo eles, tinha herdado os genes ruins dos pais. A paciente não gostava de falar sobre a adoção. Talvez, o que fosse insuportável para ela era saber que foi “abandonada” pelos pais, uma vez que tinha irmãos biológicos dos mesmos pais e que não foram retirados e nem dados para adoção. Pois bem, quando a adolescente  chega até mim, tudo acontece sem a menor dificuldade. Brinca, fala, interage, tudo aparentemente bem. Responde docilmente a minha demanda. Percebam aqui a estrutura do fantasma e o lugar de não analista que ocupo. Se demando tudo isso, vacilo de meu lugar presença de analista. Mas, de repente, começa a se tornar agressiva, inquieta e começa a estragar os brinquedos que trazia ou que tinha em minha sala. Arremessava os brinquedos na parede e, sem querer querendo, acertava em mim. Neste período fico sabendo, através dos pais, que estes decidem seguir suas vidas e, consequentemente, deixar que a filha se vire – isso apenas com 13 anos! Deixa a filha morando com a irmã mais velha e alugam um apartamento para os dois. Logo em seguida a adolescente não aparece mais nas sessões e nunca mais a vejo. Muito tempo depois repensei este caso; para ser mais preciso, quando comecei a estudar o seminário 10. Penso que, talvez, essas destruições dos brinquedos era um acting-out, em transferência, para me mostrar a identificação que estava fazendo com esses objetos estragados, quebrados, destruídos, merdificados, que só lhes restariam a lixeira como destino. Afinal, mais uma vez estava sendo dejetada pelos pais. Talvez, se pudesse ter feito alguma intervenção neste momento, a história poderia ter sido outra; ela poderia ter conseguido se afastar dessa identificação com o objeto pulsional e poder falar, simbolizar, como era para ela ter uma história em que se sentia como um objeto quebrado, estragado, que só lhe restava o abandono, o lixo. Acredito, também, que boa parte desta elevação do nível de angústia era de minha responsabilidade, por demandar excessivamente que falasse, que brincasse, que cumprisse o protocolo. Penso que por não ter podido ocupar a função de analista, ocupei o lugar daquele que evoca o objeto – o Outro da angústia. O que lhe restou, como única alternativa, foi deixar-se cair da sessão, precipitar-se para fora da cena que estava identificada ao objeto pulsional.

 

Autor: Edinei Hideki Suzuki

Considerações Sobre a Relação Entre a Angústia e o Desejo do Analista

Primeiramente gostaria delimitar a superfície por onde transitarei durante os 15 minutos que tenho disponível para apresentar minhas ideias. Estas ideias são, sobretudo, um testemunho do meu percurso na psicanálise, que está em formação, uma vez que é disso que se tratou em nossa Associação em 2013 e disso que se trata em nossa Jornada; refletir sobre a função e a formação do analista. Assim, tanto a Angústia como o Desejo do Analista são conceitos fundamentais para se pensar a formação e a função do analista.

É importante ressaltar que meu trabalho de hoje está sustentado pela noção de cura do primeiro movimento do Lacan. Sendo assim, está assentado sobre o conceito de Travessia do Fantasma, que, resumidamente, nada mais é do que fazer com que o analisante produza uma modificação no seu campo pulsional e fantasmático em análise e possa, com isso, ter minimamente uma liberdade com relação ao desejo do Outro. Este desejo do Outro na mesma medida em que é essencial para a constituição do psiquismo e do desejo é também condição de aprisionamento do sujeito ao pathos da experiência humana.Para desenvolver esse trabalho, parto então de dois seminários de Lacan: o Seminário 10 e o Seminário 11.

Feito essas considerações iniciais, começo citando uma ideia de Lacan contida no Seminário 11, que nos traz muitos elementos a serem trabalhados acerca do desejo do analista:

[…] se a transferência é o que, da pulsão, desvia a demanda, o desejo do
analista é aquilo que traz [a demanda] ali de volta [para a pulsão]. E por
essa via [de colocar a demanda em cena] ele [o analista] isola o a, o põe a
maior distância possível do I [identificação] que ele, o analista, é chamado
pelo sujeito a encarnar. É dessa idealização que o analista tem que tombar
para ser o suporte do a separador, na medida em que seu desejo [o do
analista]lhe permite, numa hipnose às avessas, encarnar, ele, o hipnotizado
(p. 258, Seminário 11).

Nesta pequena frase lida de Lacan, podemos isolar 2 partes:

       1. A transferência é o que da pulsão desvia a demanda e o desejo do analista é o que traz de volta a demanda para a pulsão.

Podemos entender neste pequeno trecho que esse momento em que se estabelece o amor transferencial num tratamento, o analistante se coloca numa posição de amado e o analista na posição de amante. Doce engano, mas elementar para a direção da cura. Sendo assim, deixemos nossos pacientes manifestarem esse dom do amor e pensarem que, em troca, os amamos. Esse amor transferencial é uma forma de o analistante evitar de se deparar com a falta do Outro, encarnado pela figura do analista, o que se traduz, de certo modo, em uma certa paralisação e inércia, pois a demanda está satisfeita Ex: o meu analista quer que eu fale disso, então falarei disso em troca de seu amor. Há, nesse exemplo uma suposta completude entre analisante e analista. Existe também nesse amor transferencial uma relação especular e mimética, em que o analista é colocado na posição de detentor do saber que dará os devidos direcionamentos para soluções do pathos do analisante.

Contudo, quando o analista exerce sua função e acede ao seu desejo, que é o desejo do analista, ele restitui a dimensão da demanda no tratamento, mas uma demanda de caráter enigmático que produz um efeito no analisante, o de não completude. Isto instala a seguinte questão no analisante: “Que queres de mim?” “Que queres que eu faça ou  fale?”. Isto produzirá movimento no tratamento, pois a tendência do analisante é tentar completar essa falta no Outro.   

      2. É dessa idealização que o analista tem que tombar / para ser o suporte do a separador, na medida em que seu desejo [o do analista] lhe permite, numa hipnose às avessas, encarnar, ele, o hipnotizado.

Ficou claro no início da frase que o analista não pode aceitar o lugar em que o analisante o reserva e deve, então, tombar dessa idealização. Quando o analista
consegue essa viragem no tratamento, se produz uma situação tragicômica, que é descrita por Lacan da seguinte forma: “Eu me dou a ti, mas esse dom de minha pessoa se transforma inexplicavelmente em presente de uma merda”.

Mas o restante da frase soa um tanto enigmática e é nela que vou articular o conceito de angústia. A frase seguinte diz que o analista deve ser o suporte do a separador e ser o hipnotizado ao invés do hipnotizador.

Vejam que aqui se coloca a questão da função do analista. E é neste momento em que aponto a relação da função do analista com a angústia. No momento preciso em que o analista deve suportar, com toda ambiguidade que esse significante carrega, fazer semblante objeto causa do desejo na direção da cura. Dessa maneira, o analista deve ser o suporte desse objeto sendo, nas palavras de Lacan, o hipnotizado ao invés do hipnotizador. Mas para isso deve suportar abrir mão de sua posição de sujeito, o que o colocaria, ou o aproximaria, da posição de objeto, que como vimos no Seminário 10, é a forma que se deflagra a angústia. Lacan, no início do Seminário 10, afirma que é comum analistas em formação sentirem certa dose de angústia na condução de seus tratamentos e questiona se a angústia que sentimos como analistas é a mesma que a de nossos analisantes. Ao que tudo indica, até onde pudemos estudar sobre o conceito de  angústia no seminário 10, estou crente de que seja a mesma angústia, pois este é um afeto que não engana e está desprovido de adjetivos auxiliares, como por exemplo: angústia de morte, que é um conceito da outra psicanálise. Angústia para Lacan tem uma relação as avessas com a angústia de Freud, ao passo que para Lacan a angústia surge da vacilação da castração e não da castração, como Freud pensou em Inibição Sintoma e Angústia. Neste sentido Lacan aponta uma relação da angústia com o desejo do Outro, ou melhor, com a identificação maciça do sujeito em ser o objeto de gozo do Outro. Esta condição produziria o aniquilamento total do sujeito. Nesta via, em tempo de concluir, mesmo que seja uma conclusão apenas provisória, acredito que a angústia pode ser um dos maiores obstáculos que se impõe no caminho do analista para aceder ao seu desejo – o desejo do analista, uma vez que para isto é necessário aceitar abrir mão de seu gozo e fazer semblante do objeto, ou, como disse Lacan, como suporte do objeto para seu analisante.

Para poder ser o suporte do a e, sobretudo, suportar essa condição, é fundamental o trabalho da análise pessoal, uma vez que só através dela é que se pode encontrar recursos para modular a angústia, não eliminá-la, uma vez que com um fim de análise pode se produzir certa margem de liberdade com relação ao desejo do Outro e além disso, modificar a relação entre o sujeito e o Outro ao reorganizar seu campo pulsional e fantasmático.

 

Autor: Edinei Hideki Suzuki

O Sujeito do Desejo na Clínica Lacaniana 1

Primeiramente gostaria de agradecer a presença das pessoas que vieram aqui participar desse momento especial, que é de comemoração e não de inauguração, uma vez que já iniciamos, há algum tempo, os nossos trabalhos. Para comemorar, nada mais especial do que chamar a Zeila para participar deste momento, pois, para mim, é uma mestra, mestra que inaugurou a série de outros mestres que sobrevieram através de textos ou pessoalmente. E comemorar em companhia de pessoas que tenho tamanho apreço é muito importante; com quem estou junto desde o começo e outros que fui encontrando durante o meu percurso. Hoje, então, vamos comemorar trabalhando. A Marana e eu pensamos em trabalhar com a temática que já estamos trabalhando este ano que é: Amor, Desejo e Gozo. Portanto, vou apresentar minha parte, que é a do desejo.

Esta apresentação, visa lembrar, que não se trata de um seminário. Não tenho essa audaciosa pretensão. Ao invés disso, o que pretendo fazer é compartilhar e discutir algumas ideias que foram se forjando a partir de um trabalho que fiz ano passado sobre a temática da repetição, inconsciente e desejo. Todas essas discussões têm como pano de fundo o Seminário 11, a que se conjugam outros textos de Lacan. Pois bem, é isso que gostaria de discutir hoje com vocês. Vale lembrar que como estamos entre camaradas, de forma geral, penso que seria mais divertido se deixássemos as formalidades de lado e participássemos sem encanação.

