De Héracles a Hércules: da Inscrição do Nome Herdado à Construção de um Nome Próprio

O herói Hércules, famoso por sua força e coragem sobre-humanas, foi assim chamado pelos romanos, originalmente na mitologia grega, chamava-se Héracles. Seu nome grego significa “glória de Hera”, e a escolha dele está diretamente ligada à origem deste semi-deus. Héracles era filho do deus Zeus com uma mortal, Alcmena. Quando o marido de Alcmena estava na guerra, Zeus se transformou nele para seduzi-la e desta união nasceu Héracles. O nome dado ao bebê foi uma escolha de Zeus, na tentativa de apaziguar o ódio de Hera, a esposa dele, porém sem sucesso. Zeus tentou tornar Héracles imortal, porém só conseguiu que ele adquirisse a força dos deuses, permanecendo mortal. O ódio de Hera pelo marido foi transferido para o filho dele eHéracles passou a ser perseguido por Hera, sendo alvo de diversos planos da parte dela para matá-lo. Seus famosos 12 trabalhos são decorrentes de um destes planos. Héracles libertou- se do jugo materno, ganhando o direito, a partir da intervenção paterna, de habitar entre os deuses do Olimpo. O significado do nome romano, pelo qual o herói é conhecido, diverge do original grego. Hércules significa “aquele que dispensa calor e claridade”. Não consegui encontrar o porquê desta mudança de significado mas podemos pensar que o corte romano com relação à herança cultural grega, faz também um corte da herança de uma mulher – esposa e mãe – para este homem, permitindo-lhe encontrar seu lugar entre aqueles cujos o pai havia lhe indicado previamente.

O percurso heróico deste semi-deus é o mesmo a ser percorrido por todos os mortais, no processo de constituição de um sujeito desejante. Necessário é a todo humano ser nomeado por um Desejo materno, e que posteriormente ele negue este nome, dando-lhe uma versão própria, a partir do crivo de leitura que o pai lhe oferece. Este processo se dá dentro da linguagem, sendo que a posição de um sujeito nela marca sua posição diante da vida. Dentro disso, o que dizer quando um ser que não faz uso da linguagem? Escolhe ou encontra-se impossibilitado de falar, escrever, articular gestos dentro de um contexto discursivo?

A lógica medicalizante que impera na atualidade enquadraria-o em uma nosografia e lhe proporia técnicas para instrumentalizá-lo, reparar déficits e readequar suas condutas. Separa o sujeito de seu sofrer, deixando de fora a relação que ele estabelece com o próprio sintoma (ESPERANZA, 2011). As explicações medicalizantes reduzem-no a um fator biológico e o tratamento tem como base a administração de psicofármacos (ROCHA e FERRAZZA, 2011; Untoiglich, 2006). Em tratando-se de crianças, este tipo de leitura acarreta resultados hiatrogênicos, em decorrência da especificidade do tempo da infância.

A Psicanálise trata estas questões sob outro viés, a partir da concepção de que o humano é “deficiente” por estrutura. Lacan afirma que “o Outro da linguagem possui um buraco fundamental que lhe é constitutivo” (22- R.S.I. – 1975 apud SNIKER & ANDRADE, 2010). No entorno deste buraco organiza-se uma estrutura, que constitui o sujeito do inconsciente. Este está submetido à lógica do significante, ou seja, ele é atravessado pela linguagem. Dentro desta concepção, Lacan (20 – mais ainda – 1985 apud SNIKER & ANDRADE, 2010) afirma que o analista intervém na estrutura. A estrutura preexiste ao sujeito, mas ela tem um tempo de instalação em determinado ser, no qual certas inscrições são realizadas dentro de momentos lógicos. E no caso de bebês ou crianças  nas quais tais inscrições ainda estão se realizando? Como o analista intervém, em um tratamento pela palavra, com alguém que ainda não está plenamente instalado nela?

Tal é o caso de uma criança que chegou aos três anos de idade: não fala, não se comunica, não responde, não se reconhece, não brinca, não tem imagem de corpo; suas reações diante da intromissão do outro eram jogar-se no chão, debater-se e gritar. Depois de um ano de trabalho ela caminhou muito com relação a esses nãos. Hoje ela está na linguagem, compreende o que lhe falamos, fala algumas palavras, escolhe objetos específicos e manifesta-se frente ao discurso parental, sente afetação em seu corpo, busca contato e demonstra prazer na troca com o outro. Tem começado a armar cenas do brincar, onde posiciona as pessoas e estabelece o roteiro que devem seguir. Solicita a mãe de uma forma imperativa, chora quando ela sai, circula em torno dela, com uma expressão que parece perguntar o que tanto ela olha no computador, ou fala no celular, e em alguns momentos chama-a em tom de súplica: “mã!”. Por outro lado, hoje esta criança se posiciona de forma a ela dizer não, diante da demanda do Outro. Responde, com veemência, na negativa, aos pedidos de seu Outro de que abandone as fraldas, as mamadeiras, de que se sente na sala de aula e aprenda os conteúdos pedagógicos, que coma de talheres e pare de pular e arrancar os pedaços das coisas, e que comemore seus aniversários. Quando encontra a mãe, solicita-lhe que toque em seu corpo em movimentos ritmados, sendo capaz de ficar muito tempo nesta atividade. O que é isso que ela faz? Que posicionamento é esse que ainda obstaculariza sua relação com o outro/Outro?

O que a faz vacilar diante de expectativas que parecem ser colocadas para ela, de modo que ela vai até um ponto, para em seguida reagir com agressividade afastando-se do que é esperado dela? Ainda estamos investigando, e por ora, nos deparamos com a escolha de seu nome, o qual mimetiza com o nome de todos dentro da família. Isso assomado a uma posição bastante narcísica desta mulher, faz-nos pensar o quanto ele pode estar situado como uma extensão dela própria. Este lugar combina com a falta de recalque encontrada nesta criança, que avança e retoma o que já havia ultrapassado, misturando presente, passado e futuro.

Movimento de separação necessário, mas dificultoso, em especial porque se repetiu conosco a posição decidida desta criança. Necessário foi cavar entrada de forma a não mostrarmo-nos por demais invasivos de modo que ela não precisasse defender-se da mesma forma. Foi então, a partir da inscrição materna, que iniciamos nosso trabalho. Na clínica da fronteira das palavras, há que se estender o fio do simbólico, por mínimo que ele seja, a partir de onde encontremos uma ponta para puxar. Esta do toque no corpo pareceu-nos a única que ficou de uma experiência prazerosa onde o Outro compareceu na missão de inscrever a palavra no corpo deste infans. Transformamos uma atividade repetitiva em um brincar ritmado, com pausas, alternâncias, ou seja, atrelados ao ritmo que a linguagem impõe. A palavra, trazidas por nós, enquanto representantes do Outro, era carregada de afeto e comparecia no momento em que afetava o corpo desta criança.

E é por aí que acredito que esta criança tenha entrado na palavra. A linguagem é uma estrutura que antecede o sujeito, dentro da qual todos nascemos. É necessário porém, uma virada por parte dele. Para que uma criança possa vir a habitar a linguagem, após ter sido habitada por ela, é necessário que algumas inscrições sejam realizadas. Jerusalinky (2011) diz que é a mãe (enquanto Outro) que introduz o bebê na linguagem, ao situar as fonações dele enquanto um chamado. Ao questionar o que ele quer quando escuta seu grito, questionando assim o enigma do desejo que supõe estar no bebê. É na  tentativa de responder a essa suposição que o bebê faz laço com o Outro. O bebê é capturado na prosódia materna, sendo tomado no funcionamento da linguagem muito antes de aprender a fazer uso dela. É engajado no circuito pulsional materno que se produz inscrição no bebê, a partir da afetação que ela lhe provoca em seu corpo. Jerusalinsky (2011) diz que a linguagem não se inscreve por si, para que o bebê seja convocado a se atrelar ao Outro, é necessário um endereçamento do representante deste Outro, o que Lacan (1969 – Duas notas sobre a criança) chamou de um desejo não anônimo.

No caso desta criança em específico, parece-nos que a falta de afetação por parte desta mãe com relação a este filho o fez não vivenciar esta experiência de ver a satisfação pulsional desta mãe implicado na relação com ele. Assim, fez parte do trabalho com esta criança escutar esta mãe, a fim de modificar algo nesta economia psíquica, e ao mesmo tempo, posicionarmo-nos no lugar de um Outro ortopédico, de modo a exercer esta função para esta criança.

Em crianças onde essa inscrição falhou é necessário retornar a este momento do engatamento da palavra ao corpo. Ali onde a palavra não comparece em sua função de comunicação e enunciação de um sujeito, a convocatória é realizada por meio da voz, do olhar, do gesto, da modulação de entonação do analista, variações que afetem os sentidos do infans (Jerusalinsky, 2011, p. 77). De acordo com Freud (1895 – Projeto para uma Psicologia Científica), as inscrições psíquicas são produzidas a partir de experiências. Nascemos com uma carência instintual que nos faz depender de um outro, semelhante e experiente, que preste uma assistência alheia, por meio de uma ação específica, eliminando estímulos e ocasionando uma satisfação impossível de ser alcançada por conta própria. Isso gera uma experiência de satisfação. É este adulto experiente que atribui ao choro do bebê uma intenção de comunicação, a partir da afetação que as ações do bebê ocasionam neste adulto, engajando-se subjetivamente nos cuidados que realiza, colocando seu saber inconsciente a serviço de fazer funcionar no bebê um corpo subjetivado. Isso o retira do registro da necessidade, e ele passa a funcionar no registro pulsional. Os traços que ficam inscritos desta experiência nãoguardam correspondência com a experiência em si, mas ficam registradas na forma de traços. Estes sofrem transcrições e retranscrições entre as diferentes instâncias psíquicas (Freud, 1896 – Carta 52 a Flies). Os traços são sulcos na superfície psíquica, que formam vias de facilitação, caminhos mais permeáveis à catexia, que acarretam tendências à repetição. Podemos pensar no caso de nosso paciente, no pedido insistente de que ficássemos tocando em seu corpo com movimentos específicos enquanto um traço.

Por outro lado, Freud coloca que nem tudo o que se inscreve no aparelho psíquico pode ser evocado. O esquecimento é indissociável à condição de um sujeito desejante. Entre um sistema e outro nem todas as inscrições são transcritíveis, Em outras palavras, em indivíduos onde se operou o recalque a consciência nada pode saber acerca das inscrições primordiais que fundaram o que se estabeleceu como o inconsciente.

A partir desta concepção, concordamos com Jerusalinsky (2011), que nos diz que seria catastrófico nos colocarmos diante desta criança para ensiná-la a falar, fazendo uma correspondência unívoca entre significado e significante, metodologia que exclui o ponto de entrecruzamento entre o código da língua e o enigma do desejo do Outro que comparece na fala do adulto direcionada à criança. A problemática decorrente desta forma de intervir é que ela reforça exatamente o que falhou na relação do Outro  primordial com esta criança. Uma mãe cuja libido não se engata em seu bebê, não consegue supor nele um saber acerca de seu desejo. Isso acarreta uma dificuldade em se reconhecer em nele (VORCARO, 2013), uma vacilação no processo de filiação e consequentemente uma dificuldade de pôr a trabalho seu saber parental acerca de como educar esta criança. Frente a essa vacilação, em vez de promover a educação de seu filho a partir de um ideal projetado sobre ele, “efeito da produção de um lugar numa história para um sujeito, em virtude da transmissão de marcas simbólicas advindas do passado” (Lajonquière, 2002, p. 49), os pais ficam à espera da resposta que ela oferece, invertendo a lógica educativa.

De acordo com Vorcaro (2013), o discurso psiquiátrico oferece uma resposta diante dessa falta de (re)conhecimento parental, proporcionando padrões de conduta, o prognóstico daquela patologia. Esse tipo de interpretação e  intervenção empurram para a destituição da filiação da qual a criança é proveniente, ela perde os traços identificatórios de sua tradição familiar e passa a ser filiada pela nosografia. Os pais, destituídos de seu saber, a partir da vacilação de seu desejo parental, guiam-se pelo saber anônimo do especialista.

Isso posto, de que forma nós da Psicanálise trabalhamos com esta criança? Ainda segundo esta autora, da mesma forma em que um psicanalista, ao realizar a leitura das formações do inconsciente de um paciente que está instalado na palavra, sem dispor de uma interpretação a priori, cujo sentido será dado apenas após a articulação com outros significantes, com o engajamento do sujeito em tais formações, passando a produzir associações a partir delas. É do que o analista escuta (ou lê) ao pé da letra do que é falado, que é possível se construir sentidos, a partir da polissemia significante. Na clínica da fronteira das palavras a criança dá a ver, em suas manifestações corporais, gestuais e nas emissões de seus gritos, seu particular modo de engajamento no estabelecimento do laço com o Outro. Necessário é que isso que se dá a ver seja tomado como enigma por um Outro encarnado, inserindo-o numa rede associativa. Diferente do primeiro caso, isso que se dá a ver não é o retorno do inconsciente recalcado, é o próprio inconsciente em constituição.

Não pedimos para que a criança associe, mas lemos o discurso que se produz no entorno das produções dela. Isso porque, de acordo com Jerusalinsky (2011), se um bebê, ao nascer, não dispõe de um aparelho psíquico constituído, é o aparelho psíquico da mãe que opera inicialmente. É a mãe que interpreta o que se passa com o bebê, interrogando-se diante do enigma que ele traz com seus atos, propiciando-lhe satisfação na medida em que o engata em sua economia libidinal. Mais tarde, ele terá condições de formular respostas, que estenderão sua rede significante, a partir da marca inscrita em seu corpo. Tal resposta é feita pela criança por meio do brincar. E então nos deparamos com outra ferramenta de trabalho do clínico que atua na fronteira das palavras: a construção de um brincar simbólico com a criança, articulando um lugar e um meio no qual ela possa formular e complexificar sua resposta ao Outro.

Assim, dessa inscrição inicial materna, é necessário um longo caminho da criança, no sentido de apropriar-se do código da língua e utilizar-se dele para sua enunciação. Podemos supor que nosso pequeno herói estava na primeira etapa apenas dessa empreitada. Tal qual Héracles, herdou um nome materno, porém tal nomeação não possibilitou-lhe a constituição de um sujeito singularizado, impedindo-o de seguir adiante, negando-o e fazendo dele uma versão própria, assim como Hércules, o que lhe possibilitaria constituir-se enquanto um sujeito desejante, faltante e falante.

Autora: Mônica Fujimura Leite

 

Referência Bibliográfica

ESPERANZA, G. Medicalizar a vida. In: JERUSALINSKY, A. e FENDRICK, S. (Orgs.). O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea. 2 ed. São Paulo: Via Lettera,
2011. p. 53-59.

FREUD, S. (1895) Projeto para uma Psicologia Científica. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 335-468.

FREUD, S. Carta 52 a Flies (1896). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 281-287.

JERUSALINSKY, J. A Criação da Criança: brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê. Salvador: Ágalma, 2011. 290p.

Histórias Mitológicas. Disponível em: http://allofthemitology.blogspot.com.br/2008/04/hrcules-o-mais-poderoso-dos-herisda.html

LACAN, J. Duas Notas sobre a Criança (1969). Disponível em: www.acpsicanalise.org.br/docs/duas-notas-sobre-crianca.pdf

LACAN, J. A Identificação (1961-62). Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. 442 p.

LAJONQUIÈRE, L. Infância e ilusão (psico)pedagógica: escritos de psicanálise e educação (1999). 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 204 p.

ROCHA,L.C. e FERRAZZA, D.A. R. A Psicopatologização da infância no Contemporâneo: um estudo sobre a expansão do diagnóstico de “Transtorno de Déficit
de Atenção e Hiperatividade”. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.8, n.2, p. 237-251, Jul./Dez. 2011.

SNIKER, B.H. & ANDRADE, M.L.A. O Interdito do Incesto e o Nome – do – Pai. Uma leitura da psicose a partir do seminário R.S.I. Mudanças – psicologia da saúde. 18 (12). Jan-dez 2010, 30-35 p.

UNTOIGLICH, G. Consenso de Especialistas da área de saúde sobre o chamado “Transtorno por Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade”. Correio da APPOA,
Porto Alegre, n. 144, março 2006 63 – 68. Disponível em: www.appoa.com.br/download/correio144.pdf. Acesso em: 20/08/2013.

VORCARO, A. O Efeito Bumerang da Classificação Patológica da Infância. In: JERUSALINSKY, A. & FENDRIK, S. O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea (Orgs.) 2 ed. São Paulo: Via Lettera, 2011. p. 219-230.

Sintoma da Criança e Inconsciente Parental

IDENTIFICAÇÃO, AMOR, DESEJO E GOZO

O sintoma da criança está imbricado a algo do inconsciente parental (Lacan, 1969), uma vez que ela ocupa os lugares de objeto de amor, desejo ou gozo de seus pais (Flesler, 2007, p. 197). O mais saudável é que ela alterne entre essas posições, de modo que uma faça barra à outra. Quando uma criança faz sintoma então, penso que ela esteja situada em algum lugar dentro dessa estrutura deste casal em que não deveria. Algo ficou desarranjado, a típica cena da criança na cama do casal. Partindo desse pressuposto, gostaria de discorrer neste trabalho acerca das intervenções com os pais nos atendimentos das crianças que tomo em tratamento. Pergunto-me até que ponto posso intervir na mudança de lugar da criança dentro dessa tríade (amor, desejo e gozo). E a partir de onde isso deve ser tratado em uma análise pessoal desses pais?

 Ao longo desse ano estudamos o Seminário 9, sobre a Identificação, que me deu alguns elementos para pensar estas questões, articulando como se dão as inscrições significantes no infans a partir da intervenção desses dois personagens, mãe e pai. Partindo então na alternância de lugares entre essas três instâncias: amor, desejo e gozo, tentarei pensar como isso funciona e de que forma a criança responde sintomaticamente, a partir da idéia de que se constitui alienando-se a esses lugares propostos a ela por este casal.

