Sublimação, Ato Criativo e Sujeito na Psicanálise

Para Isabela e Laura, que já me dedicaram
tantas das suas preciosas criações.

AGRADECIMENTOS

A despeito da solidão necessária nos momentos de estudo, reflexão e criação, uma tese não é produzida sem o auxílio e colaboração, direta e indireta, de muitas pessoas. Expresso minha profunda gratidão por todas elas e de forma particular:
ao Prof. Dr. Fernando Aguiar Brito de Souza, por sua efetiva contribuição para a realização desta tese e, sobretudo, pela postura sempre ética e respeitosa com que conduz o trabalho de orientação;
ao Prof. Dr. Kleber Prado Filho, à Prof. Dra. Mérite de Souza e ao Prof. Dr. Sérgio Scotti, pela participação e sugestões realizadas durante o exame de qualificação, momento crucial para o desenvolvimento desta tese;
ao Prof. Dr. André Gellis, ao Prof. Dr. Vinícius Darriba, à Prof. Dra. Mara Lago e ao Prof. Dr. Kleber Prado Filho, pela presença e contribuições realizadas durante a banca de defesa da tese;
à Prof. Dra. Mérite de Souza e ao Prof. Dr. Carlos Augusto Remor por aceitarem compor a banca examinadora de defesa como membros suplentes;
à psicanalista Angela Valore, por seu trabalho de todos esses anos, cujos efeitos estiveram presentes no percurso de pesquisa e podem ser lidos nas páginas desta tese;
ao meu marido e às minhas filhas, pelo carinho, incentivo e compreensão;
às minhas queridas irmãs, Denise e Dionete (in memorian), pelo amor que sempre me dedicaram;
aos meus pais, por tudo.

RESUMO

A tese, fruto de pesquisa teórica de orientação freudo-lacaniana, objetivou analisar os enlaces entre sublimação, ato criativo e sujeito e afirmar a presença do sujeito no ato criativo via sublimação. O método da releitura foi aplicado sobre os textos de Freud e Lacan que tratam dos conceitos em causa e as publicações de mesma orientação e tema semelhante. Partindo da noção de sujeito na psicanálise e de suas especificidades na contemporaneidade, fez-se uma retomada conceitual da sublimação em Freud e Lacan, seguida da discussão sobre o ato criativo. O percurso afirmou o sujeito na sublimação e no ato criativo, quando ocorre o afastamento do lugar de objeto e o reconhecimento e lide com o Real; quando o vazio da Coisa é contemplado. Considerou-se as possibilidades e os efeitos da sublimação nos dias de hoje, numa análise da relevância clínica do conceito de sublimação na contemporaneidade. Identificou-se uma aproximação entre o campo sublimatório e os efeitos do trabalho analítico. Sublimar não impede o adoecer e não tem compromisso com o aceitável, desejável ou elogiável socialmente, mas o valor da sublimação não pode ser negado, ainda mais em tempos tão funestos, quando reina a apatia e a dessubjetivação, quando o ato criativo sobrevive às minguas, à sombra de outras modalidades de ato, marcadas por condutas violentas, delirantes, transgressoras ou depressivas.
Palavras-chave: Sublimação; Ato criativo; Sujeito.

 

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Angústia e Sublimação

A sublimação afirma, em seu horizonte, a angústia. A Assertiva de Harari precede sua definição para a sublimação, estabelecida pelo seguinte par de aforismos: se “a angústia é a sem (-φ)”, a “sublimação é a não sem (-φ)” (Harari, 2001, p. 277). Tais formulações sugerem uma proximidade – ainda que demarquem uma essencial diferença – entre as duas condições, já que a angústia é afirmada pela sublimação e ambas contemplam em sua definição uma articulação entre o objeto a e a falta (-φ). Ainda, ao tomarmos a palavra horizonte em sua acepção mais comum – extensão ou espaço que a vista abrange ou extensão de uma ação – podemos ler que a sublimação afirma a angústia em toda a sua extensão, em todo o seu campo ou até onde se pode ver. Isso talvez estabeleça algo a mais que uma proximidade, quiçá, uma articulação entre as duas condições e nos remete ao trabalho de Lacan de resgatar a sublimação de importantes distorções que passaram a identificá-la a uma especie de “felicidade comportamental”, adaptada ao socialmente desejável. Sublimar não salva ninguém do sofrimento e do adoecimento, sublimar não impede ou anula a angústia, ao contrário, afirma-a.