Para disparar nossa discussão, que é sobre o desejo, faço a seguinte afirmação: o que Freud falou sobre desejo em sua obra tem muito pouco a ver com o que Lacan começa a desenvolver sobre o desejo, pelo menos naquilo que vejo no seminário 10 e se formaliza no seminário 11. Não posso dizer nada sobre os seminário anteriores pois os desconheço, mas me apoio em comentadores que afirmam que o desejo, antes da década de 60, ia mais no sentido hegeliano do termo, que é o desejo de reconhecimento. Ao falar isso, gostaria que não pensassem que faço um corte duro em torno dessas viradas epistemológicas da obra do Lacan. Ao contrário disso, começo a perceber que existem alguns fios que amarram as ideias e teorizações que Lacan foi desenvolvendo ao longo de sua vida. Talvez daqui alguns muitos anos eu consiga enxergar alguns desses fios.

Se Lacan está, de alguma forma, propondo uma virada na sua própria concepção de desejo, inconsciente e repetição, e propõe, declaradamente, uma diferença com o que Freud desenvolveu sobre o conceito de inconsciente, temos que nos esforçar para tentar entender qual é essa diferença. Penso que são, fundamentalmente, duas:

  1. O ics lacaniano é pontual e surge entre significantes em condição transferencial; e não abriga memórias cujo conteúdo é a perversão polimórfico perversa reprimida pela cultura. Não há memórias no ics lacaniano, não há desejos perversos ou de qualquer outra ordem.
  2. Lacan ao afirmar que a existência do ics depende da presença do analista propõe pensar a operação da análise calcada em outro plano, em outra dimensão. Cabe a nós fazermos um esforço para pescar as dicas que Lacan dá em sua obra sobre qual é essa dimensão. Já lhes adianto que vai utilizar o campo da física e matemática para isso. Vou trabalhar sobre estes dois pontos, mas, como disse anteriormente, não no sentido de um seminário, mas de convidá-los para uma conversa e ver onde isso pode dar.

Vou abordar o primeiro ponto que levantei. Ao contrário do que Freud acreditava, que podemos vislumbrar no trabalho sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, o ics lacaniano não é algo que possa existir fora da transferência. O ics lancaniano não é, também, esse modelo hidráulico proposto por Freud na Interpretação dos Sonhos, que abriga memórias cujo conteúdo são os elementos perversos polimórficos que são interditados pela cultura. Assim, para Lacan, não há um conteúdo no ics, não há o que temer do conteúdo ics, não há desejos no ics. O ics lacaniano não é, mas está.

O ics lacaniano opera segundo um princípio muito particular, que é a repetição-tychê. Portanto, só podemos apreender o ics quando está dentro de uma estrutura espaço-temporal delimitada por dois significantes: S1 e S2. Quando essa estrutura espaço-temporal surge dentro da análise é aí que o sujeito do desejo aparece. É o momento em que a estrutura do Outro se revela faltante (A/) e o seu objeto fálico, que comumente associamos ao bebê, cai de sua posição idealizada e investida libidinalmente. É o que Lacan pontuou como o momento da Separação, precedido pelo movimento de Alienação, onde se produz uma parte não simbolizada; resto permanente, duro, indivisível, do processo de divisão do sujeito; portanto, vertente real do objeto ‘a’. É a estrutura do desejo do Outro que se revela em sua vertente mais enigmática, aparição do sujeito desalienado da  demanda do Outro, ponto no qual carece de qualquer resposta pronta ao que supostamente falta ao Outro. Onde ocorre uma vacilação do saber e um desvelamento da verdade. Saber do quê? Saber sobre como responder ao que o Outro supostamente demanda – estrutura do fantasma vacila neste momento.

Nesta mesma via, gostaria de compartilhar algo com vocês. Se vocês voltarem ou irem para o Seminário 11, perceberão que as operações de Alienação e Separação não estão no começo do seminário, mas no fim. Coisa muito estranha e que não deve passar despercebida aos nossos olhos, uma vez que é justamente sobre o não-evidente que devemos nos atentar. É isso que a própria psicanálise nos ensina. Então me fiz a seguinte pergunta: por que esse tema não está no começo, mas no fim?Porque seria muito mais fácil se Lacan tivesse falado da estruturação do sujeito, da constituição do psiquismo das pessoas, a partir do vél da alienação e da teoria dos conjuntos para depois explicar o funcionamento do ics a partir da lógica da repetição. Falar de como as pessoas/sujeitos se constituem e formam seu psiquismo para depois falar em como operar em análise seria o procedimento mais lógico, mais coerente. Mas ele não faz assim. Então por quê?

A minha hipótese é que quando Lacan vai trabalhar o seminário 11 e vai formalizar essa ideia do sujeito do desejo entre significantes, ao abordar o vél da alienação ele não está falando de como as pessoas formam seu psiquismo ou de como ocorre a relação entre o bebê e sua mãe /cuidador e pai. Penso que ao invés disso ele está tentando formalizar uma estrutura que fundamente a sua proposta da repetição como um princípio do ics e que marca esse projeto de diferenciar o seu ics do ics freudiano.

Quando passei a entender o vél da alienação dessa forma, passei a compartilhar da mesma ideia de Aurélio de que a clínica do bebê é uma prática de extensão da psicanálise e não em intensão, pois fazemos uma correlação direta entre pais, os professores e a instituição escolar com o Outro, com o propósito de promover uma ortopedia da constituição do sujeito. Fazemos ontologia ao articularmos dessa forma. O sujeito, que só pode ser definido pelo verbo estar, nestes casos passa a ser definido pelo verbo ser. Isto, a meu ver, não é o que está propondo neste momento.

Vejamos o que Lacan diz em Ciência e a Verdade, texto que está nos Escritos, mas que é a primeira lição do seminário 12, portanto logo após de trabalhar com o vél da alienação: “Seja como for, afirmo que toda tentativa, ou mesmo tentação […] de encarnar ainda mais o sujeito é errância: sempre fecunda em erros e, como tal, incorreta” (p. 873). Nesta passagem ele estava justamente discutindo  sobre qual sujeito que operamos em análise. Desta maneira, o vél da alienação trata apenas do sujeito do desejo, do ics lacaniano, e não de um sujeito encarnado, isto é, de carne e osso. O vél da alienação ganha seu valor se pensarmos o sujeito definido pelo verbo estar e não pelo ser.

A repetição-tychê, que é produto da manobra do analista, aponta para esse momento de constituição do sujeito do desejo resultado da Separação. Divisão aguda entre saber e verdade, o que possibilita ao analisante se encontrar com a verdade de seu desejo – que é o furo, o Outro faltante (A/) – e assim algo de sua estrutura poder ser tocada, reescrita.

Pois bem, a partir disso surge a seguinte questão: se o que ele propõe desde o seminário 11, e continua nos seminários seguintes, não versa sobre o sujeito encarnado (pessoas de carne e osso), do que ele está falando quando fala da psicanálise em intensão?

É justamente aqui que adentro no meu segundo ponto que eu interrogava justamente qual é a dimensão do sujeito do ics se não deve ser representada pela pessoa de carne e osso. Lacan, no seminário 11, no momento em que está desenvolvendo seu conceito de ics, cita, em todas as lições, nomes de matemáticos e de Newton. A este último, especialmente, faz uma crítica à sua teoria da mecânica e começa a afirmar que a sua psicanálise em intensão deve ser reduzida a uma matemática que se debruça sobre o estudo de superfície, portanto a topologia. Este é um campo da matemática muito utilizado na mecânica quântica e na teoria da relatividade. Portanto, Lacan lia e estudava a filosofia da física, o que começo a acreditar que pesou bastante para se pensar, inclusive, a sua categoria de real.

Então qual é a dimensão do sujeito do ics de Lacan? É alguma dimensão definida pela física? Pela matemática? Penso que também não, apesar de que esses dois campos ajudam a pensar a dimensão do sujeito da psicanálise. Faz, pelo menos para mim, com que fique mais palpável a ideia de que existe uma estrutura do sujeito (tema que nos ocupamos no ano passado) que tem uma realidade paralela ao sujeito encarnado, mas que o afeta constantemente. Assim como existe uma 4ª dimensão que é definida pela mecânica quântica e interfere diretamente em nossa existência concreta e encarnada, existe, para a psicanálise, uma Outra dimensão, que podemos chamar de topológica, portanto de duas dimensões, que emerge na análise e sobre o qual o analista deve operar.

A intervenção do analista recai sobre essa superfície topológica. Autorizado pela transferência, as palavras, os sons, as letras que saem da boca do paciente devem ser tomadas como elementos que dão consistência a essa Outra dimensão e constitui essa superfície topológica que  possibilita o trabalho do analista. Neste caso do sujeito do desejo, estou fazendo referência à banda de moebius. Lacan fala o seminário 11 inteiro, de forma muitas vezes implícita, sobre a banda de moebiu e continua no seminário 12.

Vejam por exemplo, quando Lacan fala em mau-encontro da Tychê, de corte, ou mesmo a celebre frase: ali onde se estava, deve o sujeito advir. Vejam que nestes termos, mas sobretudo nesta última expressão, está em jogo essa formalização dessa dimensão espaço-temporal delimitada entre dois elementos, que podemos pensar S1 e S2.. Penso que estas coisas devem ser pensadas na banda de moebius. Todas essas expressões fazem alusão ao momento de aparição do sujeito do desejo, momento este que corresponde ao momento, preciso, em que o último corte sobre a banda se encontra com o primeiro corte, fazendo com que seja aberta. É neste momento de abertura (vejam que este termo também é utilizado por Lacan) da banda que se produz uma divisão experimentada entre saber e verdade, e que a partir daí pode acontecer uma mudança na estrutura do sujeito, que pode ou não afetar o sujeito encarnado.

Operamos sobre essa estrutura da topologia lacaniana, na certeza de que isso afetará o sujeito. Certeza que extraímos de nossa própria análise e dos estranhos efeitos que colhemos do processo analítico. Não há outra maneira de acreditarmos em nosso fazer analítico, que é totalmente insano, como espero ter demonstrado aqui, que não seja passando pela experiência.

 

Autor: Edinei Hideki Suzuki

 

1Texto apresentado num evento comemorativo.

O Vazio, o Furo e a Falta: o desejo na clínica lacaniana 1

Gostaria de iniciar meu trabalho apresentando algumas referências com as quais tento sustentar minha prática clínica. Depois de fazer isso, vou discutir o conceito de sujeito do desejo na clínica lacaniana; que é a proposta do meu trabalho cujo título denuncia. Para começar a montar o argumento do meu trabalho de hoje, farei uma retomada de alguns textos ou temas que penso que Lacan, de alguma forma, deixou indicado algumas pistas que podemos seguir no sentido que quero levar. São pistas colhidas em textos do início do ensino de Lacan, que são: “coisa freudiana ou sentido do retorno à Freud em psicanálise“; “A psicanálise e seu ensino” e “situação da psicanálise em 1956“. São textos que estou certo de que muitos daqui já leram ou ouviram falar, portanto são clássicos e que fazem parte do conjunto de textos cuja leitura é muito importante para todos aqueles que já iniciaram um percurso na psicanálise lacaniana.