Neste seminário Lacan afirma que “O amor é a fonte de todos os males (…) o amor de mãe é a causa de tudo” (p. 158). Por outro lado, ele nos diz também que do amor só se pode ser objeto, para ser sujeito, há que se desejar. Assim, se uma criança necessita, por um lado, ser alocada nesse lugar de objeto de amor, para dar entrada na existência, por outro, precisa negá-lo, para apropriar-se desta. Para que se constitua enquanto desejante, o sujeito precisa perder o objeto que supostamente o completaria (objeto na verdade nunca existido, a não ser na cena de completude que ele arma), encontrando-se, neste momento, com a frustração. E, a partir dessa cena inaugural, ele está condenado a, eternamente, desencontrar-se, ao buscar reencontrar-se com esse objeto (Lacan, 1962, p. 199-200). Essa primeira posição é possibilitada pelo significante Desejo Materno. Segundo Jerusalinsky (2001, p. 147), uma mãe coloca seu filho enquanto objeto de satisfação, atravessada pelo interdito da lei paterna, que atrela o gozo dela à lei simbólica. É consequência da forma como isso está inscrito pra ela, que seu filho será situado nas posições de objeto de desejo, amor ou gozo.

Flesler (2007, p. 197) traz que, para que essa alternância de lugares da criança opere é necessário que o desejo dos pais funcione entre eles, para além da criança. Ou seja, existe uma cena da qual ela está necessariamente excluída. Aqui posso começar a pensar nos casais que chegam a minha clínica, trazendo seus filhos com sintomas. Parece-me que esse desejo do casal não está colocado. Vejo mulheres que não reconhecem em seu marido o objeto de sua satisfação, cumprem as etapas do namoro, matrimônio e maternidade como um protocolo a ser seguido; outras mães que depois que têm o filho, ficam completas, deixam de desejar enquanto mulher; outras que posicionam-se no casamento de maneira infantil, colocando o marido no lugar do pai.

Quando aceito tomar uma criança em tratamento, objetivo possibilitar a ela sair deste lugar objetal. Segundo Laurent (apud Prado 2008) que seu corpo deixe de corresponder ao objeto a, objeto de gozo da mãe. Penso que, enquanto clínicos, além de realizar uma construção com a criança, seja necessário intervir também do lado dos pais, para abrir o espaço necessário que possibilite à criança se reposicionar, uma vez que a criança só vai até onde eles a autorizam. Este fato é inerente à condição do infans, que inaugura sua existência no mundo a partir das inscrições significantes oriundas da rede parental.

Lacan (1961, p. 136) coloca no Seminário 9 que para que o significante se inscreva são necessários três tempos: o primeiro de inscrição da marca, o segundo de apagamento e o terceiro de cerceamento de onde estaria a marca. É o apagamento do traço que possibilita o advento do significante, deste modo, ele não está colado a um significado positivado, este significado advirá somente a partir da articulação com outros significantes. Lacan diz que “o significante não presentifica um objeto” (…) mas “representa o sujeito para um outro significante” (p. 65), colocando-o numa disposição metonímica. Podemos perceber então que essa dinâmica caracteriza-se por uma alternância, num movimento de presença-ausência.

A inscrição da marca seria o traço unário, proveniente, como dissemos, do Desejo Materno. De acordo com Lacan (1961, p. 63), o traço unário é “um manifestante da diferença”. É a partir dessa diferença que o sujeito pode constituir o seu Ideal de eu, ou seja, sua primeira identificação à imagem que a mãe projeta sobre ele, a partir do desejo materno1. Por outro lado, para que prossiga a inscrição significante, conforme dissemos, o traço unário precisa ser apagado. Isso é realizado pelo significante Nome-do –Pai , que tem para o sujeito uma função de ancoragem, nominação, possibilitando a ele defender-se de permanecer objeto da mãe (Lacan, 1961, p. 62). Nas palavras de Lacan (1961, p. 82) “o acento do nome próprio do sujeito é depositado sobre sua função dedistinção, ou seja, não o cola a um significado unívoco”. Assim, o pai permite à criança desidentificar-se do que o significante do Desejo materno impõe a ela, permitindo-lhe abrir a cadeia significante. Lacan (1961, p. 145) diz que a criança, nesse processo deidentificação, coloca o objeto a em uma situação de alternância (presença-ausência) Esse objeto a é o que representa, quando presentificado, o falo. Ou seja, podemos pensar que é o lugar que a criança ocupa para a mãe, e que para não sucumbir a ele, precisa fazer esse fort-da.

Quando uma criança faz sintoma, algo desse processo não está acontecendo a contento. Seu sintoma é uma manifestação de seu particular modo de realizar esse enlace ao seu Outro. Estando engajada aos regimes de amor, desejo e gozo dos pais, penso que eles também têm que ser postos a falar, porém, este espaço de fala é diferente do oferecido num convite à análise. Flesler (2007) nos lembra que os pais devem ser convocados pelo analista da criança em momentos pontuais, quando se configurem enquanto resistência para o tratamento. São pontos de intervenção onde seja necessário “reinstaurar a falta onde ela falta, ou seja, onde encontramos uma falha na estrutura” (p. 196). Ela retoma Freud pra dizer que algo do gozo infantil dos pais está ancorado no filho, e que a resistência ocorre quando “na direção do tratamento de uma criança, se alcança um marco não balizado (…) na história específica do transcorrer estrutural próprio dessa criança e de seus pais” (p. 202). 

Ainda de acordo com a autora, o influxo analítico sobre os pais se dá em um ato que opera na “redistribuição e reenlaçamento de gozo que não são redutíveis à interpretação” (p. 201). Conforme dissemos, uma criança não pode prescindir desse lugar de objeto para seus pais, porém importa que ele seja de uma alternância, ou seja, de uma “extração renovada de gozo fora do corpo da criança” (p 199). Para isso, me parece necessário então, entrar na história dos pais, a fim de entender em que posição situam-se com relação à parentalidade e em que lugar esse filho entra na relação do casal. A partir daí, intervir no sentido de, por exemplo, restituir a presença do pai na cena da mãe com a criança, dar validade à palavra dele; ou autorizar a mãe a faltar, não saber, declarar-se cansada, pedir ajuda, arranhando a imagem ideal da mãe – toda. Provocar pequenas hiâncias entre o saber inabalável dela sobre seu filho, dando lugar aos maus entendidos inerentes a qualquer relação; questionar sua insubstituicionabilidade na manutenção da dinâmica familiar; fazer barra às intervenções invasivas no corpo, na palavra e ações da criança; autorizar os pais a darem vazão a sentimentos e agirem a partir deles pra fazer corte ao filho, interditá-lo quando necessário; não adivinhar tudo o que seu filho quer sem que ele precise dizer.

Penso que em todos esses exemplos vamos na direção de pôr em funcionamento a inscrição significante trazida por Lacan neste seminário, a partir do atravessamento da lei paterna sobre o desejo materno, promovendo a alternância presença-ausência no lugar da criança. Deste modo, intervindo na relação dos pais com a criança, de modo a fazer barra à fixação da criança nesses lugares de amor, desejo ou gozo, possamos abrir um buraco. Apostamos então que esse lugar vazio possa ser ocupado pelo casal, a partir de uma redistribuição da libido. Essa segunda etapa só será abordada pelo analista da criança se os pais o autorizarem, e talvez, esse momento, dependendo do caso, seja propício a um encaminhamento para uma análise pessoal dos pais.

 

Autora: Mônica Fujimura Leite

1“É a partir dessa pequena diferença, enquanto é a mesma coisa que o grande I, O Ideal de eu, que se pode acomodar todo o propósito narcísico; o sujeito se constitui ou não como portador desse traço unário” (Lacan, 1961, p. 171)

 

Referência Bibliográficas

Flesler, A. A Psicanálise de Crianças e o Lugar dos Pais. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

Jerusalinsky, J. A Criação da Criança: brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê. Bahia: Ágalma, 2011.

Lacan, J. A Identificação: Seminário 1961-62. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

Lacan, J. (1969). Duas notas sobre a criança (S. Sobreira, trad.). Revista do Campo Freudiano, nº 37, 1986

Prado, A.C.A.L. Clínica Psicanalítica com Crianças: Especificidades. CLaP – Aula de 17 de junho de 2008.

Repetição e Lugar do Analista

Ao estudar o tema da Repetição na Psicanálise ao longo desse ano, verificamos que ela faz parte da estrutura do sujeito, estando atrelada ao fantasma e ao sintoma. Desta forma, é material de trabalho numa análise. Neste percurso, ganhou especial destaque para mim o “objeto a1”, que está diretamente relacionado ao conceito e que também comparece num outro estudo do qual participei, que discorre sobre os Quatro Discursos de Lacan. No discurso analítico o analista ocupar o lugar de “objeto a”. A pergunta que desenvolvo ao longo deste trabalho é acerca desse objeto nessas duas posições: a passagem do analista, de “objeto a” (objeto-mais-de-gozar), para “objeto a” (sustentador da função objeto causa de desejo), e partir disso, pensar o trabalho do analista com a Repetição.

Para isso, considero ser necessário fazer um percurso com o “objeto a”, tanto na Repetição quanto no Discurso do Analista.

1) A Repetição é constituinte do Sujeito

Lacan (1964/1985) pontua que na Constituição de um Sujeito, ao ser marcado pelo Outro, a linguagem faz um buraco na estrutura e o sujeito perde algo, que ele denominou de “objeto a”. A partir disso, ocorre uma divisão entre o sujeito e o objeto de satisfação. Isso produz uma desorientação; no humano a pulsão não possui um objeto unívoco, como no instinto do animal. O sujeito, a partir disso, fica para sempre dividido2.

É em função dessa separação que existe a repetição; na tentativa de reencontro desse completamento. Porém, nessa busca incessante, o que se encontra a cada vez é diferente da anterior. Quando se relança a necessidade, entre o que se esperava e o que se encontra, formasse uma abertura, que funda a repetição.

2) A repetição está atrelada ao sintoma e ao fantasma

Por outro lado, essa experiência de perda não é somente do lado do sujeito. Para ser marcado pela linguagem, o significante é retirado do campo do Outro, deixando-o com uma falta3. O Outro, quando fala, deixa a marca de sua falta. Esse primeiro traço seria o equivalente ao Desejo Materno, o primeiro com o qual o ser é nomeado, a partir de identificar-se com o que falta ao Outro. Assim inicia a construção de seu fantasma.

Como uma paciente que se queixa de que não consegue dar seguimento aos projetos, fica estagnada. E diz que quando criança sua mãe perguntava se ela ia viver pra sempre debaixo de sua saia. A mãe tem um cargo de gerência “e movimenta tudo”. Ou outra que considera que todos conspiram contra ela, e diz que em sua infância sua mãe falava mal dela, nada do que ela fazia era bom. Ou ainda outra que chega sentindo-se cobrada pelo marido e pela chefia, refere que seu pai dizia que ela o cobrava, pedia coisas demais. Cristalizado ali em sua posição de objeto, faz sintoma, inibição ou angústia. Disso o eu nada sabe.

A criança deseja o desejo do Outro, e se coloca, num primeiro momento, enquanto objeto que completa o Outro, o objeto a. Ao mesmo tempo, a criança joga com a possibilidade de o Outro perdê-lo. Joga com a ausência de seu ser para ver a reação do Outro, colocando-se como objeto causa de desejo do Outro (Lacan, seminário 11 apud Rabinovich, p. 79, 116, 2000). Vide as crianças que se perdem nos mercados, ou que brincam de morrer, ou com a própria morte. Uma paciente que dizia, em sua infância, construir cenas de suicídio para ver o que acontecia. Muitos desejos suicidas passam por aí, os pacientes ficam imaginando como as pessoas lidariam com sua morte, sentiriam falta, não sentiriam?

3) Lugar do analista e o trabalho com a repetição

Conforme vimos, a repetição é decorrente desse processo de estruturação do sujeito, por isso Lacan coloca que não é algo de que se possa ser curado. Por outro lado, a repetição deve ser não só considerada, mas também incluída no trabalho da análise.

A partir disso, como se trabalha com a repetição? Essa questão será pensada a partir do lugar do analista nos discursos propostos por Lacan. De acordo com Lacan (1969-70/1992) o agente, no discurso do analista4, é o objeto a5.

Pensando então na pergunta colocada no início de meu trabalho, tenho condições de situar agora que o primeiro “objeto a” a que me refiro, diz respeito ao lugar que o analista, quando não ocupando essa posição, em seu processo de constituição de sujeito, se colocou enquanto objeto mais-de-gozar, na tentativa de completar seu Outro. Já o segundo “objeto a”, refere-se a quando ele ocupa a posição de analista, sustentando o semblante do objeto causa de desejo (FLESLER, 2007, p. 26). Nessa posição, o seu desejo enquanto sujeito não opera. Segundo Rabinovich (2000, p. 14-15), o psicanalista “[…] deve-se oferecer vazio para que o desejo do paciente – (…) o desejo do Outro – se realize […] através desse instrumento […] que é o analista enquanto tal”.

O lugar ocupado pelo analista, sendo um vazio, possibilita que o analisando projete sobre ele a sua posição enquanto objeto de seu Outro6. Como um paciente que se queixava de que eu não era clara, em minhas orientações, não era compreendido por suas esposas, das quais se separou, da mesma forma que não se sentiu por mim, e também me abandona. Ou outro paciente que diz ter esquecimentos e passa a esquecer o horário da análise. Ou ainda outro de sete anos que me diz que preciso urgente arrumar um namorado (para que ele seja interditado).

Lacan (1967-68/2003) diz que na entrada em análise, o analista é posicionado no lugar de suposto saber. Ele sustenta essa posição por meio de semblante, pois sabe que não o é.

No discurso do analista o saber inconsciente (S2)7 ocupa o lugar da verdade. Na direção da cura, o analista questiona as teorias e respostas prévias que o analisante traz. Como uma paciente que dizia que precisava mudar de emprego, de casa, de cidade, e eu pergunto o que precisa mudar? E ela diz que é ela. Ou outra que diz sempre achar que os namorados estão interessados em outras mulheres, mais velhas, mais inteligentes, mais experientes. Pergunto de quem é esse ideal de mulher, ela diz que é dela. Ou pôr questão nos diagnósticos e explicações com que os pacientes chegam: “isso é do TDAH, os Borderlines são assim. É mesmo? Como é isso? Assim como?”.

A intervenção do analista é no sentido de fazer o analisando se intrigar com a repetição: Como uma analisante que achava que os homens sempre a trocam por mulheres mais bonitas, diz que tem problemas com sua imagem porque sempre lhe disseram, desde a infância que não era bonita, melhorou na adolescência, qdo encorpou. Mas que não adiantava dizerem que era bonita, se antes diziam ser feia.

Pergunto porque ela, tendo recebido as duas nominações, ficou com a de feia. Com isso, o analista visa abrir para um sem sentido, desconstruindo as respostas sintomáticas dadas pelo paciente até então. Quando é possível uma nova ligação por parte do analisante, são produzidos novos arranjos significantes, modificando a construção do fantasma e a posição do sujeito diante do que o faz sofrer (sintoma).

Porém uma análise não e a produção de mais saber. O analista coloca um questionamento no saber, não coloca o seu próprio saber (“douta ignorância”). O trabalho analítico produz e aponta para a possibilidade de a perda se introduzir novamente, destampando o buraco que o sintoma tamponou. O analista, fazendo semblante de objeto causa de desejo, capta o sujeito como objeto (Rabinovich, p. 78, 2000).

Interrogar o sujeito: “você quer fazer o mestrado? Por que você se casou com ele? O que você quer com o emprego?” implica em possibilitar ao analisante fazer barra a responder à demanda do Outro (Kruel, 2007) (“meus pais investiram em mim, preciso dar um retorno”, “meus pais são rígidos, não posso decepcioná-los”, “minha mãe quer que eu seja independente financeiramente”), e se questionar porque ele deu essa resposta ao que imaginarizava que o Outro queria dele (aí aparece a posição de objeto na qual se coloca). Para depois poder vir a saber que o Outro não pediu nada, ele se pôs nessa posição. 

“A meta da Psicanálise, para Lacan, é que o sujeito obtenha certa margem de liberdade em relação ao lugar que ocupou como objeto do desejo como desejo do Outro” (Rabinovich, p. 133, 2000). A queda do objeto condensador de gozo (mais-de-gozar) implica num reconhecimento da castração do Outro. Saber insabido, tamponado até então pela construção fantasmática. O objeto passa a ser então posicionado enquanto causa de desejo. O analista situasse não mais como fonte do conhecimento, mas instrumento de desvelamento da verdade (Lacan (1967-68/2003).

O analisante, por sua vez, ao ser confrontado com o silêncio do analista, em responder a sua demanda, encontra-se com o ponto de origem de seu desejo, reencontrando-se com sua própria divisão originária. No final da análise, o sujeito suposto saber é destituído, e o analista é reduzido à função do objeto a pelo analisante, destinado a ser rejeitado por ele.

Lacan diz que o final da análise não é a identificação ao analista, nem tampouco a identificação ao inconsciente (Outro), mas a identificação ao sintoma. Produzir um saber-fazer com ele (Domb, p. 18, 1997). Lacan coloca que o final de análise produz um analista. Isso vem ao encontro do que falei anteriormente, de que ele leva ao encontro com a castração no Outro, podendo assim, abrir mão da tentativa de completá-lo, ou seja, um reposicionamento diante de seu lugar de objeto.

Penso que a escolha de ocupar o lugar de analista possa ser considerado um dos caminhos do rearranjo sintomático: o de conduzir outros no percurso analítico realizado por ele próprio. É na medida em que o analista sabe o que é o desejo que ele pode suportar ocupar o lugar do objeto causa de desejo do analisante. Assim, um analista pode sustentar a função de semblante de objeto a, que é singular em cada processo de análise que conduz8. Fazer semblante implica em ocupar um lugar, sem acreditar ser aquele no qual o paciente o coloca.

Isso não significa que um analista ocupe o tempo todo essa posição, quando um analista apresenta um trabalho, como este, se põe no lugar de analisante. Assim, Domb (p. 16, 1997) nos lembra que “existe um final de análise a cada vez que um analisante senta-se para exercer sua prática de analista”.