Evoco também uma questão proposta por Cruglak (2001, p. 11), nos seguintes termos: “De que depende que um sujeito, frente à irrupção do Real, frente a contingências dramáticas da vida, produza um sintoma, uma criação, uma anorexia, uma adição, uma lesão ou outra manifestação no corpo?” Em minha interpretação, além de uma possível remissão ao clássico e cotidiano trânsito clinico entre a tríade inibição, sintoma e angústia, a pergunta de Cruglak faz uma alusão à sublimação, via ato criativo. Com esta alusão, a sublimação, em sua aproximação/vinculação da angústia, pode ser associada ao campo daquela tríade, campo das possíveis respostas do sujeito frente ao enigma do desejo do Outro.

Avalio que os aforismos/definições de Harari (2001) nos encaminham para a mesma direção apontada por Cruglak (2001) no desdobramento de sua questão: onde falta a castração imaginária, onde falta a falta, o a aparece e o sujeito se objetaliza à mercê do desejo do Outro: aí temos a angústia e a produção fenomênica. Entretanto, quando a castração pode ser preservada através de algum objeto, quando esse a, objeto criado, permite ao sujeito sua liberação da condição de objetalização, temos sublimação: lugar onde a falta não falta, exatamente por conta da criação de um objeto. Observo que a questão do sujeito, ou, o sujeito em questão interrogado em sua possibilidade de sê-lo, está presente nos dois casos. Ser ou não ser, eis a questão que tomo como central no que tange à proximidade/articulação entre angústia e sublimação.

Em conferência no Brasil, Michel Plon (2006, p.21) afirmou que o Seminário X, além do trabalho sobre o conceito de objeto a, foi um momento onde se implantou a “arquitetura lacaniana” de forma integral, começando, exatamente, “por esse ponto pivô que é sua concepção de sujeito”. Um sujeito que é determinado pelo significante que advém do campo do Outro e que só pode ser pela via de não sê-lo, por não sê-lo todo e por seu desejo ser o desejo do Outro. E é exatamente nos interstícios desta trama que envolve o sujeito e seu desejo, que é o desejo do Outro, que vemos angústia se desenhar.

A angústia, antes de tudo, afeta esse sujeito, provocando, assim, uma série de sensações que o alarmam. Alarme, sinal, temos aí outro atributo, ou talvez seja melhor dizer, função, da angústia. Sinal de um estremecimento da fronteira, da distância entre desejo e gozo, sinal de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995), sinal de que o sujeito está sob a ameaça do desaparecimento do seu desejo e, portanto, sob a ameaça de seu próprio desaparecimento.

Para além dos textos freudianos que teorizam sobre a angústia, Lacan (2005 /1962-63) prioriza O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas também como manifestação frente à falta da falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada, no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante. Assim, a angústia sinaliza a falha, a carência do apoio da falta para a existência do sujeito do desejo, evidenciando a certeza de uma posição perante o desejo do Outro em que há risco de devoração, de sobreposição do gozo do outro sobre o desejo. A angústia, portanto, não é sem objeto e é um afeto que não engana (Lacan, 2005/1962-63).

O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). O desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. perante o enigma do desejo do Outro, a angústia surge se o Outro não se apresentar como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo para ele. Todos estes elementos situam a angústia na ordem da estrutura, intimamente associada ao estatuto do sujeito, um fenômeno existencial, não sendo redutível a uma manifestação psicopatológica a ser simplesmente suprimida.