Estes três textos que acabei de citar estão colocados em sequência nos Escritos. Se pensarmos que existe uma estratégia de transmissão na proposta de disposição dos textos autorizada pelo próprio Lacan, uma vez estava vivo na época de sua publicação, tentei achar uma linha guia que fizesse uma articulação central entre eles. Para mim, penso que o que está posto nesse conjunto de textos é a dura crítica que Lacan faz àqueles que ele denomina de pós-freudianos. É aí que ele então vai justificar seu famoso retorno à Freud afirmando que aconteceu um desvio de sua prática e de sua proposta – a de Freud.

Mas, afinal, o que ele critica?

Para além da proposta de cura pautada na identificação do paciente ao Eu forte do analista, acredito que ele critica uma prática da psicanálise imaginarizada. Para aqueles que não têm muita intimidade com conceitos lacanianos, esta palavra – imaginarizada – não quer dizer fantasiada ou de imaginação forte. O sentido dessa palavra é de imagem, unidade, de plenitude, concretude, coisificação.

Sabemos que nessa época Lacan dava certo privilégio e importância à ordem simbólica em detrimento do imaginário. Este, por se caracterizar pelos engodos narcísicos e pelo funcionamento egóico que eram características do que havia falado do estádio do espelho como formador do Eu, gerava engano e impossibilitava o encontro com a Verdade. O privilégio da ordem simbólica2 , por outro lado, é o que possibilita o encontro do analisante com a Verdade; isto é, com aquilo que é da ordem do mais singular, com a sua estrutura que determina o funcionamento de suas satisfações, sofrimentos, sintomas, etc.

Ao falar de estrutura, penso que tocamos na palavra-chave que Lacan está criticando na prática dos pós-freudianos e naquilo que propõe avançar em sua prática. Como tinha me referido anteriormente, penso que Lacan, nos textos que fiz referência, está criticando uma imaginarização da prática analítica; isto é, uma coisificação da análise. Vejamos o que Lacan nos diz textualmente:

“[…] a primeira resistência (a mais importante, a mais premente) com que a
análise (disse análise e não o analista, portanto pode ser tanto o paciente quanto o
analista) tem de lidar é a do próprio discurso, na medida em que antes de mais
nada ele é um discurso da opinião (da ordem do significado), e em qualquer
objetivação psicológica [desse discurso] se revelará solidária a esse discurso
(imaginarização da prática analítica)” (Escritos, p. 420).

Então a primeira resistência que a análise tem de lidar é a resistência do discurso. Esta resistência pode afetar tanto o analisante quanto o analista. O analisante tendo dificuldades em entrar na associação livre e o analista resistindo em sua escuta. Ceder a esta resistência é fazer do discurso do analisante uma objetivação psicológica; portanto psicologizar o discurso. Como se trata de uma resistência da própria análise pode afetar tanto o analisante quanto o analista.

“Somos pessoas suficientemente a par das coisas para saber que o coisismo não
cai bem; eis nossa pirueta inteiramente descoberta (o retorno à Freud que o
próprio Lacan chama de reviravolta)”(Escritos, p. 421).

Aqui Lacan deixa claro que seu retorno à Freud, que tem caráter de reviravolta, de pirueta, implica em sair desse “coisismo” a que os pós-freudianos levaram a prática da análise. 

“É de uma iniciação nos métodos do linguista, do historiador e, diria eu, do
matemático que se deve tratar agora, para que uma nova geração de clínicos e
pesquisadores resgate o sentido da experiência freudiana e seu motor.. Ela há de
encontrar meios também de se resguardar da objetivação psico-sociológica, onde
o psicanalista, em suas incertezas, vai buscar a substância daquilo que faz,
embora ela só lhe traga uma abstração inadequada em que sua prática se atola e
se desfaz” (Escritos, p. 436).

Isto é, só podemos estar de acordo com a proposta de retorno à Freud se utilizarmos psicanaliticamente tais áreas citadas: a linguística, a história e a matemática. Somente dessa maneira conseguiremos sair dessa coisificação da análise, dessa busca psico-sociológica pararesponder nossas incertezas.

Vejam a contundência de Lacan quando fala para não pensarmos a prática analítica de
forma psico-sociológica ou de forma substancial-concreta. Fazer psicanálise dessa forma é ceder
à resistência do discurso e por isso não ocupar sua função de analista. Então podemos afirmar,
junto com Lacan, que toda tentativa de pensar a estrutura do sujeito de forma psico-sociológica
vai contra a sua proposta, pois é resistencial e não pode tocar na Verdade do analisante. Proposta
que podemos perceber que nunca foi abandonada e que ganha formalização mais sólida com o
andar de seu ensino através da lógica modal de predicado, da topologia de superfícies e dos nós.

E como seria tomar de forma psico-sociológica a estrutura do sujeito e com isso ceder à resistência do discurso?

Acredito que é tomar como concreta-factual toda história que o paciente começa a contar; é fazer um julgamento moral-social dos fatos que o analisante diz; é desacreditar daquilo que o paciente diz achando que possa ser mentira dos fatos; é tomar como real, como concreta, como um jogo intersubjetivo que acontece na novela edípica; é fazer do Vél da Alienação um processo de nascimento do humano que fala; é tomar o tempo como linear, portanto com passado, presente e futuro. Eldesztein (2012) fala que fazer tudo isso é trazer a análise para a dimensão concreta da realidade; isto é, a realidade tridimensional (altura, peso, profundidade).

Confesso a vocês que já cedi muito a essa resistência do discurso. Recordo-me de um paciente adolescente vinha me falar das coisas mais extraordinárias e inacreditáveis que fazia ou que aconteciam com ele e eu ficava preso apenas aos elementos factuais chegando a pensar: será verdade tudo isso? Está ele delirando? É psicótico? Com isso eu não conseguia ler a estrutura do sujeito que se apresentava naquele discurso diacrônico.

Não digo que estas questões não sejam importantes de se fazer num tratamento, mas que não se tornem as principais, pois percebo, hoje, que pensar estritamente dessa forma é ser “solidário” e ceder a resistência do discurso, como Lacan nos disse na citação anterior, e que assim deixamos de operar com a estrutura do sujeito na dimensão analítica, que não é a tridimensional.

Pois, então, como ler e como operar com a estrutura do sujeito de forma a não ceder à resistência do discurso?

Para responder esta pergunta, poderíamos enveredar por vários caminhos e utilizarmos todos os recursos que Lacan nos oferece para fazer a clínica, tais como: as superfícies topológicas, a escrita matemática, a lógica modal de predicado, as teorias do conjunto, a topologia dos nós, dentre outros. Todos esses recursos apontam para uma dimensão que é própria da psicanálise lacaniana, que penso não ser nenhuma das dimensões que conhecemos; mas uma dimensão própria de nosso campo que conjuga a linguisteria ou alíngua com a topologia. Para que fique um pouco mais claro: os pós-freudianos utilizavam a realidade tridimensional para fazer a clínica. Já Lacan utiliza a dimensão topológica conjugada com alíngua para fazer a sua clínica. Isto ele já propõe na década de 50 e vai até o fim de seu ensino.

Feita essa introdução, agora posso apresentar o recorte que pretendo fazer, que é discutir o conceito de desejo e sujeito na clínica lacaniana articulados com os conceitos de vazio, furo e falta. Depois dessa introdução, acredito que já estamos bastante advertidos para saber que o desejo na clínica lacaniana não pode ser confundido com o desejo que é do discurso comum. Se pensarmos que o desejo visa um objeto ou tem algum sentido, penso que fazer isso é escorregar da posição de analista pois é ceder à resistência do discurso.

Por outro lado, o desejo se caracteriza por ser o resultado de uma operação, uma manobra do analista que produz uma modificação na estrutura do sujeito. Não há um objeto do desejo; há, sim, um objeto causa do desejo. Portanto, o objeto nunca está à frente do desejo; mas só pode estar em posição de causação do desejo e, por isso, vai poder se articular com a possibilidade de o analista, em sua função, jogar com a falta (-φ) e causar o desejo. Portanto, não há nenhuma possibilidade de advir um sujeito do desejo sem a presença de um analista.

O sujeito do desejo ($) não responde a uma ontologia do ser, não é substancial, não é concreto, mas é fruto de uma experiência de divisão; divisão entre Saber e Verdade. A existência do $ é efêmera, pontual, portanto. Só pode existir se tiver um analista que produz essa operação de efetuação do sujeito do desejo ($). Operação esta que se efetua quando o analista se faz presente jogando com a falta (-φ) e consegue tocar no ponto onde o Saber vacila, S(Ⱥ), num “vazio de significação”, que Clara articula com o Saber no Real, que é impossível de ser assimilado pelo simbólico Ф. Neste sentido, alguns de vocês poderiam se questionar de onde vem esse vazio que pode ser tocado pela manobra analítica.

Pois bem, Lacan já nos deixou indicado desde o começo do seu ensino que há algo que é excluído mas que é tão importante quanto aquilo que o excluiu. É o real que ex-siste a cadeia significante que determina seu funcionamento. Este funcionamento de exclusão é semelhante ao funcionamento das leis da linguagem. Por exemplo, para se escrever uma palavra ou compor uma frase é necessário que palavras ou letras sejam incluídas e outras excluídas de acordo com a regra gramatical vigente. Portanto, o que foi excluído participa da composição da frase ou da palavra que se intentou escrever. É nesse sentido que Lacan diz que as leis da linguagem nos ensina a dar importância aos elementos excluídos. Ele vai falar da carta roubada, do conto de Allan Poe, para falar que ela, enquanto ex-sistência, determinava o enredo do conto.

Fica claro, então, que há algo que não pode ser apreendido totalmente pelo simbólico. Mas ainda resta a questão de como esse real, que é impossível de ser apreendido totalmente pelo simbólico, é transmitido e participa da estrutura do sujeito.

Pois bem, esse impossível de ser apreendido pelo simbólico podemos articular com o Ф, que é o vazio constituído pelo furo da linguagem e suporte da função do significante e do campo do gozo fálico. Podemos, então, pensar que este impossível de ser apreendido é um vazio que sustenta e é sustentado por alíngua. Para tornar isso um pouco mais objetivo utilizo um exemplo: é como se pegássemos uma superfície e nela fizéssemos um buraco com uma broca. Para os efeitos de analogia, a broca causadora do furo é a linguagem e constitui o vazio lhe dando consistência. Este vazio pode ser pensado somente nesses termos: um contorno que garante a sua consistência.

Segundo Clara, os efeitos de Ф só podem ser operados na estrutura do sujeito pelo S(Ⱥ), significante da falta no Outro. Esse Ф, que Clara articula com o saber no Real, é o saber que nunca se saberá, é o real impossível, o vazio, portanto tem a ver com a morte e com o sexo3, e sua principal característica é de ser estruturante da estrutura do sujeito.