 

Autora: Mônica Fujimura Leite

1 Objeto a: objeto causa de desejo: quando o objeto se ausenta, presentificação da falta. objeto mais-de-gozar: objeto do gozo, quando presentifica-se em um objeto (sintoma, carro, filho, profissão, namorado). Caso se fixe, obstrui o buraco necessário para o movimento do desejo. Importa que ele alterne entre essas duas posições, num movimento dialético de presença-ausência (FLESLER, 2007, p. 26).

2 A fundação do Inconsciente é ilustrada pelo discurso do Mestre2 . Neste, o S1 (traço unário), ao incidir sobre S2 (o saber já constituído), fazendo-o trabalhar, faz surgir $ e também uma perda, o objeto a. $, o sujeito dividido, emerge na falha, na lacuna entre um significante e outro (Dias, 2008). Citando Lacan, “no nível mais elementar, o da imposição do traço unário, o saber trabalhando produz, digamos, uma entropia.” (LACAN, 1969-1970/1992, p.46).

3 O sujeito é nomeado pelo Desejo Materno (?). A partir desse significante primordial, se ordena uma cadeia. A necessidade passa pelo significante e a partir daí constitui-se a demanda. O traço unário é constituído dessas marcas que fizeram parte da história do sujeito, e têm potencial de vir a ser significantes. Porém eles têm um potencial de significação, não é fixo, há sempre possibilidade de novos arranjos. A construção do fantasma se dá na articulação dessas inscrições. (Lacan, 1961-62/2003).

4Repetição e Lugar do Analista

5“É como idêntico ao objeto a, quer dizer, a isto que se apresenta ao sujeito como a causa do desejo, que o analista se oferece como ponto de mira para (…) a psicanálise (…) ela envereda pelos rastros do desejo do saber” (p. 112).

6“O psicanalista é esperado no lugar do objeto a do paciente, na sua relação com o desejo do Outro histórico desse paciente” (Rabinovich, p. 84, 2000).

7 O S2 é um conjunto de significantes que formam uma rede essa rede forma um saber. Um saber sem sujeito. O inconsciente é uma cadeia significante que não pertence a ninguém, o sujeito só pode existir em relação ao A, que lhe é prévio.

8 Lacan (seminário 10) diz que um sujeito só se torna objeto causa de desejo depois que o Outro o perdeu (abrir mão – ou cair da posição – de ser o objeto que completa o Outro) (Rabinovich, p. 55, 77, 78, 2000)

 

Referência Bibliográfica

Dias, M.G.L.V. Ato Analítico e Final de Análise. Fractal: revista de psicologia, v.20, n.2, p.401- 408. jul/dez 2008. Disponível em: http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/Fractal/article/view/92. Acesso em 17/11/2016.

Domb, B. O desejo do analista. In: O Desejo e Sua Interpretação. Revista da Associação Psicanalítica de Curitiba. v.1 . n. 2. Curitiba: APC, 1997. p. 11-20.

Flesler, A, O sujeito da estrutura: Y a d’l’Un. In: Flesler, A. A Psicanálise de Crianças e o Lugar dos Pais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 24-28.

Kruel,S,S. Final de análise. Reverso v.29 n.54 Belo Horizonte set. 2007. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0102-
73952007000100013&script=sci_arttext&tlng=en. Acesso em 17/11/2016.

Lacan, J (1964). Tique e Autômaton. In: Lacan, J. O seminário livro 11. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 55-68.

Lacan, J (1961-62). Seminário 9. A Identificação. Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. 442 p.

Lacan (1967-68). Proposição de 9 de Outubro de 1967 Sobre o Psicanalista da Escola. In: Lacan, J. Novos Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 248-264

Rabinovich, D. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

Considerações Sobre a Educação Inclusiva: Reflexões Psicanalíticas a Respeito da Educação Inclusiva

RESUMO:

A partir da reflexão sobre o “Programa Educação Inclusiva: direito à diversidade” criada pelo governo em 2003, cujo objetivo é a escolarização de alunos com necessidades educacionais especiais nas escolas e classes comuns da rede regular de ensino, este artigo consiste em refletir a respeito desta Educação Inclusiva com crianças psicóticas e autistas, utilizando o referencial freudiano-lacaniano. Estas crianças podem se beneficiar deste programa se haver reformulações na escola para incluir quem está excluído, questionando o ideário políticopedagógico. Reformulações que exigem mudanças de espaço físico, de conteúdos programáticos, de ritmos de aprendizagem e uma maior preparação do professor, ou seja, as mudanças consistem no tratamento do Outro, que se baseia na organização e ajuste constante do agenciamento simbólico com a finalidade de tornar possível uma ação do coletivo. A importância disto reside em explorar certas possibilidades, particularmente a de colocar nolugar outra Alteridade que seja alternativa ao Outro primordial do sujeito, possibilitando assim que as crianças se beneficiem das contribuições que o laço social proporciona,considerando-as como sujeito do desejo para que então possa ver seu aluno em sua subjetividade.
Palavras – Chaves: Psicanálise. Educação Inclusiva. Psicose. Autismo. Tratamento do Outro.

INTRODUÇÃO.

Em 2003 foi iniciado o “Programa Educação Inclusiva: direito à diversidade” cujo objetivo é a implantação da política de educação inclusiva nos municípios brasileiros. Este Programa consiste em escolarizar alunos com necessidades educacionais especiais nas escolas e classes comuns da rede regular de ensino e apoiar a formação de gestores e educadores para efetivar a transformação dos sistemas educacionais em sistemas educacionais inclusivos.

O Programa baseia-se no princípio da garantia do direito dos alunos com necessidades educacionais especiais de acesso e permanência, com qualidade, nas escolas da rede regular de ensino. A Secretaria de Educação Especial (SEESP) publicou no site do MEC os “Conceitos da Educação Especial – Censo Escolar 2005” em que define quem são considerados os alunos com necessidades educacionais especiais:

Apresentam, durante o processo educacional, dificuldades acentuadas de
aprendizagem que podem ser: não vinculadas a uma causa orgânica
específica ou relacionadas a condições, disfunções, limitações ou
deficiências, abrangendo dificuldades de comunicação e sinalização
diferenciadas dos demais alunos, bem como altas habilidades/superdotação.
(http://portal.mec.gov.br/seesp/index.php?option=content&task=view&id=1
14).

Este programa procura contemplar todas as crianças ao direito de acesso à educação, um avanço importante uma vez que, a escola, conforme Kupfer (2000), atribui um lugar social para a criança moderna dando-lhe identidade. É por isso que a palavra criança está indissoluvelmente ligada ao escolar. “A História sublinha então uma dimensão da infância que é dada pelo campo social, que a enquadra, lhe dá significação e interpretação. O campo social também define um tempo para essa infância, que é justamente o da escolarização obrigatória.” (KUPFER, 2000: 36).

O ato de educar, parafraseando a autora, está no cerne da emergência de um sujeito (2000: 35). É por meio deste ato que o Outro Educador se intromete na carne do infans e o transforma em linguagem. As marcas do desejo do adulto na criança são inscritas pela via da educação. Assim, o ato educativo se refere a todo ato de um adulto dirigido a uma criança, filiando o aprendiz a uma tradição existencial e permitindo o reconhecimento no outro.

Porém, tratar a política de educação inclusiva como resposta à demanda educativa de normalizar os ditos anormais, mascarados com a denominação de “alunos com necessidades educacionais especiais”, é correr risco de transformá-la em instrumento de segregação, uma vez que sob efeito do discurso universalizante, a forma de entrada da criança na escola é imposta sem levar em conta sua singularidade, tomando-a a partir de uma vertente deficitária em que a dimensão de sujeito é excluída. Isto pode acontecer justamente porque os direitos de cidadania não protegem a criança contra a exclusão, como também não é só porque a criança com necessidades educacionais especiais está na escola de ensino regular que estarão garantidas condições de convivência e inserção no laço social.

Souza et al. (2000) ao analisar documentos e textos oficiais nos últimos seis anos, cujo tema é inclusão social e escolar de pessoas surdas, apontam algumas perspectivas distintas em relação ao discurso oficial dos enunciados proferidos e editados pelo MEC. Um dos textos é o decreto presidencial de 20/12/99, que “dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência”, que, parafraseando as autoras, as crianças que são contempladas nesta política, que no referido texto, trata-se especificamente as crianças surdas, são tratadas como deficientes. E, ao definir um conjunto de pessoas como deficientes, ao invés de reconhecê-las como diferentes, os formuladores do discurso as tomam como aquelas que têm déficit em relação a nós e não pela falta constitutiva de cada um de nós; criando assim, a perspectiva de normalização, que remete a um ideal psicopedagógico de adequar os meios aos fins educativos.

As autoras apontam uma outra perspectiva que subsidia o reconhecimento da diferenças ao invés da fala oficial sobre a inclusão:

Reconhecer diferenças não significa, como sugeriria uma leitura equivocada,
construir um discurso justificador das (e resignado em face das) distinções
sociais, incluindo as diferenças de classe. Reconhecer diferenças significa
recusar o discurso da normalidade e as práticas de normalização, que
pretendem salvaguardar a alegada pureza das identidades que ela parece
englobar. Reconhecer as diferenças significa exigir políticas públicas que
levem em conta os direitos dos segmentos sociais diferenciados, e recusar
políticas públicas assistencialistas e práticas que, em nome da inclusão,
negam direitos essenciais, como o direito dos surdos a uma língua própria.
(SOUZA et. al. 2000: 93)

Enfim, não se pode negar que este foi um dos grandes avanços na implementação de políticas públicas, mas, se não for bem elaborada, com pré-condições para que as crianças sejam atendidas e com acompanhamento das equipes, os efeitos podem ser desastrosos.

Ressaltamos também que, apesar da importância da educação para a criança, Freud em “Análise Terminável e Interminável” (1937: edição eletrônica) diz que “educar, ao lado de governar e psicanalisar, é uma profissão impossível”, uma vez que as pulsões sexuais são ineducáveis. O autor aponta que há limites na ação educativa, pois se chega sempre a resultados insatisfatórios, afirmando que o instrumento de ação do educador não é tão onipotente quanto se supõe.

No caso de crianças autistas ou psicóticas cuja posição é refratária às normas sociais e de rechaço ao Outro parece ser o extremo deste “impossível de educar”. Como então sustentar o trabalho da educação especial inclusiva, em que neste fio tenso situam em cada ponta o universal e o singular, o ideal “da escola para todos” e a particularidade do caso a caso? Quando e como ao inserir a criança na escola podemos encontrar tanto resultados terapêuticos quanto devastadores?

Por isso se faz necessário uma discussão e acompanhamento minucioso de cada caso com os professores e equipe de saúde, tanto no que se refere à questões sobre o tratamento quanto sobre a possibilidade ou não de escolarização dessas crianças. Kupfer e Petri, (2000:117) complementam: “toda inclusão de crianças psicóticas e autistas precisa ser cuidadosa e acompanhada, podendo não ser recomendada em alguns momentos mais problemáticos da vida de uma criança.”.

De acordo com as autoras, para que fosse criado um programa que tem como objetivo a inclusão, supõe-se que as crianças especiais existem porque há diferenças “naturais” entre elas. E que, se elas estão fora da escola é porque há um preconceito social a respeito da diferença. Em outro artigo, Kupfer (1997) afirma que a educação regular exclui os diferentes e que as práticas pedagógicas adotadas pelas escolas produzem essa nova categoria de crianças, excluídas do sistema regular de ensino. “Elas se tornam fracassadas escolares a partir do modo como a escola aborda, ataca, nega e desqualifica o degrau, a diferença social, o desencontro de linguagens entre as crianças de extração pobre, de um lado, e a escola comprometida com outras extrações sociais, de outro.” (1997:53).

Afirmam ainda que a modernidade criou a criança especial, produzida no e pelo discurso social escolar. A linguagem possui o poder de criação, contornando um Real e passando a dizê-lo, nomeando-o, ou seja, “uma rotulação que cria o objeto nomeado” (2000:111). O discurso escolar tem seus pontos de referências identitários nesse contorno que a ajuda a definir esse não-escolar, tanto é que algumas escolas não aceitam a inclusão escolar com o argumento de que se não podem aprender, o que farão na escola?

Kupfer e Petri não tiram a razão deste argumento, embora não concordem, propondo desta forma uma reformulação da escola para incluir quem está excluído, questionando o ideário político-pedagógico. Reformulação que exige mudança de espaço físico, de conteúdos programáticos, de ritmos de aprendizagem e uma maior preparação do professor. Neste mesmo texto “Por que ensinar a quem não aprende” as autoras (2000) discutem a respeito da inclusão e de muitos casos de insucesso desta empreitada, no âmbito principalmente da psicose e do autismo. Com a finalidade de melhor compreensão do quão delicado é este tema faz-se necessário discutir a respeito de como pode ser orientada a inclusão de crianças psicóticas e autistas, interrogando quem são as crianças especiais que se supõe ser incluídas. Para que se possa constituir-se como sujeito é necessário o convívio com os outros, fazer laço social através deste enodamento com o outro em busca do ordenamento simbólico. E com crianças autistas e psicóticas isto não se dá de maneira que possibilite essas inscrições. Então, como se dá a constituição de crianças psicóticas e autistas?

EXISTÊNCIA E CONSISTÊNCIA DO OUTRO NA PSICOSE E NO AUTISMO.

No início de sua vida, o bebê situa-se no intervalo de dois significantes: o desejo dos pais e o sujeito do desejo. Ele é submetido ao Outro materno, sendo fundamentalmente objeto deste, e tendo com ele sua primeira relação com o Outro, independente dele ser objeto de gozo ou de desejo. A mãe coloca seu filho no lugar do objeto imaginário com o qual o bebê identifica-se para preencher o desejo materno, deste modo, a mãe acredita ter o falo (e possui o significante desse desejo: o filho), isto é, ela acredita ser completa, que nada falta e este, acredita sê-lo: a criança realiza a presença do objeto a na fantasia materna. O bebê neste lugar de objeto sutura no Real, seu corpo é tomado como real na fantasia do Outro Primordial, apaziguando o fantasma materno; a criança cede para o Outro, se colocando como objeto correspondendo a alienação.

Esse momento é importante para o bebê, em que a mãe interpreta, traduz, atribui significação, isto é, supõe um sujeito e procura dar conta das necessidades desta criança que é totalmente dependente; sendo este, o primeiro ato do Outro, que põe sob seus significantes infans, submetendo-o ao seu saber. A mãe com isto recorta o corpo da criança e estes objetos, cuja extração se operou, será capaz de modo imediato e direto provocar um esvaziamento ou uma falta na criança, esta operação simbólica, segundo Jerusalinsky (1997:78), seria o discurso materno.

Ou seja, a linguagem atua também como marco constituinte do ser, esclarece Mariotto, necessária para que a relação de um a outro não se perca na violência imaginária. Sua existência é condicionada a partir de dois tipos de alienações: imaginária (que compõe sua identidade) e simbólica (que o introduz na cultura). “O reconhecimento do Outro, como mais além do semelhante, é condição para que o sujeito seja pelo outro reconhecido” (2007:58).

Para Lacan (1964:178), “o sujeito provêm de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro, sendo determinado pela linguagem e pela fala, isto quer dizer que o sujeito in initio, começa no lugar do Outro, no que é lá que surge o primeiro significante” (ibid., 187). A importância disto é que, não somente a imagem ideal do corpo é oferecida, como também o marca perpassando-o pela libido, ou seja, pelas pulsões sexuais que o percorrem e nele entram pelos orifícios corporais, deixando marcas do gozo do Outro.

Porém, é necessário que a criança não sature, para a mãe, a falta em que se apóia seu desejo. Jacques – Alain Miller (1998) considera que a mãe só é suficientemente boa se não o é em demasia, se os cuidados que ela dispensa à criança não a desviam de desejar enquanto mulher. Lacan (1969-1970) diz que a mãe é como um crocodilo, que abriga dentro de sua boca a criança e o que mantém a bocarra aberta, o que a salva, é o falo, significante de uma falta; é ele quem intercede em favor do sujeito, salvaguardando-o de sucumbir ao gozo total do Outro, fazendo com que o sujeito sustente o seu próprio desejo, não permitindo que o crocodilo não engula a criança.

Para que o desejo possa emergir no bebê, é necessário que ele se veja separado da mãe e que a partir desta separação, ele lance mão de outra coisa. O pai é o possuidor do falo – objeto de desejo da mãe e também de sua falta – e em conseqüência disto, o bebê ao ver que há alguém que satisfaz a mãe, perde, assim, a sua relação privilegiada e tenta identificar-se com aquele objeto. A metáfora paterna aponta o objeto de desejo para o bebê, que passa a desejar deixando assim a sua posição de objeto da mãe, registrando a falta.

É por meio da metáfora paterna e de seu mecanismo fundamental, o recalque
originário, que a criança efetuará uma substituição significante, colocando
um novo no lugar do significante originário do desejo da mãe. À medida que
o significante originário é substituído pelo novo, automaticamente ele é
recalcado, passando para o inconsciente, o que permite de fato à criança
efetivar a renúncia ao objeto inaugural de desejo, tornando inconsciente o
que antes o significava. (ARAGÃO E RAMIREZ, 2004).

A autora Sônia Alberti complementa:

(O bebê) Para desejar já não é objeto, mas sujeito, necessariamente
identificado ao pai – em nível do ser – o sujeito que quer ter o falo pra
satisfazer a mãe. Esse pai da identificação primeira (e que também Freud
refere em 1921) só opera como tal se houver a possibilidade de uma
identificação simbólica, donde Lacan dizer que trata de um significante, um
traço que a ele equivale, de forma a presentificá-lo ali onde não
necessariamente está a realidade. (…) O Outro é barrado pelo Nome-do-Pai,
que nele inscreve a lei do desejo: desejo de ter o falo. (ALBERTI, 2002).

