O Sinthoma e as Estruturas Clinicas

O estudo do Seminário 23 de Lacan (2007), o sinthoma, foi um convite para pensar o Sujeito e a Estrutura, tema que diz respeito ao eixo que norteou os trabalhos realizados esse ano na Associação. Diante disso teço aqui algumas considerações e pontuações que foi possível fazer a partir desse estudo.

Nesse momento de seu ensino Lacan (2007) trabalha a topologia demonstrando, na forma como constrói e desconstrói o nó borromeu, que não se trata de uma estrutura que busca dar conta de descrever uma configuração totalizante a respeito do sujeito.

Essa estrutura que é configurada pelos registros enodados do Real, do Simbólico e do Imaginário, possui uma propriedade estrita de que: ao se separar um dos registros o nó se desfaz, condição, que como nos lembra Harari (2002), é confirmada no só depois, como uma produção resultante do processo de subjetivação do sujeito. Nesse ponto lembramos que o sujeito da psicanálise é um sujeito de estrutura que se constitui em tempos, em que funções e operações devem acontecer. Em cada etapa da operação, nesses tempos lógicos de subjetivação, Alba Flesler (2012) localiza a predominância de um dos registros. O que essa predominância vem nos indicar não é a prevalência de um registro sobre os demais, Lacan (2007) deixa claro que nenhum dos registros tem maior importância do que os outros. Antes disso essa predominância aponta para os limites que cada registro faz sobre o outro. Harari (2002) lembra que ao utilizar da planificação da topologia do nó, Lacan (2007) torna possível pensar nas invasões, avanços ou imisções de cada um dos registros nos demais, além do objeto a que é posicionado no centro dessa estrutura. Lacan (2007) assinala que essas invasões funcionam como nomeação, assim na nomeação do Imaginário temos a Inibição, na nomeação do Simbólico o Sintoma e na nomeação do Real a Angústia. A nomeação é atributo da função Nome do Pai, que de acordo com Vegh (2009) permite fazer furo no gozo. Cada uma dessas invasões anuncia a necessidade de um gozo a ser perdido, orientando o nó em um bom enlace. Assim bem orientado, cada registro pode fazer-se limite e, portanto, nome do pai aos outros registros. Esse bom enlace não significa, no entanto que não haverá falhas e cada um vai encontrar a sua forma de suplência. A boa orientação da estrutura, como já assinalado, também não significa que nenhum mal estar se produza, mas se não for assim pode ser pior.

Lacan, nesse seminário analisa como Joyce pode através de sua escrita produzir a sua forma de suplência. Harari (2002) faz uma importante observação sobre o trabalho realizado por Lacan (2007) a respeito de Joyce em que “a tarefa reside em pôr o acento na função da obra, implicando o seu autor” (p.47), e aqui podemos entender implicando a sua estrutura. Nesse sentido, a partir de observações realizadas por aqueles que antes dele se dedicaram a estudar Joyce, e também pela leitura atenta de sua obra, Lacan (2007) destaca o caráter autorreferente de sua escrita. Fato que o leva a indicar a falha na função Nome do Pai na estrutura de Joyce. No livro de Joyce, “O Retrato do artista quando jovem”, o pai do protagonista, é inspirado no pai do autor, John Joyce, ele é descrito nesse texto como alguém decadente, ordinário, um pai falido (Bulcão, 2014). Se a função Nome do Pai é fraca o atributo de nomeação também o será, comprometendo o bom enlace da estrutura. Em Joyce Lacan (2007) afirma haver um erro no nó, que fazia com que o imaginário se perdesse. Sobre isso Vegh (2009) destaca, como uma descrição dessa perda do Imaginário, um paragrafo do “Retrato do artista quando jovem” (Joyce, 1986, apud Vegh 2009). Nessa passagem há um relato de quando os companheiros do protagonista, Stephen Dédalus, o castigam batendo nele com uma surra terrível, porque ele se nega a corrigir sua afirmação sobre quem seria o melhor poeta inglês. Sobre essa surra diz: “que o que mais o surpreende é que não consegue sentir ódio, que o ódio se vai como se a pele se desprendesse” (Vegh, 2009, p.70).

Em seu seminário Lacan (2007) deixa-se interrogar sobre as relações formais em jogo na escrita de Joyce, e como ela, como uma criação do autor faz suplência à função nome do pai. Formando um quarto aro que enoda os demais registros para que a estrutura não se desfaça. Funcionando assim como sinthoma.

Pretendo aqui, de forma simples, destacar algumas das características desse enodamento que Lacan (2007) desenvolve ponto a ponto nesse seminário. Começo pela distinção do sintoma, entendido como o que na estrutura se apresenta como efeito do Simbólico no Real, e o sinthoma com th, que em Joyce tem o efeito de suplência. No primeiro o sujeito está implicado quando diz tê-lo e padecer dele, obstruindo o seu impulso e restringindo a sua margem de liberdade (Harari, 2002). Ele se apresenta como uma mensagem que é dirigida ao Outro. Assim nos diz Lacan (2007) ele é transitivo, nele há dois devido a essa referência que se faz ao Outro. Esses são aspectos que não se apresentam na escrita de Joyce. Harari (2002) observa que embora Joyce tenha se preocupado em publicar os seus escritos, ele dá muito mais importância a sua invenção do que a sua circulação. Sobre isso Lacan destaca a autossuficiência de Joyce como uma formação psíquica em hiância com o Outro (Harari, 2002, p.215). Para Lacan (2007) o número do sinthoma é um, pois ele é intransitivo, comporta uma constelação psíquica intransitiva. Não transita entre o sujeito e o Outro, não dirige ao Outro nenhuma mensagem a ser decifrada.

A sua obra é um artificio que ele cria e que torna possível para ele se libertar de uma linguagem adquirida, que nem é criada por ele e nem pode ser usada, um idioma que não faz relação com a função Nome do Pai. Esse artificio que ele cria, com a sua escrita inventiva, é para ele inconsciente, ou seja, ele o faz sem saber. O que faz com que Lacan (2007) afirme ser ele um artista. Uma arte que como aponta Harari (2012) consegue tocar em pedaços do real, fazendo sulcos, em uma prática que ele faz com ardor.

Esse quarto aro que Joyce artificia com a sua escrita é singular, como o que o distingue não o incluindo em um caso geral. Tomando Joyce como paradigma Lacan (2007) nos mostra que diante da demanda do Outro o sujeito pode responder com um “mais isso não”, uma resposta que tem um valor não negociável, não tramitável, onde se assenta a sua singularidade.

Finalizando gostaria de acrescentar que Lacan (2007) nos convida, nesse seminário, à desconstrução. Desfazer para fazer de outra forma e ainda mais uma e quantas forem. Trabalho que alcança a clinica, e que nos leva a sempre considerar o espaço que o sujeito tem para, como artificie, transformar o seu sofrimento em criação, em um “fazer com” se valendo de sua estrutura. 

Autora: Mônica Maria Silva
Psicóloga clinica CRP 08/14090
Clinica L´espacepsy Psicanálise
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina.

Texto apresentado na II Jornada da Associação Livre Psicanálise em Londrina – 21 e 22 de Novembro de 2014

 

Referência Bibliográfica

Bulcão, M.S.M. Sintoma e sinthoma: duas vertentes na arte de James Joyce. Retirado de Harari, R. Como se chama James Joyce?: a partir do seminário Le Sinthome de J.Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2002

Flesler, A. A psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar, 2012

Lacan, J. O seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

Vegh, I. A angústia e a orientação do sujeito. Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 36, p. 60-74, jan./jun. 2009.

Reflexões Sobre o Narcisismo

O interesse sobre o tema do narcisismo surgiu a partir do que se iniciou como um grupo de estudo e se transformou em estudo de cartel, do qual participo desde 2014. Começamos estudando Freud e neste ano iniciamos o estudo dos textos de Lacan com esse fio condutor: estudar o narcisismo em Lacan. Embora sejam reflexões proponho um direcionamento que aponta para a estruturação do sujeito como também para o trabalho com a clinica.

O que trago hoje tem muito mais de Freud e algumas primeiras reflexões sobre a teoria Lacaniana.

Freud trabalha esse tema principalmente no texto de 1914 que leva o narcisismo no título: Narcisismo: uma introdução. Nele ele trata do funcionamento libidinal a partir de três modos sequenciais: autoerotismo, narcisismo e escolha de objeto.

Tendo em mente a concepção do sujeito, como um ser faltante que buscará o reencontro com o objeto suposto de satisfação plena. Podemos entender que Freud vai então dizer que inicialmente o sujeito irá empreender essa busca de uma forma auto erótica, dando como exemplo a tomada do corpo, ou de partes do corpo como fonte de prazer e de satisfação pulsional. Um corpo fragmentado, que produz satisfação em suas diferentes partes. Ele dá como exemplo o bebê que suga o seu dedo buscando reproduzir a satisfação que foi encontrada ao sugar o seio materno.

O narcisismo demarca a saída desse modo de funcionamento libidinal auto erótico. O que seria para Freud o narcisismo? O investimento libidinal no próprio eu. Ou seja, não é mais em partes fragmentadas do corpo, mas em uma unidade – o eu. Assim ele diz que para sair do auto erotismo é preciso que uma ação psíquica aconteça que é a constituição do eu.

Temos que para que o sujeito possa investir em objetos externos é preciso que ele tenha a possibilidade de armazenar um quantum de libido no eu, para que ela possa ser, a partir disso, investida em objetos externos. Concomitante ao narcisismo temos a possibilidade do sujeito em unificar uma imagem corporal.

Lacan traz com a sua formulação sobre o estádio do espelho uma possibilidade de
compreendermos esse processo e o que se passa nessa relação com o outro. Embora se
localize essa fase por volta dos seis meses de idade, e nessa relação com a possibilidade de o
bebê contemplar a sua imagem no espelho, o estádio do espelho não se refere a essa
experiência concreta, mas aos efeitos dela, ou seja, ao tipo de relação da criança com o outro,
uma relação imaginária. Ao procurar a realidade de si, o sujeito – a criança se aliena a essa
parte com a qual ela se identifica e que lhe chega a partir do outro.

Aqui, nessa proposta de refletir sobre o narcisismo, gostaria de marcar essa importância do outro, da presença do outro. É importante para o sujeito que exista esse outro que devolva para ele essa imagem com a qual ele se aliena. Como também é importante que ele possa de forma um pouco mais autônoma investir em objetos externos. Um pouco mais autônoma, mas nunca completamente assim, pois como Freud já afirmava esse investimento em objetos externos é uma tentativa de reencontrar uma ilusão idealizada vivida na fase narcísica.

Uma primeira questão que levanto é: será que podemos pensar essas etapas (autoerotimso, narcisismo e escolha de objeto), não em tempos cronológico, mas em tempos lógicos?

Como um processo, uma operação, inserida nos tempos lógicos de constituição psíquica. Considerando esse sujeito em sua constituição a partir do enodamento dos três registros do Real, Simbólico e Imaginário.

Assim tanto no plano do autoerotismo, do narcisismo e da escolha de objeto estariam implicados também o modo de enodamento nessa estrutura de amor, desejo e gozo. Se não pensamos em cronologia não desconsideramos as possibilidades que o sujeito tem de se valer de sua estrutura para responder as demandas que lhe chegam. Não dá para desconsiderar o estado de dependência que um bebê de seis meses, por exemplo, possui, mas também não devemos desconsiderar as possibilidades que ele já tem de resposta.

Com esse direcionamento penso nas implicações do narcisismo na clinica. Quando recebemos um paciente em analise o trabalho que ele se propõe a fazer ali implica, poderíamos dizer um reposicionamento narcísico. Uma vez que ao se tratar de um tempo lógico, está ai com esse sujeito que, sendo adulto, não está mais as voltas com as primeiras experiências de surpresa e júbilo diante da assunção de sua imagem no espelho, mas são ainda os efeitos disso.

O que me faz pensar nessa relação entre o narcisismo e o percurso de uma análise.

Para me auxiliar nessa reflexão vou me valer de um conto, gosto muito desse estilo literário talvez porque penso que neles o autor construa de uma forma mais livre a história. E gosto do Guimarães Rosa, e tem um conto dele que há dois anos vem sempre a minha lembrança quando penso nesse tema e nessa relação que acabo de propor entre o narcisismo e o percurso de uma análise, uma vez que percebo na empreitada que o narrador faz a semelhança do trabalho feito em uma análise. O conto tem um titulo sugestivo: o espelho.

O narrador trata de uma tarefa que realiza com o proposito de explicar o que é um espelho e convida o leitor a segui-lo. Inicia dizendo sobre como as pessoas passam despercebidas pela importância que tem o espelho. Para explicar essa importância ele se lança em uma experiência que é de analisar a sua própria imagem, em uma tentativa de explicar como ela se constitui, se propondo a um modo de focar a visão de olhar não-vendo, assim diz que pouco a pouco no espelho via reproduzir-se a sua figura de forma lacunar, apareciam os elementos hereditário e exclama: Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto.

Momento de perceber os efeitos que tem para o sujeito o atravessamento da linguagem, desse discurso que o antecede, e que nem mesmo no ovo o pinto está intacto.

O narrador segue relatando a sua empreitada de ir aos poucos se desvencilhando desses aspectos que estão ali na sua imagem, para chegar ao que ele é realmente. Empreitada que poderíamos aproximar a essa busca por encontrar uma resposta que possa dar conta das grandes questões da vida: O que queres de mim? e Podes me perder?

Em um determinado momento ele narra o episódio em que entrando em um lavatório publico avista dois espelhos um de parede e um lateral que estão abertos em um ângulo propício, e assim faziam jogo. Enxerga ali o que descreve como uma figura humana, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo, dava náusea, causava ódio susto. Relata: E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?

Nesse ponto penso no dispositivo da análise que permite esse encontro com o outro em um ângulo que faz jogo, possibilidade de descristalizar pontos de fixação alienante, que permitem com que o sujeito possa se responsabilizar por essa parte desagradável, repulsiva e hedionda que é ele mesmo. Não é só olhar no espelho e não gostar do que vê, mas perceber a sua implicação nessa estética da qual ele se veste.

O narrador segue em sua empreitada, apagando os contornos até o ponto em que um dia ao olhar no espelho não vê nada, e exclama: Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um… desalmado?

Tarefa árdua e difícil, pois a cada contorno apagado é também uma possibilidade de cair no vazio, nessa falta de contornos que sustentem o sujeito.

Penso aqui nesse apagamento dos contornos do que encobre o traço que representa o sujeito, esse traço que o distancia do sentido do Outro, o traço do desejo.

O narrador segue questionando o que é a sua existência, o que ele é? E fala dos sucessos que consegue que são de ordem muito intima, e afirma:

Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei — não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação.

A moldura do espelho continua ali, e mesmo os traços, pois os contornos são apagados, mas os traços não. E a partir dele o sujeito pode ir construindo uma outra estética de si, essa própria.

O narrador diz sobre o que muito mais tarde pode distinguir no espelho: um rosto, o seu rosto, um rostinho de menino, de menos-que-menino.

O narrador a todo momento dirige-se ao leitor na busca de um reconhecimento, e não é sem importância que nos trechos finais do texto essa busca se intensifica. E o texto termina em questão, em uma pergunta. Destaco aqui a importância do outro que o reconheça, autonomia, mas não isolamento.

Freud diz que diante do sofrimento o homem pode se proteger no isolamento, mas se não for capaz de amar pode sucumbir. Talvez pudéssemos dizer que se ele não for capaz, de amar, gozar e desejar.

Autora: Mônica Maria Silva

Texto apresentado no Fórum da Associação Livre Psicanálise Londrina em 27/04/2015.

O Percurso de Uma Análise…

O texto que aqui apresento é fruto do trabalho feito a partir do cartel sobre o narcisismo. Estudar sobre o narcisismo foi um convite que chegou no momento que iniciava o mestrado, e me pareceu poder ajudar no desenvolvimento do tema que eu me propus trabalhar na dissertação, que era analisar o trauma a partir de uma vivência de catástrofe.

Em um tempo anterior a este, antes mesmo que tivesse qualquer interesse pela psicanálise quando ficava sabendo sobre situações de catástrofes, essas em que as pessoas perdem tudo, casa, pessoas queridas, documentos, etc uma questão me vinha: como encontrar forças para recomeçar? Como seria sair de uma situação como essa? A partir da psicanalise reformulo então a questão: Quando esta cobertura imaginária desaba na frente do sujeito, o que ele faz? Quando perde as suas referencias, quando elas já não podem mais funcionar, o que o sujeito faz?

Existem vivencias que colocam o sujeito em uma situação como essa, e que são bem fáceis de serem localizadas, como por exemplo, as catástrofes e as guerras. Mas para a psicanálise o sujeito não se equipara ao ser, ao ente, a pessoa. Para a psicanálise o sujeito é esse da estrutura que opera a partir de uma lógica especifica. Assim uma experiência pode ser vivenciada para o sujeito como uma catástrofe sem que isso tenha que ser reconhecido assim no social. Estou tratando aqui deste encontro com o real, com o impossível de ser recoberto pelo imaginário ou significado pelo simbólico.

Quando o real comove o sujeito, ele se abala, há um abalo em sua estrutura, na distribuição, nesta acomodação que ele faz em sua estrutura.

A partir do que tenho estudado nos grupos, seminários e textos lidos, em Lacan e em seus comentadores, penso nesta possibilidade do real poder entrar por qualquer uma das cordas, pois todos os registros estão presentes nos demais. Então para fazer essa relação com o narcisismo, reflito sobre essas vivências que podem ser experimentadas pelo sujeito como uma ferida narcísica. Esta experiência pode leva-lo, por exemplo, a buscar uma análise. Mas uma análise também pode promover, ou alcançar este pedaço do real pela corda do imaginário. É a partir deste ponto que pretendo falar sobre o que dá titulo ao meu trabalho: o percurso de uma análise. Um percurso, porém não o caminho todo. Um recorte talvez.

Para tanto vou me servir de um conto do João Guimarães Rosa, que tem um título sugestivo: O espelho. Este conto chegou até mim há uns dois anos, logo no final de nossa primeira jornada. E o sentimento que tive ao lê-lo é de que ele refletia o percurso de uma análise. E desde então pensei em escrever sobre esta articulação com o narcisismo me servindo dele. Fiz uma apresentação sobre este tema no Fórum este ano, acredito que alguns de vocês estavam presentes e possam se lembrar, agradeço as contribuições dos colegas que lá estavam e que me instigaram a continuar trabalhando. Uma preocupação foi de, ao utilizar o conto, forçar sentidos dentro do texto para que ele coubesse dentro do meu sentimento. Assim não quero forçar, mas apenas dizer de algumas construções teóricas que pude alcançar. E convido vocês a me acompanharem e no final me ajudarem a continuar neste percurso contribuindo com as suas colocações.

No conto de Guimarães Rosa a empreitada que o narrador faz parece assemelhar-se ao trabalho feito em uma análise. O narrador trata de uma tarefa que realiza com o proposito de explicar o que é um espelho e  convida o leitor a segui-lo. Inicia dizendo sobre como as pessoas passam despercebidas pela importância que tem o espelho.

Ele diz sobre uma experiência que o levou a procurar-se, a procurar “o eu por detrás de mim – à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio” (Rosa, 2008, p.79).

Essa experiência acontece um dia quando ele entra em um lavatório publico e avista dois espelhos um de parede e um lateral que estando abertos em um ângulo propício, assim faziam jogo. Enxerga ali o que descreve como uma figura humana, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo, dava náusea, causava ódio susto. Relata: “E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?” .(Rosa, 2008, p.79)

Penso nesta como uma experiência em que existe uma falha no que supostamente sustenta o sujeito em uma posição imaginária. Podemos entender isto a partir das operações que se dão na constituição do sujeito e na sua relação com o Outro que Lacan(1998) trabalha na formulação sobre o estádio do espelho que não se refere a uma experiência concreta, mas aos efeitos dela, ou seja, ao tipo de relação da criança com o Outro, uma relação imaginária. Ao procurar a realidade de si, o sujeito – a criança se aliena a essa parte com a qual ela se identifica e que lhe chega a partir do Outro. E que por estar ali nesta experiência com o espelho, além de chegar de forma invertida é também uma imagem virtual.