Este Ф, este vazio estrutural e estruturante, sempre convoca o sujeito a dar uma resposta quando o saber lhe vem a faltar; que é o que disse sobre o momento de aparição do sujeito, de uma divisão experimentada entre Saber e Verdade operada pela presença do analista.

No entanto não há uma única resposta que o analisante pode dar frente ao encontro com a falta (-φ). Penso que podemos esperar, pelo menos, por 3 respostas: a primeira, de ordem imaginária, é pela via da manutenção sintomática s(A). Tentativa de lidar com o vazio Ф pagando com seu sintoma. A segunda se trata de uma impossibilidade de o analisante se servir do simbólico para responder a este vazio de significação, e aí podemos esperar o pior das reações, tal como a passagem ao ato e atuações. Mas isto não vamos abordar hoje. E o terceiro modo de resposta, que é o foco deste trabalho, representado pelos efeitos do significante da falta no Outro S(Ⱥ) na estrutura, que é de ordem simbólica, e que denuncia a impossibilidade de o Outro saber tudo – a Verdade sobre a castração.

Penso que este seria o efeito, citado por Clara, operado pela substituição de Ф por S(Ⱥ), onde o analisante se depara com uma falta de saber e que a partir daí terá de se servir de uma marcapara dar novas respostas ao enigma de seu desejo. Este momento em que é produzido o encontro do analisante com este vazio de significações, que marca a incompletude de um saber todo, é que podemos articular com o advento do sujeito do desejo. É neste sentido que afirmei, anteriormente, que o desejo não tem um sentido, não tem objeto e sua característica é ser evanescente. É evanescente, pois diante desse vazio de significações novas significações, novas Verdades, novas “fixções” deverão ser construídas.

Ao reconstruir novas Verdades, o analisante pode mudar de posição frente ao real do sexo e da morte, isto é, do vazio estrutural Ф, do saber no Real, que está suportado pela alíngua. Ao poder reescrever sua estrutura, a partir de um novo posicionamento diante desse vazio, algo se modifica produzindo, talvez, uma nova organização egóica e supressão/troca sintomática. Mas vale lembrar que não é isso que rege o tratamento analítico. Este visa, por excelência, a mudança na estrutura do sujeito e para isso temos de não ceder às resistências do discurso e nem ter um furor de curar os sintomas. Tal possibilidade de reescrever a estrutura do sujeito se dá em função de incontáveis (des)encontros que são produzidos pela figura do analista ao longo de uma análise.

Autor: Edinei Hideki Suzuki

 

1Texto apresentado no Fórum da ALPL.

2Com o advento da topologia dos nós, Lacan não manteve esse privilégio do simbólico sobre o imaginário. Todos passaram a ter a mesma importância.

3Freud afirmou que não temos registro da morte e do sexo no psiquismo. Por isso que criamos os mitos.

4Sobre este tema, trabalhar com o livro de Clara Cruglak, Clínica da Identificação, que ressalta a importância da marca da incorporação da falta, representada por um traço no toro revirado, que o sujeito pode se servir ante a irrupção do Real.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CRUGLAK, C. A. Clínica da identificação. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2001.

LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. Rio de Janeiro: Zahar, 1960.

LACAN, J. A coisa freudiana e o sentido do retorno à Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1955.

LACAN, J. A psicanálise e seu ensino. Rio de Janeiro: Zahar, 1957.

LACAN, J. Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956. Rio de Janeiro: Zahar, 1956.

LACAN, J. Seminário 11. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

LACAN, J. Seminário 20. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

A Insistência do Gozo e a Prática da Letra

Primeiro, gostaria de dizer que estar aqui nesta posição de transmitir minha experiência é algo que cada vez mais ganha sentido no meu percurso. Portanto, é nessa direção, de transmitir minha experiência, que vou tentar leva-los hoje. Antes de prosseguir, gostaria, também, de fazer uma ressalva sobre meu título. Quando pensei nele estava planejando seguir por outro caminho. Estava pensando em falar da clínica apresentando um caso clínico e trabalhando a temática do gozo e da versão do pai. Mas… para quem já se aventura nas leituras de Lacan sabe que a cada encontro com seus textos surge sempre algo novo, algo que nos surpreende, nos arrebata e que é capaz de bagunçar nossos pensamentos e nos fazer mudar o caminho daquilo que havíamos planejado. Pois foi exatamente isso o que aconteceu.

Pois bem, se antes estava pensando em falar da clínica dessa maneira, num dado momento, que não sei precisar bem, este tema deixou de me convocar e com isso a vontade de escrever sobre ele passou. O problema é que, inicialmente, não veio outro tema para substituí-lo. Então tinha ficado absolutamente sem tema. Mas com o tempo fui percebendo que outras questões iam sendo tocadas na medida em que eu ia trabalhando o Seminário 20. Estas outras questões atingiam em cheio as interrogações e inquietações que eu tinha acerca do meu trabalho com a psicanálise (atividades da Associação, função da análise de controle, a posição do analista,
a direção do tratamento, etc.). Quando percebo a forma como o texto do cartel estava me afetando, resolvo escrever sobre isso. Mas na hora, quase instantaneamente, surgiu outra dúvida que me fez hesitar: como articular todas essas questões que estavam sendo tocadas pelo trabalho de cartel com a clínica e com o tema de nossa Jornada?

Depois de um tempo de trabalho em torno do texto de cartel, curiosamente chego a evidente conclusão:

  • Que todos os elementos devem ser tomados como se constitui a própria cadeia borromeana, onde se uma se soltar as demais também se soltam perdendo suas funções. Portanto, a prática clínica, a participação nos fóruns (escutar atenciosamente os textos dos colegas, comentar seus textos, apresentar textos e ouvir e considerar as questões), a participação nos seminários do Aurélio e de outros analistas, coordenar grupo de estudos, fazer análise e análise de controle,
    tudo isto não deveria ser tomado como elementos separados, disjuntos, ou hierarquizados, tal como: a prática é a mais importante, a supervisão a segunda mais importante, o estudo teórico a terceira, e assim por diante.

Como disse, para que elas possam produzir efeitos devem ser consideradas como encadeadas borromeanamente; e se possuem a mesma estrutura da cadeia, não há valor que as diferenciem. Elas produzem efeitos nos mais diferentes lugares em função da estrutura de cadeia. Penso que seja por isso que um trabalho de cartel ou a participação dos fóruns podem produzir efeitos nos mais diversos aspectos e localidades. Por isso que falar dessa experiência é, a meu ver, também falar da forma como faço a clínica. Acredito que este encadeamento borromeano dos dispositivos citados (atendimentos, cartel, fórum, análise, análise de controle, grupos de
estudos, seminários, etc.) sempre apontam para um ponto específico na estrutura: a posição do analista. É como se a posição do analista ocupasse o coração da cadeia, no lugar onde está o ‘a’; portanto todos os efeitos de alguma forma tocam nisso.

E poder circular nesses dispositivos não é fazer nenhuma revolução, como disse Lacan, mas é fazer com que o discurso analítico circule e, com isto, possa exercer sua função. No Seminário 20 Lacan recupera uma ideia que trabalhou numa das conferências que deu em SaintAnne, conferências que coincidiram com o momento em que proferia o Seminário 19, e que ele fala sobre essa ideia de fazer circular o discurso analítico e afirma que circular não implica fazer nenhuma revolução, pois a circularidade sempre leva ao mesmo lugar, ao mesmo ponto. Lacan utiliza a palavra “circular” de forma bastante precisa. Circular, para ele, é circular através dos discursos (discurso do mestre, do histérico, do analista e da universidade).

Um exemplo simples que pode ilustrar isso que estou tentando transmitir. Entramos no discurso do mestre tentando sustentar uma certa completude no saber, camuflando nossa divisão ($) sob a barra, mas os textos, o convívio com os colegas de associação, a análise, tudo faz experimentarmos que não há suposta completude, que sempre seremos sujeitos divididos ($) com relação ao saber. Podemos, então, a partir dessa incompletude do saber, circular para o discurso
histérico e, dessa forma, produzirmos um saber, singular, de nossa responsabilidade, de nossa autoria, que poderá ser compartilhado nos fóruns, nos grupos de estudos, nos comentários que fazemos sobre os trabalhos dos colegas, nas Jornadas, etc. O discurso analítico, pela lógica que Lacan nos apresenta na teoria dos discursos, só pode ser alcançado por meio desse movimento circular.

Para podermos fazer semblante de ‘a’, que é a estrutura do discurso analítico, temos de ter circulado, pois os discursos são interdependentes. Lembrando que em todos os discursos, exceto no discurso analítico, há produção de gozo. Dessa maneira, ao gozarmos nas posições discursivas que precedem ao discurso analítico, chegamos neste discurso suportando renunciar qualquer gozo; condição fundamental para exercer a função de analista. Constato, mais uma vez, que é impossível pensar de forma separada os dispositivos da psicanálise. Para mim, neste sentido, ficou bem mais claro o lugar que a Associação e os dispositivos ocupam no meu
percurso de produção de um analista. Este é o sinthoma que pude produzir com os trabalhos deste ano e colher seus efeitos. Relembro-lhes, então, uma passagem no Seminário 23 que Lacan afirma que ser psicanalista é um sinthoma. Isto é, uma produção singular em que vamos achando respostas e argumentos que sustentem nossa decisão de trabalhar com esse negócio esquisito e maluco que é a psicanálise.

Agora gostaria de falar um pouco desses efeitos que pude colher neste ano e argumentar teoricamente a forma como tento sustentar minha prática clínica, o meu fazer clínico. Percebo em mim que a psicanálise ficou mais leve, mais sustentável. De uns anos para cá percebo mudanças. Passei a ver a psicanálise como uma prática muito respeitosa e acolhedora. Mas tais características não excluem o fato de que é uma experiência muito difícil e dolorosa. Constato isso quando estou no divã. Antigamente via a psicanálise como uma prática que deveria ser feita com sofisticação. Por exemplo: achava que temas deveriam ser priorizados. Nos relatos deveriam estar o mito edípico, os sofrimentos amorosos, as demandas, a vida sexual, e por aí vai. Só que não percebia que nessa lógica de dar prioridades a certos temas acabava ficando completamente surdo para o que de fato interessa num tratamento: as “bobagens” que os analisantes dizem.

No Seminário 20, que foi o texto trabalhado em cartel neste ano, Lacan diz algo muito simples mas muito importante que me permitiu recuperar, repensar e avançar o trabalho que fiz no ano passado sobre o Seminário 23 que apresentei na Jornada. Bom, Lacan, no Seminário 20, diz que a análise se faz de bobagens, nada mais. Isto é, nos adverte que não devemos nos  preocupar em priorizar temas ou assuntos, mas que devemos fazer com que o analisante fale e produza nos seus ditos bobagens. Ao falar bobagens num dispositivo analítico, sustentado pelo discurso analítico, o analista é capaz de tirar consequências dessas bobagens. É capaz, a partir dos significantes do analisante, que são da ordem da escuta, portanto do som, deixar que algo se escreva: a letra.