Miller (1998) diz que a metáfora infantil do falo só é bem sucedida ao falhar, se não fixa o sujeito à identificação fálica e se, ao contrário, lhe dá acesso à significação fálica na modalidade de castração simbólica, preservando o não-todo do desejo feminino, não recalcando na mãe, seu ser mulher. Para ele é essencial que a criança divida o sujeito feminino entre mãe e mulher, amor e desejo, e que o Pai humanize o desejo da mãe, tomando a mulher como causa de seu desejo. Enfim, a metáfora paterna remete a uma divisão do desejo, fazendo com que o bebê não seja tudo para o sujeito materno, possibilitando, deste modo, que a criança deseje e que assim, exista.

Em suma, são várias as funções que o Outro assume na vida da criança:

Assim, constatamos as múltiplas faces do Outro: Outro absoluto, em termos
de uma exterioridade absoluta, aquilo que não pode ser dito ou apreendido
pela palavra; o Outro da alienação, como lugar onde o sujeito encontra
sentido para si e onde se petrifica; o Outro da separação, que se refere ao
limite que faz a falta de significante, fazendo desta carência a exigência de
trabalho por parte do novo ser para dar sentido a si mesmo; e, por último, o
Outro primordial que nada mais é que a presença real – outro – que encarna
as funções de alienação e separação. (MARIOTTO, 2007:58).

Segundo Laznik-Penot (1997; 1998), em casos de autismo há a ausência desta relação com o Outro, a sua não sustentação, pois para que se feche o circuito pulsional, é necessário um outro concreto para que a criança possa se fazer objeto desse outro, para que assim, o campo do Outro possa se abrir. No autismo, sem Outro não haveria imagem nenhuma em relação a qual o infans pudesse demandar reconhecimento. Não haveria aí um Outro que investisse de libido o corpo do bebê, ou seja, um Outro que, a partir de sua falta, recortasse o infans à imagem do objeto de desejo do Outro. Novamente, esta autora afirma que os adultos do entorno veriam a criança somente ao nível da necessidade, o que produziria o não-olhar muito relatado naqueles denominados de autistas (Laznik-Penot, 1997; 1998; 2000).

Sem este encontro com o Outro, o corpo do autista não faz bordas, seus orifícios corporais não funcionariam como zonas erógenas, não tendo a noção de dentro e fora, sem a unidade imaginária corporal.

É um corte que faz aparecer duas faces: dentro e fora. Corte que o
significante promove, pois é “só em relação ao Outro, enquanto há lá esta
alteridade, que se pode tratar de distinguir um avesso e um direito” […] O
encontro com o Outro, com o significante, como não promove um corte, não
instala um dentro e uma perda, joga o sujeito numa perda infinita, onde
sacrifica seu corpo como dejeto. (KOST, 1994 p.303)

É o significante que promove o corte, do simbólico, que divide a borda ao meio, e neste corte, o “objeto sofrerá Ausstoung (expulsão), delimitando uma Einbeziehung (inclusão). Fora e dentro. De um lado, o real, como o que subsistirá fora da representação. Dentro uma representação constituída de uma percepção primeira: houve um objeto que satisfez (Bejahung), que existe e que pode ser encontrado.” (KOST, 1995). Essa extração do objeto que o significante se amarra, a partir do que foi perdido. 

Já a psicose resulta das relações do sujeito com o significante Nome-do-pai; este processo de metáfora só consegue assegurar sua função estruturante, com relação ao desenvolvimento psíquico da criança, ao se desenvolver sobre base do recalque originário do significante do desejo da mãe. Quando o recalque originário não se dá, todo o processo de metáfora do Nome-do-pai se compromete, pois a abolição deste significante – significante Nome-do-pai – pode especificar a indução dos processos psicóticos, ou seja, quando se rejeita o significante do Nome-do-Pai para fora do registro do simbólico, fracassa a metáfora paterna, e essa falha na operação de castração, conferiria à psicose sua condição essencial; Lacan utiliza o termo foraclusão para descrever este processo. Em outras palavras, a presença constante da mãe, isto é, do discurso materno, impede a operação da função paterna, essa que poderia carregar consigo aqueles significantes capazes de funcionar como pontos de basta, que poderiam articular as cadeias significantes necessárias à constituição e ao exercício de um sujeito.

Os significantes que foram foracluídos retornam de fora pela via do real, em forma de alucinações, pois devido a foraclusão, fracassa o imaginário, sendo esta anterior a qualquer possibilidade de recalque, pois este, para se realizar, requer um conhecimento prévio do elemento a ser recalcado, não havendo a distinção entre significante e significado. Por não haver o recalcamento primário e sem a queda do objeto “a”, ocorre a holófrase, ou seja, a solidificação do S1S2. Em outras palavras, segundo Petri (2003 p. 60-61), a princípio há um sujeito que não é nada, e para que ele faça parte do campo do Outro um primeiro significante vem inscrever-se forçosamente, tratando-se do S1, que designa o sujeito e o petrifica no campo significante. A inscrição do segundo significante, S2, que faria aparecer como sujeito faltante, ocorre de modo peculiar, o que acarreta a falta de intervalo entre os significantes S1 e S2, implicando um problema no nível do processo de separação, nomeada como holófrase.

A partir daí, podemos apontar algumas particularidades na relação do
psicótico com a linguagem. No que se refere às relações temporais,
observam-se, muitas vezes, falhas na sucessividade: a pontuação que regula
o sentido na escrita tem uso particular e sua mudança afeta a ordem sintática
(pode estar fora do código); pode atingir a cadeia sintagmática,
interrompendo-a (frases interrompidas), há quebra na cadeia significante.
Faltam pontos de basta que permitam o enodamento da cadeia significante e
as redes de sentido ficam soltas. Há ruptura na coerência interna do discurso,
às vezes ocasionada pela falta de conexões, por exemplo, pelo uso incorreto
de preposições que marcam a transitividade da frase. (LACET, 2004).

Ao considerar a psicose como falha simbólica estrutural, a suplência faz o papel de metáfora da função paterna foracluída, como no caso das metáforas delirantes. A construção da metáfora de suplência ou a metáfora delirante faz parte da direção de cura nas psicoses, que entraria na forma de barrar o gozo, uma vez que a metáfora Nome-do-pai está foracluída, não promovendo a significação fálica. O delírio seria uma nova organização do sujeito, na tentativa de produzir algo análogo ao neurótico, é um saber de defesa, sem que haja um elemento único organizador que forneça as significações.

Ao considerar que é no registro da fala que se explicita toda a riqueza da
fenomenologia da psicose em sua tentativa de burlar a lei simbólica, propõe que,
assim como qualquer discurso, “um delírio deve ser julgado em primeiro lugar
como um campo de significação que organizou um certo significante” (Lacan,
1955-1956/1992, p. 141) e que uma investigação da psicose tem como regra
fundamental deixar o sujeito falar o maior tempo possível.(LACET, 2004
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S01035642004000100023&script=sci_pdf&tl
ng=pt)

Assim, compete o analista, diz Lacan (apud DAYRELL 2007 http://scielo.bvspsi.org.br/scielo.php?pid=S0102-73952007000100014&script=sci_pdf&tlng=pt) ser secretário do psicótico, isto é, aquele que vai anotar, respeitando sua singularidade, tentando implicá-lo e responsabilizá-lo por seus atos, bem como assumir seu tratamento.

É necessário, na clínica com psicóticos, que o analista suponha um sujeito, para que ele possa efetivamente existir e produza um significante novo, dentro das condições da transferência, para que o sujeito retorne do real através de um significante novo. O paciente psicótico organiza na transferência, um lugar para o terapeuta em que ele está interpelando a função paterna no real, isto é, a tranferência é real. Por isso, a transferência na psicose é diferente da neurose, não há suposição do saber no outro, antes supõe um gozo, não há um outro, ele fala a si mesmo por intermédio dos outros. “Em decorrência de sua estrutura, o psicótico se coloca diante da demanda do Outro como objeto e se dirige a um analista que ele coloca em posição de sujeito”. (KUPFER, 2000 p.62).

Outra distinção da neurose com a psicose, é que enquanto na primeira clínica é feita a travessia do fantasma, desfazendo as identificações imaginárias, na psicose, não se deve desfazê-las, pois não existem outras para repor no lugar; não há suporte simbólico. Como o significante primordial falta, a identificação fica comprometida, e ao se desmontar a identificação imaginária, o psicótico depara-se com o furo no imaginário, sem poder se  amparar no simbólico, pois este significante lhe falta. “A intenção desta ação é permitir que se instale o Simbólico e o ponto de partida é o Real, esse contra o qual a criança não erigiu suas defesas” (ibid, p.62). Isto é, no trabalho com psicóticos e autistas, o simbólico está para ser construído, e o imaginário tem a função de enodamento deste simbólico com o real.

Em vista disto, as identificações imaginárias devem ser reforçadas nas intervenções com o real. Cabe o analista ocupar o lugar significante, desde que não significantize a falta, porque como na psicose o Outro não é barrado, o psicótico identifica-se com a completude deste Outro, fazendo Um com ele, na psicose dizer a verdade é necessário. Kupfer (2000 p. 63) cita Marie Christine Laznik – Penot afirmando que o analista deve se apresentar como ser […] desejante, como um outro a quem algo falta, e, portanto, barrado, castrado em seu desejo onipotente.”

Enfim, a autora (p.66) continua ao dizer que o trabalho com psicóticos consiste em fazer com que opere com máxima extensão significante possível, posta a partir das inscrições primordiais, de modo a fazer-se por ela representar perante o discurso social. Já falamos a respeito de como o programa de inclusão social, dependendo da sua interpretação, poderá ser nociva à criança excluída, uma vez que a escola encarna o Outro, e da importância de reformular certos conceitos arraigados no ideal político-pedagógico para que possa receber esta criança. Por isso, abordaremos em seguida a importância desta inclusão social para as crianças psicóticas e autistas, de que maneira a entrada da criança na escola deve ser norteada.

 QUE MODO A INCLUSÃO SOCIAL PODERÁ SER TERAPÊUTICA?

Ao se discutir sobre a inserção de crianças com DGD (distúrbios globais do desenvolvimento) na escola devemos levar em conta alguns aspectos fundamentais que Alfredo Jerusalinsky (apud COLLI et al. 1997:139) considera:

  1. A questão do diagnóstico na infância que, em sua grande maioria, não está definido. Basear-se neste aspecto para privar a criança do convívio e da inserção na escola se torna injustificável.
  2. As condições de aprendizagem, apesar de limitadas existem, pois nestas crianças há a possibilidade de surgimento de curiosidades parciais;
  3. Do ponto de vista individual a criança pequena devido a sua idade não tem suficiência simbólica, atenuando o processo de estigmatização;
  4. O efeito terapêutico causado pela inserção destas crianças na escola pode ser entendido a partir do individuo e da ordem social. Uma vez que, somente o
    significante escola já traz em si uma série de significações. “A escola é um lugar de entrar e sair, é um lugar de trânsito” (JERUSALINSKY, 1997:91), sem contar que na representação social a escola é considerada uma instituição normal da sociedade, onde circula a normalidade social.

Portanto, quem frequenta a escola se sente mais reconhecido socialmente do que aquele que não freqüenta. Não é à toa que adolescentes psicóticos têm o interesse de frequentar a escola porque seus irmãos a frequentam, isso funcionaria para eles como signo de reconhecimento por serem capazes de circular, de certa maneira, pela norma social. Isto, por si só acaba tendo um efeito terapêutico porque, o discurso social cura o horror a psicose e seus preconceitos sem contar que, para o tratamento da psicose é necessário ter como norte o estabelecimento do laço social. A escola poderá produzir uma função de enlace, uma aproximação do termo “efeitos da circulação social”. “O trabalho analítico pode restabelecer algo do laço social e a escola, ou a circulação social que ela acarreta, reforça esse pouco do laço pondo-o em ato.” (KUPFER E PETRI, 1997:114).

Petri complementa ao dizer que a educação se transmite tanto pelo saber quanto pelo conhecimento, este último estaria relacionado ao conhecimento socialmente compartilhado, passado de geração em geração, acontecendo pela via do consciente. Já o saber, de ordem inconsciente, relacionado ao desejo inconsciente é transmitido na forma de valores e ideais. Os ideais podem ser simbólicos ou imaginários; o segundo representa a tentativa de complementação narcísica, sem espaço para a reedição do mandato, já os ideais simbólicos, têm como efeito a precipitação do desejo, representados pelos ideais de eu. Este último teria a vertente de “uma filiação simbólica, efeito de uma produção de um lugar na história para um sujeito, em virtude da transmissão de marcas simbólicas advindas do passado. Educação como a possibilidade da criança vir no futuro a usufruir como um adulto do desejo que nos humaniza” (2003:29).

Isto quer dizer que, para que esta circulação se concretize é necessário que o professor se diferencie de uma mera função pedagógica para um possível enlace, pois necessita de alguém estabeleça um lugar simbólico, permitindo uma transmissão da cultura e não se apresente como mero guia, mas como alguém que faz parte da ordem social. O educador deve ter em mente que há um saber inconsciente, e que nela há ideais que o compõe, ideais simbólicos que veja nesta criança um sujeito, que consiga pressupor e apostar neste sujeito.

Em outras palavras, a escola deve considerar o singular laço com o Outro que se configura no autismo e na psicose, posicionando-se como agente de lugar.

Aposta-se, com a inclusão, no poder subjetivante dos diferentes discursos
que são postos em circulação, no interior do campo social, com o intuito de
assegurar, sustentar ou modelar lugares sociais para as crianças, levando em
conta que, neste sentido, o discurso (ou discursos) em torno do escolar é
particularmente poderoso. Uma designação de lugar social é especialmente
importante para as crianças que enfrentam dificuldades no estabelecimento
do laço social, como é o caso das crianças psicóticas ou com transtornos
graves. (KUPFER E PETRI 1997:115)

A circulação social diz respeito as variadas esferas da vida social, incluindo a integração da família também, pois o processo de escolarização destas crianças encontra-se intrinsecamente ligado as significações que seus pais podem conferir-lhe, sendo que a criança sofrerá diretamente os efeitos de tais significações nos lembra Rogério Lerner (1997: 64,65). Ao dizer que seu filho está na escola, a escolarização pode promover uma sustentação imaginária para os pais nessa inserção social; algum representante da ordem social também pode realizar um trabalho de escuta com os pais, “para que se instale, no lugar da certeza, uma interrogação no que se refere à interpretação que eles dão aos sintomas dos filhos”. (OLIVEIRA apud Lerner, 1997: 67). A relevância desta escuta estaria em produzir uma virada na posição dessa criança na estrutura familiar, possibilitando um deslocamento da posição de objeto para significante.

Sem contar que o trabalho com criança com DGD pede o reposicionamento da professora diante de seu fazer, pois ao verificar o fracasso de suas teorias pedagógicas, ela tem que estar aberta para interrogar sua prática e partir em busca de novos referenciais teóricos.

Marise Bartolozzi Bastos (2007:46, 47) complementa ao dizer que os educadores devem estar preparados para receber estes novos alunos, tanto em conhecimento a respeito do programa de inclusão e desta criança, quanto psiquicamente, pois muitos professores que não podem e não sabem abordar a inclusão, acabam por pedir afastamento, licença médica, por estarem com sua saúde mental debilitada.

Por outro lado, continua a autora, não podemos esquecer os efeitos da inclusão nas crianças que já frequentam a escola regular, porque estar diante do “diferente” pode produzir dois efeitos: sendo uma experiência rica e produtiva ou pode ter efeitos negativos. As crianças neuróticas, dentro do normal, estão em um momento de sua vida delicado, pelo fato de estarem numa idade de elaborações primordiais situada num semelhante e, com a possibilidade, de se encontrarem com outras crianças estranhas e destoantes da própria imagem, pode colocar em questão pontos de identificação imaginária, de especularização com o outro. 

Outro ponto que Calligaris (apud Bastos 2007: 49) ressalta é o que diz respeito ao perigo da inclusão seria dela funcionar como injunção fálica diante da estruturação psicótica, porque a escola pode exigir da criança algo que tem por referência a função paterna. “Nesses casos, da criança diante de um encaminhamento psicótico, corre-se o risco da instancia pedagógica operar para esta criança uma injunção permanente que instale a crise, uma vez que essa referência à função paterna está em questão nesta estruturação.” Em outras palavras, é imprescindível que as metáforas maternas e paternas tenham elasticidade e estabilidade, além disso, é necessário que haja por parte da equipe que acompanha estudo e a permanente reflexão acerca dos efeitos da convivência para cada uma delas.

Enfim, para que a inclusão seja terapêutica nas instituições, se faz necessário o tratamento do Outro. Alfredo Zenoni propõe, levando em consideração que tanto na psicose quanto no autismo o Outro é intrusivo, uma linha de ação de orientação psicanalítica que visa o coletivo, de fazer a instituição um lugar de tratamento do Outro através da organização e ajuste constante do agenciamento simbólico com a finalidade de tornar possível uma ação do coletivo. Para o autor, há na psicose infantil um excesso de Outro, este se apodera sem lei do ser do infans e impõe a este um sofrimento, invadindo o sujeito com um gozo que transborda. Então o tratamento do Outro implica tratar este gozo, utilizando uma palavra dirigida ao Outro do sujeito, cuja conseqüência pode ser o apaziguamento do seu gozo, barrando-o.

A importância disto reside em explorar certas possibilidades, particularmente a de colocar no lugar outra Alteridade que seja alternativa ao Outro primordial do sujeito. Porém, além da simples mudança do contexto simbólico, “é todo o funcionamento do novo lugar de residência que desde então, será atravessado pela questão das conseqüências que colocam sobre o plano do tratamento a hipótese psicanalítica sobre a psicose.” (ZENONI).