Ao entendermos que esta é uma experiência psíquica e não concreta, é possível situa-la dentro do que Flesler (2012) denomina de tempos lógicos de constituição do sujeito. Se não pensamos em cronologia não desconsideramos as possibilidades que o sujeito tem de se valer de sua estrutura para responder as demandas que lhe chegam. Não dá para desconsiderar o estado de dependência que um bebê de seis meses, por exemplo, possui, mas também não devemos desconsiderar as possibilidades  que ele já tem de resposta. Com esse direcionamento penso nas implicações do narcisismo na clinica. Quando recebemos um paciente em analise o trabalho que ele se propõe a fazer ali implica, poderíamos dizer um reposicionamento narcísico.

Uma vez que ao se tratar de um tempo lógico, está ai com esse sujeito que sendo adulto não está mais as voltas com as primeiras experiências de surpresa e júbilo diante da assunção de sua imagem no espelho, mas são ainda os efeitos disso.

O espelho não devolve uma imagem fixa, a cada encontro alguma coisa não se encaixa, e quando esta cobertura imaginária falha, vacila, o sujeito pode defrontar-se com esta parte desagradável, repulsiva e hedionda que é ele mesmo. Diante do sofrimento que isto pode causar, o sujeito, assim como o narrador pode querer procurar-se. E procurar-se no espelho.

Quem se olha no espelho, como diz o narrador “o faz partindo de um preconceito afetivo (…) ninguém se acha na verdade feio” , o que se busca, continua ele, é “ampliar o ilusório, mediante sucessivas novas capas de ilusão” (Rosa, 2008, p.79). Existem muitas propostas, não só terapêuticas que oferecem tal solução. O jogo do espelho pode até ser divertido, os parques utilizam-se deles para nos divertir, com as imagens distorcidas e caricaturais de nós mesmos, como lembra o narrador.

Mas na análise se o sujeito busca o espelho, o que encontra é a presença do analista. Assim penso no analista não como um espelho, mas que por sua presença , assim como assina-la Vegh (2001) sustenta uma dimensão imaginária, que não devolve ao sujeito uma imagem com a qual ele tenha que se identificar, e que por não ir por esta via possibilita tornar presente o real que coloca limite no campo do Outro. Esse limite que está ali onde o sentido que vem do Outro falha, que se coloca em cena, por exemplo, no assinalamento do tropeço das palavras ditas, ou na surpresa que faz calar a partir da intervenção que se escuta.

É no encontro sempre faltoso com o Outro, que uma análise propicia, em um ângulo que faz jogo, que o sujeito pode ir pouco a pouco percebendo a sua implicação nessa estética da qual ele se veste e ir se responsabilizando por isso.

O narrador segue em sua experiência de procurar se encontrar no espelho, no modo de focar, na visão: olhar não vendo. E pouco a pouco a sua figura ia se reproduzindo no espelho de forma lacunar, e ele ia percebendo o elemento hereditário “ as parecenças com os pais e avós” , as ideias e sugestões de outrem que se materializavam em sua imagem, e exclama: “Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto”(Rosa, 2008, p.82). Momento de perceber os efeitos que tem para o sujeito o atravessamento da linguagem, desse discurso que o antecede.

O narrador segue relatando a sua empreitada de ir aos poucos se desvencilhando desses aspectos que estão ali na sua imagem, apagando os contornos até o ponto em que um dia ao olhar no espelho não vê nada, e exclama: Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um… desalmado? (Rosa, 2008, p.83).

Tarefa árdua e difícil, pois a cada contorno apagado é também uma possibilidade de cair no vazio, na falta de contornos que sustentem o sujeito. Se na análise o analista sustenta a sua presença, possibilita o trabalho de desvencilhamento dosando a angustia que esse caminhar propicia. Angustia antecipatória do encontro com o objeto. Posso faltar como imagem no espelho? Podes me perder?

Se o trabalho continua, é possível pouco a pouco prosseguir, com cautela nesse apagamento dos contornos do que encobre o traço que representa o sujeito, esse traço que o distancia do sentido do Outro, o traço do desejo. Até o momento de virada em que o sujeito contando com sua estrutura (Real/Simbólico/Imaginário), a partir do dispositivo da análise, promove uma movimentação, resignificando, incluindo outras possibilidades em sua existência.

O narrador segue questionando o que é a sua existência, o que ele é? E fala dos sucessos que consegue que são de ordem muito intima, e afirma:
Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei — não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação. (Rosa, 2008, p.84).

A moldura do espelho continua ali, e mesmo os traços, pois os contornos são apagados, mas os traços não. E a partir dele o sujeito pode ir construindo uma outra estética de si, apropriando-se do seu desejo.

O narrador diz sobre o que muito mais tarde pode distinguir no espelho: um rosto, o seu rosto, um rostinho de menino, de menos-que menino.

Volto ao título do meu trabalho : o percurso de uma análise, para pensar aqui para onde este percurso pode apontar e seguindo Isidoro Vegh penso que uma análise não visa que o sujeito não adoeça mais, mas que ele possa andar pela vida com menos sofrimento. Freud (1914) no texto Narcisismo: uma introdução, fala que se diante do sofrimento o homem não for capaz de armar pode adoecer. A partir de Lacan, se consideramos o sujeito a partir de sua estrutura, que enoda o real, o simbólico e o imaginário, e também amor, desejo e gozo, poderíamos reformular o texto Freudiano e acrescentar se ele não for capaz de amar, desejar e gozar.

Autora: Mônica Maria Silva
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina
www.associacaolivre.com.br
e-mail: monicasilva@associacaolivrepsicanalise.com.br

Texto apresentando na III Jornada da Associação Livre Psicanálise em Londrina – em 21 de novembro de 2015.

 

Referência Bibliográfica

Flesler, A. A psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

Freud, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras completas de Sigmund Freud (Vol.14, p.81-108). (J.Salomão. Trad.) Rio de Janeiro: Imago. (1996 – Original publicado em 1914)

Lacan, J. O estádio do espelho como formação da função do eu. In: Escritos (p.96 – 103).Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

Vegh, I. As intervenções do analista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud. 2001.

Rosa, J.G. (2008) O espelho. In Rosa, J.G. Primeiras estórias (p.76-85). Rio de Janeiro: Mediafashion.

Saber e Repetição

O estudo sobre a temática da repetição esse ano provocou em mim algumas inquietações e questionamentos que me proponho a compartilhar com vocês.

Estudar um conceito em psicanálise é um trabalho que vai para além dos livros e dos textos, convoca a uma experiência que inclui também a clínica. Para mim, ao menos, é um vai e vem entre textos e reflexões sobre uma prática.

E assim também me propus a escrever este texto que agora apresento a vocês.

Quando pensei no tema a trabalhar aqui, confesso que não foi fácil, pois todo ano é assim, temos que em um determinado momento fazer essa escolha para que a organização dessa Jornada possa caminhar, distribuição das mesas, confecção dos materiais, e tudo mais. Então o que precipitou naquele momento de escolha foi o saber e a repetição. Poderia ter sido tantas outras coisas, mas foi essa.

Pensando na clínica, como o saber se relaciona com a repetição? Bom um paciente pode procurar por uma análise porque acredita, ou se incomoda com algumas repetições em sua vida. E quer saber porque isso acontece com ele. Mas outras vezes um paciente pode também chegar na análise querendo saber como resolver alguma questão em sua vida, alguma situação nova que tem que enfrentar, por exemplo. Nessas duas situações que acabo de descrever existe a referência a um saber, e a uma situação que faz com que as coisas não andem bem.

Mas que coisas são essas? Seguindo Lacan ao escutar este sujeito estamos advertidos de que ele ao dizer sobre o que lhe incomoda, não sabe o que diz. É um sujeito dividido entre o que diz e o que sabe (dividido entre saber e verdade). Chega nos dizendo que a maneira como ele ajeitou as coisas na sua vida até aqui não está funcionando, chegou em um ponto em que algo está tão incomodo que ele resolveu buscar uma ajuda.

Não é só um trabalho de análise que se pode procurar em situações assim. Alguns recorrem por exemplo aos textos, a livros, a um saber também. Existem livros que estampam esta promessa em suas capas, e em títulos chamativos. O que o sujeito busca? Uma referência, busca em algum lugar uma espécie de saber que possa ensinar como ele pode continuar caminhando pela vida de preferência sem sofrer. Procura por uma saída, uma mudança.

É interessante que uma categoria de livros assim receba o nome de autoajuda. Pensando em autoajuda como uma ajuda que o sujeito consegue por ele mesmo. Ele mesmo consegue se autoajudar. O que parece é existir um engodo, porque se assim fosse ele não precisaria do livro. Penso que aí também existe uma tentativa de encobrir a impossibilidade de existir um saber que de conta da verdade. Ou seja, um saber que possa dizer tudo.

Essa não possibilidade de existência de um saber que de conta da verdade está articulada com a própria constituição do sujeito. Ao sermos seres falantes somos afetados pela linguagem, com a linguagem já não fazemos relação direta com as coisas, não existe encaixe perfeito. Sempre irá existir uma falta que nunca poderá ser completada. Contudo a experiência de satisfação inscreve no psiquismo a existência de uma completude possível, miticamente experimentada, porém nunca mais encontrada.

Ao ser falado o sujeito, para existir, se aliena a essa fala respondendo com o seu ser (com sua própria falta) a uma falta que localiza no Outro. O bebê chora e a mãe diz tem fome, o bebê responde a essa demanda do Outro e se aliena a um significante vindo dele. Para existir como sujeito será necessária uma outra operação, a de separação, o sujeito se separando da alienação significante e nesta operação destacando um significante que o represente, se separando do Outro, se dividindo, marcando uma falta em ser um significante que completa o Outro.

A partir de Freud entendemos que a falta é estrutural, não temos como nos livrarmos dela. Esta impossibilidade de completude como um vício estrutural (a falta no Outro e no sujeito) é o que põe o desejo em movimento. No primeiro encontro com o desejo este se inscreve para o sujeito como desejo do desejo do Outro.

Porém existe aí também a tentativa de recuperação de um gozo, pois temos duas condições do objeto de causa do desejo, a partir da ausência, e de objeto de gozo, a partir da presença. O desejo inscrito para o sujeito como desejo do desejo do Outro, na operação de alienação, comporta um efeito de gozo, por uma suposição de assim completar a falta no Outro.

Na operação de separação o desejo estaria relacionado à tentativa de reencontrar um objeto suposto de satisfação plena, um objeto ausente que causa o desejo.

O sujeito chega a análise adoecido por um gozo que o retem, em uma condição de existência como desejo do desejo do Outro.

Qual o trabalho a ser feito? O que uma análise pode produzir e como isto tem relação com a repetição?

Será que o sujeito chega repetindo um sofrimento? A partir da leitura que Lacan faz dessa temática em Freud e principalmente pelas modificações que este introduz no texto Mais além do princípio do prazer, onde Freud vai vincular a repetição à pulsão de morte, ou seja, a um desligamento em oposição a ligação promovida pela pulsão de vida. Temos a repetição atrelada a inscrição da diferença, pois para haver diferença um desligamento, um efeito de rompimento se produz. E a partir daí uma possibilidade de mudança. De uma mudança de posicionamento em relação a falta.

A partir do que Freud vai desenvolvendo neste texto temos a repetição atrelada a um fato de estrutura, ou seja, não é algo que deve ser superado, faz parte da estrutura, acontece uma única vez e a partir de então se torna necessária.

Necessária para que? Para marcar uma diferença, para que uma mudança possa se produzir. A partir destas reflexões, e ao escrever este texto pensei se a repetição como fato de estrutura não estaria relacionada com a operação de separação. Penso que não é a toa que os nomes são diferentes, se a operação de separação e a repetição fossem a mesma coisa não teriam nomes diferentes. Então uma não se subsumi na outra. Porém o que me fez pensar nesta aproximação foi que tanto em uma como em outra temos como produto um significante que representa o sujeito.

O sujeito chega na análise dizendo sobre isto que se reproduz em sua vida, se não da mesma forma com os mesmos efeitos para ele. Repete/reproduz como tentativa de sair da mão do Outro, da prisão em um gozo que o adoece.

Na análise o trabalho é de suspender aquilo que se acredita saber. Penso em uma dupla suspensão de saber, do analista pela via do operador desejo do analista e do analisando pela via da quebra de sentido. Interrogando-se sobre o que mais pode ter aí? Vetorizando sua dúvida não por aquilo que ele chega afirmando que carece de sentido, mas para o que está construído para ele como uma verdade inquestionável. Uma abertura para que até mesmo tempo e espaço possam perder uma certa estabilidade que monta a consistência histórica desse sujeito.

Pela via da transferência, em um trabalho de análise, é possível alcançar a repetição, como uma operação produtora de diferença / corte por onde um novo significante pode ser produzido pelo sujeito. Um significante que o represente para outro significante. Então como se pode alcançar a repetição pela transferência? Desconstruindo, descristalizando sentidos, escavando, fazendo buraco para que algum encontro com o sem sentido possa tocar um pedaço do real. É pela via da busca de saber em um sujeito suposto a possui-lo que o analisando pode chegar mais próximo da verdade de seu desejo do saber inconsciente que o determina. Para ter desejo temos que marcar uma falha, uma abertura para desejar.

Podemos pensar que ele encontra o que ele não procurou. Procurou por um saber, mas algo retorna para ele, do que ele mesmo traz e que causa surpresa, que abala o sentido que até então ele tinha encontrado. Neste trabalho de escavar os sentidos é que o analista, sustentando a sua função, pode acessar a repetição, pela via da transferência.

Porque eu coloquei sustentando a sua função? Porque pode ser que em algum momento ele não sustente. E por mais que o paciente retorne, repita um caminho, volte a cada seção, se ele não encontra o analista, não há transferência que possa levar a repetição no sentido de acessa-la. O “tratamento” pode continuar, e um pode fingir que não morreu e o outro que vai vivendo, em um trabalho que embora possa parecer que produza algo diferente resulta na continuidade de uma modalidade de gozo.

De que mudança estamos falando? Na análise de uma mudança de posicionamento. Isso não quer dizer que grandes mudanças na realidade desse sujeito aconteçam que possam servir como atestado de que houve repetição. Essa mudança de posicionamento talvez possa enganar quem está de fora e  busca pistas de se houve ou não houve repetição. Será que mudou? Percebesse que a pessoa está diferente, mas não se sabe muito bem localizar em que.

Mas para o sujeito isso não engana. Embora também não consiga precisar quando ou o que necessariamente mudou, sabe, porque sente de maneira diferente, as coisas da realidade que passam a afeta-lo de outra forma. Não porque elas mudaram, mas por uma modificação em sua estrutura, por um efeito de sentido.

Eu gosto de pensar em formas de ilustrar as formulações que vou fazendo, isso me ajuda a dar mais concretude as coisas que me parecem tão abstratas. Em textos anteriores usei para isso contos que retirei da literatura. Esse ano não me surgiu nenhum o que me possibilitou fazer diferente inventar um, bem simples, não é um conto, mas uma estorinha bem simples que não deixa de ter referência as estórias que escutamos em nossas clinicas.

É como se o paciente que chegasse para a análise se encontrasse em um barco no meio do oceano. Para ele, até então, tudo estava bem em viver assim, mas algo pode estar se passando que faz com que essa tranquilidade fique ameaçada. Ele chega querendo saber como continuar tranquilo ali. No decorrer do trabalho, a partir do seu dizer, outros elementos podem ser incluídos nesta cena, elementos que se precipitam e são assinalados pelo analista. Existe um céu, sol, estrelas, elementos que vão propiciando uma modificação na posição do sujeito em relação a essa cena que ele constrói. Tem um trapiche, pode sair do barco, caminhar, dirigir um carro, voar de avião. Penso que não é o fato de que novos significantes possam ser incluídos na cena que produz uma diferença, mas o posicionamento do sujeito em relação a eles. Reposicionar o movimento como causa de seu desejo e partir desse ponto poder decidir até mesmo ficar parado apreciando a paisagem com maior tranquilidade, ou voltar para o barco, aquele em que ele chegou em sua análise.

O atravessamento da linguagem faz buraco e o fantasma é uma construção que o sujeito faz para dar conta dos efeitos que isso tem para ele. Essa construção fantasmática comporta para o sujeito uma impotência imaginária, na maneira como ela dá sustentação a existência desse sujeito, como aquele que deve garantir a falta no Outro.

Na estrutura isso que é da ordem do que não pode ser recoberto pelo imaginário ou significado pelo simbólico diz respeito ao Real [ao que não cessa de não se inscrever]. Lembrando que todos os três registros têm igual importância, tanto o Real, quanto o simbólico, quanto o imaginário, fazem parte da estrutura. A forma como estão acomodados é que pode ter uma relação com este efeito de sofrimento para o sujeito.

A análise permite transformar essa impotência imaginária em encontro possível com o Real. Com a impossibilidade de garantir a falta no Outro, e poder continuar existindo como causa de desejo. E como se faz isso? É dizendo para o sujeito que as coisas são assim? Talvez para alguns de nós isso, essa busca por um saber referencial na psicanálise faça parte da contingência que monta essa relação do saber com a falta.

E quando vamos buscar explicação nos textos de Lacan o que ele nos convoca? A um trabalho, a muito trabalho. A um trabalho que produz logo de cara um abalo os sentidos cristalizados, na lógica que estamos acostumados em um pensamento de causa e efeito.

Precisamos dar muitas voltas no texto, repetidas voltas, para poder ir escrevendo com mais tranquilidade um texto que seja próprio. Enquanto ainda não podemos, nos servimos das letras daqueles que nos antecederam nesse trabalho de ir além.

Autora: 

Texto apresentado na IV Jornada da Associação Livre Psicanálise em Londrina – Novembro/2016.

Efeitos do Desejo

Queixas X Demanda X Desejo dos Pais

Pedro chega com quase 5 anos e é caracterizado desde pequeno como uma criança que não dava trabalho, era quietinha, dormia o dia todo, nunca chorava, “era bem bonzinho”. A queixa da mãe é a de que Pedro não interage com os as outras crianças, não pede o que quer, não acompanha os amiguinhos na escola. Recolhidas as queixas iniciais, a direção do trabalho foi a de diferenciar a demanda dos pais da possibilidade de uma questão analítica referida à criança. Este trabalho requer o atendimento paralelo dos pais, para possibilitar a elaboração de um luto, pela perda da ilusão de que uma criança real poderia corresponder à imagem da criança narcísica do desejo. (ZORNIG, 2006).

A partir disso, foi possível delimitar o quanto as demandas eram diferentes, por parte dos pais e da criança. As queixas do pai com relação ao filho tinham muito a ver com sua própria história. O pai tem muita preocupação de que o filho não apareça, não pode brincar, se sujar e fazer malcriações, por assim parecer um filho mal cuidado. A mãe queria uma menina, branca e Pedro passou da hora do parto, nasceu escuro. Logo de saída Pedro chega ao mundo desencontrado do filho esperado, sendo que tal identificação é necessária para a entrada na filiação. Os pais vieram pedindo uma reparação, que lhes devolvessem um filho de acordo com seu ideal.

