Entre a Queixa dos Pais e o Sintoma da Criança: qual era a pergunta?

A clínica sempre me coloca frente a impasses. Na prática, nada mudou, porém, no constante retorno à teoria, ocorrem encontros que, ao acrescentar um novo significante á cadeia, como já dizia Lacan, ressignifica toda a frase. Diante de situações como esta, me pego frente à angústia de que tudo o que sabia até então mudou, e, por um momento me vejo em um vazio, com uma pergunta: que faço eu quando faço o que faço? Qual a minha prática enquanto analista de crianças? E retorno à uma questão tão primordial, que me embaraça frente a uma prática que (mesmo sabendo que nunca está acabada), em meu ideal já deveria estar melhor fundamentada: de que se trata numa análise de crianças? Até pouco tempo atrás, eu já estava bem tranquila, respondendo a esta questão do seguinte modo: ora, se trata da constituição de um sujeito. Não que isso tenha deixado de ser verdade, porém, ultimamente, tem me parecido necessário mudar um pouco o foco do sujeito para o sentido mesmo dessa constituição, e então se faz necessário a inclusão dos pais na elaboração desta questão. Este aspecto me parece agora tão óbvio, e só hoje percebo do quanto estive o tempo todo cercada por isso, porém parece que só agora pude me apropriar desta verdade. Isso me faz pensar do quanto de fato o tempo do sujeito não é cronológico, e a realidade é mesmo psíquica.

Logo de saída, num trabalho clínico com crianças implica em um paradoxo: ao receber uma criança em tratamento, são os pais que escutamos em primeiro lugar. Simplesmente porque são eles que possuem um motivo para nos procurar, queixam – se de um sofrimento, causado por seus filhos. Foi assim no caso de Dudu, um menino de 6 aos agora, em tratamento há 3, que chegou com uma queixa, por parte da mãe, de hiperatividade. Por um outro lado, estava diretamente implicado nisto que sua mãe se queixa dele. Isso porque a subjetividade da criança passa por um processo de constituição, existindo antes de ela nascer, e continua sendo transmitido a ela ao longo de sua vida, a partir da subjetividade dos pais, sendo fundada a partir de um lugar, com o objetivo de cumprir o que os pais não conseguiram. Estes então dirigem – lhe uma demanda de alcançar essa satisfação almejada. (Jerusalinsky, 1996).

A criança tenta se enquadrar nisso que os pais esperam dela, uma vez que no humano não existe o instinto que assegura a maternidade. Porém, ao tratar – se de um ideal, não é possível de ser realizado, e a criança para responder a isso que lhe é pedido, faz um sintoma.

Em “Inibição, sintoma e angústia”(1976), Freud diz que o sintoma é um sinal, um substituto de uma satisfação pulsional que não foi satisfeita, sendo consequência de um processo de recalque. Através dessa substituição, é possível a satisfação pulsional, de uma maneira irreconhecível para o eu, constituindo – se por isso uma formação de compromisso entre as representações recalcadas inconscientes e a consciência. Ou, entre o desejo e o eu. No caso da criança, o sintoma é a leitura e a resposta que dá frente à constatação do desejo do Outro (que aponta sua castração), e a demanda dirigida a ela.

Em determinadas situações, no denominado sintoma clínico, ocorre uma paralização da criança, sendo a única resposta que ela foi capaz de dar frente a essa demanda, fixando – a numa solução parcial, anterior à resolução edípica, obstaculizando – a. No caso de Dudu, era o de um constante movimento sem contexto e uma dificuldade de prestar atenção. “A organização sintomática vem em defesa de um mínimo de subjetividade, oscilando entre se fazer objeto imaginário do gozo do Outro e destituir – se desse lugar através do fracasso dos ideais daqueles que encarnam o Outro.” (Bernardino, p. 59).

O sintoma da criança, por ser uma resposta aos pais, sempre tem a ver com a subjetividade deles, podendo ser do casal ou da mãe, como no caso de Dudu. Sua mãe se queixava porque o sintoma dele tocava em questões que ficaram para ela sem elaborar. Na verdade, demorou um tempo até ela decantar essa queixa para mim, tamanha a dificuldade de ela vislumbrar que pudesse haver algo de subjetivo (quanto mais que tivesse algo a ver com ela) nesse sintoma do filho. A princípio, tratava – se de um problema médico, orgânico, que passaria com a idade e a medicação.

Com um tempo de trabalho com a criança e uma escuta para ela, foi possível a ela ir delimitando algumas questões com relação ao filho, que me ajudaram também a entender seu movimento de levá-lo para inúmeros tratamentos, sempre corroborando sua  ideia de que ele necessitava de muita atenção, e ao mesmo tempo, ela mesma não se implicando em dar sua atenção para aquele filho. Fui podendo entender o quanto de sua queixa (um menino que não fixava sua atenção, movimentando-se o tempo todo) e seus cuidados com ele nesse sentido tinha a ver com a interpretação que ela fez de sua própria história, colocando -se como uma filha que sempre se virou sozinha por não ter a atenção devida da própria mãe. E do quanto isso ficou marcado como uma falta para ela, pois acredita piamente que se seu filho não tiver toda essa atenção, não se desenvolverá bem na vida. Porém, ela mesma não dá conta de prover isso, e delega a outros, essa tarefa. Também é possível observar o quanto ela ficou presa nessa relação com a própria mãe, tendo dificuldades em se autorizar enquanto mãe dessa criança, colocando em sua própria mãe ou em especialistas o saber sobre ele. De acordo com Mannoni, o sintoma da criança vem expressar algo que se interrompeu nessa cadeia significante, acerca do desejo dos pais. O sintoma de Dudu aparece então como resposta quando sua mãe vacila muito nessa transmissão, ao apresentar dificuldades em filiar esta criança, pela via de seu desejo.