“Tratar o Outro é também separá-lo” nos orienta Kupfer et al. (2007 http://146.164.3.26/seer/lab19/ojs2/index.php/ojs2/article/viewArticle/144/119) Operar um
distanciamento entre a criança e seu Outro uma vez que para o psicótico o outro semelhante é igual ao Outro. “Fazer isso implica tratar tudo o que é exterior à criança (sem que isso seja confundido com o ambiente familiar), ou tudo o que não faz referência direta a ela, pois isso pode ser-lhe extremamente persecutório.” Alguns dos exemplos deste tratamento do Outro consiste na exclusão de ações verbais interpretativas do comportamento ou dos ditos da criança com DGD, pois isto reproduzirá um Outro do saber, persecutório, que tudo sabe; adiar o ponto de encontro com o enigma do Outro.

Todas essas ações, de acordo com autor, têm a finalidade de:

[…] produzir uma distância entre seu ser de vivente, como coisa do Outro, e
uma imagem, uma identificação; esboço de um outro Outro, como ideal do
eu, que suporta o golpe face ao Outro persecutório, ao Outro enigmático que
impõe ao sujeito ser a resposta viva a isto. (ZENONI)

Para que se possa realizar este tratamento do Outro com o objetivo de pacificar o sujeito, colocando ordem no Outro, toda a equipe, composta por diferentes áreas, deve ser parceiros na construção clínica. O objetivo é assegurar para o sujeito uma presença regular, que dá atenção ao detalhe, e que é dócil à invenção do sujeito, pois cada profissional contribui para tornar presente uma figura do Outro que permita ao sujeito encontrar para si um lugar na instituição, sem que haja passagem ao ato, tornando este Outro regulado.

Assim, adia-se o encontro da criança com o Outro para que, em um segundo
momento, ela tenha condições de inventar um aparelhamento, uma nova
língua e um novo engajamento psicótico no laço social. Quando esse
encontro é adiado, cria-se uma alteridade possível para o sujeito. Essa
primeira intervenção na direção de apaziguar o Outro é preliminar naquilo
que acolhe, mas já é tratamento na possibilidade que traz ao sujeito para
inventar qual será o próximo passo em direção à elaboração de uma
estabilização. Essa estabilização poderá ocorrer com a invenção de uma
metáfora não paterna; com a introdução de um menos nessa estrutura; com a
criação de um saber original; ou com uma elaboração delirante sobre a
sexualidade. A instituição poderá, então, testemunhar esse percurso, ao
armá-lo e sustentá-lo na “prática entre vários”. (KUPFER et al. 2007
http://146.164.3.26/seer/lab19/ojs2/index.php/ojs2/article/viewArticle/144/1
19)

Estes são alguns norteadores para que instituições que praticam o tratamento do Outro possam se basear, para as autoras o principal disto é a invenção junto a criança de um outro Outro para ela. Pois é através desta reinvenção pacificado do Outro, que possibilitará a criança a fazer laço com os outros, da sua maneira com as oportunidades que surgirão. 

Para finalizar, Kupfer (1997:56) nos lembra também que a luta política pela inclusão da criança na escola é direito de todo cidadão, propondo que se tire o máximo de proveito do potencial terapêutico presente em todo e qualquer ato educativo voltado para um sujeito e não no adestramento de crianças, no sentido de aliená-las a práticas pedagógicas. Enfim, trata-se de questionar se essas crianças têm estruturações e registros necessários para usufruir daquilo que o convívio social deve proporciona-lhes enquanto possibilidade de laços sociais e se a escola, toma a criança não exclusivamente sobre a ótica de suas capacidades cognitivas, mas considerando-as como sujeito do desejo para que então possa ver seu aluno em sua subjetividade. A proposta deste trabalho foi trazer a discussão da inclusão escolar de crianças psicóticas e autistas, porém não pretende fechar sobre este tema ou criar um conjunto de regras que garanta sucesso na inclusão, muito ainda tem de se produzir a este respeito. E não podemos nos esquecer que o primeiro encontro entre a professora e o aluno diferente é o que norteará todo o trabalho a ser feito. 

 

Autoras: Michelle Hattori Fuziy1
Rosa Maria Marini Mariotto

Psicóloga psicanalista formada pela Universidade Estadual de Londrina.
E-mail: michellefuziy@yahoo.com.br

 

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O Trabalho de Corte e Costura na Clínica Analítica

Se, de um lado, comparece aquele que pela primeira vez experiencia a  psicanalise trazendo consigo um mal estar, dor, sofrimento, sintoma, demandando uma resposta, um alivio para o desconforto. Do outro, como diz  Jerusalinsky (2005), está aquele que oferece seu ato ao risco, ao acaso, ao que  for acontecer… ao que vier acontecer. Não está a espera da sorte, e não somente  se deixa levar pelo acaso, mas sim, ao que for acontecer, pois em seu íntimo,  sabe-se que virá um acontecimento a referendar ou desmentir aquilo que foi lançado em palavras.

Porém, aquele que fala não sabe que, com muito custo, vestiu a particularidade de seu desejo com uma roupa apropriada para a ocasião,  conforme o hábito de todos. Assim, pagou o preço pela indumentária, conformando-se com a expectativa do outro, cedendo ao seu desejo. Agora,  procura uma ajuda para a roupa que ficou apertada demais, ou larga demais,  deixando o sujeito embaraçado com tamanha exposição. Outras, encontrou com aquele que, de vestes andrajosas, veio cheio de inibições, culpas e pesadelos.

O destinatário deste pedido, aquele que escuta e acolhe a demanda, sabe que deve fazer um trabalho minucioso, detalhado, artesanal, que a veste escolhida é única, não dá para colocar em outra pessoa. Está advertido, por um longo trabalho em sua análise pessoal, que não deve impor o seu tipo de remendo, a sua cor, o seu tecido, tamponando buracos necessários para aquele que veste. Seu dever é escutar, daquele que traja, o que trouxe consigo, os fios do significante que se entrelaçam, formando um tecido.

Assim, o trabalho de costura e descostura inicia, contornando os furos já existentes, fazendo pontos nas peças que estão soltas, alinhavando-as… tem o cuidado de deixar a peça sem uma costura definitiva, pois nunca sabe se será necessário rever a peça e ele, o analista, terá que voltar, junto com o paciente, para desfaze-las e refaze-las outra vez.

Certa vez, no início de seu trabalho, ocupando esta função (ainda) de costura, escancarou o sujeito, arrancando-lhe as vestes do recalque de uma vez, foi agressivo, causou angustia, desvelou demais o desejo encoberto… ofendeu demais o Eu. Outras, alfinetou com a agulha, caindo do seu lugar de analista, impondo a sua costura e o seu molde, encontrando assim sua resistência em prosseguir com o trabalho.

Mas leu e aprendeu; (desta vez não só em Lacan!), mas com Fernando Pessoa, algo que tocou em sua função:

Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos”. (PESSOA, Fernando p. 164 2004).

Compreendeu que o saber está naquele que escreve o texto e é o autor de sua própria vida, apesar deste não lembrar do resto, e tem seus motivos para ter apagado… E como os sentidos são diversos, não cabe escrever em cima, calando o autor.

Além da sua dificuldade de ocupar este lugar; o sujeito ali em questão, que comparece para associar e tecer o tecido significante, começa a crer que a roupa que o analista usa, seu semblante, é o melhor… quer recomendações, dicas, orientações, quer usar o involucro, identificando-se imaginariamente com ele. Cabe o analista abster-se deste lugar de modelo, mestria, identificação, pois sabe que cada experiência é singular, não se trata do seu ser e nem da sua opinião, sabe que a roupa que lhe coube é só sua e sabe que assim como é para o analisante; e com sua ética e desejo, maneja a transferência, entregando a tarefa de costura ao demandante, permitindo que o desejo do sujeito apareça.

Aquele que demanda estranha o lugar que compareceu e a que veio ocupar. Pensou que fosse um lugar de tricotar: contar e escutar fofocas, dicas, trocar ideias… pensou que fosse de costurar: saber andar na linha, cezir os furos, remendar os buracos… e para a sua surpresa, percebe que é um lugar de corte!

Soler (1991) nos Artigos Clínicos cita o equivoco e o corte como exemplos de interpretação de Lacan:

Tanto o equívoco como o corte são designados em função da fala: trata-se de um dizer nada, na medida em que o analista responde com o equívoco, portanto não responde no nível do significado, da nomeação do objeto, para suturar a falta. O dizer nada provoca uma equivocidade no discurso do analisando e provoca também efeitos. Privilegiei o corte, por operar no nível de S1 e S2, ou seja, por operar nos intervalos da cadeia significante e, como diz Lacan (1953, p. 315) “interromper a conclusão para a qual se precipitava o discurso do analisante”; e o equívoco, por estar do lado da enunciação.

O analista, no lugar de semblante do objeto a, convoca o analisante a desfiar os fios do tecido discursivo, convida-o a costurar de um outro jeito, do seu jeito, com a sua costura, tecendo na metonímia do desejo as novas tramas do mesmo fio.

Este trabalho de corte e costura não é fácil, afinal se permitir desfiar o que há muito tempo vinha sendo construído é contar com a recusa, vacilações, rever o narcisismo. São duros os percalços que é a caminhada, Cuesta (2013) diz que longe de parecer esta caminhada como uma caminhada ao matadouro, que causa horror e pânico aos que pretendem começar uma análise, lembra que é a única via para que nossa existência possa ter menos mal-entendidos.

Quanto tempo, dinheiro, libido são gastos, supondo estar no caminho “certo” para atingir um ideal por meio do qual se supõe satisfazer esse Outro que determina? Quantas repetições de fracassos se é capaz de suportar por não poder confrontar-se com a castração, por estar atrelado a ser objeto de seu fantasma?

No final, não há mais lugar para os ideais nem para as ilusões imaginárias, e sim permitir que o sujeito construa uma estória para ele, um olhar melhor para si. Parafraseando Forbes (1997 p.182) o analista colabora para que o analisando não se tome por demais a sério, dissocia dor e relato da dor, provando que frequentemente se sofre mais pelo que se conta do que pelo que se sente. “Há sempre um excesso, um ridiculo a suportar na vida; o ridiculo é o particular que não se encaixa em nenhum universal” até chegar em um lugar que não precise usar as vestes imaginarias, que possa encontrar com sua castração e consenti-la.

Autora: Michelle Hattori Fuziy

 

Referências Bibliográficas:

CUESTA, Silvia Esther Soria de. “O dificil lugar de não-ser do psicanalista.” In: Recortes em Psicanálise. Revista de Psicanálise. Ano II. No 3. Fev de 2013.

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JERUSALINSKY, Alfredo. “Quando fala um analista”. Revista da A.P.P.O.A no. 29 – dez.2005

PESSOA, Fernando. “Livro do Desassossego”. Companhia das Letras: SP. 2004 2a ed.

SOLER, C. Artigos Clínicos. Salvador: Fator, 1991 In: RUSSO, Roberta Luna da Costa Freire. Corte e costura: a interpretação na neurose obsessiva. Stylus (Rio J.) [online]. 2012, n.25 [citado 2013-09-16], pp. 137-142 . Disponível em: . ISSN 1676-157X.

Final de Análise e Ato Analítico

Dentre as várias particularidades da formação em psicanalise, irei focar a respeito do fim de análise e o ato analítico, resultado do que eu pude trabalhar  no cartel cujo tema é o “O Ato Analítico” promovido pela ALPL neste ano.

E dentro do Seminário resolvi destacar a questão da analise pessoal na formação  do analista, porque a analise pessoal tem me dado condições de auxiliar em  tantos impasses e dificuldades que a psicanálise provoca em mim diariamente.

Exemplifico esta importância que, (apesar de parecer com os títulos daqueles  livros que dão mil e uma razões para fazer qualquer coisa na vida), aqui vão as minhas “04 razões da analise para a formação do analista”:

  1.  Porque apesar da complexidade que envolve a formação do analista é necessário ser simples na sua prática;
  2. Porque permite que os laços libidinais do analisante provocados pela  minha presença me contornem, sem que me emaranhe nestes fios, dando subsidio de fazer semblante da transferência;
  3. Porque para que aconteça o ato analítico é necessário uma renuncia do  meu saber e do meu ser;
  4. Porque o desejo de ser analista é diferente do desejo do analista.

1a Razão

apesar da complexidade que envolve a formação do analista é necessário ser simples na sua prática;

Freud1 nos diz em “A questão da análise leiga” sobre o curso de uma análise:

Nada acontece entre eles, salvo que conversam entre si. O analista não faz uso de qualquer instrumento – nem mesmo para examinar o paciente – nem receita quaisquer remédios (…) O analista concorda em fixar um horário com o paciente, faz com que ele fale, ouve o que ele diz, por sua vez conversa com ele e faz com que ele ouça”. (p.183).

Enrique Mandelbaum2 distingue a cena analítica com a de um equilibrista andando sobre um mínimo de fio de arame, neste caso ninguém duvida sobre a dificuldade e o treino que foi necessário nesta situação e

Não é assim com a psicanálise. Observar a prática de um bom psicanalista, o comentário que ele eventualmente faz numa sessão, a postura que adota diante da fala do paciente etc, não permite vislumbrar o seu treino pessoal. É como se a prática obrigasse o despojamento dos próprios conteúdos adquiridos na formação. Estes não podem ser manifestados `a maneira de etiquetas enunciadoras de competências pessoais” (p.140)

Ou seja, por mais tentador que seja explicar para o leigo que o que você faz não é “ganhar dinheiro só pra escutar as pessoas e bater papo” é necessário um abandono dos ideais narcisistas dentro da cena analítica com o seu analisando.

Um calar sobre si, pois só podendo abster-se de saber antecipadamente sobre o analisando que propicia um dizer e um saber dele, possibilitando o surgimento do saber insabido, vindo de sua própria enunciação.

2a Razão

Porque permite que os laços libidinais do analisante provocados pela minha presença me contornem, sem que me emaranhe nestes fios, dando subsidio de fazer semblante da transferência.

O discurso do analisante, ao procurar o enigma de seus sintomas, presta-se a expor e transpor a sua transferência atualizando ativa e passivamente no analista a sua maneira de produzir laços libidinais, se fazendo e fazendo no analista objeto deste. Parafraseando Dominique Fingermann3:

Trata-se para o analista de saber aproveitar-se da ocasião oferecida pela transferência do sujeito para fazer uso desta, implicando-se na estrutura do sujeito, sabendo manter aí seu lugar. Essa manutenção da posição “desejo de analista”, a despeito da demanda do sujeito vai, de fato, produzir um corte, um certo espaçamento, um intervalo, uma descolagem, uma descontinuidade com o intuito de esvaziar o sentido complementar que dá o enredo neurótico”.

O analista é convocado pela transferência a fazer relação com a pulsão, satisfazendo-a, colaborando com a fantasia, e a partir deste lugar, endereçado a ele, que o analista frustrar a demanda, relançando o sujeito a sua verdade, sem que isto remeta ao objeto que que o analista foi em sua estória, a ficção que ele fez de sua novela familiar.

3a Razão

Porque para que aconteça o ato analítico é necessário uma renuncia do meu saber e do meu ser;

O ato está presente desde o começo da análise, tanto da parte do analisante quanto da parte do analista, se de um lado o ato foi de decidir-se a ingressar a psicanalise e procurar um psicanalista, a partir do momento em que se engaja na análise, institui-se um fazer, cujo suporte e autorização são dados pelo ato do analista.

Ato analítico, diferente da ação, tem dimensão significante, e ele só “toma seu valor, sua articulação de ato significativo com relação ao que Freud então introduz como inconsciente, certamente não é porque ele se apresente, se coloque como ato. É exatamente ao contrário. Ele está lá, como atividade, mais que apagado e, como diz o interessado, atividade para obturar um furo que só está ali se não pensa nele, à medida que não se importa com ele, que só está onde se exprime, por toda uma parte de suas atividades, para ocupar as mãos supostamente distraídas de toda a relação mental, ou bem, ainda, esse ato vai colocar seu sentido precisamente no que trata de atacar, de abalar, seu sentido ao abrigo da inabilidade, da falha”. (p.33).

Percebe-se no texto de Lacan que o ato opera somente quando não se pensa nele, ocupado por mão supostamente distraídas na relação mental e que no final produz efeito divisão.

O ato analítico é aquele operado pelo analista, na e pela transferência, que promove um corte que rompe o circuito da repetição que aliena o sujeito no lugar de objeto, produzindo uma descontinuidade e continuidade transferencial na qual o sujeito tenta enrolar o analista.

E para que este corte que produz o efeito de linguagem na divisão como sujeito opere é necessário que, o que eu nomeei neste trabalho como a razão 1 e 2, estejam presentes na cena analítica.

Em outras palavras, é necessário que na cena analítica o analista abstenha de seu saber e do seu ser e para que esta função seja plenamente ocupada, no qual envolve este abandono narcísico do saber, deixando em reserva o intenso trabalho teórico, para ser objeto causa de desejo para que a pulsão o contorne este lugar vazio em que o sujeito do analista desaparece.

É somente porque houve o efeito desta experiência com o seu inconsciente que se torna possível estas renúncias.

4a Razão

Porque o desejo de ser analista é diferente do desejo do analista.

O desejo consciente de querer ser analista é diferente do desejo do analista, produzido no final de análise.

O desejo de ser analista tem haver com a transferência com a psicanalise, com o significantes garantia da verdade deixado por Freud e que tem com os seus continuadores, os analistas, o suporte de uma transferência com a verdade.

O desejo do analista é o que sustenta a clínica de um analista.

Desejo do analista não pode ser concebido como um desejo pessoal do analista, mas como uma função, ou seja, desejo para que haja analise e que portanto, surja o desejo, sem que se esbarre na inversão de papeis em que aparece o querer do analista endereçado ao analisando. “É isso que torna delicada a posição do analista que está no meio, onde está o vazio, o furo, o lugar do desejo” (p.69)

Laurence Bataille4 aponta o engodo que muitas vezes o eu do analista entra em cena sob o nome de “desejo de analista” :

Cada vez que atribuo uma intenção ao paciente, um pensamento que ele não diz, estou fora da posição de analista. Cada vez que me sinto visada como sujeito pelo paciente, estou fora da posição de analista. Cada vez que tenho que representar algo para o paciente, nem que seja representar um analista, estou fora da posição do analista. A cada vez isto deve prevenir-me de que não é meu desejo de analista que está em jogo”.