Também a sublimação está associada à ordem da estrutura e, como já enunciado, à questão do sujeito. Lacan (1997/1959-60) enfatiza a íntima articulação da sublimação com o campo pulsional. A sublimação se apresenta como a essência do funcionamento pulsional, pois é no circuito como desvio que se dá a satisfação pulsiona, e assim também o é com a sublimação que, por definição, se dá pelo desvio do alvo. A sublimação está no centro da economia libidinal, no âmago do funcionamento pulsional e, portanto, da constituição do sujeito.

Definida como um movimento capaz de elevar o objeto ao estatuto da CoisaI (Lacan, 1997/1959-60), a sublimação está vinculada à busca pela Coisa, associada aos primórdios da organização subjetiva onde as afirmações primeiras do que é bom se confirmam com a expulsão e negação do ruim. Com o vínculo ao vazio da Coisa, a sublimação é anterior a todo recalque e independente dos ditames do eu e da vontade, demonstrando a não assimilação deste conceito a ideias adaptativos e normativos, ou ao desejável socialmente. Além do mais, nesse distanciamento do eu é possível vislumbrar a presença do sujeito, marcado pela falta e sob a égide do inconsciente, avesso ao funcionamento da consciência e da razão. Ao mesmo tempo, a articulação da sublimação à pulsão, sua localização nos primórdios da organização e estruturação do psiquismo e, enfim, sua ligação com a Coisa, marcada pelo que está de fora do campo representacional, vinculam-na ao Real e à repetição.

Sabemos ser no momento de corte, da separação e queda do lugar de objeto que a identificação alienante é interrompida, viabilizando a inscrição pulsional, instaurando a falta e permitindo o desejo; em outras palavras, com o corte, tempo da separação, vemos surgir o sujeito. Lacan (2008 [1966-67]) articula o conceito de repetição ao corte, à separação e queda do lugar de objeto: respondendo ao mecanismo estruturante de busca pelo reencontro do objeto perdido, a repetição repete um fracasso que atesta, reafirma o impossível do gozo da Coisa. Então, na instalação da pulsão também se inaugura a repetição, ambas atreladas à constituição do psiquismo e do sujeito e à infindável busca de reencontro do objeto miticamente perdido, do reencontro da Coisa.

Me atenho também ao fato de Lacan (2008/1966-67),  em A Lógica do Fantasma, afirmar, de forma direta e clara, que a sublimação tem como sua estrutura fundamental a repetição – aquela que se inaugura com o corte e a constituição do Real pela exclusão de um resto pulsional não simbolizável. Para chegar nesta formulação Lacan (2008/1966-67, p. 209) parte da proposta de um vínculo da repetição com a passagem ao ato, que considera um “modo privilegiado e exemplar de instauração do sujeito”, confirmando a implicação de um sujeito nisso que em psicanálise denomina-se ato.

A definição de ato dada por Lacan (2008 [1966-67]) é composta pelos seguintes termos: o ato é significante, significante que se repete, mesmo que apenas em ações; o ato é a instauração do sujeito, através do ato o sujeito surge como efeito do corte, embora ele não se reconheça aí como tal. Estas formulações possibilitam a apreensão do que a passagem ao ato e o acting-out – duas modalidades de ato – comportam a repetição, clarificando o vínculo proposto entre esses dois conceitos de ato e repetição. O que está em questão é a repetição diferencial da ordem do Real, que impulsiona a insistência dos significantes na cadeia, fruto do corte, da separação que também permite o surgimento do sujeito. Afinal, a passagem ao ato  e o acting-out fazem corte, ou melhor, reeditam o corte fundador da repetição, uma vez que põem em cena o que escapou à simbolização e reafirmam a existência de um sujeito que, frente a angústia, rechaça a alienação ao Outro e busca presentificar a falta.