Por outro lado, nota-se que eles não reconheciam as manifestações da criança diante da separação, relatam que Pedro não manifestava reação. Porém Pedro traz personagens para os atendimentos, falando de feridas e mortes, atestando registrar a separação de pessoas importantes, da entrada na escola. Ao mesmo tempo, os cuidados eram muito no sentido de invadir o corpo da criança, tomado apenas pelo aspecto biológico, não era dado um sentido aos atos dela, nem atribuídas sensações que lhe dessem notícia de um corpo. Segundo (Lacan, 1969), para o devir de um sujeito, é necessário um desejo “que não seja anônimo”. Esse desejo tem a função de nomear, de transformar o grito em apelo, cuja conseqüência é a de “dar” lugar na rede significante. Há, então, a busca incessante de significantes pelo infans que o possam representar. Esse movimento se estabelece na tentativa de ocupar um lugar no desejo do Outro. (ZORNIG, 2006).

Os pais tomam Pedro num lugar de alguém que não pode saber. Ao supor o filho nessa posição, acabam impedindo-lhe o acesso ao saber. Não o deixam participar de atividades fora da família com a escola. Tais atividades possibilitam uma vivência prática do que os alunos aprenderam, possibilitando uma atribuição de sentido ao que se aprendeu. E é isso que possibilita o aprendizado.

Os pais de Pedro têm bastante medo de deixar os filhos experimentarem isso que eles consideram “estranho”. O estranhamento com relação ao social pode dizer do estranhamento sentido por eles com relação a esse filho, que é reatualizado frente ao olhar de estranhamento do outro. Não conseguem admitir nenhuma produção de Pedro como um saber, sempre as toma como “bagunça” ou “frescura”, algo sem sentido, que não visa uma construção. A ferida que não cicatrizou faz a filiação ser pela via do que fracassa, do que fica como débil, incapaz, que não entende as coisas.

(…) Fica marcado um impossível no real, que fica ali e não pode modificar –
se.(…)? algo próprio o que se destruiu. Aquilo que se busca realizar num
filho.(…)O narcisismo e a trasmissão em outra geração.(…)Não se pode
reconhecer – se nele. Então, não se tem onde situá – lo. E o primeiro lugar pode
ser o de um refugo. (TKACH, p.194 ).

É possível verificar então o quanto a queixa dos pais, de que Pedro não aprende tem a ver com seu próprio desejo. Isso ocorre pela própria estruturação do sujeito humano. Para Lacan (1967 apud Zornig, 2006) o infans vem ocupar um lugar marcado pelo desejo do Outro, se alienando a ele. A criança humana, ao nascer, por sua própria imaturidade biológica, não tem como se ver inteira; é o olhar do Outro que vai lhe dar uma imagem antecipada de uma unidade que não corresponde ao que ela vivencia (um corpo despedaçado). Dessa forma, a criança é capturada por este olhar que funda uma imagem, com o qual ela se identifica, ficando alienada a ela. Mas ali o sujeito se escraviza. Necessita encontrar o intervalo no discurso do Outro para constituir o seu próprio desejo, reencontrando sua própria falta.

Sintomas

Do lado de Pedro, é possível verificar o quanto essa dimensão do imaginário falhou: ele não dava conta de ver sua própria imagem no espelho, nem de ver suas fotos de pequeno. Depois, passou a não se olhar mais no espelho, e recobria sua própria imagem e fazia o mesmo com as figuras das revistas. Pedro também não tinha noção de seu próprio corpo, do espaço que ele ocupava. Não falava, babava o tempo todo e enfiava objetos na boca. Também tinha frequentes dores de garganta, vômitos, diarréias, e não comia. O não falar dele pode ser efeito de que não se falava com ele, nem era escutado, ele não era tomado num lugar de falante. O Outro sabia dele sem ele precisar dizer.

Por outro lado situava-se num conflito: se correspondia ao desejo de seus pais, colocando-se na posição de débil, por outro lado, recusava-se a corresponder totalmente a esse fantasma. Fazia sintomas de recusa (alimentar a princípio), adoecia, se entristecia, denunciando que algo não ia bem. Os sintomas infantis são uma maneira da criança denunciar sua não conformidade ao ideal, demonstrando sua própria subjetividade. A maneira pela qual o sujeito interpretará o desejo do Outro sempre o levará para um impasse. Temos então, o infans situado na condição ativa, participativa, na construção de sua subjetividade. Porém, sua escolha não é fácil, aparece como duas possibilidades: ser devorado ou abandonado. O sujeito fica sem saída. (Zornig, 2006 & Whitaker, 2003).

Para sair desse impasse, é necessária a entrada de um terceiro nessa relação, que possibilite a Pedro a existência em um outro lugar, menos mortífero. Neste sentido, a entrada na escola foi importante nesse processo. A professora vem com uma nova demanda, a de que fale, é tomado por ela no lugar de alguém que está na linguagem, e a partir disso, ele começa a falar. E lhe dá um lugar, faz parte de um grupo, tem que respeitar regras, cumprir tarefas. Ou seja, tem que considerar a existência do outro, respeitar o espaço dele e delimitar um espaço para si. Seu sintoma aparece quando a demanda da professora entra em conflito com a dos pais: ela lhe pede que aprenda, e ele se inibe, recua diante do saber.

Desejo do Analista e Efeitos do Tabalho

No início de seu atendimento, Pedro só entrava junto com um dos pais, ficava no colo, se escondia atrás deles. Não me olhava, não me respondia, parecia-lhe extremamente penoso estar ali. Em seguida, quando começou a interagir, era somente a eles que se dirigia, ficando de costas para mim. Os pais demandavam que ele falasse comigo e faziam tentativas, porém, era visível que ele mesmo não tinha recursos. Quando Pedro pôde se engajar com os objetos, imediatamente, os pais se retiram. Depois de pouco tempo, Pedro vai até eles e os dois se engajam nessa atividade, me excluindo. De qualquer forma, ficavam sempre entre dois, não havia possibilidade de um terceiro. A escolha dos brinquedos de Pedro e dos pais testemunhavam a relação que se estabelecia entre eles: eram sempre brinquedos “devoradores”. Quando Pedro começa a falar, dizia palavras soltas, que necessitavam sempre da tradução dos pais. Além disso, sua fala era um eco do que eles contavam, era difícil diferenciar o que era dele e o que era do pai (discursos colados).

Diante disso, a direção de tratamento foi a de promover uma separação, barrar esse gozo devorador, possibilitando a Pedro se perceber amado sem ter que se pôr de objeto de completude desses pais. Lacan (1967) indica que a função do analista é a de se opor a que o corpo da criança responda como objeto parcial da fantasia parental. (ZORNIG, 2006). Porém, verificou-se o quanto essa relação estava frágil, foi necessário primeiro restabelecer o que falhou na alienação para depois promover uma separação. Pedro, apesar da presença física constante do pai, não a tinha no psiquismo, não tinha a palavra do Outro para poder representá-lo em sua ausência e dar conta de descolar-se dele.

A partir do olhar diferenciado propiciado pela situação de análise, Pedro começa a responder de maneira diferente, reagindo diante da invasão do pai. Reclama quando este lhe tolhe os movimentos em suas brincadeiras, faz manha. Pedro começa a brincar com tinta. Os pais o repreendem por “fazer bagunça” e ele então passa a repeti-la, direcionando a “bagunça” a eles. Também usa personagens ferozes para falar desse enfrentamento. Os movimentos de agressivização por parte de Pedro talvez possam ser interpretados como tentativas de sair dessa relação com o outro. Antes, não sentia-se invadido, agora já sente. Tem que aprender até onde vai ele e onde começa o outro para não se perder. Por outro lado, vive o conflito de amar esse pai e não poder dispensá-lo, e ter medo de perder esse amor. Ele então, passa a pintar-se e limpar em seguida, e chega a, por um tempo, parar de mexer com as tintas.

Com o tempo, começou a haver divergências entre o que Pedro queria dizer e o que os pais entendiam, denotando um espaço entre as duas subjetividades. Geralmente eram coisas que o pai não dava conta de escutar. Depois eles próprios puderam admitir para o filho que ele precisava falar para poder ser entendido.

Pedro começa a falar para os pais não entrarem, porém ainda não consegue entrar sozinho, e isso se repete por muitas sessões. Com o tempo, a partir de uma autorização e uma sustentação do pai, consegue fazê-lo. Na primeira vez, fica bravo e brinca de lavar a sessão inteira, respeitando a palavra dos pais. Ao terminar a sessão, pela primeira vez perguntou se eu ia embora também. Começa a solicitar os pais de forma mais elaborada (mostrar suas produções).

Nas sessões seguintes, começa a simbolizar uma ausência, chamar quando fica sozinho e notar a ausência das pessoas, perguntando por elas. Também começa a nomear as coisas que quer: ir fazer xixi, ir embora, ir com o pai. Benhaim (2006) diz que a criança, por meio do pensamento, tem acesso a um primeiro grau de independência, a um primeiro apaziguamento de seu desamparo. Segundo Freud (1920), toda simbolização implica um objeto ausente e, por isso ele valorizou a alternância ausência-presença da mãe, nos primeiros tempos de vida do sujeito, que coloca para ele o enigma do desejo.

A relação com o pai muda, para o sentido de uma identificação: pega uma carteira, e diz “trabaiá”. Por outro lado, suas brincadeiras que sempre se repetem dizem respeito aos serviços domésticos: lavar a louça, passar pano, passar o rodo, cozinhar.

O olhar diferente por parte do analista, possibilitou também ao pai uma mudança de olhar para seu filho. Passa a reconhecer o quanto Pedro está mais esperto e este responde a isso, localizando e nomeando figuras nas revistas. Os pais já dizem para ele contar, não diz mais tudo a respeito de Pedro. Em uma sessão, coloca uma questão de se as crianças entendem o que se fala para elas. Pedro então, a partir disso, começa a brincar com “hominhos”, que serão um companheiro constante nos atendimentos a partir de então. Troca o bicho, um animal primitivo, que se comunica por mímica (que era o que ele fazia), por um homem, que fala. Também brincou de faz de conta, pela primeira vez armando uma cena mais longa e com diversos elementos.

Pedro começa a tomar a iniciativa de falar de suas coisas: ao falar do machucado do bicho, fala de uma “pancada”, que o pai toma como um discurso e mostra que realmente ele chegou machucado da creche. Pedro contou que um menino o empurrou,  e o pai diz ser o primeiro lugar em que ele falou sobre isso. Também começa a se fazer ver: bate na porta antes de entrar, chuta a parede, abre a porta e espia. Começa a brincar de olhar pelo olho mágico. Em seguida, olha e tampa o buraco, impedindo-me de olhá-lo, e isso se repete por muitas sessões. Posteriormente, vai sozinho ao banheiro e fecha a porta. Pode-se pensar em um brincar de esconder-se, de já poder se furtar ao olhar do outro sem deixar de existir. Busca de uma privacidade, delimitação de um espaço íntimo. Também começa a brincar de esburacar esse corpo (enfiar papel nos buracos, ver água ir embora pelo ralo da pia, do tanque, da descarga). As coisas começam a ter uma descontinuidade.

Nos atendimentos, ao brincar, Pedro fala o tempo todo do impasse no qual se encontra. Os animais que mordem e dão medo, mas que também podem ser jogados, pisados e postos de castigo; a sujeira com a tinta lavada em seguida, os cachorros que brincam com água, mas apanham por causa da bagunça, os machucados do animal e que falam de um corte. Ao ir contando sua história, as perdas vividas, o lugar no qual veio ao mundo, a posição que tomou diante dele, vai vivenciando essa dificuldade de cair desse lugar para poder asceder a em lugar de sujeito.

É como objeto a do desejo, como isto que ele foi para o Outro em sua ereção de
vivente, como o wanted ou I’unwanted de sua vinda ao mundo que o sujeito é
chamado a renascer para saber se ele quer o que deseja. (LACAN, apud
SAURET, 1997)

Autora: Mônica Fujimura Leite
Mestre em Educação Escolar pela UEL
Especialista em Transtornos Globais do Desenvolvimento na Infância e Adolescência pelo Centro Lydia Coriat e UNIFEV
Especialista em Psicanálise pelo IMBRAPE e UNIDERP
Psicóloga pela UEL
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina
Atualmente atua no CREAS de Ibiporã e atende em clínica particular em Londrina.

 

Referência Bibliográfica

Benhaim, M. & Jano, I.B. (Trad.) A Intimidade Materna: A contribuição da psicanálise na pesquisa sobre os bebês. In: Estilos da Clínica, v.11 n.20. São Paulo, jun.2006.

Freud, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: FREUD, S. Obras Completas. vol.XVIII, Imago, 1976, cap. 3 e 4.

Sauret, M.J. Sminário Internacional – Textos Selecionados. Sessão Paraná, Escola Brasileira de Psicanálise. Curitiba, Set. 1997.

Tkach, Reflexões sobre nossa prática terapêutica. In: JERUSALINSKY, A. e Cols. Psicanálise e Desenvolvimento Infantil: um enfoque interdisciplinar.____:Artes Médicas, ____.

Whitaker, C. O Sintoma da Criança como Efeito do Gozo Materno: entrevistas preliminares. In: Estilos da Clínica, v.8, n.15. São Paulo, jun.2003.

Zornig, S.A. Da Criança Sintoma (dos pais) ao Sintoma da Criança. In: Revista do Departamento de Psicologia da PUC – SP. São Paulo, 2006.

“Não fui Eu”

No gramado uma criança de 5 anos brinca de bola. Num, rompante, chuta com força e acerta meu rosto, me machucando. Como uma boa adulta, querendo ensinar – lhe a consideração ao outro, paro o jogo e falo que assim não. Imediatamente, a criança diz: “Não fui eu!” “Foi ele”, apontando para seu pé. E era verdade.

O que essa criança me dizia é que não tem controle sobre o seu próprio corpo. A excitação que a acomete está para além do controle do eu. Numa outra ocasião, deixa cair objetos no meio do caminho. Frente a tal atitude, mais uma vez eu, incomodada com a bagunça e querendo ensinar – lhe as consequências de seus atos, lhe pergunto se não vai pegá – los. Ela manda eu pegar. Frente a essa resposta, eu tinha duas opções: ou impunha minha autoridade, mandando – a pegar à força, ou (e foi o que fiz), reconheci a dificuldade daquela criança em poder se responsabilizar pelo que fazia e me propus a auxiliá – la nesse processo. Ele aceitou a ajuda.

E assim trabalhamos durante esse ano. A queixa da mãe era a de que essa criança fazia coisas que a caracterizariam como uma criança “mal educada, desobediente”: cuspia, soltava puns, arrotava, machucava seus amiguinhos, empurrando – os ou chutando – os e diante do “não”, emburrava ou fazia o contrário do que lhe era solicitado.

Tal criança despertava nos adultos que lidavam com ela, raiva e a atitude de brigar e obrigá – la a obedecer e se submeter ao processo educativo imposto a todas as crianças. Comigo não foi diferente. Me vi defronte então a dois caminhos: podia dar vazão ao meu furor pedagógico ou fazer um esforço para ouvir um sujeito. Admito ser uma escolha difícil e por muitas vezes confundi as duas posições.

A educação vem a auxiliar o processo de recalque do modo de satisfação infantil. O infantil (que independe de idade cronológica) é o incurável da sexualidade humana. Isso porque no homem, a sexualidade não se restringe à genital, a qual possui uma função biológica (de reprodução); mas é constituída de outras zonas erógenas, e as pulsões parciais se caracterizam por uma variabilidade em seus fins e objetos. A criança, na qual ainda não se impôs o recalque, é polimorfa perversa, encontrando poucas resistências a se satisfazer dessas formas.(CIRINO, 2001 e MILLOT, 1987). O trabalho da infância é então o de renunciar a tal modo de satisfação, e ela o faz por amor à mãe ou ou medo do pai.

Que modo de satisfação é esse? Voltemos ao início, na relação mãe – bebê: Toda criança se põe como objeto de completude de sua mãe. E realmente, as crianças não podem dispensar os adultos, dependem deles para sobreviver, no orgânico e psíquico. Se não se fizerem como tal objeto de completude, ao menos um semblante disso, são abandonadas. O que diferencia o modo como vão fazer isso é se passaram por dois operadores lógicos, o Estadio do Espelho (LACAN, 1995) e a castração (Freud).

No estadio do espelho, a criança se vê fora, num espaço que não é o do vivido, uma imagem unificada e completa com a mãe, fundando um ideal e ao mesmo tempo uma falta. A criança então passa a ter recursos para garantir a presença do Outro, oferecendo-se como imagem que visaria completar a falta no Outro. A relação entre a mãe e a criança não é portanto dual, mas mediada pelo falo imaginário. Se a criança tem esse recurso, a fim de colocar – se como o objeto de completude de suas mãe, não necessita ser de fato tal objeto, pode fazer um semblante. Já existe uma diferença entre a criança e o que ela representa para a sua mãe. Ela está num lugar fálico, não objetal. Ou seja, existe um espaço para a falta, para o que poderia ser mas não é. Tal experiência da falta, possibilita à criança um espaço para a dúvida e o desejo:se ao Outro falta, o que deseja? O que posso oferecer a ele para o completar? Então, o que o Outro deseja de mim?

Isso só é possível se mãe e criança tiverem o registro da castração. Isso é realizado pela Função Paterna, a qual impede a criança ao acesso pleno à completude, permitindo a ela transcender essa relação para além do desejo da mãe. É a mãe que faz a entrada do pai, em seu discurso e seu desejo, como algo que está para além dela, uma lei à qual tem que se submeter. O pai põe um basta nesse mais de satisfação, impondo uma lei de interdição. Substitui o significante do desejo da mãe pelo significante Nome do Pai, fazendo metáfora. Restitui o falo ao seu lugar, como objeto de desejo da mãe, distinto da criança e o qual ele é o portador. Esta reposição é uma castração da criança e da mãe. Quando a Metáfora Paterna se realiza, o sujeito conta com a cadeia significante para lidar com a demanda do Outro, de maneiras diferentes, segundo as versões que faz dela, a partir da ordem simbólica. Isso significa recalque; ou seja, as coisas não vão diretamente para o  ato, têm a mediação da palavra, de um julgamento e podem se transformar em outra coisa.

No caso desta criança, a lei estava ligada ao amor à mãe. Esta lhe pedia que fosse obediente cobrando – lhe um pagamento por tudo o que fazia por ela: deixava de fazer coisas para si, mudou o horário de trabalho para poder passar mais tempo com ela, fazia um esforço real para dar a essa criança tudo o que ela lhe pedia: sua presença. E essa criança se esforçava também para ser um bom menino: tentava ser o primeiro da fila na hora de entrar e nas aulas de educação física, não admitia não saber a matéria que a professora passava na escola. Mas, mesmo diante de algo que aparenta uma harmonia de quereres, algo ali caducava: a escola se queixava da criança para a mãe, dizendo de como essa atitude dela atrapalhava as aulas e os amiguinhos, pelo seu excesso de competitividade, agitação e agressividade, demonstrando que não era realmente possível um encaixe perfeito na sexualidade humana, uma satisfação plena não era possível, algo ali se perdera, para sempre. E essa mãe tinha muita raiva disso, e brigava com seu filho do porque não lhe dar o que ela lhe pede, que seja esse algo que a completa, e a criança se constrangia por não poder mais ser tudo para essa mãe.

Ao mesmo tempo, este sintoma mantinha mãe e filho juntos, pois ninguém mais era capacitado para ficar com ele e fazer – lhe obedecer, e também disso a mãe se queixava: “Não entendo, comigo ele é tão bonzinho…”

Até que essa mãe não suporta mais tal discrepância e o que antes eram ameaças (ela dizia que ia mandá – lo para morar com o pai) abandona esse filho, muda o horário do emprego e não tem mais tempo para ele, nem para levá – lo ao tratamento. Por minha insistência, eles retornam, mas agora é o padrasto que o traz. Esta foi inclusive uma exigência da mãe, que cobrava para que este participasse mais dos cuidados e educação da criança. Ela então retorna, mas mais desobediente e agressivo. Foi possível notar então o quanto a manutenção dessa barra estava embasada no amor à mãe. Segundo Millot (1987), as medidas educativas consistem em exigir da criança a tolerância a o desprazer decorrente pela renúncia da satisfação imediata, a fim de obter um outro prazer: o amor. O amor não representa para a criança apenas uma satisfação de ordem libidinal, mas também a garantia de estar protegido contra o mundo externo. Para a criança, a realidade são as demandas do outro, ela é tecida pela palavra. Quando a criança se sujava, ou quebrava algo, se assustava e perguntava: “minha mãe não vai brigar?” Quando esta mãe se retira, a criança já perdeu o que temia, e agora está desamparada frente á excitação vivida em seu corpo. Ao mesmo  tempo, continuavam as cobranças da escola para que essa criança se regrasse segundo a ordem civilizatória.