Ao ocupar esta função, o sujeito do analista desaparece, pois houve uma mudança em sua posição que permite uma disponibilidade para o inesperado, para o real sem sentido.

O ato analítico é sustentada pelo desejo do analista que promove este “giro” que consiste do analisando remeter a sua fala ao analista e se escutar, em seu discurso, produzindo um efeito de sujeito nele. Parafraseando Lacan no Seminário 15, “O Ato Psicanalítico”

O ato psicanalítico suspende tudo o que até então tenha sido instituído, formulado, produzido como estatuto do ato, à sua própria lei”. (p.63)

Mais para frente faz uma passagem que resume todo este percurso que tentei falar aqui hoje:

O ato psicanalítico consiste essencialmente nesse tipo de efeito de sujeito (…): o sujeito dividido, o $, à medida que está aí a aquisição do efeito de sujeito ao final da tarefa psicanalisante, é verdade que, qualquer que ele seja e seja qual for o pretexto pelo qual ele se tenha engajado, é conquistada pelo sujeito, é por exemplo, para o sujeito mais banal, aquele que chega com a finalidade de conseguir alivio: eis meu sintoma, agora tenho sua verdade, quer dizer que é na medida que eu não sabia tudo de mim, é na medida em que há algo de irredutível nessa posição do sujeito que se chama, em suma, e é precisamente denominável: a impotência de saber tudo, que estou aqui e que, graças a Deus, o sintoma que revelava o que fica mascarado no efeito de sujeito ressoa um saber, o que há de mascarado, eu tive o levantamento disso, mas seguramente não completo. Algo perdura de irredutivelmente limitado neste saber. É ao preço – já que falei de distribuição – de que toda análise se fez o suporte, o objeto a à medida que ele é, foi e permanece sendo estruturalmente a causa dessa divisão do sujeito (…) no efeito de transferência (…) a medida que na relação analítica elas foram distribuídas aquele que é seu parceiro, o pivô e, em suma, o suporte, como disse na ultima vez, o instrumento, que pode se realizar a essência do que é a função do $, a saber a impotência do saber.” (p.218).

Enfim, para que possa suportar (no sentido de dar suporte) este esvaziamento do saber, sustentando a transferência, norteado pelo desejo do analista foi necessário o percurso de sua análise. O analista passou pelos efeitos de seu inconsciente produzidos pela analise que pode permitir que seja instrumento, ou como diz pivô, para que estes efeitos aconteçam com o analisando.

Como diz Lacan:

Começar a ser psicanalista, todo mundo sabe, é algo que começa no fim de uma psicanálise (…) Chegou-se ao fim uma vez, é aí que é preciso deduzir a relação que isso tem com o começo de todas as vezes” (p.83).

Autora: Michelle Hattori Fuziy

1 FREUD, S ““A questão da análise leiga” In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S Freud. Vol XX Ed Imago 1926.

2 MANDELBAUM, Enrique “Notas sobre a formação em psicanálise” In: Diálogos sobre a formação e a transmissão em psicanalise. Ed Zagodoni 2013.

3 FINGERMANN, Dominique. A análise dos analistas. J. psicanal. [online]. 2008, vol.41, n.74 [citado 2013-11-08], pp. 131-139 . Disponível em: . ISSN 0103-5835.

4 Bataille, Laurence input Costa, Teresinha. “ O desejo do analista e a clinica psicanalítica com crianças”. Psicanalise & Barroco e, revista v7 n2: 86-102, dez 2009.

Desejo de Analisar Crianças

Vamos lá, você vai gostar… encare como desafio: afinal, quem atende criança atende adulto e nem sempre quem atende adulto… atende criança.

Foi com esta proposta de desafio que iniciei meus estágios e meus estudos com crianças. Esta frase veio de uma professora, durante a minha graduação em psicologia, diante da minha recusa em atender “este tipo de paciente”.

Assim, o interesse de atendê-las e escuta-las começou enviesado: na tentativa de compreender o adulto e, para tornar mais fácil o trabalho com estes ouvia e brincava com crianças.

Que adulto era este que queria atender e que criança era esta recusada em ser escutada?

O Grupo de estudos sobre crianças da ALPL neste ano teve como objetivo o desejo do psicanalista de crianças e, é um pouco do que foi trabalhado e as marcas em mim produzidas que irei falar hoje. Dentre várias particularidades desta clinica, focarei na escolha do analista em trabalhar com crianças.

São muitos os desafios e as particularidades que envolvem esta clinica e em meio aos brinquedos, irmãos, avós, pais, escola, médicos o analista se vê convocado a responder e atuar. E, diante de tantas transferências e lugares remetidos a ele que a pergunta: “que ordem de desejo faz alguém psicanalisar crianças?” deve ser revista e repensada.

Leda Bernardino1 esclarece:

“(…) a clinica com crianças provoca nos que se aproximam da psicanálise seja uma grande fascinação, ou então, inversamente, o horror. Sabemos, desde Lacan, que estes efeitos se manifestam a cada vez que há algo de real na experiência. Há uma criança real, que ao mesmo tempo fascina e horroriza. Não se trata das crianças da realidade, que encontramos no dia – a – dia de nosso consultório, mas d’A Criança, presença que remete à origem, para sempre perdida, irresgatável, de todo sujeito”. (Bernardino 2004, p.60)

Continua a autora:

“Trata-se da criança de cada sujeito, núcleo da neurose infantil, matéria – prima fundamental que clama por se manifestar. (…) Por isso, quer se trate da Criança Real, ou da criança recalcada, a aproximação desta clinica deve nos conduzir a uma investigação desta “vocação”, no sentido de poder afasta-la do que poderia ser uma busca sintomática por um encontro finalmente bem sucedido com estas crianças, na qual o paciente não teria outro lugar senão o de objeto” (p.61).

Ou seja, a direção de tratamento depende da resposta a pergunta “por que psicanalisar crianças?”

Se a resposta for salvacionista, protegendo-a de todo trauma e castração gerados pelo encontro com o Real, sustentando o tão sonhado ideal de resguardar a criança da falta do Outro, propondo um Outro sem falhas, reparador e onipotente… de qual criança se trata?

Se a resposta for atender a demanda dos pais, na tentativa de restituir as feridas narcísicas que o sintoma da criança provoca, “consertando-a” para que continue respondendo ao ideal parental… de qual criança tentamos reparar?

Como diria Alfredo Jerusalinsky2, nestes casos, se atendermos a queixa da criança, imediatamente ficando contra os pais, nos transformamos numa espécie de goleiros das bolas que endereçam à criança: os que aparam, param um pouco os pais, aí a criança pensa “aqui posso gozar de certa tranquilidade que não vão me encher o saco”, e na relação com o analista não tem sintomas, fora dali se torna o diabo, atacando todo mundo, atrapalhando possíveis enlaces e intervenções analíticas.

Porem, se atendermos a queixa dos pais, de sermos agentes corretivos do que nelas está mal, faz com que evidentemente a coloque numa posição de desconfiança em relação a nós, não havendo possibilidade de realizar um trabalho analítico com ela.

Então, o que fazer?

Manoelle Descamps3 (p.62) indica que “o trabalho do analista em sua própria análise é identificar as motivações conscientes e sobretudo inconscientes, de sua escolha profissional e dos desejos que o engajam a trabalhar como analistas e em particular com crianças. Se, como ocorre nos melhores casos, o caminho pessoal da analise vai apresentando a iniquidade destas escolhas e derrubando uma a uma suas sustentações narcísicas inconscientes, podemos nos perguntar o que resta desta operação, que resultou em uma vocação, em uma escolha”.

Porque o lugar que o analista deve oferecer é um lugar vazio, vazio de demanda, de identificações pessoais, de narcisismo para que com este silencio, esta não – demanda, faça com que a criança se confronte com algo inédito: “Um adulto que não é imperativo, complementa Bernardino, que mesmo que seja colocado por ela mesma numa posição de mestre, não a ocupa; um adulto que não dá orientações, não dá ordens, não ensina, nada pede a não ser que a criança ocupe um lugar ali. (…) Este novo abre a possibilidade, para a criança, de localizar seu desejo como podendo ser diferente do que interpretou como desejo do Outro, destacado deste.

O analista convida a criança a assim uma expansão do imaginário, em que ela poderá encenar os ideais a que deve responder, dotando o seu ato com a importância significante, que tem ali uma função; e, ainda, há que representar esta função de Outro que compartilha o faz de conta, dando lugar a associação livre da criança. Torna-se a função do analista dar lugar e mergulhar na rede significantes que a criança arma, sobre o plano de fundo dos significantes familiares trazidos pelos pais.

A questão dos pais não pode ser vista de maneira desconectada no tratamento da criança, escuta-los faz parte do manejo da transferência na sustentação da analise da criança. O que deve ser escutado é em que lugar a criança está situada na fantasia do Outro, no desejo dos pais, no discurso que se mantêm sobre ela e a partir disto delinear a direção de tratamento, considerando cada caso. 

E, amparado pela transferência dos pais, que o analista intervém no sentido de produzir uma mudança subjetiva do sujeito em relação ao sintoma. Para finalizar, cito Colette Soler4 : “Trata-se de uma operação que vai do Real em direção ao Simbólico, ou seja, trata-se de propiciar que a criança passe da posição de objeto que ela foi chamada a ocupar na fantasia do Outro para o acesso ao seu desejo na condição de sujeito”.

Somente abstendo do meu ser e do meu saber que se torna possível desprover de significantes próprios, me incluindo no universo significante do analisando e me emprestar enquanto lugar, no qual o analisando depositará as suas demandas, propiciando a emergência do sujeito deste pequeno analisando.

A “frase desafio” que marcou meu percurso no atendimento com crianças permanece e continua verdadeira, porém sem identificações narcísicas, sem a intenção de tornar fácil os atendimentos com adultos. E se renova a cada vez que tenho que dar conta de produzir o ato analítico ( que nem sempre é bem sucedido) tanto em intensão, na relação com a criança, quanto em extensão, na relação com os pais, familiares, escola, instituições. Questão revista e recolocada a cada novo analisante, a cada próxima sessão de um mesmo analisante.

Autora: Michelle Hattori Fuziy

 

BERNARDINO, Leda M F (org) “Psicanalisar crianças: que desejo é esse?” Bahia: Algama, 2004.

2 JERUSALINSKY, Alfredo “Seminário de Psicanálise de Criancas” 07 dezembro de 1996.

3 Apud Bernardino, L M F, id ibidem.

4 Soller Colete Apud Costa, Teresinha. “O desejo do analista e a clinica psicanalitica com crianças”. In: Psicanálise e Barroco em revista v7, n2:86-102, dez 2009.

As Operações de Causação do Sujeito e a Interpretação Psicanalítica

O título proposto sugere duas vias de trabalho. Primeiro apresentar o que Lacan propôs, no seminário XI, como as operações de causação do sujeito. E a segunda via diz respeito a especificar qual a possível relação entre a interpretação psicanalítica e as operações de causação do sujeito.

Antes de nos introduzirmos nestas questões, penso ser válido apresentar quais foram meus interesses pela escolha do tema. A prática clínica me gera inúmeras questões, dentre elas uma tem tomado corpo durante esses anos de trabalho: qual é a lógica que rege uma interpretação psicanalítica? Como e a partir do que devemos intervir? O que orienta uma escuta psicanalítica?

Nos últimos capítulos deste seminário Lacan trará as operações de alienação e separação para trabalhar a constituição do sujeito. Trata-se, efetivamente, de como se produz um sujeito. Esses processos entre o sujeito e o Outro são circulares, mas não de reciprocidade.

Lacan nos mostrará que o sujeito somente se constituirá como tal pelo assujeitamento ao campo do Outro, lugar onde se situa a cadeia de significantes que ordenará aquilo que se fará presente no sujeito. Lacan (1998) nos diz: ¨Tudo surge da estrutura do significante¨ (p. 196). Rabinovich (2000) lembrará que para Lacan ¨o sujeito é causado, nunca é causa de si¨(p. 90).

Lacan explicará a alienação a partir de uma lógica da reunião, dizendo que é diferente adicionar coleções ou reuní-las. No primeiro caso a somatória de elementos seria muito maior, pois contaria aqueles já repetidos, já na reunião não se trata de uma somatória, pois os elementos não poderiam ser contados em dobro. Por essa lógica propõe um vel particular para dar conta desta operação: o vel da alienação.

Primeiro traz que há dois tipos de vel: o exclusivo e o inclusivo. No vel exclusivo ou escolho uma opção ou outra, sem a possibilidade de fazer as duas coisas: ou vou ao cinema ou ao teatro. No vel inclusivo opera uma lógica do tanto faz: ou vou ao teatro ou ao cinema, tanto faz. Já no vel da alienação a lógica da reunião opera por uma via do nem um, nem outro: não vou nem ao cinema, nem ao teatro.

O exemplo mais claro é proposto por Lacan pela seguinte questão: A bolsa ou a vida? Diz que se escolhermos a bolsa, ficaremos sem a vida. Mas se escolhemos a vida, também não teremos a mesma vida, pois ela ficará, de certa forma, decepada, sem a bolsa. Tal exemplo sustenta a ideia de que há uma escolha forçada, na qual o sujeito não tem opção. Na verdade, não tem escolha.

Este significante, produzido no campo do Outro, diz Lacan, faz surgir o sujeito de sua significação, mas no mesmo movimento que o significante o convida a falar, a funcionar, também o petrifica. Harari(1990) esclarece que ¨ao mesmo tempo em que o sujeito nasce na cultura por meio da ação do significante outorgando-lhe a única vida possível para um falante, também lhe presentifica a morte…O sujeito aparece ao preço de uma desaparição¨(p. 238) Rabinovich (2000) esclarece que a primeira falta é a falta de sujeito, pois colado ao S1, não pode aceder a palavra pois para tal é necessário no mínimo dois significantes. Assim, fará um apelo ao segundo significante no Outro.

A primeira falta do sujeito originada pela alienação se deve ao fato de que no momento em que o sujeito se identifica com um significante, ele é representado por um significante para outro significante. Laurent (1997) nos traz um exemplo: um ¨menino mau¨ é representado como menino mau em relação ao ideal de sua mãe. Assim, menino mau, que se caracteriza como um significante-mestre, o será como uma linha mestra pelo resto da vida, definindo-o e, provavelmente, comportando-se como tal. Aqui está a petrificação da qual falamos antes. Para Laurent (1997): ¨É definido como se estivesse morto, ou como se lhe faltasse a parte viva de seu ser que contém seu gozo¨(p.38) Desse modo quando é definido como um menino mau, uma parte do sujeito é deixada de fora, já que ele não é apenas um menino mau. Lacan dirá que estas identificações básicas não tem sentido nenhum, apenas são. Laurent (1997) diz que se pode explorar o sentido que elas tomam, mas, no final das contas, se verá que elas não fazem sentido. Esta identificação primária com um significante mestre vai mais além, pois ele tentará se identificar com aquilo que ele foi no desejo do Outro, não apenas no nível simbólico do desejo, mas como substância real envolvida no gozo. Aqui o sujeito tenta criar uma representação do gozo no interior do Outro através de sua fantasia, criando uma outra falta: de que o gozo é sempre parcial. E fará a tentativa de recuperação pela cadeia significante.

Assim o sujeito é capturado pelo significante, fica aniquilado, desaparecido. Lacan irá propor duas circunferências com uma parte em comum. Em uma delas Lacan inscreve o ser, na outra circunferência, que se refere ao Outro, o sentido. O primeiro significante, S1, designa o ser, mas não lhe dá sentido nenhum. O segundo significante, S2, lhe atribui sentido, mas ao fazê-lo apaga seu ser, produzindo a afânise. O Outro é o produtor de sentidos, que de alguma maneira, são sempre inconclusos, incompletos. Na intersecção destas duas conferências que é justamente a zona de relação entre o ser e o Outro Lacan inscreve o sem-sentido. Segundo Harari (1990):

Quando de algum modo o sentido se realiza em um sujeito em virtude da ação do
Outro deixa caído no caminho uma região de sem sentido. Esta região é
justamente, a daquilo que é inconsciente. Desse modo aquilo que é inconsciente é
um resto da operação da constituição do sujeito no campo do Outro (p.241).

Rabinovich (2000) afirma que o inconsciente é o produto da união destes dois campos, mas que ele ficará situado no campo do Outro, já que o inconsciente é o discurso do Outro. A alienação, longe de se tratar apenas de uma fusão, segundo Lacan (1998), instala uma divisão no sujeito, isto é, ele apenas aparecerá nesta divisão entre, de um lado o sentido, e de outro a afanise. Esta divisão e a operação lógica da reunião explicitada acima, nem um nem outro assinala uma falta. A partir do momento que tal falta é instalada, o sujeito colocará a falta em relação ao Outro: irá busca-la, induzí-la, como salienta Harari (1990). Lacan (1998) nos traz os porquês infantis, afirmando que tal exercício, longe de ser procura pura de conhecimento, é uma busca pela falta do Outro. Na intimação que lhe faz o Outro por seu discurso, o sujeito procurará a falta do Outro nos intervalos deste discurso, naquilo que o Outro não disse, nos tropeços, nos gemidos, o que pode ser expresso na frase proposta por Lacan: Ele me diz isso, mas o que ele quer?

É nesse intervalo que Lacan (1998) situará a metonímia, e consequentemente o desejo. Diz Lacan (1998): ¨É de lá que se inclina, é lá que desliza, é lá que foge como o furão, o que chamamos desejo. O desejo do Outro é apreendido pelo sujeito naquilo que não cola, nas faltas do discurso do Outro¨(p. 203).

Subordinado pelo significante, a alienação o faz ser, mas ao preço de uma falta-em-ser. Na operação de alienação este Outro é não barrado, provocando o eclipsamento do sujeito.