Pelo modo como a constituição dessa criança foi se dando, muito ligada à subjetividade da mãe, não houve possibilidade de uma separação, e era impressionante observar em sessão o quanto se transmitia de uma para outra no trabalho. Num dia, enquanto a mãe falava do quanto coloca esse filho num lugar de bebê, não permitindo-o cair para crescer, ele leva um tombo e volta chorando para o colo dela, muito incomodado com a presença de seus terapeutas, não querendo que o víssemos no colo dela. Depois, ao falar disso com ela, a mãe diz que ele nunca agira assim, e falamos do quanto aqui se dava a possibilidade de um outro lugar para a existência dele. Numa outra ocasião, quando sua mãe (que sempre trabalhou muito, fora de casa) parou de trabalhar, Dudu cai, quebra o pé, e tem que ser carregado, lavado e limpo pela mãe, e volta depois para a sessão, brincando de cuidar dos bebês, onde podemos falar dos cuidados de sua mãe em seu corpo, coisa que ele já poderia fazer sozinho mas que a mãe retrocede muitas vezes fazendo por ele. A partir de então ele passa a aplicar castigos nesses bebês e privá – los do que mais querem, porque, segundo sua teoria (que é o que a mãe lhe fala), “desobedeceram”. E o castigo é uma dor física, ser levado ao hospital ou serem deixados sozinhos. E me pede para representar o sofrimento desses bebês, pedindo que o outro lhe mostre o que essa falta de “atenção” de uma mãe causa em um ser tão desamparado. A criança repete a vivência de sua mãe, e este sintoma de uma hiperatividade de Dudu, entre outras coisas, pode por um lado, dizer dessa  falta de atenção do qual se quixa a mãe em sua própria história, e por outro, também uma tentativa dessa criança de chamar a atenção dessa mãe, que chega a nós com uma posição esvaziada, depressiva.

Dudu recebe atualmente, além de atendimentos psicológicos na instituição, um trabalho de visita domiciliar realizado por outra psicóloga, um trabalho fisioterápico na instituição e sua mãe é escutada em grupo por uma outra psicóloga. No início essa escuta era realizada por mim, individualmente, e era um trabalho muito difícil, na medida em que ela não via a necessidade de tantas perguntas acerca de si mesma, ainda mais porque eu a questionava a respeito de algo muito difícil dela se haver: seu próprio desejo com relação ao filho, e no que ela estaria implicada nisso que se queixava dele. De acordo com Bernardino ( ), a escuta dos pais objetiva desvendar onde, na série significante dos pais, esse sintoma da criança entra. Mas a direção do trabalho não é o de tratar o fantasma dos pais, e sim de diferenciar o desejo dos pais com relação àquela criança e a leitura que a criança fez disso. Abrir um espaço para a enunciação do desejo deles, a fim de que eles possam se haver com isso, descolando-o do filho.

A mãe de Dudu teve que se reencontrar com lembranças dolorosas de sua história, que queria esquecer. Era muito angustiante para mim me deparar com essa resistência de alguém que não pediu para ter suas feridas cutucadas. Porém, a partir do momento em que aceitei tomar Dudu em tratamento, e, que esta mãe aceitou se pôr em trabalho comigo, era parte dele instigá – la na direção de desvendar qual é o pedido (ou a pergunta) que ela direciona a ele. Pergunta que pertence ao passado, mas que se reatualiza com o nascimento de um filho, e que ele presentifica em seu sintoma.

Autora: Mônica Fujimura Leite
Mestre em Educação Escolar pela UEL
Especialista em Transtornos Globais do Desenvolvimento na Infância e Adolescência pelo Centro Lydia Coriat e UNIFEV
Especialista em Psicanálise pelo IMBRAPE e UNIDERP, Psicóloga pela UEL
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina
Atualmente atua no CREAS de Ibiporã e atende em clínica particular em Londrina.

 

Referência Bibliográfica

BERNARDINO, L.F. Sim, toma. In: Proposições Teóricas.____.p. 53 – 63.

FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: FREUD, S. Edição Standard das Obras Completas, vol. XX. Imago: Rio de Janeiro, 1976.

JERUSALINSKY, A. Seminário de Psicanálise com Crianças.____, 1996.

JERUSALINSKY, A. Quando começa a transferência na Infância? In: Seminário I. USP, Instituto de Psicologia, Lugar de Vida. São Paulo, 2002, p. 69 – 87.

MELMAN, C. Sobre a Infância do Sintoma. In: Proposições Teóricas.____.p. 15 – 26.

SAURET, M. O Infantil e a Estrutura. Escola Brasileira de psicanálise: São Paulo, 1997.

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