Por sua vez, o ato criativo presentifica a marca fundamental do sujeito, marca traduzida como o vazio, onde o Real pode ganhar forma na sublimação. E ainda, a sublimação libera o sujeito do aprisionamento neurótico do lugar de falo para o Outro: a obra, fruto do ato criativo, exerce a função de falo e permite assim a saída do lugar de objeto e o conseqüente advento do sujeito na sublimação. Situada na ordem de um gozo suplementar, a sublimação transcende o gozo fálico e possibilita o desprendimento do sujeito do lugar de falo para o Outro. Para tanto, é necessária a possibilidade de prescindir do significante do Nome do Pai para que um novo significante possa advir em seu lugar, dando vez e voz ao ato criativo. Obviamente, não há como prescindir de algo que não se tem, e para poder transcender este significante, para poder ir além desde Nome na produção de novos significantes, é preciso saber, ao menos em alguma medida, que o ato de criação não o anulará, que prescindir desde Nome não significa destruí-lo. Ao contrário, é operar fora de seus domínios, mas, em virtude de seus efeitos e corroborando a sua função de assunção subjetiva.

A sublimação é um caminho com o qual o sujeito pode dispor do vazio, ou seja, presentificar o vazio que o constitui através do ato criativo, talvez num desvio da inibição, do sintoma, da angústia, e, portanto, do acting-out e da passagem do ato. Desviar de algo, implica reconhecê-lo, afirmando a sua existência: a sublimação afirma, em seu horizonte, a angústia. Retomo o ponto onde vislumbrei a sublimação associada ao campo das respostas frente o desejo do Outro e remeto-me ao grafo do desejo, lembando que a angústia está localizada no topo, logo abaixo da fantasia, ou seja, é uma das últimas respostas protetoras frente ao desejo do Outro. Então, arrisco hipotetizar a presença da sublimação no grafo, próxima à angústia, acima do sintoma e da inibição, uma vez que ela implica em movimento, em ato de criação, de forma independente do recalque e permite ao sujeito distanciar-se de sua identificação fálica na medida em que a obra ocupa o lugar do que se era para o Outro (Pommier, 1990) assim, quando um objeto pode elevar-se à Coisa, o sujeito se liberta, mesmo que temporariamente, das vias de oferenda de seu corpo ao desejo do Outro.

Ainda, se pensarmos no nó borromeu, a angústia se localiza na zona de invasão do Real sobre o Imaginário, e a sublimação é, exatamente, a possibilidade de imaginarizar o Real. De poder fazer com o Real, elevando um objeto à dignidade da Coisa através do suporte do Imaginário. E não é também uma questão de dignidade o que entra em cena com a angústia? Não temos aí um sujeito, afetado, alarmado, lutando para manter a sua dignidade?

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241p.

CRUGLAK, Clara. Clínica da identificação. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001. 154p.

FREUD, S. O Estranho [1917]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? InRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p. 11-21. p. 58-66.

HARARI, R. O Seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Oficios, 1997. 241 p.

LACAN, J. A lógica do fantasma [1966-67]. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, publicação não comercial, 2008. 4540 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 366 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise [1959-60]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. 196 p.

LEBRUN, Jean-Pierre. Um mundo sem limite: ensaio para uma clínica psicanalítica do social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004. 218 p.

POMMIER, Gerard. O desenlace de uma análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. 217 p.

Um analista?

Proponho trabalharmos da forma como trabalha um analista, buscando ouvir os desdobramentos possíveis a partir da enunciação do nosso tema de hoje:

Um analista?

Considero que primeiro podemos ouvir esta questão como a busca de uma definição: Um analista, o que é isso? Ou ainda, para que serve?

Também é possível ouvir esta interrogação como constitutiva de uma dúvida: Um analista? Isso é possível? Isso existe?

Sugiro ainda a possibilidade de nos atermos no artigo indefinido utilizado, que pode nos levar a: singularidade, particularidade, um e não qualquer outro, um e não todos, não uma categoria; mas pode também sugerir unidade, integridade, existência ontológica, remetendo a ideia de ser analista, da concretude desta condição e até mesmo de totalidade, um que forma um todo. E, nas duas vertentes, se a frase é interrogativa, abre-se a possibilidade de resposta afirmativa ou negativa, ou seja, afirmando ou negando a referida singularidade, o status de categoria e/ou a condição ontológica.