Frente a esta operação revela-se como saída a segunda operação: a separação. É a reação do sujeito ante o ficar afanizado. Vejamos uma citação de Lacan (1998):

O efeito de linguagem está o tempo todo misturado com o fato, que é o fundo da
experiência analítica, de que o sujeito só é sujeito por seu assujeitamento ao campo
do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do
Outro. É por isso que ele precisa sair disso, tirar-se disso, no fim, ele saberá que o
Outro real tem, tanto quanto ele, que se tirar disso, que se safar disso. É mesmo aí
que se impõe a necessidade de boa fé, fundada na certeza de que a mesma
implicação da dificuldade em relação às vias do desejo existe também no Outro
(p.178).

Percebe-se aí que o sujeito, de alguma forma, pode jogar. Entra, então, o que Lacan dirá a respeito da função da liberdade. Esta é limitada e trabalha a partir da falta. É a esta pequena liberdade em relação aos significantes do Outro que o sujeito terá para jogar. Rabinovich (2000) salienta que esta função da liberdade não diz respeito a identificar-se inteiramente com o S1 do ser, mas de se liberar do sentido. Complementa que a Psicanálise encontra-se justamente frente a questão de como conciliar o determinismo com uma margem de liberdade, pois se essa não houvesse, não haveria psicanálise.

Lacan (1998) dirá que a alienação é ligada essencialmente a dupla de significantes. Diz que é preciso que haja dois e não três, porque um significante é o que representa o sujeito para outro significante. Harari (1990) esclarece que no momento em que acontece a articulação S1-S2, o sujeito cai como um efeito dela. A separação consiste justamente em se fazer um ataque a cadeia de significantes, entre os dois significantes, aí está o lugar do sujeito na separação. Harari (1990) salienta que não implica ficar fora da cadeia, mas fazer um lugar nela. Rabinovich (2000) esclarece que a falta primeira da alienação, falta produzida pela perda do S1, é recuperada com a falta do sujeito como objeto para o Outro. Já na separação esta falta primeira remete à perda do sujeito como objeto causa do desejo do Outro, ficando este descompletado. Assim o sujeito, na separação, joga com o efeito desta perda no Outro, o que é exemplificado por Lacan com a frase: Podes me perder? Este jogo com a perda tem a finalidade de situar seu lugar de causa. Rabinovich( 2000) aponta que a perda, para Lacan, tem uma função instrumental, é um instrumento com o qual se faz algo. Lacan (1998) diz que a perda não acontece, que ela é buscada. Assim ¨perder-se para o Outro implica que o luto fica do lado do Outro, o buraco fica do lado do Outro…O seio cai do lado da criança e a mãe fica com o buraco¨(Rabinovich, 2000, p.125), por isso Lacan usa a expressão eu te mutilo, no seminário X. Não se trata de um luto do objeto, pois o luto é do Outro, mas uma prova do quanto o outro me deseja, o quanto sou
causa para ele.

Quando Lacan se refere a separação usa o termo torção que diz respeito a reversão das estruturas topológicas, pois além da separação fechar a alienação também se associa com o momento do fantasma, da cena fantasmática. Aí se dá uma topologia que se fecha neste instante e que produz um não saber acerca da determinação do sujeito pelo desejo do Outro. Esta torção topológica própria da separação fixa o S ao objeto a, o que nos dá a fórmula do fantasma, que tem como consequência a ocultação do desejo do Outro e o objeto que o sujeito foi para esse desejo. (RABINOVICH, 2000) Esta autora pontua: ¨a consequência da separação é a passagem da alienação entre ser e sentido para a estrutura do desejo como desejo do Outro¨ (p. 110).

Do mesmo modo procede o analista, com sua interpretação, realizando um ataque ao par significante no ponto débil do intervalo, onde, diz Harari (1990), jaz o desejo do Outro. Para Lacan (1998) ¨o inconsciente é o discurso do Outro, ele não está do lado de dentro, mas do lado de fora. É ele que, pela boca do analista, apela a reabertura do postigo¨.(?)

A afirmação lacaniana: ¨o desejo é o desejo do Outro¨ nos encaminha para a ideia que o desejo é sua interpretação. Não que haja um desejo pré-existente ao discurso do analista, mas a interpretação analítica põe em ato uma dimensão a mercê da qual o sujeito é constituído. Assim quando o analista interpreta o desejo se faz presente. Lacan (1998) define o desejo como o ponto nodal onde se ligam a pulsação do inconsciente e a realidade sexual. Nas palavras de Lacan: ¨A interpretação do analista não faz mais do que recobrir o fato de que o inconsciente já procedeu por interpretação. O Outro já está lá, em toda sua abertura, por mais fugida que seja.¨(p.?)

A ética do analista implica trabalhar com estas operações, suportando a alienação nos significantes, e dentro do movimento de retorno torcional, ir para a separação. Lacan (1998) diz ¨¨A interpretação não se dobra a todos os sentidos. Ela só designa uma única serie de significantes. Mas o sujeito pode com efeito ocupar diversos lugares, conforme se o ponha sob um ou outro desses significantes.¨ (p. 198)

Dessa forma não é qualquer coisa que serve para uma interpretação: não basta apenas criar um efeito de sentido ou ir experimentando diversas interpretações para verificar qual seria a mais adequada a um analisante em específico ou mesmo explicar detalhadamente sobre o que pode ser analisado sobre o sujeito.

Laurent (1997) diz que a interpretação deve referir-se ao verdadeiro sentido daquilo que o analisando diz em sua cadeia significante e este verdadeiro sentido é o resto do primeiro encontro do sujeito com o Outro, o resto do gozo.

É preciso, em análise, rastrear todas as significações em que o significante-mestre aparece, encontrar essa cadeia sem sentido de significantes, que, encadeados de uma certa forma, definem a fantasia do sujeito. Isso é conduzir o analisante aos seus modos de gozo, segundo Laurent, as maneiras pelas quais ele transforma o outro que ama num objeto. Então para Lacan a interpretação deve visar ao objeto, mas não comentá-lo diretamente, através de interpretações explicativas, pois o efeito seria uma fixação nesse gozo, levando-o a atuação. É preciso utilizar as entrelinhas, utilizando a cadeia de significantes do sujeito e a equivocação, de acordo com Laurent. Rabinovich (2000) diz que a formulação que faz Lacan sobre a interpretação é determinada pela liberdade do sem-sentido, ou seja, ir além do problema da significação. Ainda a autora nos fala que Lacan comparou este S1 que corresponde ao sujeito com um número de loteria, ou seja, ninguém o tira, ele simplesmente sai. Isso nos esclarece esta ideia do não sentido do S1 e nos aponta a possibilidade de trabalho em Psicanálise, pois a nossa causação, como fomos causados não é da ordem do determinismo absoluto e imutável. Rabinovich (2000) nos alerta que a psicanálise opera sobre o desejo e não sobre o sem-sentido, pois o sem sentido no final de análise não se relaciona com a ausência de desejo, encontrada hoje em alguns sujeitos.

Vou relatar a vocês um pequeno trecho clínico sobre o qual penso podermos ver estas operações de alienação e separação e sua relação com a interpretação.

P. chegou ao meu consultório com a seguinte queixa: dizia se irritar demais com as pessoas e mudar seu humor de repente, sem que nada provocasse isso. Perguntou-me se isso o que tinha era o Transtorno Bipolar e contou-me o quanto ficava afetada com sua falta de controle sobre o que sentia. Usava, desde as primeiras entrevistas, a seguinte expressão: ¨Eu viro¨. Pergunto: vira o que? Diz que vira outra pessoa, que parecia que tinha até dupla personalidade, pois não se reconhecia quando virava. Queria apenas se isolar em seu quarto, ficar ¨quietinha¨, como dizia. Segundo P. ao virar, sentia crises de angústia com sintomas físicos de sufocamento e falta de ar e muita ansiedade, descontando nos alimentos, principalmente em doces, o que a fazia se sentir feia e culpada. Este significante virar insistia ao longo das sessões.

Certa sessão lhe indico o divã e assim que deita começa a dizer que não está confortável ali, sente como se a sala estivesse muito estreita e pequena, sente-se sozinha, sem ar e acha que não está passando bem. Ofereço-lhe a volta para a poltrona e lhe convido a falar destas sensações. Descreve estas sensações como muito semelhantes ao que sente em suas crises de angústia e diz que ao virar de costas para mim, sentiu-se abandonada. Aponto que ela também ali estava virada. Ao longo da sessão volta a falar de sua mãe, a qual descreve como ausente em sua criação, localizando a função materna em sua avó materna. Conta que apanhou inúmeras vezes da mãe, sem motivos que julgasse plausíveis. A última surra se deu aos 16 anos, no meio de uma praça, em frente às pessoas. Conta que sua mãe não lhe deixava sair de casa e que sempre lhe fez dormir no mesmo quarto dela, mesmo havendo quartos de sobra na casa. Aos 18 anos começa a namorar virtualmente e sai da casa da mãe para novamente morar com a avó. A mãe não aceitava o namoro e as duas ficam dois anos sem se falar. Após um rompimento trágico, o qual define como possível causador de seus sintomas, volta a morar com a mãe a pedido desta, mas com a condição que cada uma tenha seu espaço. Reclama da ¨folga¨ da mãe, pois geralmente todo o serviço da casa fica por conta dela. Diz não sentir que a mãe a ama. Relata um dia das mães no qual ouviu uma música e todos os presentes se emocionaram, mas ela não conseguia, pois não sentia um amor verdadeiro de sua mãe. Lembra que sua avó sempre a pegava na escola e seu maior sonho era que sua mãe fosse buscá-la. A mãe promete certo dia que irá pegá-la e quem a leva para casa é o vigia da escola. Jurou, após este dia, que a mãe não a deixaria esperando. Nessa mesma sessão da ida ao divã, estava falando de sua mãe, quando diz: ¨Porque ela sempre me disse: ¨se vira¨.

P. que tinha um nome composto, mas sem aparente conexão entre eles, diz que um nome foi escolhido pela tia, irmã da mãe, e o outro pelo pai, que desparecera no dia do casamento. Em outra sessão também relaciona a virada e a dupla personalidade com estes dois nomes, como se ora fosse tal nome, vindo da mãe, e ora o outro nome, vindo do pai.

P. fica petrificada por este significante que a divide, controla e lhe gera esta sensação do sem-sentido, do desconhecimento de sua condição.

Voltando a função do analista, se a perda é um instrumento para dar lugar a causa do desejo, o analista, segundo Rabinovich (2000) se deixará usar como objeto, objeto causa de desejo e não como objeto de gozo, posição perversa. Pois diz a autora: ¨Operar em termos de gozo é operar em termos de recuperação; operar em termos de desejo é operar em termos de perda¨ (Rabinovich, 2000, p.118). Dessa forma não há gozo no exercício da função do analista.

Também se pode afirmar que a operação de separação tem sua relação com a definição proposta por Lacan de desejo do analista. Este seria uma busca pela pura diferença, não um desejo puro, pois o analista deve se situar no lugar do intervalo, do entre-dois, desejando produzir um espaço, espaço onde se situa o objeto a, lugar em que renuncia uma posição amorosa.

O caminho deste trabalho me levou então a pensar a articulação entre desejo, amor e gozo na função do analista. Assim, esta função exige um esvaziamento de gozo, um para-além do amor e uma direção ao desejo.

Autor: Marina P. de Paula.

 

Referências Bibliográficas

HARARI, R. Uma introdução aos quatro conceitos fundamentais de Lacan. Campinas, SP: Papirus, 1990.

LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11: Os quarto conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

LAURENT, E. Alienação e separação I e II. In: Feldstein, R., FINK, B.,JANNUS, M.,(Orgs). Para ler o seminário 11 de Lacan. Rio de Janeiro; 1997.

RABINOVICH, D. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2000.

Repetição: A falta de encontro ou o encontro da falta?

Pretendo, a partir da questão proposta no título, trabalhar a definição que Lacan formula no seminário 11 da repetição. Ele nos apresenta a função da tiquê, situada como a dimensão real da repetição, como essencialmente encontro faltoso, encontro enquanto podendo faltar.

Há diversas maneiras de ler a questão proposta. O que Lacan está chamando de encontro faltoso? Entendo que a primeira parte da questão que propõe uma falta de encontro pode nos direcionar em um caminho equivocado, já que Lacan define a repetição como um encontro, mas ao mesmo tempo diz sobre um encontro enquanto podendo faltar. De que se trata este encontro? É um encontro que não acontece, um desencontro ou se encontra algo na repetição? E o que seria a repetição como encontro da falta?

Lacan nos diz que este encontro faltoso é apresentado na psicanálise a partir do traumatismo. É justamente isto que vemos em Freud em Mais Além do Princípio do Prazer quando evoca os sonhos traumáticos e a experiência da separação no fort-da. Nota no trauma a presença do real, este se apresentando como irredutível, não passível de ser reduzido à palavra ou imagem. O princípio da realidade ao balizar o automaton, face simbólica da repetição que caracteriza o automatismo da repetição significante, insiste em deixar fora o real e a tiquê tem que se repetir.

Lacan nos fornece um exemplo de encontro faltoso a partir de um sonho presente na Interpretação dos Sonhos. Trata-se de um pai no velório do filho que solicita a um senhor que cuide do corpo de seu filho morto enquanto ele dorme na peça ao lado. Ele sonha com o filho lhe dizendo: Pai, não vês que estou queimando?, e coincidentemente, como por acaso, o caixão do filho começa a pegar fogo a partir de uma vela tombada e do adormecer daquele que deveria estar cuidando. Lacan questionará o que é que desperta? Pergunta-nos se não há uma outra realidade e afirma que o pai não desperta pela realidade da fumaça ou do barulho do quarto ao lado. Esta outra realidade aponta para a fantasia, pois Lacan articula que o real vai do trauma a fantasia, esta funcionando como uma tela que dissimula algo de determinante na repetição. ¨…pois o que nos desperta é a outra realidade escondida por trás da falta do que tem lugar na representação – é o Trieb nos diz Freud (Lacan, 1964, p. 61).

O real não é aquilo que retorna, o que retorna são os signos, mas aquilo que se repete como falta. Também não se pode confundi-lo com a realidade, mas ele confere realidade ao mundo. É este real que se repete que irá caracterizar a pulsão. Para Garcia-Roza(1999) ¨a repetição é o ato pelo qual a pulsão é presentificada, mas, ao mesmo tempo, o ato pela qual ela permanece oculta¨( p.52).

Lacan, ainda no seminário 11, nos traz a pulsão como um dos conceitos fundamentais da psicanálise, assim como a repetição. Examinando os textos freudianos marcará a força constante da pulsão, sem assimilá-la a nenhum conceito biológico. Mostra que a satisfação da pulsão não é atingir o alvo, pois a sublimação, apontada por Freud como um dos destinos da pulsão, atinge sua satisfação, mesmo inibida quanto ao alvo. Diz que os pacientes não estão logicamente satisfeitos com o que são, mas, apesar disso, isto o que eles são, seus sintomas, dependem da satisfação; ¨…eles dão satisfação a alguma coisa…eles não se contentam com seu estado, mas, estando nesse estado tão pouco contentador, se contentam assim mesmo¨(Lacan, 1964, 158).

Mas esta satisfação é paradoxal, pois há algo da ordem do impossível, do real como impossível e como obstáculo ao princípio do prazer. A satisfação da pulsão não está em sua apreensão do objeto, pois, como Freud já havia demarcado, os objetos são indiferentes para a pulsão, pois não há nenhum objeto que satisfaça a pulsão, sua satisfação encontra-se no trajeto, no contorno do objeto, no retorno em circuito. O alvo da pulsão, exemplifica Lacan, não é a ave abatida, mas ter acertado o tiro.

Isto que é contornável pela pulsão é um furo, um vazio, no qual se aloja o objeto pequeno a, é o contorno ao objeto eternamente faltante. No lugar deste objeto que falta, fica algo em seu lugar, o objeto a, contudo este não é um objeto específico, mas antes um furo em torno do qual gravitam os significantes.

Rabinovich conta sobre Nicolau de Cusa e o considera um predecessor de Lacan, pela ideia de que entre um saber já constituído e sua aplicação na realidade, sempre sobra um resto, algo inassimilável. Três instrumentos do saber humano sobre a natureza – contar, medir e pesar – mostram a insuficiência dos nossos parâmetros, assim a aritmética e a geometria deixam sempre um resto não realizado em toda a aplicação a objetos reais. A este resto pode-se entender como objeto a. Este resto, por mais que tenha sido produzido pelo saber, o move. Na metáfora lacaniana sobre a caça, esclarece Rabinovich (2000): ¨o objeto a, objeto eterno e inalcançável da caça, é um objeto que, como resto da divisão subjetiva, está atrás causando a busca, mas não é sua meta¨ (p. 42).

Laureano (2015) salienta que após os anos 60, Lacan qualifica o real como ¨o resto não morto encarnado no objeto pequeno a, o resto de gozo para além da mortificação que a ordem simbólica introduz no sujeito¨(p. 78). Diz que a primeira leitura de Lacan sobre o real transmitia a ideia de que seria perigoso se aproximar desta dimensão da pulsão além do princípio do prazer. Em uma segunda leitura o real é imanente ao simbólico, tornando-se causa da repetição simbólica. 

O vaivém da pulsão é o que caracteriza sua força constante e é este retorno em circuito que se pode caracterizar como repetição. Garcia-Roza diz: ¨A repetição é a característica própria da pulsão¨ (p. 25). Lacan falará, quanto às pulsões, de um estado de deriva. ¨Estar a deriva é estar remetido ao acaso dos encontros, encontro sempre faltoso, que vai ser subjugado ou ordenado pelo mundo dos signos¨ (Garcia-Roza, p. 70). Estar à deriva significa que não há ordem pulsional, esta ordem é dada pela estrutura de significantes, a possibilidade de satisfação é mediada pela representação. A pulsão ocupa um mais além da ordem e da lei, fora da cadeia significante e não é regulada pelo princípio do prazer e da realidade. É o lugar do acaso. O objeto da pulsão é o objeto da fantasia, o que demostra sua submissão à articulação significante e a caracterização do sexual, já que ¨a sexualidade constitui-se a partir da captura das pulsões pela rede significante¨ (Garcia-Roza, 1990, p. 144).