Segundo Freud, “a dificuldade da infância reside no fato de que, num curto espaço de tempo, uma criança tem de assimilar os resultados de uma evolução cultural que se estende por milhares de anos, incluindo-se aí a aquisição do controle de seus instintos e a adaptação à sociedade — ou, pelo menos, um começo dessas duas coisas(…) Só pode efetuar uma parte dessa modificação através do seu desenvolvimento; muitas coisas devem ser impostas à criança pela educação. Por conseguinte, a educação deve inibir, proibir e suprimir”. Segundo Jerunsalinsky apud Petri (2003), a educação estabiliza o gozo, e é realizada primeiramente pelos pais, os quais, em nome de um desejo próprio, submetem a criança a um ideal.

Diante disso que a acomete, a criança se questiona acerca da sexualidade, em si e nos adultos, e não tem pudor de perguntar. Porém, quando isso ocorre, geralmente é rechaçada, o que acaba por ocasionar um conflito psíquico. Freud diz que aqui se instala o complexo nuclear da neurose. “A origem do recalque não se encontra na proibição imposta ao agir, mas na que é imposta ao dizer. O que não pode ser dito também não pode ser pensado conscientemente – pois para a criança o outro conhece todos os seus pensamentos – e estes se tornam tão culposos e perigosos quanto as palavras ou atos. Mas os pensamentos não se deixam suprimir com facilidade. Continuam substituindo, mesmo sendo banidos do consciente. Assim, o inconsciente seria aquilo que o outro não deve saber. A censura é executada sobre a palavra, ocultando a verdade de que as crianças sabem, fazendo – as se esquecerem. Mas a verdade retorna, como sintoma. (MILLOT, 1987)

É possível perceber então que ao tempo da infância cabe um trabalho, o qual não é fácil e não se dá sem consequências. Freud (1976) diz que “(…) muitas vezes as crianças executam essa tarefa de modo muito imperfeito.Durante esses primeiros anos, muitas delas passam por estados que podem ser equiparados a neuroses”. Quando chega a nós, a criança vem como um sintoma, um corpo que não conseguiu realizar tal aprendizagem, regrá-lo segundo as vias previstas pelo Outro, ou seja, existe algo ali que é ineducável.

Temos então diante de nós um serzinho cujos pais nos pedem que o consertemos. E então, como analistas de crianças segundo o qual nos intitulamos, volto à questão dos dois caminhos: atender à demanda dos pais ou dar um lugar a esse sujeito e  ouvir se ele tem algo a dizer a respeito disso; sendo trazido, se traz uma questão a ser tratada. Nesse encontro da satisfação infantil com o corte da realidade, me questionei entre educação e psicanálise, por quais caminhos eu em particular perambulei com tal criança.

Admito que muitas vezes, como uma boa neurótica e querendo agradar aos pais, quis regrá-la segundo as leis dos homens, ensinar-lhe as convenções sociais e a consideração ao outro, a boa educação e a obediência. Um outro risco que se corre neste mesmo sentido é o de ou sair em defesa desses pais, com o intuito de auxiliá – los nessa difícil tarefa de tentar de suprimir o sintoma dessa criança; ou ainda na crítica deles, dizendo terem falhado em educar seu filho, deixando-o à mercê de suas satisfações “perversas. Mas, tentei ter como norte os pressupostos psicanalíticos, o qual diz que a supressão das pulsões na criança através de coerção por meios externos não conduz nem à desaparição de tais pulsões, nem ao seu domínio, a única repressão eficaz da sexualidade passa pela interiorização das exigências e proibições morais que a educação visa assegurar. (MILLOT, 1987). Ou seja, é necessário que a criança possa subjetivar tais exigências, tanto as pulsionais quanto as dos adultos.

Busquei então seguir pelo outro caminho, o de procurar possibilitar – lhe um espaço para formular as seguintes questões: quem sou eu para o Outro? O que o Outro
quer de mim? Isso só foi possível quando eu contive meu furor pedagógico e fui acompanhando – a em suas elaborações, em suas teorias sexuais, de modo a auxiliá-la a elaborar esse conflito, no encontro da pulsão com a proibição, duas coisas opostas que se impunham sobre ela, imperativas.

Segundo Freud, a palavra é o princípio da cura analítica. Então eu não o impedia de pôr para fora, mas o incitava a fazê-lo com palavras. Conforme ela pôde falar disso, com palavras e brincadeiras, foi podendo simbolizar isso que se passava com ela e dar um encaminhamento a essa excitação. Tentei oferecer a essa criança a possibilidade de dar conta disso que a acomete não impondo um recalque, mas construindo um saber do que se passa com ela.

E ele assim o fez, foi construindo suas teorias ali, à minha frente, brincando de cair, em acidentes de moto, da cadeira, correndo e se jogando no chão. Nessas ocasiões eu era o médico que tratava de suas feridas. Falava através disso, dessa queda, tão necessária, de se deixar cair desse lugar de objeto que supostamente completaria sua mãe, e do corte, da ferida que isso abre.

Falava do medo do pai, que ele dizia gritar com sua mãe bater nele. Também dizia de sua identificação a ele, bebendo cerveja e dirigindo, indo pescar. Comigo, ele brincava de esconder-se e achar-se e salvar-se ao sair do esconderijo antes de eu encontrá-lo. Realizava assim uma separação, ao sumir e reaparecer, elaborava as idas e vindas da mãe. Inaugurava assim um espaço para a privacidade, longe do olhar desse outro. Era possível um resguardo, para elaborar suas teorias sem que o outro saiba o que ele estava pensando. Contou de um corte no pé, e do pesadelo que teve, do medo do bicho que veio pegá-lo à noite, na primeira que passou sem a mãe, num passeio ao sítio com os tios. Ou seja, a angústia provocada por essa separação que estava se processando e mais uma vez, um corte.

Essa criança trabalhou arduamente, com o homem-aranha falou de sua questão de possuir “dois pais”, e punha um no lugar do outro, trocando suas pernas, tornando-os iguais. Com esse mesmo personagem falava de suas investigações acerca da diferença, do que tem embaixo da saia das mulheres, e do que será que um homem faz com uma mulher quando se escondem e não se deixam espiar.

Falava de seu corpo, que se manifestava e o importunava, indo fazer xixi, cocô durante as sessões, soltando puns, arrotando, cuspindo, e numa vez que fez xixi ali, na minha frente. Teve vergonha, um importante sinal de que algo do recalque ali já se impunha. Desenhava e encobria e me perguntava: o que tem dentro do corpo da gente? E queria desenhar uma mulher e apagava, errava, ficando nervoso, dizia não conseguir. Me pedia ajuda para uma pergunta muito séria: “o que essa mulher quer de mim?”

Ela fez um trabalho muito bonito, no sentido da constituição de um sujeito. Porém, em seguida foi embora, os pais arranjaram um outro jeito de lidar com isso que essa criança causava nelas. Aplacaram sua angústia com um diagnóstico (“hiperatividade”) e com a eliminação do sintoma (“Ritalina”). E eu, fiquei sem saber dos efeitos que essa minha decisão por este caminho ocasionou nesse sujeitinho, a se constituir. Freud (1976) já dizia que as resistências internas contra as quais lutamos, no caso dos adultos, são na sua maior parte substituídas, nas crianças, pelas dificuldades externas. Se os pais são aqueles que propriamente se constituem em veículos da resistência, o objetivo da análise — e a análise como tal — muitas vezes corre perigo.

Quanto a mim, aprendi muito com ela, pois ela me permitiu saber um pouco mais a meu respeito frente a esse trabalho. Aprendi que não é possível inquerí-la do porquê  de agir assim, pois ela própria não tinha essa resposta, de onde vem essa excitação que acomete, e se ela agia assim, é porque foi a única resposta possível diante disso, não havia simbolização, era pura pulsão. A resposta era construída ali, à minha frente, na formulação de tais questões, me tomando como testemunha e interlocutora.

Isso foi uma parte do trabalho, a mais importante. Por outro lado, com relação à sua rebeldia, ela me pôs constantemente frente à perda do controle, sobre ela e sobre mim mesma, possibilitando-me verificar o quanto também sou atravessada por isso. E o quanto me angustia por mostrar ali, em ato, o que não é possível de se educar. Me fez deparar com a minha impotência frente a isso que um dia recalquei e esqueci em mim mesma, e procuro, quando me toca, mais uma vez me afastar.

Ou seja, o trabalho com a criança, ao ser permeado por brinquedos e brincadeiras parece muito leve e divertido. Mas isso não é verdade. Trata-se de algo muito sério e difícil, considero que ainda mais que o trabalho com adultos, por se tratar um ser cujo caráter está em formação, e que está muito vulnerável às nossas influências. E por outro lado, nos remete à criança que fomos um dia e cuja uma parte ainda habita em nós, remetendo-nos às nossas próprias questões a respeito de tudo isso que também vivenciamos um dia e que tanto provocou em nós. A prática da supervisão e análise pessoal são muito importantes em tais casos, pois diferente da criança, não podemos retirarmo-nos de cena, dizendo “não fui eu”, temos o dever e a ética de nos responsabilizarmos pelas nossas atitudes frente à condução de um tratamento, e se insistimos em fazer coisas cujo eu não sabe, temos o dever de ir tratá-las para que não corramos o risco de tomarmos partido dos pais ou da criança, de acordo com nossa próprias marcas e das teorias que elaboramos a partir delas.

Autora:  Mônica Fujimura Leite
Mestre em Educação Escolar pela UEL, Especialista em Transtornos Globais do Desenvolvimento na Infância e Adolescência pelo Centro Lydia Coriat e UNIFEV,
Especialista em Psicanálise pelo IMBRAPE e UNIDERP
Psicóloga pela UEL
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina
Atualmente atua no CREAS de Ibiporã e atende em clínica particular em Londrina.

 

Referência Bibliográfica

CIRINO, O. Psicanálise e Psiquiatria com Crianças: desenvolvimento ou estrutura. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

FREUD, S. Conferência XXXIV: Explicações, aplicações e orientações. In: FREUD, S.

Obras Completas. vol XXII, Imago: 1976.

LACAN, J. O Estadio do espelho como formação da função do eu. In: LACAN, J. O Seminário. Livro 4 – Das Relações de Objeto e as Estruturas Freudianas. Rio de Janeiro: Zahar. 1995, pg.96- 103.

MILLOT, C. Freud Antipedagogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1987.

PETRI, R. Psicanálise e Educação no Tratamento da Psicose Infantil: quatro experiências institucionais. São Paulo: FAPESP, 2003.

Entre a Queixa dos Pais e o Sintoma da Criança: qual era a pergunta?

A clínica sempre me coloca frente a impasses. Na prática, nada mudou, porém, no constante retorno à teoria, ocorrem encontros que, ao acrescentar um novo significante á cadeia, como já dizia Lacan, ressignifica toda a frase. Diante de situações como esta, me pego frente à angústia de que tudo o que sabia até então mudou, e, por um momento me vejo em um vazio, com uma pergunta: que faço eu quando faço o que faço? Qual a minha prática enquanto analista de crianças? E retorno à uma questão tão primordial, que me embaraça frente a uma prática que (mesmo sabendo que nunca está acabada), em meu ideal já deveria estar melhor fundamentada: de que se trata numa análise de crianças? Até pouco tempo atrás, eu já estava bem tranquila, respondendo a esta questão do seguinte modo: ora, se trata da constituição de um sujeito. Não que isso tenha deixado de ser verdade, porém, ultimamente, tem me parecido necessário mudar um pouco o foco do sujeito para o sentido mesmo dessa constituição, e então se faz necessário a inclusão dos pais na elaboração desta questão. Este aspecto me parece agora tão óbvio, e só hoje percebo do quanto estive o tempo todo cercada por isso, porém parece que só agora pude me apropriar desta verdade. Isso me faz pensar do quanto de fato o tempo do sujeito não é cronológico, e a realidade é mesmo psíquica.

Logo de saída, num trabalho clínico com crianças implica em um paradoxo: ao receber uma criança em tratamento, são os pais que escutamos em primeiro lugar. Simplesmente porque são eles que possuem um motivo para nos procurar, queixam – se de um sofrimento, causado por seus filhos. Foi assim no caso de Dudu, um menino de 6 aos agora, em tratamento há 3, que chegou com uma queixa, por parte da mãe, de hiperatividade. Por um outro lado, estava diretamente implicado nisto que sua mãe se queixa dele. Isso porque a subjetividade da criança passa por um processo de constituição, existindo antes de ela nascer, e continua sendo transmitido a ela ao longo de sua vida, a partir da subjetividade dos pais, sendo fundada a partir de um lugar, com o objetivo de cumprir o que os pais não conseguiram. Estes então dirigem – lhe uma demanda de alcançar essa satisfação almejada. (Jerusalinsky, 1996).

A criança tenta se enquadrar nisso que os pais esperam dela, uma vez que no humano não existe o instinto que assegura a maternidade. Porém, ao tratar – se de um ideal, não é possível de ser realizado, e a criança para responder a isso que lhe é pedido, faz um sintoma.

Em “Inibição, sintoma e angústia”(1976), Freud diz que o sintoma é um sinal, um substituto de uma satisfação pulsional que não foi satisfeita, sendo consequência de um processo de recalque. Através dessa substituição, é possível a satisfação pulsional, de uma maneira irreconhecível para o eu, constituindo – se por isso uma formação de compromisso entre as representações recalcadas inconscientes e a consciência. Ou, entre o desejo e o eu. No caso da criança, o sintoma é a leitura e a resposta que dá frente à constatação do desejo do Outro (que aponta sua castração), e a demanda dirigida a ela.

Em determinadas situações, no denominado sintoma clínico, ocorre uma paralização da criança, sendo a única resposta que ela foi capaz de dar frente a essa demanda, fixando – a numa solução parcial, anterior à resolução edípica, obstaculizando – a. No caso de Dudu, era o de um constante movimento sem contexto e uma dificuldade de prestar atenção. “A organização sintomática vem em defesa de um mínimo de subjetividade, oscilando entre se fazer objeto imaginário do gozo do Outro e destituir – se desse lugar através do fracasso dos ideais daqueles que encarnam o Outro.” (Bernardino, p. 59).

O sintoma da criança, por ser uma resposta aos pais, sempre tem a ver com a subjetividade deles, podendo ser do casal ou da mãe, como no caso de Dudu. Sua mãe se queixava porque o sintoma dele tocava em questões que ficaram para ela sem elaborar. Na verdade, demorou um tempo até ela decantar essa queixa para mim, tamanha a dificuldade de ela vislumbrar que pudesse haver algo de subjetivo (quanto mais que tivesse algo a ver com ela) nesse sintoma do filho. A princípio, tratava – se de um problema médico, orgânico, que passaria com a idade e a medicação.

Com um tempo de trabalho com a criança e uma escuta para ela, foi possível a ela ir delimitando algumas questões com relação ao filho, que me ajudaram também a entender seu movimento de levá-lo para inúmeros tratamentos, sempre corroborando sua  ideia de que ele necessitava de muita atenção, e ao mesmo tempo, ela mesma não se implicando em dar sua atenção para aquele filho. Fui podendo entender o quanto de sua queixa (um menino que não fixava sua atenção, movimentando-se o tempo todo) e seus cuidados com ele nesse sentido tinha a ver com a interpretação que ela fez de sua própria história, colocando -se como uma filha que sempre se virou sozinha por não ter a atenção devida da própria mãe. E do quanto isso ficou marcado como uma falta para ela, pois acredita piamente que se seu filho não tiver toda essa atenção, não se desenvolverá bem na vida. Porém, ela mesma não dá conta de prover isso, e delega a outros, essa tarefa. Também é possível observar o quanto ela ficou presa nessa relação com a própria mãe, tendo dificuldades em se autorizar enquanto mãe dessa criança, colocando em sua própria mãe ou em especialistas o saber sobre ele. De acordo com Mannoni, o sintoma da criança vem expressar algo que se interrompeu nessa cadeia significante, acerca do desejo dos pais. O sintoma de Dudu aparece então como resposta quando sua mãe vacila muito nessa transmissão, ao apresentar dificuldades em filiar esta criança, pela via de seu desejo.

Pelo modo como a constituição dessa criança foi se dando, muito ligada à subjetividade da mãe, não houve possibilidade de uma separação, e era impressionante observar em sessão o quanto se transmitia de uma para outra no trabalho. Num dia, enquanto a mãe falava do quanto coloca esse filho num lugar de bebê, não permitindo-o cair para crescer, ele leva um tombo e volta chorando para o colo dela, muito incomodado com a presença de seus terapeutas, não querendo que o víssemos no colo dela. Depois, ao falar disso com ela, a mãe diz que ele nunca agira assim, e falamos do quanto aqui se dava a possibilidade de um outro lugar para a existência dele. Numa outra ocasião, quando sua mãe (que sempre trabalhou muito, fora de casa) parou de trabalhar, Dudu cai, quebra o pé, e tem que ser carregado, lavado e limpo pela mãe, e volta depois para a sessão, brincando de cuidar dos bebês, onde podemos falar dos cuidados de sua mãe em seu corpo, coisa que ele já poderia fazer sozinho mas que a mãe retrocede muitas vezes fazendo por ele. A partir de então ele passa a aplicar castigos nesses bebês e privá – los do que mais querem, porque, segundo sua teoria (que é o que a mãe lhe fala), “desobedeceram”. E o castigo é uma dor física, ser levado ao hospital ou serem deixados sozinhos. E me pede para representar o sofrimento desses bebês, pedindo que o outro lhe mostre o que essa falta de “atenção” de uma mãe causa em um ser tão desamparado. A criança repete a vivência de sua mãe, e este sintoma de uma hiperatividade de Dudu, entre outras coisas, pode por um lado, dizer dessa  falta de atenção do qual se quixa a mãe em sua própria história, e por outro, também uma tentativa dessa criança de chamar a atenção dessa mãe, que chega a nós com uma posição esvaziada, depressiva.

Dudu recebe atualmente, além de atendimentos psicológicos na instituição, um trabalho de visita domiciliar realizado por outra psicóloga, um trabalho fisioterápico na instituição e sua mãe é escutada em grupo por uma outra psicóloga. No início essa escuta era realizada por mim, individualmente, e era um trabalho muito difícil, na medida em que ela não via a necessidade de tantas perguntas acerca de si mesma, ainda mais porque eu a questionava a respeito de algo muito difícil dela se haver: seu próprio desejo com relação ao filho, e no que ela estaria implicada nisso que se queixava dele. De acordo com Bernardino ( ), a escuta dos pais objetiva desvendar onde, na série significante dos pais, esse sintoma da criança entra. Mas a direção do trabalho não é o de tratar o fantasma dos pais, e sim de diferenciar o desejo dos pais com relação àquela criança e a leitura que a criança fez disso. Abrir um espaço para a enunciação do desejo deles, a fim de que eles possam se haver com isso, descolando-o do filho.

A mãe de Dudu teve que se reencontrar com lembranças dolorosas de sua história, que queria esquecer. Era muito angustiante para mim me deparar com essa resistência de alguém que não pediu para ter suas feridas cutucadas. Porém, a partir do momento em que aceitei tomar Dudu em tratamento, e, que esta mãe aceitou se pôr em trabalho comigo, era parte dele instigá – la na direção de desvendar qual é o pedido (ou a pergunta) que ela direciona a ele. Pergunta que pertence ao passado, mas que se reatualiza com o nascimento de um filho, e que ele presentifica em seu sintoma.