Dos significantes que vão aparecendo nos ditos do analisante vão se escrevendo letras que denunciam suas relações de gozo que estão impressas em seu corpo (que não é o organismo) e que o analista, apenas se exercer sua função, é capaz de ler. A partir dos significantes produzidos pelos ditos temos de ler a letra. Neste sentido Lacan, no Seminário 20, deixa bem definido a distância que a linguisteria tem da linguística. Na linguística o significante tem um significado, mesmo que este significado seja definido a partir de um contexto. Contudo, na linguisteria os significantes são elementos sonoros destituídos de qualquer significado. São esses significantes que compõem a estrutura de alíngua (lalangue) e fazem as marcas no corpo (encorps) do falasser registrando as letras que representam as pegadas do Outro nesse deserto de gozo que é o corpo do falasser. As letras são partículas, moléculas, átomos, dos significantes da estrutura de alíngua que registram as formas como o falasser foi supostamente gozado pelo Outro enquanto objeto1.

Na linguisteria o significado é de responsabilidade do analisante e diz respeito à escrita, portanto está articulado à letra; ao passo que o significante está relacionado ao som. Mas, afinal, do que se trata ler a letra a partir da sonoridade significante? Penso que é justamente provocar dissonâncias nesse corpo recortado pelos significantes da estrutura de alíngua. É colocar em cena, através da manobra analítica, a inexistência da relação sexual, pois a única relação que o falasser estabelece é com os objetos pulsionais do seu próprio corpo recortado pelo significante. Para Lacan, no Seminário 20, a relação possível é auto-erótica – com pedaços do próprio corpo – e por isso que não há possibilidade de encaixe perfeito entre sujeito e objeto; o que sustenta a ideia de que a relação sexual não existe. É nesse sentido que o amor vem em suplência a não existência a relação sexual, pois veste esse objeto pulsional de uma forma idealizada e, como diz o Aurélio, de forma kantiana, fazendo com que se crie uma miragem de bom encaixe, miragem de que a relação sexual pode existir. O amor vem justamente tentar cobrir o fato de que o falasser goza do corpo. Bom, mas antes de continuar, esta expressão deve ser aclarada. Temos, para aclarar este termo, de considerar esta expressão “gozo do corpo” no genitivo objetivo e no genitivo subjetivo2; isto é, de que se goza do corpo e de que o corpo é que goza. Considerar esta expressão no genitivo objetivo e subjetivo implica considerar que para que o falasser possa gozar dos pedaços do corpo deve-se ter de forma mítica e fix-ctícia um momento em que esse corpo foi gozado, foi feito de objeto de gozo do Outro.

É em função dessa via de mão dupla do gozo que ele sempre conduz ao pior. Ser gozado pelo Outro, ser reduzido a um objeto pulsional, é se tornar um objeto merdificado, mastigado, escopicizado/perseguido, ensurdecido, ruidoso, mijado, vomitado, arrotado, fedido, dentre outros. Estes são os objetos demandados pelo Outro e que servem exclusivamente para ser gozados. A relação sexual não existe, pois a relação não acontece entre dois corpos, dois seres, e sim do falasser com seus próprios objetos pulsionais. Por isso o gozo é auto-erótico. O sintoma, por sua vez, é uma forma de gozar que maquia o gozar do corpo (pelo Outro) por meio do amor e do ideal narcísico. É uma resposta sofrida a não existência da relação sexual, mas que satisfaz e evita o encontro com essa ordem do pulsional; que seria muito mais devastador se não for feito de forma calculada.

Neste Seminário Lacan insiste na dificuldade de o falasser se a ver com isso que é da ordem do gozo. Diz que preferem levar sua vida dormindo. Permito-me brincar com a linguisteria e faço desse significante letra e digo “dor-indo”. Ao estar ignorante, ao não querer saber de nada disso, como diz Lacan no Seminário 20, levam uma vida com dor e vão indo numa deriva de gozo em que se traça como destino certo os sofrimentos e fracassos que insistem em aparecer. Por sua vez, ler a letra é recuperar isso que é da ordem do gozo do corpo e fazer com que o falasser possa escrever e dar um significado produzindo um saber sobre o seu gozo. Somente assim pode dar outras repostas para a não existência da relação sexual e com isso escrever um sinthoma.

No entanto, a escrita de um sinthoma é lenta e dolorosa, pois parte dessa recuperação da condição de objeto gozado que o falasser foi colocado em sua hystória, em sua novela, em sua fix-cção. Lacan diz nas conferências de Saint-Anne que a interpretação aponta sempre para o gozo. Algumas semanas depois dessa formulação ele complementa, no Seminário 19, que na realidade quem interpreta é o analisante. O analista apenas cria condições favoráveis para isso. Mas mesmo que a interpretação seja de responsabilidade do analisante, a intervenção do analista precisa ser feita com muito cuidado, tolerância e respeito para não rasgarmos a roupa narcísica e amorosa deixando pelado o objeto pulsional. O resultado disso pode ser devastador (aumento de angústia e até passagem a ato = suicídio). Esta posição tolerante e respeitosa Aurélio não se cansa de nos advertir em seus seminários. Digo que hoje posso experimentar essa advertência de uma outra forma que não seja pela via da compreensão. Hoje não compreendo, mas leio, escrevo e explico3. Ao explicar, isso se singulariza e passa a ser de minha responsabilidade, de minha
autoria e por isso faz eco em meu corpo.

Para finalizar, gostaria de dizer que esta lógica clínica que discuti hoje com vocês é muito presente nos pacientes que pude acompanhar no meu percurso. Quantos relatos existem com a mesma estrutura semântica dizendo: “Quando as coisas começam a mudar, eu coloco tudo a perder”; “Quando conquisto algo, nem dá tempo de comemorar”; “Quando encontro um curso que amo sou internado e tenho de parar”; “Quando a minha filha retorna e tudo parecia bem eu a deixo morrer”. São algumas falas de pacientes que pude acompanhar e que apontam para isso que é da ordem de uma insistência (uma desgraça que insiste) e que são, inicialmente, tomadas como fatos externos, uma obra de um destino cruel, um puro acaso. A psicanálise pode fazer com que esse destino, sentido como injusto e devastador, possa ser reescrito e mudado. Para tal, o preço que o falasser paga, para além do dinheiro, é de se dar conta que há uma satisfação em jogo nessas situações, pois tais destinos talvez apontem para esse lugar de objeto gozado pelo Outro. A psicanálise proposta por Lacan pode, portanto, interromper a série desse suposto destino cruel que sempre insiste pedindo mais, mais, Mais, ainda… (encore, encore, encore…)

 

Autor: Edinei Suzuki

 

1 Utilizo o termo “supostamente gozado” porque o Outro não existe, mas o falasser constrói uma fix-cção sobre o Outro.

2 Genitivo objetivo: eu gozo do corpo. Genitivo subjetivo: o corpo é que goza.

3 Explicar em sua raíz etimológica alude ao sentido de desenrolar uma espécie de barra em tecido.

Repetição e Criação

À guisa de introdução, gostaria de agradecer aos colegas que apresentaram ontem seus trabalhos, pois a partir deles pude me dizer/escrever, com mais clareza, as razões que me levaram a escrever este texto da forma como o fiz. Percebi que este trabalho é um esforço, de mim para comigo mesmo, para conseguir pensar a Tychê articulada ao meu fazer clínico; não mais apenas pela pura intuição, mas agora a partir de uma lógica. Vivi este ano me perguntando: como pensar a Repetição (Tychê) na clínica do cotidiano? Como operá-la? Em qual momento? Como ela ocorre? O que produz?

Ao escrever este trabalho, penso que, mesmo que não tenha me dado conta, inicialmente, essas questões estavam latentes e acho que este trabalho serviu para que eu pudesse minimamente respondê-las. Acho que por isso que resolvi escrever da forma mais simples possível; pois assim eu pude me ouvir, desenvolver e avançar um pouco mais a lógica do fazer analítico. Ao terminar o texto percebi que o trabalho está simples, sem muitos termos teóricos. Por outro lado, me vi tentando presentar e desenvolver uma lógica do fazer analítico que possa produzir a Repetição. Para escrever este trabalho, duas sugestões foram muito importantes para mim. Uma que li de Isidoro Vegh que diz que quando servimos de boa lógica, podemos ser mais livres em nossa prática. Livre no sentido de poder criar o seu próprio estilo e não se apegar num modelo ideal de analista. Outra sugestão que me inspirou foi de Zeila (acho que ela nem se lembra disso de tanto tempo que faz). Não contarei os anos, mas apenas digo que isso foi quando eu ainda era bem mais jovem do que sou hoje. Nesta época, tinha começado a ler psicanálise e estava maravilhado com o lacanês. Queria falar esse “idioma” também! Mas Zeila, ao ler um texto meu, me sugere que eu seja simples e que me imagine dentro de um taxi e tenha que falar da psicanálise ao taxista da forma mais simples e clara possível e que ainda me faça entender. Penso que essa sugestão me marcou de tal maneira que ainda hoje sofro seus efeitos. Vejam, passado tanto tempo, pude lembrar-me dela…

Portanto, hoje vou me arriscar em ser um pouco mais livre e com isso desenvolver a lógica de como articular o conceito de Repetição (Tychê) em minha prática. Vocês poderão identificar que utilizo referências de autores que estudamos e que escutamos, mas perceberão também que às vezes direi coisas que não estão nessas referências, mas que, de alguma forma, pude vivenciar em minha experiência. Feita a introdução, inicio meu trabalho comentando o meu título com a seguinte questão:

Só podemos pensar a Criação a partir da Repetição1?

Começo o trabalho com esta pergunta, pois da forma como propus o título, pelo menos para mim, deu a impressão de que coloco uma relação direta entre Criação e Repetição. No entanto, gostaria de relativizar essa ideia, pois alguns eventos que acontecem na clínica me fizeram pensar sobre as diferentes Criações que vão acontecendo ao longo de um tratamento e que talvez sejam importantes para produzir a Repetição Tychê.

Penso que uma primeira Criação que propiciamos aos nossos pacientes é a de sua neurose de transferência ou, melhor dizendo, do próprio sintoma psicanalítico. Isto é, fazer com que o paciente possa transformar um sintoma médico, social ou biológico em algo que possa ser tratável pela psicanálise. A primeira Criação consiste em se Criar uma dúvida, uma divisão entre aquilo que o paciente vem Sabendo e uma suposta Verdade oculta que o analista guarda para si. Neste momento, notamos que existe um saber que tenta dar conta disso que o paciente sofre mas que não é suficiente, pois continua a sofrer.