Este encontro faltoso para Lacan é o encontro com o real. A face real da pulsão é a pulsão de morte. Esta é entendida por Lacan como uma vontade de destruição, não no sentido da agressividade ou de vontade de se auto destruir, como muitos fazem esta leitura: ¨Ah, ele é obeso, come demais, então tem muita pulsão de morte¨. Esta vontade de destruição diz respeito a uma propriedade disjuntiva, que visa romper os laços entre o representante do objeto e o representante da pulsão, recusa a permanência, possibilitando a criação, o novo. Freud aponta a pulsão de morte como silenciosa e invisível, definição análoga que tem a tiquê em Lacan.

A pulsão de vida é aquela que objetiva a união permanente dos laços, é aquela que diz : ¨é isso¨. Diferentemente, a pulsão de morte é a recusa da repetição do mesmo, automaton, e nesse sentido, como salienta Garcia – Roza, é mantenedora do desejo, se este é entendido como a pura diferença. Diz este autor: ¨Se pulsão é
repetição, ela é uma repetição diferencial¨(p. 137).

Trago um exemplo clínico para tentar analisar a relação da articulação da pulsão com a estrutura do significante. Um homem adulto vem me procurar por conta das dificuldades que tem em um relacionamento. Brigam muito, separam-se várias vezes, ela o agride e ele sempre foge ou recua. Quando estão juntos não suporta as brigas recorrentes e desconfia que ela não o ama suficientemente. Quando está separado tem sintomas físicos e não consegue realizar suas atividades diárias no trabalho, pois só pensa nela. Tem dificuldades de assumir este relacionamento para a família já que esta considera a moça como barraqueira. Em uma sessão especifica quando me dizia que tinha vontade de largar tudo, diz:¨Vo toca gado no Mato Grosso¨(sic). Eu só conseguia escutar: Estou cagado no Mato Grosso. Minha primeira reação foi de surpresa por não ter entendido a primeira significação, que ele conscientemente usou. Perguntei a ele se era uma expressão. Ele teve aquele ar de estranheza quando o sentido aparente é desvelado e começou a rir. Perguntou-me: Você entendeu estou cagado? Ele também escutou.

Fazendo este trabalho este exemplo me torturou por algum tempo sempre que eu pensava na repetição. Parecia que tinha relação com ela, apesar de não ter nenhuma característica de um automaton, ou seja, de uma repetição do mesmo, uma reprodução do idêntico, mas me parecia que tinha relações, mas não sabia ainda quais. Bem, analiso primeiramente que parece não se tratar de um ato falho, no sentido de uma palavra que sai sem querer dizê-la, ou que é trocada por outra. O analisante quis formular a frase de forma consciente, mas o sentido que se depreendeu dela era outro. Como chamar isso? Entendo que o significante produz como efeito seu próprio sentido, sem haver uma fixidez em algum significado prévio. Lacan diz que o significante atua para constituir o sujeito, faz ato por ser um representante da pulsão. O ato é essencialmente humano por ser ele atravessado pela linguagem.

Segundo Brousse a pulsão é o resultado do funcionamento do significante, da demanda do Outro. O significante barra a necessidade e cria a pulsão, pois a pulsão oral não é satisfeita pelo leite, deixando um resto que é o desejo. Assim pode-se entender a pulsão como uma consequência da articulação na linguagem da demandado Outro não barrado.

A função do analista, para Lacan, é de presentificar da realidade do inconsciente, a pulsão. A atividade da pulsão está em um ¨se fazer¨, o que denota que algo nos é feito pelo outro. Penso que no exemplo citado acima, havia um ¨se fazer cagar¨, pois revelava de alguma maneira a posição do sujeito diante da demanda do Outro. O que quero sublinhar aqui é que me parece, que ali, na transferência, surge um significante passível de ser o representante da pulsão, pois dela nada conhecemos, apenas seus representantes. Representante da pulsão que nos diz da demanda do Outro e do modo como o analisante se satisfazia a partir do uso que fazia dela.

Se faire – se fazer – é a própria montagem da pulsão, montagem, pois se refere a uma ordem única e própria, montagem entre a própria satisfação sexual como demanda do Outro e de introduzir a própria satisfação sexual furtivamente no campo do Outro afim de completá-lo.

Não posso afirmar que se trata de uma repetição diferencial, tiquê, pois só poderia dizê-la conhecendo seus efeitos posteriores. Isto não se deu, pois logo depois ele abandona a análise. Questionei-me inicialmente se não se tratava de um tempo da análise que ele ainda não pudesse ser atravessado pelo sentido da frase, mas tenho a impressão que se trata de algo diferente. Já chegamos lá.

Se como vimos a tiquê é este encontro faltoso com o real, este encontro que provoca um desencontro, a intervenção do analista deve apontar para este gozo ao qual o sujeito está retido, escolha de gozo parcial, porque a outra parte é decidida pelo Outro, por isso sofre. Vegh afirma que isto seria interpretar a castração do Outro.

Significa construir um buraco no sentido existente, sustentar como presença o objeto a, para depois subtraí-lo, deixar cair. O encontro faltoso como encontro da falta no Outro, reconhecer a inexistência do Outro, para que o sujeito possa ler de outro modo, autremente, o Outro mente.

Quando fui tomada de susto por isso que se revelou, decidi fazer o corte da sessão. Acredito que foi uma má escolha, pois percebo, hoje, que não pude sustentar, com minha presença, algum gozo que se manifestava ali retido. Ao me assustar, tenho a impressão que não me deixei levar a esta teia de aranha, metáfora usada por Vegh, tecida pelos fios do Outro. Ao encerrar a sessão não dei espaço para que ele falasse sobre isso e depois nas outras poucas sessões que se sucederam isto não mais apareceu.

É a demanda do Outro que determina qual será o objeto pulsional. O neurótico tende a confundir a falta do Outro com a demanda do Outro, assim a demanda assume papel na fantasia, esta ficando reduzida a pulsão. Dessa forma quanto mais se trabalha a fantasia, mais há possibilidade de se desconectar com a demanda do Outro, fazendo surgir o objeto sem o véu da demanda. Brousse (1997) indica que assim o real pode ser reintroduzido na construção da fantasia, operando como puro furo, objeto a.

Acredito que a repetição diferencial tem como objetivo a possibilidade de reconectar o objeto a à fantasia, pois se a pulsão está por trás de todo encontro faltoso, é através de sua interpretação que, penso, pode ocorrer a reinstalação do a como causa de desejo, dando lugar ao real e a uma nova forma de gozar e se posicionar subjetivamente.

Para Fink (1998) um caminho para o final de análise é atravessar a fantasia fundamental ¨ através do qual o sujeito dividido assume o lugar de causa, em outras palavras, torna subjetiva a causa traumática de seu próprio advento como sujeito, vindo a ser nesse lugar onde o desejo do Outro – um desejo estrangeiro e estranho – havia estado¨(p.85).

Autora: Marina P. de Paula

 

Referência Bibliográfica

FELDESTEIN, R; FINK, B. JAANUS, M. Para ler o seminário 11 de Lacan: os quatro conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

FINK, B. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

FREUD, S. Além do Princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GARCIA-ROZA, A. Acaso e Repetição em Psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

GARCIA-ROZA, A. O mal radical em Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

LACAN, J. Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LAUREANO, P. S. A razão vence a seriedade da morte? Trauma e Pulsão em Lacan. In: https://online.unisc.br/seer/index.php/barbaroi/article/viewFile/…/44091.

RABINOVICH, D. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em
Psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

É só Castração?

Muitos podem ter pensado – Não é só castração, há a denegação e a foraclusão – e afirmo a vocês que a resposta para essa pergunta não reside no âmbito das formas de negações do Édipo.

Pretendo abordar neste trabalho as proposições de Lacan acerca das noções da relação da falta de objeto.

No momento em que pensava como seria este trabalho final, me confundia em textos já lidos, como se alguns conteúdos tivessem sido completamente apagados da minha memória.

Quero dizer, que eu já havia tido contato com essa proposição de Lacan sobre a relação da falta de objeto, constitutiva do sujeito, mas este contato foi por textos intermediários e não propriamente pela leitura do Seminário 4. Em 2013, realizei a leitura do livro “Introdução à psicanálise de crianças: o lugar dos pais”, de Michele Roman Faria, no qual ela retoma as três formas, propostas por Lacan, da relação de falta de objeto: a privação, a frustração e a castração.

No entanto, eu esqueci totalmente de dois modos em relação à falta de objeto. E em 2014, envolvida com a leitura do Seminário 4, em uma das reuniões de Cartel, cheguei a afirmar que era a primeira vez que lia sobre privação e frustração – Sempre li sobre a castração – Ai ai estava eu enganada!

Sabemos que o inconsciente é soberano, portanto eu não poderia deixar de mencionar aqui sobre esse esquecimento. Arrisco a dizer a partir disso, que fazer psicanálise não está somente no âmbito de ler e estudar, se trata sim, de uma experiência com a psicanálise. Então, que fique claro, a minha experiência de esquecimento a respeito de duas das três formas da falta de objeto e por isso, o meu interesse em falar sobre elas.

Com as atividades da ALPL e com o estudo do Seminário 4, percebi que meu conhecimento sobre a constituição do sujeito estava limitada à teorização do Complexo de Édipo (interdição do incesto e castração), o Estádio do Espelho e Narcisismo.

E o que mudou com a leitura do Seminário 4?

A mudança está no fato de que há de se considerar as formas pelas quais se estabelecem a relação de objeto, ou melhor, a relação com a falta de objeto: frustração, privação e castração. Conduzirei minha escrita pelo caminho de abordar a noção dessas três formas.

Lacan, no momento em que fala sobre essas formas, nos diz: “Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma noção da falta do objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola da relação do sujeito com o mundo” (Lacan, 1956-57/1995, p.35).

Ele toma o cuidado de retornar a Freud ao tratar do objeto, há de se atentar que o objeto é sempre perdido e que sua redescoberta é sempre insatisfatória.

Com a proposta de articular as formas da falta de objeto ao objeto (falo e seio) e suas dimensões (Real, Simbólico e Imaginário), Lacan apresenta um quadro, no qual se pretende relacionar a dimensão do agente Pai (Real/Imaginário) e Mãe (Simbólica) (Lacan, 1956-57/1995, p. 59).

Nessa relação, sigo com a noção de castração, sendo este um dos modos de relação com a falta de objeto. Está ligada a ordem simbólica, a noção da lei. E nos remete a pensar no arcabouço freudiano e sua teoria do Complexo de Édipo. Articulado a isso, temos com a leitura lacaniana, o entendimento de que o objeto (falo) está localizado no plano do Imaginário, a interdição imposta na figura do agente-pai (Real) cujo modo da falta de objeto se dá no Simbólico e nos diz como cada sujeito lidará com sua falta-a-ser.

Em seguida a outra noção, a frustração, na qual o modo da falta de objeto está ligada a dimensão Imaginária e que segundo Lacan (1956-57/1995), está ligada a experiências pré-edipianas, em uma relação com o objeto real, o seio materno, tem como agente, a mãe, no campo simbólico. A frustração opera, diante de uma recusa da mãe, uma recusa não do objeto de satisfação (seio) e sim uma recusa do dom (amor) “(…) na medida em que o dom é símbolo do amor” (Lacan, 1956-57/1995, p.184)

Existe, então, uma dialética de presença e ausência – ora a mãe está presente com o objeto de satisfação (seio)/dom (amor), ora está ausente e veja que de alguma forma, enquanto agente, a mãe está, porém sem o objeto símbolo de amor.

Sendo assim, “(…) com a noção de frustração introduz-se no condicionamento, no desenvolvimento do sujeito, todo um cortejo de noções que se traduzem numa linguagem de metáforas quantitativas – fala-se em satisfação (…) – ou, ao contrário, carência (…)” nos diz Lacan (1956-57/1997, p. 62). A criança neste momento já está imersa na ordem simbólica, vejamos o que diz Lacan (1956-57/1995, p.184): “Isso  quer dizer que ela já está totalmente engajada, o que implica a existência da ordem simbólica”.

De maneira a tentar alcançar essa noção pensei no exemplo freudiano, citado por Lacan, o jogo do “Fort-da” em que a criança lança o carretel para longe e sobre a cortina de seu berço – sem condições de vê-lo – o traz de volta, para perto, vocalizando o som do “oooo-daaaa”. A metáfora está aí colocada no jogo dessa criança, ou seja, há a presença e ausência do carretel, sendo possível compreender a presença da metáfora (jogo/vocalização) ausência e presença da mãe.

Há nesse modo de falta de objeto, frustração, uma realidade de falta (objeto/seio) imposta, que se articula a um agente simbólico (mãe-ausente/presente), ligada a questão do dom, ou melhor, como já disse do objeto de amor.

Muitos são os exemplos clínicos trabalhados por Lacan para dizer sobre as formas singulares manifestadas pelos sujeitos em relação à frustração, quero dizer com isso, que não há uma receita para apreender na clínica a manifestação do modo pela qual a frustração se dá. Assim, os casos aqui mencionados, apenas ilustram essa
forma de falta de objeto, para aquele sujeito em particular.

Lacan discorre acerca de um caso atendido por Freud, da jovem homossexual, em que certo momento de sua história, esperou receber uma criança, e ele nos diz: “Uma criança é dada pelo pai, é verdade, mas justamente a outra pessoa, e a alguém que lhes é mais próximo” (p.110), ou seja, é dada uma criança à mãe.

Vejam só, ele trabalhou com a singularidade desse sujeito, diante da relação da falta de objeto real (criança) cuja posse é de sua mãe, podemos ver com as palavras de Lacan que: “A presença da criança real, o fato do objeto ser aí, por um instante, real, e de ser materializado pelo fato de ser sua mãe quem o tem a seu lado, vai conduzi-la ao plano da frustração” (1956-57/1995, p.110).

A frustração é então, uma forma de falta de objeto, que envolve para além do agente (simbólico) o objeto real identificado ao dom, o que permite ao sujeito fazer apelo ao que lhe falta. Como havia dito no começo, a experiência com a psicanálise segue para além dos estudos, a análise pessoal, o cartel, os estudos e a supervisão proporcionam tal experiência e conto a vocês uma parte da minha.

Em uma dada sessão, logo no início, peço a minha analista um outro horário, para a semana seguinte, devido a impossibilidade de estar na próxima sessão e digo “é porque não quero perder o horário da semana que vem”. Ela me interroga a respeito do significante perder e sigo falando sobre ele, ao final da sessão ela me diz “você me pede para não ter uma sessão” e encerra o atendimento com a pontuação de que não atenderia o meu pedido de um outro horário, saí desapontada e me questionando, como ela poderia me negar uma sessão?

Na mesma semana, em estudo no dispositivo de Cartel, minhas colegas mencionam uma frase escrita por Lacan em uma de suas aulas, e leio para vocês a frase: “Eu te peço para recusar-me o que te ofereço – porquê: não é isso”. Aqui ficou evidente para mim que fazer psicanálise é ter uma experiência, no plano da vivência, de experimentar os efeitos que ela tem. O ocorrido na minha sessão de análise estava ali no plano da frustração, ou seja, estava eu ali oferecendo um pedido para não lidar com aquilo que me falta, experimentei ali uma falta imposta e marcada (falta real/sem sessão) mas, sobre a qual, me sentia autorizada a apelar que fosse concedida outra sessão para não perder/não faltar.

Para continuar, sigo com mais uma apresentação de Lacan, sobre a frustração, diante de uma caso de anorexia: “(…) não é um não comer, mas um comer nada (…)” e “(…) Nada, isso é justamente algo que existe no plano simbólico”(p.188).

Mais uma vez a linguagem está imposta ai, no modo singular, em que cada sujeito se posiciona frente a falta de objeto.

Sobre a noção de privação, modo de falta de objeto, ligado ao ordenamento do Real, o pai (agente) aparece como privador, se trata de um pai (Imaginário), que age sobre um objeto (simbólico), a saber, o falo (Simbólico). (Lacan, 1956-57/1995).

A privação marca uma falta à criança justamente por aquilo que supostamente a mãe teria e que com a ação do pai faz com que, o interesse da mãe por este, fique evidenciado, e revela que a ela também falta o falo.

Para ilustrar, Lacan, faz analogia com um livro de uma biblioteca, o qual não é encontrado na estante em que está referenciado no catálogo, ou seja, o livro pode ser identificado e procurado na biblioteca, mas se ele estiver sendo usado por outro, ou ainda estiver no setor de devolvidos, a biblioteca estará privada do livro. Isso consiste em dizer que o simbólico (a organização da biblioteca está antes formulada) e depois a falta (do livro/real). “Quando digo que, em se tratando da privação, a falta está no real, isso quer dizer que ela não está no sujeito. Para que o sujeito tenha acesso à privação, é preciso que ele conceba o real como podendo ser diferente do que é, isto é, que já o simbolize” afirmou Lacan (1956-57/1995, p.55-56).

Tendo discorrido sobre as três noções da falta de objeto, percebo que neste Seminário, Lacan, apontou que esses três modos de falta de objeto operam ao mesmo tempo, mas que é preciso distingui-las, pois muitos analistas interviram de forma equivocada por não reconhecer a diferença entre as relações de falta de objeto.

Em suma, uso as palavras de Lacan: “Na castração, há uma falta fundamental que se situa, como dívida, na cadeia simbólica. Na frustração, a falta só se compreende no plano imaginário, como dano imaginário. Na privação, a falta está pura e simplesmente no real, limite ou hiância real” (p.54)

Exposto tudo isso e com a experiência de ter participado desse Cartel e das atividades da ALPL, afirmo que a constituição do sujeito tem que ser abarcada para além dos modos de negações do Édipo. Isso implica em dizer que, a determinação de um sujeito se dá no campo da linguagem, marcadamente pelas dimensões do Real,
Simbólico e Imaginário.

Autora: Marana Tamie Uehara de Souza

 

Referência Bibliográfica

Lacan, J. (1956-1957). O seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge ZaharEd., 1995.

Faria, M.R. Introdução à psicanálise de crianças: o lugar dos pais. São Paulo: Hacker Editores: Cespuc: FAPESP. 1998.