Autora: Mônica Fujimura Leite
Mestre em Educação Escolar pela UEL
Especialista em Transtornos Globais do Desenvolvimento na Infância e Adolescência pelo Centro Lydia Coriat e UNIFEV
Especialista em Psicanálise pelo IMBRAPE e UNIDERP, Psicóloga pela UEL
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina
Atualmente atua no CREAS de Ibiporã e atende em clínica particular em Londrina.

 

Referência Bibliográfica

BERNARDINO, L.F. Sim, toma. In: Proposições Teóricas.____.p. 53 – 63.

FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: FREUD, S. Edição Standard das Obras Completas, vol. XX. Imago: Rio de Janeiro, 1976.

JERUSALINSKY, A. Seminário de Psicanálise com Crianças.____, 1996.

JERUSALINSKY, A. Quando começa a transferência na Infância? In: Seminário I. USP, Instituto de Psicologia, Lugar de Vida. São Paulo, 2002, p. 69 – 87.

MELMAN, C. Sobre a Infância do Sintoma. In: Proposições Teóricas.____.p. 15 – 26.

SAURET, M. O Infantil e a Estrutura. Escola Brasileira de psicanálise: São Paulo, 1997.

“A Psicóloga que Veio da Saúde”

Uma parte da nossa existência está nas almas de
quem se aproxima de nós; por isso, não é humana
a experiência de quem viveu dias nos quais o homem
foi apenas uma coisa ante os olhos de outro
homem (PRIMO LEVI, 1988, p.173).

Foi sob essa denominação que fui recebida há um ano atrás na rede de atendimento da assistência social. Assim denominada, qualquer intervenção que eu propunha era designada desta forma e desprestigiada dentro de um serviço que se propunha a outros objetivos. A demanda institucional dirigida a mim parte de uma negativa: “não se trata de proporcionar um tratamento”, mas “garantir o atendimento às necessidades básicas do indivíduo” (Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS, BRASIL, 1993). Ou seja: garantia de direitos.

Hoje, olhando o percurso realizado, vejo que eu, enquanto psicanalista, contratada como técnica da assistência social, me instalei na fronteira entre cumprir o que meu papel se propunha o que meu desejo impunha. Desde então, iniciou-se um percurso permeado por muitas questões. A primeira refere-se ao modo como fui nomeada: tratar o que? De que tratamento se trata? O que tenho verificado é que as famílias que chegam para atendimento sofrem e gozam da mesma forma que as da área da saúde. A diferença talvez seja no modo como chegam, o lugar que a instituição ocupa para elas e o lugar no qual a instituição as coloca. E o grande nó se localiza aí.

O próprio Freud (1918/2006) coloca-se a pensar em como poderia se dar a oferta de tratamento psicanalítico em populações em condições de pobreza extrema. Ele, no entanto, alerta para a questão de que a vida dura que os espera após a recuperação da doença as impulsione a permanecer com suas neuroses, que lhes dá direitos à ajuda social. Ele fala então da necessidade de “unir ao socorro psíquico um auxílio material”. Mas, por outro lado, reforça que “a estrutura e a composição desta psicoterapia para o povo” necessitaria continuar fundamentada no rigor da psicanálise.

Porém, em uma instituição que visa garantir lugar para um “Sujeito de Direitos”, onde ficam os “Direitos do Sujeito”? Por mais que as políticas de assistência social tenham evoluído de um assistencialismo puro para a promoção da autonomia do sujeito, o que fui verificando ao longo desse tempo, é que eles continuam sendo colocados na posição de objeto. E isso ocasiona diversos desdobramentos.

1) A não delimitação de uma queixa

Chegam famílias com encaminhamentos que algumas vezes não nomeiam o problema real, em outras vezes não sabem por que vieram e em outras ainda não querem atendimento, vindo por uma imposição de um terceiro (Delegacia, Conselho Tutelar, Ministério Público). Quando se trata de crianças e adolescentes vítimas de violência (física, psicológica, sexual), por conta da investigação que é instaurada a partir da denúncia, eles já tiveram que falar do acontecido inúmeras vezes: ao Conselho Tutelar, à Delegacia, ao técnico do hospital. Já foram submetidos a exames físicos, interrogatórios e intervenções que interferem na dinâmica familiar (afastamento do agressor). São procedimentos padrão. Meu papel tem sido muitas vezes o de ouvir os efeitos que as intervenções dos diferentes serviços provocam. Em alguns casos eles foram buscar ajuda, porém não tinham noção do que viria depois e ouço-os muitas vezes dizer que preferiam que as coisas permanecessem do jeito que estavam. Em outros casos, quem faz a denúncia é alguém de fora, obrigando o sujeito a abrir mão de algo que nem disse que não queria. Essa é uma questão importante de saída, pois Freud colocava que o motor para suportar um tratamento psicanalítico é o sujeito estar sofrendo e querer livrar-se deste sofrimento. Se sequer isso está delimitado, como suportar o que vem de uma escuta do inconsciente?

Como uma adolescente que vem dizer o quanto está brava com os serviços por terem tirado seu padrasto de casa, que mesmo praticando diversas formas de violência contra ela e seus irmãos, era um bom pai, e após ter discorrido diversas vezes acerca da falta que ele faz, admite que preferia que as coisas não tivessem mudado. Este é um caso em que não foi ela a denunciante, e havia um engajamento dela sentir-se desejada enquanto mulher por este homem, vindo um saber de fora lhe dizer que isso não pode. Meu trabalho estava sendo de possibilitar-lhe admitir seu desejo e elaborar isso. Porém,após inúmeros percalços com este caso, a mãe, em seu limite, começa ela também a praticar atos de violência contra os filhos, correndo o risco de perder a guarda deles (em casos de violência, como último recurso a criança é retirada da família e abrigada), e diante disso, eles se unem a ela e contra os serviços que se propõem a protegê-los, inviabilizando o trabalho, pois deixamos de ser oferta de escuta, para sermos investigadores e fiscalizadores.

Não se trata de dizer que a violência não deva ser interrompida ou que não acarrete sofrimento, porém o que ocorre é que se visa um “bem estar do sujeito”, sem perguntar-lhe se para ele isso é um bem, ou se ao menos ele o quer. Conforme Freud (1920/2006) já nos alertara, o sujeito não busca o seu bem (se isso implica em sair da situação que o faz sofrer) ele repete. O que essa política apregoa é que a violência tira  do sujeito a autonomia para considerar-se sendo violado em seus direitos, e, uma vez reconhecendo isso, para conseguir modificar essa situação. Porém desconsidera o fato de que, os serviços vindos de fora e retirando-o, sem lhe perguntar o que ele fazia ali (ou seja, qual sua implicação nisso que o faz sofrer – Freud, 1905 [1901]/2006), o sujeito volta à mesma situação. Retornando ao lugar do qual saiu, seja ele físico, seja armando novamente uma cena para que figure na mesma posição, ou ainda, queixando-se da nova situação. E isso ainda corrobora uma atitude, neurótica por excelência, de que o outro é mesmo o culpado pelo seu sofrimento. Escuto mães dizendo que darão novamente seus filhos para o juiz cuidar, seja porque não o quer, porque não dá conta dele ou porque o Estado não lhe dá dinheiro suficiente para prover suas necessidades.

2) A impossibilidade da associação livre

Freud (1912/2006;1913/2006) enuncia esta enquanto a regra fundamental da análise. Implica em o paciente comunicar tudo o que lhe ocorre, sem deixar de revelar algo que lhe pareça insignificante, vergonhoso ou doloroso, enquanto que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio, a priori, de qualquer elemento de seu discurso (atenção flutuante).

Na instituição onde trabalho o critério de atendimento é o sofrimento decorrente da situação de violência. Assim, posso acolher atuações, sintomas, inibições, porém a escuta necessita ser direcionada, ou seja, o sujeito só pode sofrer por este motivo. O que tenho tentado enquanto prática é colocar esta delimitação no início do trabalho e a partir daí acolho o que vem, sem direcionar a fala. Minha escuta, porém, sempre tem que estar atenta a que o que o sujeito traga seja relacionado ao evento traumático de violência.

Uma outra questão é quando este evento não se tornou traumático. Crianças pequenas não consideram o abuso sexual enquanto uma experiência traumática, uma vez que estão com suas pulsões polimorfamente organizadas, sem o crivo da censura (Freud, 1905a/2006;1924/2006). Minha intervenção, enquanto garantidora de direitos é o de dar sentido ao evento e instrumentalizar a criança a reconhecer e defender-se de situações futuras (foco do trabalho é a proteção e prevenção da violência). Não há assim possibilidade de elaboração se um sofrimento não se instalou ainda. O que tenho feito é alertar aos pais que com a chegada da adolescência um trauma possa se instalar, a partir da ressignificação da experiência (Freud, 1893-95/2006). Ou mesmo com adolescentes ou mulheres vítimas de violência, que encaram a situação como algo  aceitável eu necessito informá-las do significado da violência pelo qual passaram e seus direitos e meios de defesa.
Assim, nessas ocasiões, é de um outro lugar que falo, assumindo o discurso universitário.

A Psicóloga que Veio da Saúde

No discurso universitário o agente do discurso é o saber (S2), ou seja, há um conhecimento erudito (do Outro) ao qual aquele que o recebe deve se assujeitar. O agente (no caso eu) fala em nome de um saber que não é seu, ou seja, não fala em nome próprio. Assim, a verdade do sujeito é rejeitada e ele é colocado no lugar de objeto ( a ) (QUINET, 1999;PETRI, 2003; ZILIOTTO, 2004).

3) A impossibilidade da imparcialidade e do sigilo

Além disso, quando a proposta é a de ouvir o sujeito, este saber é apropriado e utilizado pelo Estado. É-nos atribuída a função de realizar a oitiva da suposta vítima e enviar relatórios aos órgãos competentes investigadores. A principal subversão que encontrei nesse trabalho foi essa, a de que a técnica da escuta seria usada não para o próprio sujeito, mas para um outro. A fala do sujeito é tomada enquanto valor de prova para a tomada de decisões contra ou a favor dele, de qualquer forma não é para usufruto dele. Que fazer com a neutralidade tão necessária, a relevância dada à realidade psíquica (Freud, 1950 [1892-1899]), se é preciso averiguar a veracidade do relato do sujeito? Não a partir da ótica de seu desejo, mas de verificação de realidade dos fatos? A resposta que consegui dar a isso foi a de, em primeiro lugar falar sobre isso com aquele que chega, e não fazer relatórios conclusivos, apenas reproduzindo a fala do sujeito, sem atribuir-lhe uma interpretação e partindo do princípio de que, se ele falou é porque é verdade. Além disso, abro espaço para que ele possa dizer quais os efeitos da experiência pela qual tem passado, seja decorrente da violência pela qual chegou ali, seja da atuação dos serviços. Geralmente os serviços finalizam seu trabalho após a intervenção e modificação da cena da violência. O meu trabalho começa aí.

4) A manutenção do sintoma

As famílias assistidas pela assistência social posicionam-se enquanto demandantes plenas. São famílias que não têm construída a dimensão da intimidade, não fazem a distinção entre o público e o privado, e suas questões são divulgadas e espalhadas entre os vizinhos, e também entre os serviços. Não possuem timidez, nojo ou receio de falar de suas desgraças, estórias ou particularidades, nem de recontá-las a quem quer que pare para ouvi-los. O serviço, ao fornecer-lhe os benefícios, referenda o quanto são merecedores de compaixão e portanto merecem o título de sofredores, desgraçados, despossuídos e necessitam que o Outro lhe dê: bens materiais, mas principalmente reconhecimento e amor.

O trabalho que tenho sustentado ao longo desse ano é o de que passem a dar a devido valor àquilo que falam, ou seja, de se escutarem, a partir da instalação de um setting; e fazer um corte, não supervalorizando a estória que insistem em desdobrar a cada vez, mas de questionar que parte tem nisso de que se queixam.

5) A não instalação do sujeito suposto saber

Não sei se é possível nomear assim o posicionamento de alguns sujeitos se recusarem veementemente a qualquer intervenção. Não falam, não vêm, não escutam, não querem. Lacan (NÁSIO, 1992) diz que o sujeito suposto saber se instala quando o analista passa a fazer parte do sintoma do analisando, passando a ser o destinatário daquele. Freud (1924/2006) denomina enquanto transferência e define que esta é uma manifestação inconsciente em que protótipos infantis são revividos como se pertencessem à atualidade. O analista é a tela sobre a qual o paciente projeta suas vivências infantis. A partir de Freud, se está apto a ser ouvido pelo outro quando se é colocado em um lugar de determinada importância, passando a partir daí a ter influência sobre o sujeito.

Os casos que chegam a mim são sujeitos cujo Outro já falhou inúmeras vezes e não lhe garantiu resposta satisfatória nos momentos em que mais precisou (experiências reiteradas de frustração e privação). E nós, que nos propomos a garantir direitos, nos vemos inviabilizados de fazê-lo, pois os serviços não funcionam como deveriam, ou até visam garantir algo impossível: como proteger o sujeito dele mesmo?

Essa é a tal da política da “garantia dos direitos”. O que se percebe é que o Estado assume um lugar de ideal, um Outro sem furos que na verdade não existe. Coloca-se como provedor das necessidades do sujeito, como se fosse capaz de suprir o  que ele não consegue prover por conta própria. É como se colocasse essa perspectiva no horizonte, em troca da arbitrariedade de se impor sobre a vida dele e fazê-lo tomar decisões a partir do que impõe sobre sua vida privada. Assim, o Estado dispõe sobre a configuração familiar, quem deve sair de casa, a que distância um senhor deve ficar de sua ex-esposa, de quanto em quanto tempo um pai pode visitar seu filho, que uma mãe é prejudicial a sua filha e esta deve portanto morar com os avós, ou o próprio Estado assume a tutela dos infantes. Mais uma vez impera o discurso universitário.

O problema é que o sujeito não é assim tão obediente e o que se observa é que as famílias seguem essas determinações por um tempo (ou nenhum tempo), e depois voltam a fazer da forma como lhe convêm. Assim, as mulheres que chegam queixando-se da violência do marido, são orientadas a registrar um Boletim de Ocorrência, para que seja instaurado um processo e uma Medida Protetiva de afastamento do agressor. Porém isso não garante que ele se afaste e as notícias de jornal vêm nos dizer que mais um cidadão mata a ex-mulher, mesmo com todos os registros realizados e as medidas protetivas tomadas. Ou mulheres que são ajudadas a sair da vista do parceiro, não conseguem se sustentar, um lugar para morar, ou cuidar dos filhos sozinhas, ou desvincilhar-se do amor por eles e voltam a morar com o agressor. Diante disso me pergunto: existe meios de garantir uma proteção ao sujeito? Garantir uma proteção contra uma escolha que ele mesmo fez? Existe uma Medida Protetiva para o inconsciente?

6) A homogeneização dos sujeitos

Afora essa questão, outra que se verifica é a homogeneização dos sujeitos, no enquadre do trabalho com a família e em grupos, o que achata o sujeito na dimensão da queixa na qual é enquadrado, que muitas vezes nem é ele que delimita, como se o título de “violentados” ou “violentadores” os igualasse a todos numa mesma posição.

Junto com Scarparo (2008) considero importante destacar que considerar a família como um todo é reforçar este lugar de alienação no discurso do Outro, perdendo-se a possibilidade de escuta do sujeito na singularidade do seu sintoma. Pois um filho não está colocado no mesmo lugar que outro na fantasmática parental e um filho faz sintoma para seus pais (Lacan 1969). Assim, é importante delimitar quem pede escuta de seu sofrimento. Cada sujeito é singular e se engaja, dentro dessa mesma categoria, de maneira única, e de formas completamente diversas. Tenho realizado então, atendimentos individuais.

7) A escuta individualizada: uma possibilidade de trabalho?

Scarparo (2008) coloca que é nessa “zona de fronteira” que podemos situar uma escuta do sujeito, orientada pela ética da psicanálise, e que tem no social o seu lugar de enunciação. A partir da idéia subversiva da psicanálise, de que é a oferta que produz a demanda, após garantir algumas condições mínimas de sobrevivência, convido o sujeito a descolar-se do desejo do Outro social, para assumir-se responsável por suas escolhas e as consequências delas em sua vida.

O sujeito, sendo tomado em sua dimensão singular, assumo o discurso do analista, no qual o saber inconsciente surge no lugar da verdade. Não se impõe um ideal, o analista se coloca no lugar do objeto causa de desejo, colocando o outro num lugar de sujeito dividido. Esse funcionamento vai ter como produção os significantes-mestre que assujeitaram o sujeito (PETRI, 2003).

A Psicóloga que Veio da Saúde

Não se trata de uma análise, mas coloca-se a escuta em uma outra dimensão, para além do que é dito. Se o que a psicanálise proporciona é um espaço para o sujeito, abrir a dimensão da escuta proporcionou alguns efeitos.

Como uma garota que pôde elaborar sua condição de enamoramento com o pai e articular seu desejo de separação com o que era permitido por ele. Ou uma mulher, que pôde falar que nunca quis sair do orfanato e ser adotada e como se fez sua vida inteira ser rejeitada a partir de sua escolha de não querer estar ali. Esta paciente mesmo me ensinou muito acerca de meu lugar ali, onde, após sua queixa inicial de violência doméstica, tentamos conseguir um lugar para abrigá-la e verificamos os empecilhos que ela mesma colocava para uma solução prática; e dia a dia eu via o mal estar que ela causava na equipe, por fazer uma demanda impossível de ser cumprida (pois a escuta do sofrimento real da violência nos coloca o imperativo de tirar o sujeito da situação ele implica em risco de vida, real). E o que ela me mostrou, após verificarmos que não tínhamos uma alternativa de saída da situação para ela, quando eu lhe perguntei o que ela vinha buscar comigo, ela nomeou que precisava de “um lugar para se estruturar”. Eu disse que isso poderia oferecer, e ela pôde falar de sua estória e posição na vida, e a partir disso, em seguida ela mesma saiu da situação opressora e foi cuidar da vida, sem precisar que a déssemos a ela.

Um outro caso foi o de uma adolescente que pôde sair de uma posição depressiva importante, falando, através de um personagem de desenho, que começa querendo destruir o mundo para, a partir do encontro com o amor, desejar construir uma família. Ou uma menininha adotada, que foi rejeitada diversas vezes e já se utilizava
disso para despertar pena nas pessoas e conseguir privilégios, seduzindo, ou fazendo-se ser expulsa, ao testar o limite do amor dos adultos. Ela pôde, através da elaboração de sua estória e da posição que assumiu diante dela, reconhecer o lugar que lhe era dado na nova família e conseguir submeter-se a ser a filha esperada por eles e encontrar um lugar para si, menos sofrido. A mãe adotiva, por sua vez, também em escuta individual, pôde elaborar o luto de uma filha idealizada, podendo aceitar a filha real.

Em um outro caso, pude escutar como o sujeito se posiciona diante do horror do encontro com o real da morte, em idade tão precoce, ou experienciar o seu Outro enquanto transgressor de todas as leis, e reconhecer-se no efeito provocado em suas escolhas de vida e na relação atual com a maternidade. Esta mulher, que já esteve sob o risco de perder a guarda do filho por maus tratos e negligência, consegue hoje reconhecer-se nele e falar do prazer em ser mãe.

É possível verificar que, mesmo sob uma mesma denominação, cada caso é singular, e a necessidade de uma especificidade e enquadramento, bem como a direção de um trabalho. Em todos eles foi possível aos sujeitos apropriarem-se do espaço de escuta ofertado e cada um utilizá-lo para o que precisava naquele momento. Alguns deles inclusive se deram alta do serviço, o que atesta a conclusão de um trabalho realizado. Foram intervenções pontuais, com efeitos que talvez possamos situar no nível do terapêutico. Mas que foram viabilizados porque se deixou de lado o “deveria ser” para substituí-lo por “do que você precisa? Ou, “o que veio buscar aqui?” E eu, enquanto psicanalista, pude deixar de lado a demanda institucional e me abrir à demanda do sujeito.