A partir dessa primeira Criação, onde a dúvida se faz presente, podemos ajudar nossos pacientes a fazerem sua segunda Criação. Nesta segunda Criação, o paciente começa a criar um novo Saber sobre seu sofrimento ou sintoma. Mas esta criação de Saber está direcionada para a figura do analista, como se o analista fosse fazer algo com o Saber produzido pelo paciente. Então o paciente, aceitando o convite para que fale e associe livremente, cria uma hystória para seu sofrimento; fala de seus pais, os culpa pelo o que são ou o que não são hoje, contam seus traumas, constroem sua neurose infantil, etc. Faz tudo isso na esperança de que o analista, como num passe de mágica, tivesse uma palavra mágica que apagasse memórias desagradáveis, tirasse a culpa de algo que fez, tirasse o peso desse Saber que foi Criado pelo paciente. Neste momento podemos dizer que o paciente Cria seu inconsciente. E com isso, o ser do paciente começa a ficar implicado naquilo que o faz sofrer para além das determinações externas (médicas, sociais, biológicas).

O que podemos notar nesses dois processos de Criação (criação do sintoma psicanalítico e criação do inconsciente) é que estes movimentos vão em direção a criar algo para preencher um vazio.

  1. Vazio de saber que pode ser representado pela dúvida desse primeiro momento do tratamento onde se funda o sintoma analítico e depois
  2. Pela falta de saber sobre este sintoma analítico que o faz produzir seu Saber Inconsciente e dirigir ao seu analista.

Até aqui, poderíamos pensar que os efeitos produzidos não difiram muito de outras formas de psicoterapias, sobretudo aquelas intituladas “psicoterapias com inspiração psicanalítica”. Nesta, a interpretação visa à produção de saber por meio do sentido dado aos sintomas, atos falhos, etc. Lembro-me de um paciente que recebi que mancava muito e andava torto, mas sem ter nenhum motivo orgânico para isto. Ele tinha passado por uma psicoterapia com inspiração psicanalítica e disse numa das sessões que a psicoterapeuta interpretou seu sintoma afirmando que aquilo se tratava de uma inibição que tinha a função de evitar que mantivesse sua vida sexual ativa, uma vez que sua família era religiosa. O fato de mancar e andar torto o deixava envergonhado e por isso não ia mais para as baladas. E obviamente que essa interpretação não produziu nenhum efeito, mas só aumentou o Saber cuja função foi preencher o vazio e manter o paciente nesse mesmo lugar.

Acredito que a produção de Saber, seja ela por parte do paciente (que é a forma como conduzimos o tratamento) ou pelo psicoterapeuta (que é ilustrado pelo exemplo que dei agora), tem o efeito de dar consistência ao Outro, dar um sentido totalizante para esse Outro e negar sua castração, sua falta, sua inconsistência.

Contudo, noto na clínica que essa produção de saber marcha até certo limite. E é justamente nesse limite que percebo o surgimento de uma resistência muito forte no tratamento. Notei, também, que este é um momento em que o paciente parece se desapontar com esse limite do Saber, pois depois de ter falado sobre suas hystórias, seus traumas, seu Édipo, etc. percebe que, de alguma forma, seu sofrimento e seu sintoma ainda estão presentes. Isidoro Vegh tem uma expressão interessante para esse momento: chama de “fracasso do Saber”. Se lembrarmos de Freud, podemos ver que ele descreve algo parecido de sua clínica, pois nota que em determinados momentos do tratamento o paciente começa a resistir de forma mais intensa2. Freud afirma que isto acontece quando o tratamento começa se aproximar daquilo que chamou de núcleo patógeno. Quanto mais se avança em direção a ele, mais as resistências aumentam suas forças contra o próprio tratamento.

Não que anteriormente a resistência estivera ausente, mas neste momento a resistência aparece de uma forma diferente. Se nos momentos anteriores a resistência era a produzir um Saber, agora o paciente passa a resistir por meio da transferência. Cobra o analista, por meio de atuações, por meio da própria dinâmica da transferência, que ele participe da manutenção de seu gozo, do seu sintoma. Começa a tentar encaixar a figura do analista na própria estrutura de seu sintoma, solicitando que faça a função de um grande Outro que goza. Solicita a presença do analista enquanto um objeto recuperador de gozo.

Penso num pequeno recorte em que uma mulher que me pedia com veemência, em transferência, que a xingasse, que desse broncas por causa dos seus comportamentos, que falasse verdades que precisava ouvir para mudar seu comportamento e amenizar sua angústia. Mas a paciente não se dava conta de que este lugar que pedia para que eu a colocasse era o mesmo lugar que ocupava para seu marido e outras pessoas. E é justamente nesse lugar de total submissão e infantilismo que fala acerca de seu intenso sofrimento. Podemos ver que esse lugar lhe causava sofrimento, mas que, paradoxalmente, tinha dificuldades em abrir mão, pois lhe satisfazia.

Vejam que até aqui estive falando de algo que repete, ou melhor, que insiste, que é a satisfação com o sintoma ou sofrimento. Esta insistência não produz uma diferença, uma perda de satisfação; mas insiste em uma mesmice que visa manter um sofrimento que é também uma satisfação adoecida. Percebam que até aqui falei de duas Criações de Saberes (Criação do sintoma psicanalítico e do inconsciente) que alcançam um limite e que não o ultrapassaram. Podemos até traçar um paralelo com o achado freudiano do rochedo da castração. Freud chega até esse limite e pensa ser impossível ultrapassá-lo, mas vem Lacan e nos diz que é nesse além do rochedo da castração que algo diferente pode ser Criado. É aqui que penso que podemos começar a articular a Repetição com a Criação.

A pergunta que surge neste momento do trabalho é:

Como podemos transpor esse limite do Saber e com isso mudar a relação do paciente com o sintoma? O que isso tem a ver com a Repetição Tychê?

Para começar a responder essa questão, acredito que é nesse momento de falha no Saber, no limite do Saber, onde pode ser possível produzir a Repetição (Tychê). Já que o Saber encontra um limite, não seria possível pensar em ultrapassar esse limite com mais Saber. Ademais, penso que produzir mais Saber só iria colaborar para que o paciente evitasse ainda mais de se deparar com a inconsistência do Outro, com o real da castração do Outro.

Para que se lembrem, eu disse alguns minutos atrás que o paciente coloca a figura do analista na estrutura do seu sintoma por meio da transferência (Dei o exemplo por meio do recorte). No entanto, é importante que o analista consiga ler isso que se apresenta em transferência e localize o “ponto” onde há essa fixação de excesso de gozo onde o paciente tenta negar, anular, a castração do Outro por meio, por exemplo, de um sintoma. Penso que essa dinâmica se mostra em transferência nesse momento, pois a figura do analista é convocada a encarnar o ‘a’ postiço do paciente que serviria de tampão para esse buraco (castração) no Outro.

Se o analista conseguir ler isso que se apresenta na cena da transferência, ele pode lançar mão de uma manobra que possibilite cair desse lugar que o paciente o colocou e com isso atualizar esse des-encontro, que existe na estrutura do sujeito, entre sua satisfação esperada e a satisfação encontrada.

Trago um exemplo famoso para tentar ilustrar essa manobra.

O exemplo se trata do documentário intitulado “Encontro com Lacan”. Nele há o relato de uma mulher que fez análise com Lacan e que teve uma sofrida experiência com a II Guerra. Dizia que lembranças dessa época atormentavam sua existência de forma insistente. Essa paciente dá o testemunho de uma intervenção de Lacan que podemos articular com o desencontro da Tychê.

Em uma sessão, a mulher relata um pesadelo que tinha como enredo a II Guerra; precisamente que a Gestapo (polícia secreta de Hitler) entrava, às 5 horas da manhã, nas casas procurando judeus. Conta que quando Lacan ouviu a palavra Gestapo, se levantou de sua poltrona e, como uma flecha, andou em sua direção, e fez um “gesto carinhoso na pele” (geste à peau). Notem que Lacan não interviu pela via do Saber, pois não sublinha repetindo a expressão dita pela paciente; não pede para associar; não dá sentido; etc. Parece-me que ali, com sua intervenção, se escancara, se mostra, em ato, esse limite do Saber colocando a paciente num estado vacilante, desconcertante, de extrema estranheza.

Considerando este exemplo, penso que são nesses momentos que, de forma pontual e puntiforme, o paciente é colocado frente a frente com o limite de seu campo representacional (Saber) e com isso é convidado a dar um passo além desse limite (do Saber). Pois nesse mais além do Saber pode encontrar um vazio; com possibilidade de Criação.

Antes de avançar, acho importante precisar um pouco essa ideia de vazio.

Esse vazio se relaciona diretamente com o real da castração do Outro que é, na neurose, algo a ser evitado por meio do fantasma, do Saber, do sintoma, etc. Esse vazio existe porque a linguagem existe, portanto é estrutural. A partir do momento em que o sujeito é lançado na estrutura da linguagem, ele perde toda e qualquer referência à sua inteligência instintual. Nesse sentido, nunca haverá um objeto que possa se encaixar perfeitamente às necessidades do humano. Como o objeto está sempre mal encaixado, ele pode se soltar e cair desse lugar para ser substituído.

Como não há encaixe perfeito, existe, então, a possibilidade de que esse vazio possa surgir sempre que o objeto postiço se desprenda desse lugar. Podemos pensar que a função do sintoma é sustentar esse objeto postiço para cobrir esse vazio. Como falei anteriormente, o analista, em transferência, num dado momento do tratamento, também é colocado pelo paciente como objeto postiço para tampar esse vazio; sobretudo quando convoca o analista a participar da estrutura do seu sintoma. Acredito que o analista deve se servir disso (ser colocado como tampão para o vazio) para então poder cair desse lugar e fazer com que o vazio seja  atualizado. Assim, a “castração do Outro pode ser interpretada”, nos diz Isidoro Vegh. De objeto mais-de-gozar (tampão do vazio) faz a passagem para objeto causa do desejo (abertura do vazio) no momento da queda. É nesse sentido que o analista é peça fundamental para ocorrência do des-encontro da Tychê, que nada mais é do que essa atualização do vazio, atualização do real da castração do Outro.

Acredito que é a partir desse vazio que se pode fazer uma Criação diferente das que disse anteriormente (Criação do sintoma analítico e Criação do inconsciente). Se antes o paciente Criou para poder tampar um vazio, nesses momentos em que o vazio é atualizado há aí um convite feito do analista ao paciente para que se possa Criar de outra forma, não mais tentando tampar um vazio, mas à maneira do artesão oleiro (aquele que faz vasos). Assim, de tantos desencontros promovidos pela figura do analista, talvez o paciente possa, em algum momento, Criar sua arte sustentando e delimitando um buraco, um vazio, e não mais tentando suprimi-lo.

Para finalizar, gostaria de trazer outro exemplo para ilustrar essa Criação à maneira do oleiro, que, na realidade, é um artesão de buracos, de vazios. Roberto Harari, num dos seminários sobre Joyce, afirma que o autor tem um estilo que não possibilita ao leitor se identificar com a obra. Não há sentidos claros e nem fechamento de sentidos. Ao contrário disso, em algumas de suas obras há muitos enigmas e falta de sentidos; portanto, segundo Harari, há nesse estilo a preservação do vazio. A obra de Joyce nos permite, então, pensar que Criar a partir do vazio é reconhecer sua existência e não tentar suprimi-lo totalmente, mas de poder conviver o menos dolorosamente possível ao lado desse vazio, dos enigmas e dos acasos que a vida nos impõe. Poder se posicionar de forma diferente ao vazio, ser um artesão oleiro de sua vida e hystória.

Penso que a Tychê é o meio pelo qual se permite, de des-encontro a des-encontro, alcançar a tal Criação que veicule e sustente o vazio. Ao contrário daquelas Criações, que citei inicialmente, que tentem tampá-lo. É por meio da Tychê que o analista, ao fazer semblante desse objeto ‘a’, em sua queda calculada do vazio, pode ajudar o paciente a transpor o limite do Saber e, assim, possibilitar ao paciente fazer uma Criação que o desprenda, minimamente, do Saber que o adoecia para que assim possa seguir sua vida… criando, tecendo e transmitindo vazios… Obrigado…

 

Autor: Edinei Hideki Suzuk

 

1Sempre que falar Repetição estarei falando da Tychê, do encontro faltoso e não do automaton. Neste trabalho, em vez de falar de automaton, preferi utilizar a palavra insistência, que penso ter mais a ver com a insistência da satisfação de gozo/sofrimento que um sintoma traz para o sujeito. 

2 Metáfora da cebola. A cada camada retirada em direção ao núcleo da cebola a resistência se intensifica.

Os Pronomes na Posição Estrutural da Criança

Sujeito e Estrutura, quem é este pequeno sujeito do discurso do Outro? E que posição estrutural por vezes subversiva, se autoriza e é autorizado a transitar e, desta forma, apresentar diferentes sinthomas em busca de sobrevivência em seu contexto familiar e social? Pretendo, por intermédio deste escrito, fazer algumas considerações de possíveis colocações linguageira às demandas de crianças na formação estrutural a qual esta submetida.

Lacan (1967) escreve a respeito do infans como àquele que vem ocupar um lugar marcado pelo desejo materno, se alienando na imagem de um Outro. Isso instaura uma relação dual, especular, imaginária, onde a criança sofre de uma dependência quase que total na demanda pelo amor da mãe, capturada por este olhar com o qual ela se identifica e se aliena. Freud (1897) posiciona o papel fundamental do narcisismo parental como retorno e reprodução de seu próprio narcisismo, porém, a mãe no seu desejo narcísico da dimensão a sua fantasmática e, podendo fazer operação alienatória com o bebê, onde o mesmo não possa sair da sua dependência e, neste caso, o eu fica fragmentado e ligado a uma extensão parental necessitando de um Outro para responder por ela.

Também coloca o pai com a função primordial como operador do interdito. Naturalmente não se trata do pai enquanto presença ou ausência concreta, mas enquanto dimensão simbólica que exerce uma dupla castração, ambas a mãe e criança, um interdito que introduz a Lei e, desta forma, possibilita à criança entrar na ordem da linguagem. São operações necessárias, alienação e separação, para que a criança saia da posição de ser objeto de desejo da mãe, para que possa se constituir como um sujeito desejante.

Portanto o desenvolvimento do ser humano sua posição estrutural psíquica está relacionada com os tempos do Real, Simbólico e Imaginário conceituado por Lacan (1971) e, mediante aos seus tempos lógicos o possibilita a saída da posição de ser o objeto a vir a ser sujeito de desejo. A respeito destes tempos a psicanalista Alba Flesler (2012) se utiliza da leitura de Freud e Lacan, e apresenta os tempos do sujeito no qual me detenho a descrever os três primeiros, pois, se refere à pequena criança. Desta forma o primeiro tempo descrito é o da criança de ser ou não o falo da mãe onde um Outro propõe e o bebê responde, se realiza uma alienação garantindo de certa forma às condições de sobrevivência do bebê. Em um segundo tempo é pulsante, pois a criança vê a castração do Outro primordial onde antes se dizia sim a criança, deverá responder não, para que se possa permitir que a separação se opere e, é neste tempo de alienação e separação em que o sujeito se efetua como resposta. No terceiro tempo o desejo dos pais dá ao pequeno sujeito um lugar, não mais de ser o falo, mas um lugar que legitima ter o falo e após este dá início a um tempo para compreender.

Na atualidade estamos vivenciando diversas adversidades que permeam determinados contextos familiares e sociais e, desta forma, a criança, permeia e fica marcada em uma posição de dependência estrutural frente a estas, uma vez que há um entrelaçamento do seu sinthoma a demanda, ela encontra uma forma de sobrevivência e busca ser aceita pelos pais e pela sociedade em que vive. Lacan (1969) faz apontamento onde, o “(…) o sintoma da criança é capaz de responder ao que há de sintomático na estrutura familiar.” Lacan faz uso da homofonia descrevendo como sinthoma com “h” da ordem da enfermidade psíquica, como o “Sintoma da estrutura ou da formação inconsciente da estrutura, com que o sujeito responde a demanda do outro”. A partir dos efeitos entre o imaginário, simbólico e real, Maud Mannoni (1987) relacionou o sintoma da criança em relação ao discurso, pois na relação da criança com o Outro simbólico (lugar da palavra), ou com o outro imaginário, não se trata de diálogo e sim de discurso.

O sintoma é criado, construído, é uma produção originária do próprio sujeito. Dos diferentes sintomas que a criança apresenta, serve para fazer um corte ou ir em direção à demanda do Outro. Portanto, para Zornig (2001 p.186 e 187) a neurose infantil pode indicar o “processo de construção da realidade psíquica do sujeito, em que os sintomas constituem uma tentativa de interpretação e de subjetivação podendo ser reeditada na neurose infantil é repetida” complementa “como um remanejamento fantasmático do sujeito sobre sua própria infância, permitindo-lhe reescrever sua história”. Os sintomas neuróticos na infância, para autora, de uma forma estão ligados aos sintomas parentais e na inserção do trabalho analítico, possibilita a criança na elaboração das suas próprias questões, construindo sua neurose infantil.

Nos escritos Os complexos Familiares, Lacan (1938/1987, p. 13) aponta que “entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura”. Portanto, faço aqui inferência a respeito do social de forma exacerbada na atualidade, no que se diz respeito ao meio em que vivemos, há um atravessamento nas demandas externas concomitante com as dos pais direcionadas a infância. E mediante ao lugar dado a pequena criança de acordo de como seu buraco constitutivo foi enodado pelo RSI, vai apresentar sinthomas e Outro social os confirma medicando para justificá-los nas suas inquietações e deficiências entre outros percebidos por ele e cuidadores.

Retomando a temática deste escrito, para elucidar sucintamente o uso da palavra pronome, a qual permite fazer apontamento de como o Outro faz nomeação e significa o outro. Lacan se apropriou de alguns conceitos linguísticos para desenvolver e evidenciar de que o inconsciente é estruturado como linguagem. Portanto a função da linguagem enquanto para a linguística é a comunicação, para a psicanálise é a evocação. A fala como ato de discurso, e não como ato de fonação, implica sempre dirigir uma mensagem para alguém, demandando uma resposta. Neste sentido, é através da fala que se realiza a função da linguagem.

A partir das operações constitutivas apresentadas anteriormente neste escrito, quando algumas não estão presentes ou não realizados, por exemplo, da alienação primordial ao não realizar a separação, possibilita a pequena criança a permear uma constituição estrutural psíquica psicótica, onde o mesmo possa apresentar uma linguagem de referencia a si mesmo na terceira pessoa não se identificando como sujeito singular ou seja não tendo um discurso próprio. Por outro lado existem as demandas familiares e sociais que faz com que sujeito apresente um eu que se faz necessário para sobreviver diante das adversidades vivenciadas. Um eu que se constituí subjetivamente permeando uma estrutura esburacada pela linguagem.

Esta estrutura faz com que este eu possa se fazer perceber e ser percebido. E, a respeito destas percepções, Lacan nos seus escritos do estádio do espelho, faz referencia à imagem como papel fundadora na constituição do eu e na matriz simbólica do sujeito, definindo a identificação, nessa perspectiva, como “a transformação produzida no sujeito quando assume uma imagem”, portanto, uma imagem de um sujeito de borda que, quando marcado pela falta, desfragmentado se veste e é vestido para responder seu próprio gozo e, por vezes, o gozo do Outro.

Lacan apresenta a imagem corporal como capaz de um efeito formador. Por meio de uma identificação primordial do sujeito com a imagem, no qual constitui uma subjetividade, fase esta que está relacionada ao estádio do espelho. Um momento lógico na estruturação do sujeito, ou seja, ele “não é simplesmente um momento do desenvolvimento”, mais, um estatuto fenomenológico e estrutural.

Para finalizar não posso deixar de citar, os quanto determinados sujeitos estão vivendo com intensidade e compromisso a sua formação profissional no intuito de responder o mercado de trabalho e o social de forma imediata devido à concorrência pessoal e ou profissional com primazia. Desta forma, no que se diz respeito à criança frente a sua formação estrutural familiar, ela tem que dar conta de se organizar para ser aceito mediante ao gozo do Outro. As instituições sociais e de ensino, no que se faz perceber na atualidade, querem que as crianças não vivenciem seus tempos lógicos e sim seus tempos cronológicos respondendo a demanda desses Outros que, por vezes, se colocam como autoridade do saber ou na concorrência capitalista.

Na inserção do trabalho analítico, abre a oportunidade da criança elaborar as suas próprias questões. Pois, o que vivenciamos hoje está permeado e atravessado pela linguagem cultural e social onde o lugar dado à criança responde as demandas dos cuidadores ou instituição de forma que possa vir a ser de forma suportável e controlável. Desta forma, como escreve Flesler (2012, p.158), “na clinica ao atender uma criança, o analista precisa delimitar desde o início não somente o tempo do sujeito, mas essencialmente os destempos e contratempos que seus sofrimentos expressam”. (sintoma da cça).

 

Autora: Adriana Regina Piotto Tirola
Psicóloga Clínica – Membro da ALPL

Referencias Bibliográficas.

BERNARDINO, Leda Mariza Fischer; KUPFER, Maria Cristina Machado. A criança como mestre do gozo da família atual: desdobramentos da “pesquisa de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantil”. Rev. Mal-Estar Subj., Fortaleza , v. 8, n. 3, set. 2008 . Disponível em . acessos em 20 out. 2014.