Figueiredo (apud SCARPARO, 2008) coloca o psicanalista neste ponto de fazer funcionar a fala do sujeito, na escuta da singularidade deste, para além do rótulo de “excluídos”, que iguala diferentes, por uma identificação ao discurso social. “Então é preciso indagar pelo desejo diante de olhares paralisados frente ao objeto da necessidade” (p. 15).

Acho que, na medida do possível, em alguns casos, é isso que tenho feito. Dentro de uma política de garantia de direitos, inúmeros embates se configuraram em minha prática, mas especialmente em minha ética. Dia a dia me vejo com o desafio de sustentar um lugar para o sujeito dentro de um espaço que é organizado para um achatamento subjetivo. O preço que pago por isso é suportar esse estranhamento, de alguém meio desconfigurado, inadequado, que não se enquadra e sugere certo mal – estar. Um sujeito meio anti-social, que não ri das mesmas piadas, nem segue a mesma dinâmica do grupo de trabalhadores. Um ser em sua completa condição de extimidade.

Autora: Mônica Fujimura Leite

 

Referência Bibliográfica

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PETRI, R. Psicanálise e educação no tratamento da psicose infantil: quatro experiências institucionais. São Paulo: FAPESP, 2003. p. 71-75

QUINET, A. (1999) A ciência psiquiátrica nos discursos da contemporaneidade. (Estados Gerais da Psicanálise). Disponível em:www.estadosgerais.org.

SCARPARO, M.L. D. Em busca do sujeito perdido: a psicanálise na assistência social, limites e possibilidades. Dissertação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.

ZILIOTTO, D. M. A posição do sujeito na fala e deus efeitos: uma reflexão sobre os quatro discursos. Psicologia USP, 2004, 15(1/2), 215-223. disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pusp/v15n1-2/a21v1512.pdf.

Resposta Aquém? Resposta a Quem?

O jogo de presenca e ausencia do gozo nao esta apenas nas
maos da crianca, por isso nao se pode esquecer o lugar dos
pais na analise de uma criança (FLESLER, 2007, p. 200)

O percurso de um psicanalista permeado por um equilibrar-se constante, entre atos e suspensões. Frutos estas de um questionar-se acerca de seu fazer, que configura-se num saber-fazer apenas a posteriori. Ha algum tempo atendendo crianças com estruturas psíquicas graves, percebo que junto com o atendimento da criança, o acolhimento das personagens que compõem a cena com ela bastante importante. Ao longo de meu percurso verifiquei que, se por um dado, Freud e Lacan não nos deixaram uma técnica orientativa, por outro os psicanalistas de crianças nos apresentam varias versões de como lidar com essa conjuntura especifica de fatores. Assim, ao longo de um percurso, percebi que eu escolhi um determinado modo de atuação que, se nunca estar finalizado, segue uma certa regularidade. Lacan denominou isso de estilo, sendo este o modo como cada psicanalista implica-se com sua pratica, a partir de uma ética. Goldemberg (2004) coloca que Lacan não falou de uma pratica da Psicanalise, mas de uma eica dos psicanalistas, que se define pela concepção que cada um tem dos meios e fins da psicanalise. Que esta singular, delimitada pela inflexão em que direciona a transferência, a partir dos lugares que ocupa de objeto e Outro na analise que propõe. Se tal pratica consiste num autorizar-se de si mesmo importa ressaltar que não condiz com um laissez-faire. Existe o autorizar-se aos outros configurados nos dispositivos institucionais da analise pessoal, supervisão e estudo teórico, pilares da pratica analítica.

O ponto que me proponho a tratar hoje aqui dessa construção particular, a partir do modo como tenho respondido em especifico aos pais das crianças que tomei em atendimento. Uma criança quando chega ao analista o coloca sempre em questão. Questão de como lidar com esses que fazem um pedido pela criança, que falam por ela, se interpõem o tempo todo em seu tratamento, pagam por ela, reclamam do preço, que não entendem a necessidade de entrevistas intermináveis com eles, e que reaparecem de tempos em tempos para nos lembrar de nossa função.

Os pais, que ligam insistentemente para desmarcar a sessão por causa de febres inexplicáveis, que aparecem na sessão do filho querendo uns minutinhos de nossa atenção, nos perguntam o que fazer quando a criança irrompe com uma má educação, convidam-nos para as festas de aniversario, trazem-nos o álbum do primeiro ano de vida da criança, solicitam cardaarios de alimentação, revelam-nos a nudez familiar de forma explicita das horas do banho, do controle esfinceteriano, do ritual do sono. Trocamos com eles fraldas, chupetas e mamadeiras por um filho grande, ajudamo-los a suportar as perdas inerentes do eterno tornar-se desnecessário enfrentamos cenas de ciumes, rivalidades, onde o analista se pergunta quem é o filho de quem. Somos convidados a participar de forma contundente da intimidade da casa, contam-nos confidencias, do lugar dessa criança em sua cama, em sua casa, em seus desejos.

E por fim, levam a criança embora, seja porque ela melhorou, ou porque não melhorou, porque acabou o dinheiro ou porque cansaram de levar, seja porque descobriram um novo exame de imagem em 3D, uma terapia de florais, ou porque o doutor descobriu um novo medicamento capaz de otimizar os resultados, ou ainda lhes disse que quando crescer sara.

Enquanto aquele que dirige o tratamento, um analista necessita dar uma resposta. Resposta que damos ao nos posicionarmos diante de tantos pedidos e interferencias: mas que coisa, por que não nos deixam trabalhar em paz? Se foram levar o filho, por que não se contentam em ocupar seu devido lugar? Mas que lugar esse? Sera fora da cena terapêutica? Ou sera que ocupar o devido lugar não implica em que essas aparições e interferências sejam material de trabalho com a criança? Da mesma forma que esta, em sua condição de infante, não pode dispensar os progenitores, sera que, por sua condição estrutural, a analise de uma criança não implica em atender aos pais?

Em meu percurso, acredito que sim. A questão que se coloca então de que forma isso deve ser feito? Em primeiro lugar importante lembrar que uma criança chega a nos se seu sintoma se caracterizar enquanto ponto de angustia para seus pais. Ou seja, algo da subjetividade deles esta implicada desde o inicio em seu pedido de ajuda para o filho. Faria (1998) nos lembra que, estando a criança localizada enquanto objeto privilegiado de satisfação dos pais, ela um veiculo de alienação do desejo parental. Nesse quesito também importa lembrar que nem sempre o que eles recortam do filho o mesmo motivo pelo qual uma criança aceita se submeter ao um tratamento. Desde apercebemos o embaraço no qual nos encontramos: realizar por um lado uma distinção de sujeitos e demandas, e por outro trabalhar com o fato de que o sintoma da criança, por sua condição estrutural, esta implicado na dinâmica familiar. Como uma mãe que me procurou por um atraso na fala de sua
filha e qual não foi minha surpresa ao conhece-la, me deparar com uma mocinha com um expressivo atraso global no desenvolvimento, com episódios de agressividade, uma demanda de exclusão importante e ausência de um brincar constituinte. Assim, claramente se evidenciava de saída que algo ali falava, depositado na criança, mas que ia além dela. A criança necessitava sim de intervenção, mas sua mãe também precisava ser escutada.

Para lidar com esse embrolho, na tentativa de responder a essa pergunta, percorri as diversas formas que os psicanalistas de criança se posicionaram ao longo do tempo, tendo encontrado desde profissionais que excluam por completo os pais da cena terapêutica, atos que dispensavam a criança e atendiam apenas os pais. Mannonni (apud FARIA, 1998) acreditava no trabalho com os pais juntamente com o da criança. Diz que não e possível escolhermos se os pais participam ou não de um atendimento, de qualquer forma eles comparecerão. A criança está, por sua condição própria, submetida realidade do casal parental.

Assim, se a posição do analista nunca de conforto, um analista de crianças esta em terreno um pouco mais inóspito, porque sua intervenção sempre em um ponto de tensão. Se, numa analise, os que chegam são sempre muitos, uma vez que o sujeito sempre o Outro, no caso das crianças esses Outros comparecem encarnados, em suas funções presentes, não estão patentes, ressignificados pela fantasia daquele que conta pela vida palavra, como se deram suas relações primordiais. Elas esta acontecendo, em tempo real, diante do analista. Se Freud comparou o inicio da analise a um jogo de xadrez, há que se ter cuidado redobrado, quando se intervem em um jogo que ainda esta operando.

Vamos retomar, juntamente com h. Von Hugh Helmuth (apud BERG?S E BALBO, 1997) em primeira instancia, o fato de que quem nos procura são os pais. Em primeiro lugar, estes costumam chegar apos ter passado por inúmeras tentativas fracassadas. Apresentam-se culpados por terem fracassado e frustrados por ter que colocar em outrem o saber acerca de sua cria, e os créditos pela melhora dela, caso isso aconteça. Vão com um pedido de restituição de uma ferida narcísica. Lugar espinhoso no qual somos procurados. Assim, uma das funções de escuta dos pais, em especial no inicio do tratamento da criança, segundo os autores, a de evitar efeitos demasiadamente danosos, que podem ocasionar num abandono do tratamento.

Faria (1998) diz que as atuações dos pais devem ser escutadas no n 咩 el discursivo, que permitir fundar uma transferência e iniciar um trabalho analítico. A autora nos lembra de que a criança e seus pais estão ligados numa colagem significante. Isso produz neles um sofrimento que, por ser depositado na criança, torna difícil o reconhecimento enquanto sofrimento próprio. Necessitam então ser escutados. Isso não significa fazer uma analise dos pais, mas garantir que o contrato da analise de seu filho seja mantido, pois muitos tratamentos são interrompidos pela angustia parental. Em especial quando a criança começa a mudar de posição subjetiva, por exemplo quando um autista começa a fazer relação ao outro de maneira a solicitar seus pais de forma diferente. Podem tornar-se imperativos, e os pais vão se queixar de que piorou, agora esbraveja, não dorme, solicita-lhes algo que eles não sabem o que O que costumava acalmar-lhe não funciona mais. E vão aos poucos se dando conta de que solicitam sua presença, e que de presente, ganharam um filho. E então uma nova etapa. Terá que se confrontar, talvez com o seu não desejo de filho. E a Mais espaço de escuta. Faria (1998) nos lembra de que o trabalho analítico com a criança tem efeitos sobre os pais, uma vez que a alteração de um dos elementos de uma estrutura altera a estrutura como um todo.

Flesler (2007) por outro lado, diz que uma analise aponta sempre para um sujeito, que não e criança ou adulto, ele não tem idade. Mas que não indiferente o momento logico de sua constituição quando chega a nos. No tempo da infância, a evolução do sujeito nesses tempos lógicos implica em que ele seja nominado e antecipado em cada um deles, por seus Outros.

Depende em primeira instancia em que lugar ele esta situado com relação ao desejo parental. Segundo Lacan, o desejo dos pais e uma lei não natural, não regulada pelo instinto, e sim pela castração, condição de economia desejante (FLESLER, 2007, p. 41).

Por causa disso, Mannonni (apud FARIA, 1998) inclui a fala dos pais enquanto elemento primordial na analise das crianças, buscando a resposta sintomática enquanto um enigma do entrelace de ambos os discursos: da criança e dos pais. O analista necessita interrogar qual o lugar da palavra da mãe na fantasmática da criança e qual o lugar do pai na palavra da mãe. Segundo ela, o sintoma da criança esta atrelado ao que transmitido a ela e de que forma isso feito. Escutar aos pais possibilita compreender que lugar a criança ocupa na fantasmática parental. Isso necessário tanto para o diagnostico da criança quanto para o tratamento, na medida em que necessário que esse lugar se desloque. Porem, a autora coloca que exigir que os pais se submetam a uma analise pessoal inútil, pois estando o sintoma alienado na criança, apenas a partir desse lugar que, num primeiro momento, eles conseguem se colocar.

Assim, considerando as especificidades de uma analise de crianças, o modo como ela se estrutura inclui, desde o inicio, seus pais. De acordo com Faria (1998), uma criança se constitui enquanto sujeito na medida em que os pais assumem determinadas funções, ou seja, funcionaram de determinada forma. Ela lembra que Lacan coloca no Seminário sobre as Psicoses (1988) que nessas algo não funcionou, não completando o Edipo. No caso então de crianças pequenas ou com transtornos graves, que estão nesse ponto especifico dos tempos lógicos da constituição de um sujeito, em que algo ainda não se completou, considero, a partir desta viés, que o trabalho do analista o de tensionar para que de um possam emergir dois sujeitos, porem, pode ser necessário um tempo de trabalho para que isso seja possível.

Para entender melhor do que se trata a inclusão de um filho na dinâmica da satisfação parental, recorremos a Flesler (2007). Segundo a autora, o desejo dos pais diz respeito ao desejo pelo filho, mas também o desejo entre eles, enquanto casal. No caso do pai, a partir de Lacan, ela diz que este merece respeito e amor quando faz de uma mulher o objeto-causa de seu desejo. Quando ele se mostra desejante, coloca em cena sua condição de castração. Ao nomear a criança como seu filho, situa-lhe um desejo não anonimo e introduz a ele a interdição do incesto. Já no caso da mãe, necessário verificar que lugar ocupam o pai e a criança no desejo dela. Uma criança, para ser antecipada, necessita ser colocada no lugar de uma restituição narcísica para uma mulher, o que implica em ocupar um lugar de falo.

Ainda de acordo com Flesler (2007), uma criança pode ser localizada pela mãe enquanto objeto de desejo, de amor ou de gozo. Cada um encontra limite nos outros dois. Essa questão encontra inúmeras combinações.

E o amor que impede que quando uma mãe tem vontade de devorar seu bebe, colocado no lugar de objeto de gozo, não faca. Quando o amor não faz barra ao gozo, encontro mães invasivas, que continuam limpando crianças ate sua pre adolescência, tomando banho juntos, levando-as para cama, que falam e escolhem por elas, de modo que não há espaço para duas subjetividades. Flesler (2007) coloca que a intervenção do analista nesses casos necessita de uma postura mais ativa, barrando a mãe, dizendo diretamente da necessidade de parar com essas invasões no corpo e na subjetividade da criança. A expressão mais comum dos casos em que a criança e fixada no lugar apenas de gozo, não encontrando lugar no narcisismo parental, quando servem de extensão de seus corpos, quando escuto relatos de medicarem a criança para sanar uma dor sua. Quando a existência da criança um incomodo, o motivo das desgraças da vida daquela mãe, e impressionante verificar como elas encontram justificativas para maltratar ou descuidar da criança, em nome desse imperativo inconsciente de que ela deva ser eliminada.

E muito comum nos casos em que a criança ocupa o lugar de objeto da fantasia materna que o pai esteja deslocado da posição de detentor do falo. S 縊 m 綟 s que por diversos motivos tomam o filho para si, por exemplo, realizando parcerias amorosas apenas para ter filhos. Ou dispensam os homens apos estar com o objeto de satisfação em seus ventres, tem nojo ate do cheiro de seu parceiro. Em outros casos, quando o filho está fora do circuito do desejo materno, encontro na escuta o ponto de satisfação dessa mulher em outro lugar (no trabalho, por exemplo). Ou mães feridas narcisticamente pelo fato de seus maridos passarem a incluir esse filho enquanto objeto fálico, entrando numa competição com a criança pelo amor do pai.

Os casos citados acima se enquadram no que Lacan (1969) denomina de o sintoma da criança estar situado na fantasmática materna. O desejo contra o qual uma criança se defende fazendo um sintoma o dos pais. Assim, um analista, ao escutar os pais, deve investigar como o desejo entre eles se enlaça. Tal posicionamento essencial, uma vez que isso que do tom para por onde uma criança pode circular. Segundo Flesler (2007, p. 69),

o desejo dos pais, como homem e mulher, condiciona e possibilita a recriação dos tempos do sujeito.
Quando o desejo dos pais, ao contrario, se concentra exclusivamente no filho, a criança tendera funcionar
como condensador do gozo, objeto da fantasia.

Para entender do que isso se trata, passemos ao segundo ponto a ser escutado no discurso parental, juntamente com o que observamos da criança quando ela vem: o lugar que ela se posiciona nesse desejo, ou seja, em que momento aquela criança esta dentro dos tempos lógicos da constitui 鈬 o subjetiva (FLESLER, 2007).

O primeiro tempo diz respeito a alienação ao desejo da mãe, ser ou não o falo. As falhas decorrentes desse tempo são muito precoces e atingem importantes consequências. Ocorrem manifesta 鋏 es corpo (transtornos de sono, alimentares, adoecimentos de repetição) e do imaginário (o brincar, a constituição do eu e apropriação do corpo, por exemplo) e por fim os autismos infantis. As psicoses infantis também podem entrar nesse lugar, onde existe um lugar para a criança no desejo materno, porem esta não e elevada ao estatuto falico, onde seria-lhe possivel fazer semblante do objeto que completaria, ela o objeto de desejo.

Flesler (2007) nos lembra de que quando uma criança ocupa um lugar de objeto na fantasia materna, mesmo que supere certas etapas, mais tarde poderá apresentar novos sintomas, inibições ou angustias, a cada vez que o desejo materno n 縊 aponte para uma direção que a sustente em seu novo lugar. Neste mesmo sentido, Jerusalinsky ( ), citando Lacan, nos aponta que os desdobramentos do sujeito se da também em função das mudanças de posição frente as demandas do Outro, este enquanto representante do discurso social. Tais demandas se modificam a partir do que esperam daquela criança, em cada etapa de sua vida. E a partir disso, o sujeito responde. Embora opere sincronicamente, esta tem uma diacronia, nas operações que se sucedem nos tempos de captura do sujeito.

Nos casos citados acima n 縊 se constituiu um sujeito de desejo na criança. Segundo Flesler (2007), isso ocorreria apenas frente possibilidade de a criança alternar nos lugares de objeto causa de desejo e objeto de gozo de seus pais. Essa alternância seria possível se o desejo dos pais funcionasse entre eles, para alem da criança. Ou seja, necessário um trabalho com os pais, para que possibilitem a existência da criança nessa outra posição, se um dos dois lados não fizer essa nova escolha, ela ficar presa nesse lugar.

No caminho percorrido ate aqui, evidencia-se o quanto não e possível, ao se trabalhar com a criança, excluir seus pais. O tempo de constituição subjetiva de uma criança não e dado por si, o sujeito e um efeito, e a efetuação do sujeito se realiza quando existe resposta do Outro (FLESLER, 2007, p. 184). Em especial nos casos em que isso não se efetivou ainda – crianças pequenas ou nos casos dos transtornos graves – onde nosso objetivo a estruturação de um sujeito que ainda não se deu.

Por outro lado, para pensar nesse trabalho com os pais necessário atentar-se como esses pais chegam ao analista, que tipo de pedido fazem a ele. A direção de trabalho sera diferente dependendo de como isso se estabelece.

Existem pais que chegam de uma certa forma mais prontos para o trabalho, quando o sintoma do filho lhes traz uma questão. Este jovem como estatuto de signo a ser decifrado, ficando mais fácil desdobrar para algo de duas verdades enlaçadas ali no que aparece na criança. Segundo Flesler (2007) o tipo de transferência que opera nesses casos a simbólica, o suposto saber esta instalado e eles encontram-se mais disponíveis as intervenções do analista. E o caso de uma mãe, que chega com uma culpa estabelecida, acreditando estar em si a causa do sintoma da filha. Essa mãe vem com a pergunta: o que minha filha tem? E colocou-se em trabalho, assumindo para ai o encargo de trazer a criança e vir falar em um horário só para ela, onde pode desdobrar vaias questões relacionadas maternidade, o lugar dessa criança e seu próprio registro da feminilidade.

Porem, nem, todos os pais chegam tao prontos. Existem aqueles que trazem não uma pergunta, mas exigem uma resposta. Trazem uma demanda de que lhes restituamos o filho esperado. De acordo com Flesler (2007), nesses casos, a transferência assume seu aspecto imaginário, e eles neo vem em busca de um saber. A intervenção nesses casos encontra um interlocutor não muito interessado em questionar-se, aprofundar-se em si mesmo para ser possível desdobrar um trabalho verdadeiro de escuta e movimentação subjetiva. Como a mãe de um  menininho com encaminhamento de estrutura psicótica, que vinha me pedindo orientações sobre cada evento que se passava com seu filho, e como ela deveria se posicionar. Ficava claro que era dessa forma que estabelecia as relações com todos os profissionais pelos quais já haviam passado e,  por outro lado, recolhidas diversas opiniões, seguia fazendo exatamente da mesma forma. Nesses tipos de caso, Flesler (2007) propõe que o analista deva fazer frente a esse ideal imaginarizado de que possuiria a resposta para restituir-lhes o filho almejado, introduzindo a castração em si mesmo, no saber desmesurado que projetado sobre ele.

Por fim, um outro tipo de pedido apontado por Flesler (2007), mais difícil ainda de contemplar uma intervenção efetiva, são aqueles casos que os pais vão encaminhados. Não possuem uma questão, sequer um pedido, estão la obrigados por um terceiro. Na verdade, seu pedido o de que avaliemos a situação e lhes desobriguemos da necessidade de levarem o filho ao tratamento. Esse tipo de caso chega encaminhado do Conselho Tutelar, da Justiça, ou da escola, os quais escutam um sofrimento que os pais não são capazes de enxergar em seu filho. Eles podem leva-lo por um tempo, porem, como não um pedido genuíno, frente a qualquer dificuldade, suspendem o tratamento, tranquilizados com o fato de que tentaram, mas não serviu para nada. Ou seja, entraram e saíram de cena sem questionarem-se o que tinham a ver com o motivo de estarem ali. De acordo com a autora, esse tipo de caso traz consigo o real da transferência. Nesses casos, a  intervenção do analista segue no mesmo registro: apela aos órgãos de garantias de direitos da criança, apelo no real, unica instancia capaz de barrar o aniquilamento do sujeito operado por essas famílias. Muitas vezes o tratamento interrompe-se a pois o analista entra na mira de fogo dos pais. A intervenção opera enquanto um 佖 ico ato, de corte, interrompendo o gozo mortífero sobre a criança.

Interessante observar que muitas vezes nessa clinica o que opera em grande parte do tempo não é a palavra, mas atos. Orientados, da mesma forma, por uma escuta. A partir do recolhimento destas questões, possível pensarmos na posição do analista diante dessa constelação de fatores, tao diversos. Freud já falava acerca da inclusão dos pais no tratamento das crianças, a partir da consideração de que são eles os portadores da demanda inicial e da resistência no trabalho:

Quando os pais se erigem em portadores da resistência, com frequência a meta da analise, ou ela própria
correm perigo e, por isso, costuma ser necessário juntar analise da criança algum influxo analítico sobre
seus progenitores (1932/2006).

Quando algo emerge enquanto resistência ao trabalho de analise com a criança os pais devem ser escutados. Pode ser que isso ocorra por possuírem algum questão de sua própria infância, mal elaborada, que depositada sobre o filho. Flesler (2007) coloca que a intervenção do analista deve ser pontual, e ocorrer em momentos em que, na analise da criança, forem encontradas falhas na estrutura da constelação familiar. A partir do que a autora nos traz, penso que o trabalho com os pais na analise de crianças deva ser o de proporcionar eles um espaço de elaboração para realizarem essa desidentificação. São questões bem especificas, que penso ter a ver com a construção da maternidade e da paternidade e o lugar que a criança ocupa na economia psíquica desses pais, bem como a redistribuição da libido entre os personagens dessa composição, o que em difere de uma analise pessoal. Assim que isso estiver elaborado encerra-se, podendo dai surgir uma demanda de analise pessoal, devendo só então serem encaminhados, se assim o desejarem. Dessa escuta o analista colhe material para entender alguns entraves com os quais se depara no trabalho com a criança, e pode seguir com o trabalho com ela.

Um outro ponto importante a ser trabalhado, segundo Flesler (2007) a partir da posição de suposto saber ocupada pelo analista, ao não encarnar esse lugar, devolve o saber ao lugar que ele deveria estar ocupando. Restabelece assim aos pais o lugar de Outros da criança, que nesses casos, muitas vezes oscila. Essa uma postura importante no trabalho com os pais, que mesmo que venham demandando resposta, operam com seu saber inconsciente sobre seus filhos. O que tenho feito reenlaçar a atuação a palavra, para que possam se dar conta do que fazem com o filho, trazendo tona o lugar que este ocupa para eles e, ao historicizar, entender de que forma foi constituído. Somente isso possibilita por uma questão no que estava instituído e liberar a criança de ocupar esse lugar.

Uma outra coisa que essa postura possibilita, segundo Flesler (2007), a de autorizar os pais em suas funções, em especial a paterna, no que diz respeito a barrar a satisfação infantil. De minha parte, concordo com a autora, tem sido recorrente em minha clinica escutar cenas de um imperativo infantil de dominação e intolerância a frustração, em cenas desmedidas de a crianças controlando a tv da casa, a rotina, o local onde os adultos dormem, o que comem, os lugares que frequentam. Pais amedrontados diante de crianças de 5 anos de idade. Ao escuta-los, verifico que não e da criança diante de si que tem medo, mas da criança dentro de si. Relatam vivencias de extrema de violência na própria infância e um ódio desmesurado que emerge, e que, se começarem a bater irão espancar ou matar seus filhos. O medo é disso.

A analise da transferência, a partir da ética psicanalítica, nos fornece ferramentas para nos despojarmos do imperativo que nos imposto e escutar para alem do pedido trazido, de restituição do objeto fálico dos pais. Por trás de um pedido restitutio, existe um sujeito em sofrimento. Berges e Balbo (2010) nos advertem da importância de escuta-lo e, que essa escuta, no caso dos pais, transitiva. Por ser dessa ordem, resvala na analise da criança, na medida em que esta, menos alienada pela angustia parental, libera-se para seguir seu curso associativo na analise.

Escutar os pais numa analise de crianças implica em acolher, segundo Faria (1998), um pedido de ajuda que não foi possível fazer em nome próprio, sendo atuado sobre o filho. Mas, se falam disso porque estão implicados, sem ainda terem se dado conta disso. O trabalho de escuta o de faze-los darem-se conta dessa implicação, passando da queixa, alienada na criança, ao desejo próprio. Para essa passagem e necessária uma escuta analítica. A escuta de pais vai na direção da subjetivação de uma questão própria que foi trazida colada na criança. Nesse momento e possível o encaminhamento para uma analise pessoal e a implicação dos pais em uma demanda em nome próprio.

Ao ter suas questões redirecionadas, os pais desobrigam a criança de ter que ocupar esse lugar. Possibilita a ela se desvincilhar do que estava depositado nela, permitindo-lhe prosseguir em sua analise sem a invasão constante das insistentes demandas parentais.

Recolhidos diversos depoimentos e interlocuções teóricas, pudemos delimitar ao longo deste trabalho de que forma eu, enquanto psicanalista, tenho incluído os pais em meus atendimentos com crianças. O caminho percorrido durante este ano de estudos teóricos, apresentações de casos, de falar de minha pratica, e escutar em troca o efeito que isso causou no outro, e onde isso se enquadra no que Freud e Lacan propuseram, permitiu uma melhor delimitação de um percurso pratico. Munidos de teorias para fundamentar nossa pratica, colhendo experiencias de psicanalistas de longa data, amparados pela supervisão e por nossa analise pessoal, a questão que se coloca afinal, no que diz respeito ao analista de crianças a quem respondemos? Condição que nos coloca frente criança que fomos um dia e divida simbólica que herdamos da condição de nos tornarmos humanos. Se a função do analista numa analise de crianças passa pelo viés de por em funcionamento funções primordiais, importa que ele de ouvidos a de que maneira esta se posicionando diante dessas demandas. Para que possa desvincilhar-se de suas respostas neuróticas e que possa atuar ali apenas a ética psicanalítica, ética desta psicanalista.

Autora: Mônica Fujimura Leite

 

Referência Bibliográfica

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Efeitos da Medicalização na Constituição Subjetiva da Crianças

O termo Medicalização diz respeito ao reducionismo biológico do sofrimento psíquico. Nessa prática ocorre uma valorização desproporcional de explicações neurológicas e genéticas e o psiquismo do humano é reduzido a sua estrutura biológica (MOYSÉS & COLLARES, 1994).

A partir da Psicanálise, podemos considerar essa redução como uma exclusão do campo da sexualidade na estruturação do sujeito humano. Atualmente, a denominação que se atribui a indivíduos em sofrimento psíquico “indivíduo com…” separa o sujeito de seu sofrer, deixando de fora a relação que ele estabeleceu com seu sintoma (ESPERANZA, 2011) (desconsiderando o fato de que ele o produziu). Assim, segundo a autora, fica a seguinte lógica:

…o transtorno substitui o sintoma, o organismo substitui o corpo, o indivíduo
substitui o sujeito e o inconsciente desaparece em favor de comportamentos e
condutas a modificar (p. 58).

 que disso decorre é que as mais variadas manifestações de mal-estar e de comportamentos socialmente inadequados ou ditos “disfuncionais” são interpretados enquanto signos patológicos. Nesse sentido, Caraffa (2013) afirma que, se ao longo da vida o humano passa por desconfortos psíquicos ou físicos, devido a circunstâncias cotidianas, estes deixam der ser encarados enquanto consequência natural da experiência humana e passam a ser considerados sintomas de doenças, tais como transtornos de sono, depressões, disfunções sexuais e distúrbios de ansiedade.

Abandona-se uma busca de um sentido contextual e uma causa para a manifestação comportamental, ou seja, as questões psíquicas deixam de ter um caráter de sintoma, no sentido “sinto-mal” (QUINET, 1991), para serem explicados como uma disfunção neuroquímica.

Segundo Lopes (2013), essa idéia corresponde à lógica de que seria possível a eliminação do desconforto e da insatisfação, como se ao suprir o que falta em determinado momento da vida, encontraria-se a felicidade plena.

O tratamento dado a isso seria normativamente a administração de medicamentos (psicofármacos), as quais, a partir de um reajuste das disfunções cerebrais, hormonais ou neuroquímicas, teriam como resultado uma normalização dos comportamentos inadequados. Assim, questões sociais, econômicas, políticas e culturais são desconsideradas (ROCHA E FERRAZZA, 2011) e o sujeito é desimplicado de seu sofrimento.

Os que criticam essa visão defendem a idéia de que não é possível reduzir a complexidade do psiquismo humano a uma única determinação e explicação para as agruras que o acometem. A Psicanálise possibilita uma visão crítica dessa ideia, considerando esta questão, por um lado, de negação do mal estar estrutural no qual o humano se encontra, o qual decorre de três fatores irreconciliáveis: seu próprio corpo, a natureza e o outro (FREUD, 1930/2006) e por outro, uma busca ilusória de “completude”, inerente à condição humana, por seu processo de constituição psíquica (Lacan, 1988).

Porém, o que tem preponderado é essa visão medicalizante, que a qual tem ganhado força em todas camadas e instâncias da sociedade atual.

A problemática sobre a qual nos deparamos aqui, é a de que essa visão tem atravessado também a área da infância, de onde se denota uma proliferação de diagnósticos psicopatológicos para comportamentos que atrapalham a ordem do dia, mas que em outras épocas e contextos recebiam outra interpretação.

As explicações medicalizantes reduzem as multideterminações dos transtornos da infância a um fator biológico e o tratamento tem como base a administração de psicofármacos (ROCHA e FERRAZZA, 2011; Untoiglich, 2006). No tempo da infância essa prática possui efeitos que não podem ser desconsiderados, devido aos efeitos hiatrogênicos que decorrem dele, em decorrência da especificidade que desse tempo. Tomaremos como situação exemplar o “Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade” (TDAH), por ser o diagnóstico que mais tem atingido crianças e adolescentes. A esse respeito, ROCHA E FERRAZZA (2011) afirmam:

O principal tratamento determinado àqueles que são diagnosticados com TDAH é a
prescrição de um medicamento psicoestimulante, o cloridrato de metilfenidato, que
apresenta, entre outros, o nome comercial de “Ritalina” ou “Concerta”. Apesar das
diversas pesquisas publicadas na atualidade tentando alertar pais e professores
sobre os prejuízos na vida daqueles que apresentam sintomas do TDAH (ROHDE
et. al., 2000; GOMES et. al., 2007), há poucos trabalhos que advertem sobre os
efeitos colaterais do uso do metilfenidato. Segundo Barros (2008), dentre os
diversos efeitos adversos, destacam-se insônia, taquicardia, dores abdominais,
anorexia, perda de peso.

Além destes, Cordioli (apud Mariotto e Gizzi, 2012) e Moyses e Collares (2013) acrescentam efeitos ainda mais graves, tais como psicoses, alucinações, depressão, ansiedade, irritabilidade, suicídio, convulsões, insônia, confusão mental, esterotipias, compulsões, diarréia, alterações nas funções hepáticas, retardo no crescimento, alteração nas funções sexuais, tontura, perda de cabelo, enurese.

O Metilfenidato é um estimulante do SNC (anfetamina), que aumenta a atenção e a produtividade. Aumenta os níveis de dopamina no cérebro, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Esse é o mesmo princípio ativo da cocaína. Como consequência desse aumento artificial o cérebro se dessensibiliza quanto a situações cotidianas que provocariam prazer, o que pode ocasionar na adicção ao medicamento.Assim, ao ser retirada, pode ocasionar reações como insônia, depressão, exaustão, hiperatividade, irritabilidade e piora dos sintomas iniciais. Além disso, estudos apontam para o o risco de posteriormente o indivíduo assumir comportamento de adicção a outros tipos de droga.

Uma outra questão que os autores colocam é que além dos efeitos colaterais orgânicos, existem outros, de ordem psíquica, que dizem respeito à estigmatização daqueles que levam o diagnóstico e fazem uso da medicação, que normalmente se estende por muito tempo. O que os pesquisadores dessa abordagem, e eu, a partir de minha prática, questionamos, são os efeitos hiatrogênicos que esta visão pode ocasionar,numa problemática que pretendia solucionar, ocasionando maiores danos, algumas vezes piores que o de início. Isso decorre de várias questões.

A primeira diz respeito ao uso que a família faz de tal lógica medicalizante. Não é raro ouvirmos relatos de pais dizendo administrarem a medicação apenas nos períodos escolares (ou seja, nos fins de semana e férias as crianças não tomam o remédio).

Segundo eles, a explicação é a de que a escola é que se queixa do comportamento da criança, ou que ele necessita apenas na questão da aprendizagem. Ou, relatos de professoras dizendo ter sido delegada à escola a função de administrar a medicação à criança. Pode-se questionar, a partir disso, por um lado, como fica o organismo de uma criança com tamanho desbalanço químico, e por outro, por que vias passa esse diagnóstico dentro da fantasmática familiar e social. De que forma essa criança apresenta a sintomatologia que aparece de diversas formas para cada ator social que dela se ocupa. Se comporta melhor em casa? A angústia é da escola, que está vendo uma inadequação onde não existe? Existe uma resistência da família em aceitar a problemática? E a pergunta mais importante: que discurso não está sendo escutado? De que mensagem essa criança está sendo portadora que ocasiona um curto-circuito nacomunicação entre família, escola, médico e criança?

Além disso, Gisela Untoiglich (2006), pesquisadora argentina, que trabalha há anos pesquisando tais questões, fez um levantamento em diversos países (Argentina, Colômbia, EUA, México), em sua dissertação, e encontrou algo que também no Brasil nossa prática tem corroborado. Constata que em muitos casos uma criança diagnosticada com TDAH apresenta outros tipos de transtornos do desenvolvimento, como psicoses, depressões e históricos de violência (física, psicológica e sexual).

Em minha prática, bem como na interlocução com equipes de trabalho de São Paulo, Londrina e Porto Alegre, encontramos em nossas clínicas crianças com dificuldades na apropriação do corpo, na constituição do eu. Além disso, temos encontrado crianças em carência de garantia de direitos (sem pai, sem pensão, acesso à saúde, sem condições sociais), com falta de limites, na contenção da angústia, com questões existenciais, acerca de sua origem e filiação, problemas de transmissão, não ditos ou mentiras, mães sem disponibilidade psíquica para realizar os cuidados que uma criança necessita, crianças com déficits cognitivos, processos de luto, histórias familiares trágicas (adoções, migrações, perdas).

Moyses e Collares (2013) referem ainda terem encontrado em suas pesquisas muitos casos de crianças e adolescentes em situação de abrigamento, por perda de pátrio poder (ou seja, se estão lá é porque foram anteriormente submetidas a situações extremas de violência) serem medicadas com essa droga. Nesses casos, mais uma vez se repete o ciclo da violência em suas trajetórias de vida, sendo a expressão de seu sofrimento rotulada enquanto um transtorno psíquico e seu pedido de ajuda silenciado. Vejamos o risco decorrente disso, segundo as autoras:

(…) em muitos casos (a sintomatologia do TDAH) oculta uma
sintomatologia grave, a qual eclode a posteriori ou encobre deterioração que
se aprofundam ao longo da vida. Em outros casos, exerce uma pseudo
regulação do comportamento, deixando, por sua vez, a criança libera a
posterior impulsividade na adolescência, em razão de que não exerce
modificações de fundo sobre as motivações que poderiam regulá-las, dado
que (…) tendem a silenciar os sintomas, sem perguntar-se o que é que os
determina, nem em que contexto se dão.

Um outro tipo de relato da família muito comum é com relação a para quem é o remédio, que visa ao aplacamento dos sintomas de TDAH na criança. Relatam que o acalmar do comportamento do filho em casa, ou a diminuição da queixa escolar representam um alívio para eles. A questão que se coloca aí não é desmerecer a necessidade de diminuição de tensão e frustração que esses pais buscam, mas o quanto esse tipo de prática vai a favor de tamponar o reais motivos pelos quais essa criança fez esse sintoma. Isso porque o sintoma na infância é um sinal que implica diretamente a fantasmática parental.

Essa questão tão cara aos pais tem um outro viés, que implica no que resvala na criança um diagnóstico precoce, colocando em risco a constituição de sua subjetividade e sua perspectiva de futuro.

Isso porque o Estadio do Espelho lacaniano (1998) nos diz que a subjetividade do humano nasce a partir do desejo do outro. Vejamos o quanto essas questões estão imbricadas, de modo que torna-se impossível separar a sintomatologia na infância do lugar que ela ocupa na família e o quando isso está atrelado a sua constituição enquanto um sujeito desejante.

Segundo a teoria freudiana, o nascimento de um filho implica para os pais na possibilidade de uma restituição narcísica, uma aposta no futuro do que não foi possível realizar no passado, projetando nesse ser que ainda nada é, toda uma possibilidade compensatória de drible da castração, das frustrações e limitações que os pais, enquanto humanos, se depararam ao longo da vida. Por outro lado, estar colocado antecipadamente nesse lugar, na fantasmática parental, permite ao bebê não somente sua sobrevivência biológica, mas também sua inserção no mundo humano, a partir de seu enlace a esse desejo parental. Vorcaro (2011) coloca que:

… a inscrição do neonato humano na cultura, antes mesmo que ele
compareça como presença concreta, sua antecipação funcional e seu
consequente enlaçamento numa linhagem traçam a condição de qualquer
criança (p. 226).