FLESLER, Alba. A Psicanálise de Crianças: e o lugar dos pais. Rio de Janeiro. Zahar, 2012.

Instituto Antonio Houaiss. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1ª Ed. Rio de Janeiro. Objetiva, 2001.

Lacan, J. 2005 [1962-1963]). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, J. (1998a). O estádio do espelho como formador da função do eu. In: Escritos (pp.96-103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Texto original publicado em 1966).

Lacan, J. (1986). O Seminário Livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Texto original publicado em 1975).

LACAN, J. (1969). Duas notas sobre a criança. Ornicar? Revue du champ freudien, n-37, avril-jun. Opção Lacaniana Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo, abril, (1998).

Lacan, J. (1938) Os complexos familiares. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.

ZORNIG, Silvia Abu-Jamra. Neurose Infantil, Neurose da Infância. Psyché, julho-dezembro. Ano/vol. V, numero 008 Universidade São Marcos. São Paulo, Brasil PP. 183-190. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/pdf/307/30700813.pdf Acesso dia 12 nov 2014.

Vivencia de Satisfação Que a Criança Apresenta e a Função do Analista

Freud entre os anos de 1886/1889 escreve sobre o Projeto para uma psicologia científica e fala sobre a experiência de satisfação na constituição psíquica do ser humano, antes mesmo da experiência de análise que teve com o pequeno Hans em 1909. Freud falou da condição que o possibilitou inicialmente a análise com a criança. Quando ele analisou o pequeno Hans, só foi possível devido o pai do analisante, ter feito o papel de intermediador, ele teria sido como o fio condutor.

Este fio condutor foi a extensão que permitiu a compreensão do analista a respeito do sintoma apresentado pelo pequeno Hans, a fobia. Portanto, o funcionamento psíquico relaciona-se a experiência de satisfação em ação, segundo Freud (1886/1889), a presença atuante de uma catexia no sistema neuronal de um sujeito, sucede para deixar seus resíduos como a dor e a satisfação, as quais vão sendo marcadas no sujeito por intermédio de um Outro. Estes são os afetos e os desejos. A totalidade deste evento é constituído e tem as conseqüências inerentes ao desenvolvimento das funções do indivíduo e, cujo paradigma é a amamentação, a qual compõe o que Freud chama de Nebenmensch ou o complexo do próximo.

Rinaldi (1999) descreve que ao começar o Projeto, Freud “formula a noção de “complexo do próximo” ele já indica esta torção fundamental, onde interno e externo se encontram, uma vez que a fundação da subjetividade pressupõe a alteridade”. Há necessidade de intervenção por este Outro externo, para que se possa suspender, em um determinado momento, a descarga que esta sendo aliviada no interior do corpo. De acordo com Freud, “uma intervenção dessa ordem requer alteração no mundo externo, como a ação é específica, só pode ser promovida de determinadas maneiras”, pois, o “organismo humano é, a princípio, incapaz de promover esta ação específica” e, neste caso, realiza-se por ajuda alheia. A via de descarga adquire, neste caso, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. Por outro lado, quando se trata de um mal que advêm de estímulo externo, uma ação pode evitar alguns efeitos, porém, se este for interno, a criança não tem como escapar da problemática exposta sem a intervenção de um cuidador.

A respeito da experiência da dor vivenciada na constituição psíquica do ser humano, ocorre porque os dispositivos de proteção falham, isto é, há uma grande invasão de catexias provocando esta dor que é sentida, uma sensação consciente nomeada como desprazer. De acordo com Freud (1886/1889, p.372) esta dor “possui uma qualidade especial, que se faz sentir junto com o desprazer”. A semelhança do objeto mnêmico faz com que o sujeito sofra novamente uma catexia da mesma proporção que a original. Portanto, devido ao investimento da imagem mnêmica, pressupõe que, o desprazer é liberado do interior do corpo e de novo transmitido. O registro da percepção não é suficiente para que haja a dor, assim vai poder inscrever no corpo do sujeito, as marcas intermediadas pela fala da mãe ou cuidadora,
formando assim uma espécie de segunda pele como uma rede de significantes no intuito de haver uma funcionalidade protetora da ordem psíquica. Ao vivenciar o processo estrutural e as marcas psíquicas, a criança vai se constituindo de acordo com que lhe vai sendo permitido internalizar e de se tornar um ser da linguagem.

Portanto, a relação parental ou dos cuidadores, é fundamental para instituição de uma boa formação da estrutura psíquica, dentro do que a psicanálise conceitua uma posição do sujeito na estrutura neurótica. Bernardino (2009, p.215-221) aponta a preocupação de Lacan em seus escritos sobre o processo de constituição do sujeito, ele apresenta de uma forma com que outros possam “compreender os enigmas a respeito das operações psíquicas necessárias para o surgimento de um sujeito de desejo”. E, neste discurso, Lacan apresenta “a dialética presença / ausência no qual o objeto se constitui enquanto simbólico, a partir da ausência e do desejo da presença”.

Portanto, na lógica, a estruturação do sujeito é necessária perpassar pela a alienação e separação, onde, ao referir-se a criança, é ela ser no outro. Chemama (1995) coloca que para que o outro tenha a possibilidade de se apropriar de uma versão do desejo do outro e que possa tomá-la como própria, é devidamente necessário que a mesma possa se separar deste outro a qual ela está alienada. Quando não, a perda da realidade na neurose, seqüência os conflitos, e a conseqüências destes, seria um dado da psicose, como substituto da realidade ocupou o lugar de alguma coisa for cluída, enquanto na neurose é reorganizada em um registro simbólico.

A Função do Analista

A partir da breve apresentação da constituição do sujeito na visão teórica psicanalítica, quando a criança chega até o analista por intermédio dos pais, cuidadores ou instituições, ela se apresenta de acordo com seu processo estrutural, pois, a criança, ainda pequena necessita de um Outro para se constituir. Esta estrutura, no entanto, pode estar exprimindo aquilo que a faz se sustentar no meio em que vive. Portanto, o analista recebe a criança que está implicada nas fantasmáticas. Pois, de forma subjetiva, ela se coloca em uma posição que coincide com aquela que lhe foi atribuída.

O analista deve levar em consideração que a estrutura deste pequeno sujeito, não é algo concluso, e que ela é, o que o sujeito pode responder, possibilitando, neste caso, respostas estruturais variadas além de uma predominante, mas, o que não impede outras respostas que possa advir. Vorcaro (1999) fala que o sintoma é, portanto, o de um conflito próprio do sujeito (p.90),”… a análise é a possibilidade de deixar a criança fazer sua neurose tranquila, saída da posição infantil de falo materno”.

Na clínica, o analista não fica centrado no sintoma que a criança apresenta, mas, ele aposta em poder atingir este sintoma apresentado por ela, não de forma com que ele desapareça. Ele, por intermédio de algum tipo de intervenção poderá deslocá-lo ou até mesmo torná-lo mais suportável para este pequeno sujeito. Brandão (2011, p.44) escreve sobre o quanto é importante “a função do terapeuta como mediador ou viabilizador de situações aparentemente singelas, mas de difícil resolução para a família”. Então, por intermédio da psicanálise o bebê é atendido, podendo obter ajuda na sua estrutura enquanto infans, e, utiliza como ferramenta, diversos profissionais que, por vezes, pode organizar problemas psíquicos apresentados pelo mesmo.

As respostas que a criança apresenta na clínica, estão de acordo com a sua estrutura e, estas, apontam e mostram sua vivencia de satisfação com os pais ou cuidadores, de uma forma em que estas satisfações lhe permite suporte para o ser no mundo, inclusive para seu adoecimento. Segundo Dolto;

Quaisquer que sejam os problemas da criança, a hipótese geral é de
que ela sofre de uma angustia de culpa inconsciente cujos os
sintomas são ao mesmo tempo a prova e o recurso que sua natureza
entregue a si mesma encontrou para canalizar essa angustia e
impedir a criança de destruir mais gravemente o equilíbrio de sua
saúde (2008, p.77).

Este lugar que está dado à criança pela família ou cuidador, o analista no campo transferencial, tem a oportunidade de poder fazer a leitura do traço significante o qual está marcado na criança, principalmente quando ela está colocando em ato e, este agir, pode ser uma das maneiras de compreender e obter conhecimento de como lidar com o acting out. A criança, como descreve Dolto (2008) assim como o adulto, sabe fazer a diferença entre o trabalho psicoterápico e a realidade das relações humanas na vida social, então, ela responde por meio das ferramentas que são possíveis de respostas, exemplos como no lúdico, dinâmicas, e diversas linguagens que estão em ação que, o analista em função, tem possibilidade de captar.

 

Autoria: Adriana Regina Piotto Tirola
Psicóloga Clínica -Membro da ALPL

Referências Bibliográficas

BERNARDINO, Leda Maria Fischer. Lacan e os bebês: novas perspectivas. In, A Criança e os Adolescentes no Século XXI: desafios psicanalíticos, políticos e sociais. Org. Centro de Estudos Freudianos do Recife. Recife. Escola de Estudos Psicanalítico, 2009.

BRANDÃO, Paulo Cesar D’Avila. A função do ambiente nos tratamentos de crianças em área instrumental. In Escritos da Criança vol.1. 3º Ed. Porto Alegre. Centro Lydia Coriat, 2011.

CHEMAMA, Roland. Dicionário da Psicanálise Larousse. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

DOLTO, Françoise; NASIO, J.D. A Criança do Espelho. Rio de Janeiro. Zahar, 2008.

FREUD, Sigmund. Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos. Trabalho original publicado em 1886-1889 / Vol. I – Rio de Janeiro. IMAGO, 2006.

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JERUSALINKY, Alfredo. Psicanálise e o Desenvolvimento Infantil: Um enfoque transdisciplinar. Porto Alegre. Artes Médicas, 1989.

OLIVEIRA, Nair Macena. Projeto Para uma Psicologia Científica (Freud- 1895) e a Constituição do Aparelho Psíquico. Artigo 13 jul. 2012 p. 01-07. Disponível em: < http://www.freudlacan.com.br/acerca-do-texto-projeto-parauma-psicologia-cientifica-freud-1895-e-a-constituicao-do-aparelho-psiquico/.> Acesso em: 03 jul. 2013.

RINALDI, Doris. Culpa e Angustia: algumas notas sobre as notas de Freud (1999 – 1º artigo apresentado). Disponível em: < www.interseccaopsicanalitica.com.br/…/doris_rinaldi/Doris_Rinaldi_Culp…> Acesso dia 21 de Nov. 2013.

VORCARO, Angela. Crianças na Psicanálise: clínica, instituição, laço social. Rio de Janeiro. Companhia de Freud, 1999.