O bebê humano, diferente dos animais, que possuem um modo único e determinado de realizar as funções para sua sobrevivência, nasce biologicamente imaturo, incapaz de dar conta de cuidar de si e de entender sozinho o que se passa a sua volta e em seu próprio corpo. A carência de instintos, ocasiona no bebê humano a vivência de uma corpo despedaçado. Necessita para sobreviver, de ser cuidado por alguém que realize a Função Materna, (que pode ser a mãe biológica ou alguém que assuma a função), a qual não se reduz a um cuidado no nível do biológico. Ao puro grito do bebê, decorrente de um incômodo gerado por um excesso de excitação (fome, dor de barriga, o que a criança não sabe de que se trata), é necessário que ela tome – o como um apelo, respondendo não apenas com a eliminação dessa excitação, mas pondo palavras nisso que era do biológico. Dessa forma, a partir do encontro com o outro, começa a se inscrever na criança um outro registro, que produz uma marca a partir de uma experiência de satisfação (prazer do órgão, vivida no corpo). A partir dessa marcas, erógenas, ela sai do campo da pura necessidade biológica, e da próxima vez em que chorar, será na busca dessa experiência.

Juntamente com as experiências de satisfação, ficam para a criança registros de sons, cheiro, sensações, pedaços de palavras que vão constituindos-e em uma rede de imagens (carinho, voz da mãe, embalo). Lacan (1998) usa a situação exemplar da criança em frente a sua imagem no espelho: num primeiro momento, a criança reage como se a imagem refletida fosse uma outra criança (vai procurar atrás do espelho). Em seguida, deixa de tratar a imagem como um objeto real, percebe tratar – se de uma imagem e na terceira etapa, ela se reconhece essa imagem como sendo sua. A criança se identifica com essa imagem, e esta é assegurada pela mãe, que lhe diz que aquela ali é ela. A criança se vê então a partir do olhar da mãe, e nisso se implica o desejo dessa mãe.

Segundo Lacan (1998), num primeiro momento, o bebê não diferencia ele mesmo da mãe, vivendo apenas uma regularidade de satisfação e ausência de satisfação. Com a quebra de tal regularidade, a mãe emerge como algo real, separando-se e constituindo-se para a criança como Outro (A), portador de todos os objetos de satisfação.

A relação com a mãe possibilita uma antecipação de uma unificação do corpo. Na medida em que a mãe nomeia, fornece à criança elementos para constituir uma imagem de si mesma. A criança se vê no que a mãe vê nela. Isso ocorre a partir do desejo da mãe com relação a essa criança. Este desejo determina o lugar no qual esta criança vem, antes mesmo de seu nascimento, bordeando-a com inúmeros significantes, antecipando um sujeito. Para que isso ocorra, é necessesário o desejo dessa mãe, remetendo a criança a um ideal (implicando aí os ideais familiares e da cultura, do desejo dela de ter o filho, o momento em que ele veio, a história familiar dos pais), enxergando um ser unificado, capaz de realizar coisas que ainda não são possíveis (a um chute, atribui que será um jogador de um reflexo).

Há uma desproporção entre as reais possibilidades do bebê e o ideal dos pais, em relação ao qual se produz uma promessa de futuro, os pais sustentam nele certas falas que o antecipam frente a certos ideais. Tais falas recobrem o real (a incapacidade do bebê), articulando um simbólico, já preparado previamente para ele. A partir disso, situa o bebê numa filiação.

Porém, um filho, quando apresenta dificuldades na fala, nas aquisições pedagógicas, no brincar, na socialização, descoordenações motoras, hábitos e comportamentos estranhos, ocasionam um estranhamento desses pais que têm dificuldade em se reconhecer em seus filhos (VORCARO, 2013). Isso ocasiona uma vacilação no processo de filiação e consequentemente uma dificuldade de pôr a trabalho seu saber parental acerca de como cuidar dessa criança, o que esperar dela, como educá-la, promover cortes, etc. Pois essa ações provêm das expectativas que são depositadas na criança quando ela é gestada, desde o psiquismo parental.

De acordo com Vorcaro (2013), o discurso psiquiátrico oferece uma resposta diante dessa falta de (re)conhecimento parental, que ocasiona incertezas e inseguranças, proporcionando padrões de conduta, perspectivas futuras, modos de ação no trato aquela patologia específica.

O problema é que, quando uma criança é enquadrada em um diagnóstico nosográfico, se já havia uma vacilação parental na filiação desta criança, isso se concretiza. Esse tipo de interpretação e intervenção empurra para a destituição da filiação da qual a criança é proveniente. Ele perde os traços identificatórios de sua tradição familiar e passa a ser filiado pela nosografia, seu nome e suas características passam a ser descritos e reconhecidos a partir de uma genealogia médica.

O mais problemático disso tudo é que, além de intervir na relação da criança com os pais no presente, esse discurso também interfere no futuro dela, na medida em que prediz o prognóstico de sua patologia. Os pais, destituídos de seu saber, a partir da vacilação de seu desejo parental, guiam-se pelo saber anônimo do especialista.

A nomeação diagnóstica pode assumir tamanha valência que destitui o
nome-próprio da criança, substituído pela identidade social conferida pelo
nome da síndrome em que a medicina localiza (…). Estabelece-se assim sua
nova filiação, já que a paternidade, sobre-o-nome, é dada pelo nome-da síndrome,
que baliza, referencia e justifica os atos, falas e condutas da
criança, deslocando-a da possibilidade de situar-se a partir de sua ordem
própria de filiação. Inserir uma criança no laço social como ‘aquela Rett’, ‘ele
é PC’, ‘meu filho é Asperger’, é reduzi-la ao registro médico, é amputar sua
singularidade subjetiva (VORCARO, 2011, p. 228).

Isso determina o futuro de uma criança, cristalizada a partir de uma patologia, fechando qualquer possibilidade de saída/resgate de uma assunção subjetiva.

Diante desse contexto é inadimissível que nós, profissionais da infância, permaneçamos impassiveis. Se por um lado, a direção do trabalho na clínica é o de restituir o saber parental, a partir de uma ressignificação e realocação do desejo parental, deslocando a criança desse lugar mortífero, bem como instrumentalizando a criança a responder de outra forma na dinâmica familiar; por outro, enquanto cidadãos, importante um posicionamento ético e político. A articulação de profissionais de diferentes contextos que tratam da infância é extremamente importante, em especial o campo da saúde e o escolar. Além da família, a escola é por excelência o campo da infância, instituição que incide sobre a constituição subjetiva da criança.

Neste sentido, Caraffa (2013) nos lembra que em 11 de Novembro de 2012, no Dia Mundial de Luta contra a Medicalização, foi lançado na Câmara Municipal de São Paulo o documento “Recomendações Práticas não Medicalizantes para Profissionais e Serviços de Educação e da Sociedade”, o qual oferece alternativas à medicalização para lidar com problemas de aprendizagem e comportamentais (www.medicalizacao.org.br/publicacoes). São posturas de acolhimento, com um olhar
mais abrangente e uma escuta mais atenta que permitem localizar o sofrimento subjacente à fenomenologia dos ditos transtornos infantis, evitando uma rotulação
precoce e hiatrogenizante.

Para finalizar, deixo o depoimento de entrevistada em reportagem sobre a possibilidade de apagar memórias ruins. Ele demonstra que, apesar de tudo, o sujeito resiste. Como dizia Lacan, mesmo que tentemos calar: “isso fala”. “Minhas memórias estão dentro de mim para serem trabalhadas. Prefiro enfrentá-las a
apagar essa parte da minha vida”.

Autora:  Mônica Fujimura Leite

Referência Bibliográfica

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por Vanessa Vieira

Eram 23h30 de uma noite de domingo quando o telefone tocou na casa de Cláudia*. Ela acordou sobressaltada e o marido foi atender. A notícia era que o sobrinho, de apenas 17 anos, havia se jogado pela janela do 13º andar. Ao lado do aparelho, Cláudia escutava os gritos da irmã, que acabara de perder o filho. Em meia hora, ela e o marido chegaram ao local do suicídio. Numa confusão de sirenes e luzes, os bombeiros e a polícia trabalhavam em volta do corpo do rapaz – que ainda estava no chão. Três anos se passaram, mas a cena ainda perturba Cláudia. “Até hoje, se estou dormindo e o telefone toca, acordo querendo chorar”, diz ela. Ruídos de sirene ainda provocam tremores e taquicardia. Conseguir pegar no sono nos domingos à noite também virou uma tortura. Ela só adormece quando o cansaço se torna mais forte do que as lembranças. “Se pudesse, eu apagaria da memória aquela noite”, diz.

Talvez você nunca tenha passado por uma situação tão forte. Mas certamente guarda na cabeça algum momento, ou mais de um, que preferiria eliminar – mas que sempre acaba relembrando sem querer. Todo mundo coleciona algumas lembranças ruins ao longo da vida. Isso é inevitável. Mas, no que depender de pesquisadores de várias partes do mundo, vai deixar de ser. Eles estão trabalhando num projeto incrivelmente ambicioso: a criação de uma droga que apague memórias ruins.

Isso sempre foi considerado impossível pela ciência. Mas o cenário começou a mudar no final da década de 1990, graças ao neurocientista egípcio naturalizado americano Karim Nader. Como os demais cientistas da época, Nader sabia que as nossas memórias são apenas relações de afinidade entre os neurônios. Quando você memoriza alguma coisa – o endereço da rua onde mora, por exemplo -, o seu cérebro forma conexões entre os neurônios envolvidos com aquela informação. Eles ficam mais sensíveis uns aos outros. Por isso, mais tarde, quando você tenta se lembrar do endereço, a mesmíssima rede de neurônios é ativada – e recupera a informação. É assim que a memória funciona.

Mas Nader percebeu que havia uma coisa a mais. Para que essa `amizade¿ entre grupos de neurônios se formasse, o cérebro precisava sintetizar determinadas proteínas. Ele teve a ideia de bloquear a ação dessas proteínas para ver o que acontecia. Primeiro, passou várias semanas ensinando um grupo de ratinhos a associar um determinado som com um pequeno e doloroso choque elétrico. Sempre que o som era tocado, os camundongos levavam um choque (vida de cobaia não é fácil). Com o tempo, eles aprenderam a lição – e ficavam com medo assim que ouviam o som. Até que Nader injetou neles uma droga que inibia a síntese das proteínas da memória. O  resultado foi dramático, e deixou o cientista boquiaberto. Os ratinhos pararam de reagir com medo quando o som era tocado. “A memória de medo tinha partido. Os ratos tinham esquecido tudo”, diz Nader. O esquecimento era permanente, ou seja, persistiu mesmo depois que a substância já havia sido eliminada do corpo dos animais.

Essa experiência mostrou, pela primeira vez, que era possível apagar memórias. Isso acontece porque, a cada vez que tentamos acessar uma lembrança, ela passa por um período de instabilidade, num processo chamado de reconsolidação. Ele tem três etapas. Primeira: a informação sai do banco de dados do cérebro. Segunda: ela chega à sua consciência e é acessada. Terceira: a informação é gravada novamente no banco de dados. Nader descobriu que, se você bloquear uma determinada proteína, a terceira etapa simplesmente não acontece – e a memória não é regravada. Ela some para sempre.

Nader foi além. Ele queria saber se era possível apagar apenas uma memória específica, ou se o processo acabava deletando outras lembranças de forma involuntária. Então fez mais um experimento. Primeiro, fez os ratinhos memorizarem uma sequência de sons que precediam o choque. Depois, tocou apenas um som daquela sequência antes de injetar a droga apagadora de memórias. Resultado? Os ratinhos esqueceram apenas aquele som – todos os demais continuaram gravados na memória, associados ao choque. Ou seja: não só é possível apagar memórias, é possível fazer isso com precisão de frações de segundo. Nader não sabia direito em qual proteína cerebral deveria mirar, e fez testes com várias. Até que o neurologista Todd Sacktor, da Universidade Columbia, encontrou o alvo. É a proteína PKMzeta, que está envolvida com a passagem de sinais elétricos entre os neurônios. Se você bloquear a PKMzeta enquanto o indivíduo está se lembrando de alguma coisa, você destruirá aquela memória. Sacktor provou isso numa experiência em que ratos recebiam uma injeção de lítio – que provoca náuseas – sempre que comiam algo doce. A intenção era fazer com que as cobaias associassem o sabor com o enjoo. A estratégia funcionou, e logo os animais passaram a rejeitar comida doce. Mas, com uma simples injeção de um inibidor de PKMzeta, eles esqueceram aquilo e voltaram a gostar de doces. Os cientistas dizem que é preciso fazer mais testes para entender qual é o real efeito disso no cérebro – e saber quais são os possíveis efeitos colaterais, se existirem. Se usada de forma descontrolada, a técnica poderia levar à destruição de memórias saudáveis. “Os efeitos da inibição da PKMzeta parecem ser mais potentes. O desafio está em regular essa potência. Nós estamos trabalhando nisso”, afirma Sacktor.

Mexer na PKMzeta é dar um tiro de canhão. O ideal seria encontrar proteínas ainda mais específicas, que permitissem apagar só as emoções associadas a uma memória ruim – sem destruir a memória em si. Isso permitiria que uma pessoa pudesse se libertar do sofrimento associado a uma memória, sem necessariamente esquecer que aquilo aconteceu. Isso é importante porque preserva o aprendizado que conquistamos ao viver situações ruins. Alguém que sofreu um acidente de carro, por exemplo, ainda se lembraria do acidente – e, por isso, dirigiria com responsabilidade. Só a angústia e o trauma ligados ao acidente seriam deletados. “As pessoas poderiam se lembrar, sem ser sufocadas por aquela memória traumática, podendo seguir adiante com suas vidas”, acredita Karim Nader, hoje professor da McGill University, no Canadá. O método: você iria a um consultório médico e, sob a supervisão de um terapeuta, relembraria um fato desagradável. Ao mesmo tempo, receberia a injeção de uma droga inibidora de proteínas. E, como que por mágica, aquela memória que sempre incomodou tanto deixaria de ser um trauma.

Isso já parece incrível, mas existe uma corrente de pesquisadores trabalhando em algo ainda mais impressionante (e assustador também). Em vez de apagar as memórias, que tal modificá-las?

 

BRILHO ETERNO

Cientistas da McGill University e da Harvard Medical School descobriram que o propranolol, um remédio usado para tratar pressão alta, tem um efeito colateral estranho: é capaz de alterar memórias armazenadas no cérebro. Isso acontece porque ele inibe a atividade de um neurotransmissor, a norepinefrina. Os cientistas fizeram testes com pessoas que tinham passado por alguma situação traumática. Elas receberam uma dose de propranolol e foram convidadas a relembrar o fato. As reações mais intensas de medo e emoção desapareceram, e esse efeito se manteve mesmo depois que os voluntários não estavam mais sob efeito do remédio. Segundo os cientistas, isso acontece porque ele interfere na reconsolidação da memória, que é alterada e perde sua carga emocional negativa antes de ser regravada pelo cérebro.

Num documentário sobre o estudo produzido pela McGill University, uma paciente chamada Louise conta que finalmente conseguiu superar um trauma de infância graças ao propranolol. Estuprada por um médico quando tinha apenas 12 anos, ela sofreu durante toda a vida as sequelas psicológicas disso. “Eu não conseguia nem trocar de roupa na frente do meu marido”, relata. Graças ao tratamento, Louise diz que as memórias recorrentes e pesadelos desapareceram, bem como o medo de tirar a roupa.

No Brasil, também há pesquisas em torno de formas de promover o enfraquecimento de memórias traumáticas por meio do uso de drogas específicas. Uma delas, realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), investiga a ação do topiramato, um remédio atualmente usado para tratar convulsões. O topiramato seria capaz de inibir a produção de um neurotransmissor, o glutamato, que age no hipocampo – a região do cérebro que coordena o processo de formação de memórias. Em situações de estresse, o nível de glutamato ali aumenta. Isso poderia explicar, por exemplo, os pensamentos repetitivos que podem acompanhar uma experiência traumática. “Nossa hipótese é que, ao reduzir a liberação do glutamato, podemos inibir a reverberação de uma memória traumática”, explica Marcelo Feijó, professor do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. No estudo, mais de 82% dos pacientes tratados com a substância apresentaram melhora dos sintomas de estresse pós-traumático.

O estresse pós-traumático é caracterizado por sintomas como ansiedade e depressão e está relacionado à lembrança de algum evento traumático envolvendo ameaça à vida ou à integridade, como assaltos, sequestros, estupros ou acidentes graves. O problema afeta 6% da população mundial, 420 milhões de pessoas. Um medicamento que fosse eficaz contra ele poderia melhorar a vida de muita gente.

As substâncias capazes de apagar memórias ruins também poderiam ser usadas para tratar dor crônica. Por razões que a ciência ainda não compreende completamente, em alguns casos, mesmo depois que um ferimento físico já foi curado, alguns nervos continuam transmitindo sinais de dor na região, como se o corpo tivesse memorizado aquela dor. A técnica também poderia ser usada como um tratamento para a  dependência química. Isso porque o vício em drogas está relacionado à memória – à associação entre o uso da droga e o efeito que ela proporciona. Se a pessoa se esquecer do prazer que sente ao consumir a droga, fica mais fácil largar o vício. Num estudo realizado com ratos viciados em morfina, a inibição da proteína PKMzeta ajudou a curar a dependência dos roedores.

Em suma: mexer com as memórias pode trazer consequências muito boas. Mas também pode ser extremamente ruim. O Conselho de Bioética da Casa Branca já se manifestou sobre o assunto, apontando várias situações em que o apagamento ou a alteração de memórias pode ser uma coisa ruim, antiética ou imoral. Um bandido poderia recorrer à técnica para se livrar da culpa por ter praticado um crime, por exemplo. Governos poderiam preparar seus soldados para matar – ou para voltar a matar – sem conflitos emocionais. “Corremos o risco de falsificar nossa percepção e entendimento do mundo. Nos arriscamos a fazer com que atos vergonhosos sejam considerados menos vergonhosos, ou menos terríveis, do que realmente são”, diz o relatório.

Para a psiquiatra, psicanalista e bioeticista carioca Marlene Braz, a possibilidade de mudar ou apagar memórias poderia ter consequências até sobre o sistema jurídico. “Haveria uma tensão entre o direito individual de uma pessoa – que decidiu esquecer – e o direito da coletividade, já que, na prática, isso significaria subtrair evidências de um processo, já que não poderíamos contar com o testemunho daquela pessoa”, diz ela. Délio Kipper, professor de Bioética do curso de Medicina da PUC do Rio Grande do Sul, ainda aponta outros conflitos nessa área. “A modificação de memórias poderia induzir a mudanças nos testemunhos. É um caminho muito perigoso”, diz.

Até quem teria todos os motivos para alterar a própria memória vê essa possibilidade com desconfiança. Como a empresária paulistana Paula*, de 31 anos. Numa manhã de sábado, em 2005, ela saiu do quarto e viu manchas de sangue pela casa. Em desespero, tentou abrir a porta do quarto do pai, que sofria de depressão. “Eu batia na porta do quarto e ele não abria”, recorda. A empresária chamou a polícia e, quando a porta foi aberta, se deparou com uma cena que vai ficar gravada para sempre na sua mente. “Ele havia cortado os pulsos e se enforcado”, lembra. Sete anos depois, Cíntia admite que ainda não lida bem com as lembranças desse episódio. Mas diz que, mesmo assim, jamais tomaria um remédio para esquecer esse momento da sua história. “Minhas memórias estão dentro de mim para serem trabalhadas. Prefiro enfrentá-las a apagar essa parte da minha vida”.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

PARA SABER MAIS

Reconsolidation as a Link Between Cognitive and Neuroscientific Memory Oliver Hardt, Einar Örn Einarsson e Karim Nader Annual Review of Psychology,
2010 http://super.abril.com.br/ciencia/pilula-esquecimento-721071.shtml