Digam se ouvem nesta formulação algo mais.

Na verdade, estes três desdobramentos se articulam. Vejamos como, partindo da primeira forma de ouvir: o que é um analista? Comecemos pelo que não é: não é uma profissão, não é uma ocupação, não é uma condição, muito menos um dom.

Diz-se que é uma função.

E aí podemos escutar pelo lado daquilo que se exerce, de um lugar que se ocupa ou que se sustenta. Então não se é analista (e aí a condição ontológica já é negada), se está analista, faz-se analista.
Bem, mas dizemos que somos psicanalistas, nos apresentamos assim. Tudo bem, não há mal em dizê-lo em nosso cotidiano, mas estamos falando daquilo que se passa na transferência, na situação analítica, ali um analista não é. Aliás, esta é uma formulação de Lacan: a única maneira de ser analista é não sê-lo. E que maluquice é essa? Antes responder esta maluquice, vamos agregar mais uma.

A partir desta palavra função, evocamos a matemática e dizemos: o analista é uma função matemática.
Vocês se lembram do que é uma função matemática? O essencial desta definição, que é comum a qualquer um dos tipos de função matemática, é a existência de uma relação entre duas grandezas, entre duas variáveis. Assim, se muda a variável independente, x, muda também a variável dependente, y. Só há função se esta relação existir, se y se mantém constante a despeito da variação de x, não há função. Vejam se definimos o analista como uma função, ele não é per se, ele está, ele se faz na dependência da existência de relação entre duas variáveis, a saber, o desejo do analista e a demanda de análise, ou seja, na dependência da transferência.

Juntando uma maluquice com a outra, “ser não sendo” significa o reconhecimento da não ontologia, não há analista por si mesmo, a sustentação deste lugar se dá na cena analítica, na transferência e na dependência do operador fundamental que é o desejo do analista.

Encaminhando as coisas desta maneira, o analista não existe (não há um ser aí) e também não forma uma categoria; mas embora não seja um ser singular, podemos afirmar a particularização desta função a cada vez que ela ocorra. Neste sentido o analista é sempre um com cada um dos seus analisantes.
Desta forma podemos também dizer que um analista está sempre em produção, nunca pronto, nunca terminado, nunca uma totalidade acabada.
Faço ainda uma última observação sobre a difícil tarefa de sustentar este lugar, um lugar de não ser, e aí também na direção já sabida por todos vocês: de dessubjetivação, de estar num lugar de falta de vazio, de semblante de objeto causa do desejo.

Evidentemente esta não é uma situação confortável, ausentar-se da condição de sujeito não é tarefa rotineira, não é nada fácil deixar de lado nossas convicções, pensamentos, afetos.
Gosto muito de uma observação feita por Isidoro Vegh em uma conferência, dizendo que o analista está em sua poltrona como que fritando, numa frigideira todo o tempo, queimando. Ninguém frita sem sentir dor, é dolorosa a posição do analista e para suportá-la, no sentido mesmo de sustentá-la, é necessário lançarmos mãos de dois dispositivos fundamentais: a análise pessoal e a instituição analítica.

Lacan afirmou que um analista se autoriza de si mesmo e por alguns outros. Como vimos, a produção de um analista é interminável e, embora a análise pessoal seja fundamental, ela não é suficiente.
O final de uma análise, que sabemos produzir um analista, nos permite suportar ser colocado na posição de a sem ser afetado por isso, pois sabemos que o desejo aí implicado não é nosso, não se refere a nós. Depois, a instituição ajuda a dar continuidade nesta interminável produção e é um espaço onde podemos dar provas de nosso saber e onde o reconhecimento dos pares ajuda a nos reconhecermos, facilitando a sustentação deste difícil lugar.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

Trabalho apresentado no Fórum da ALPL – 25/03/2013

Um Ato Analítico, Um Analista

De início, sobre o título deste trabalho, alguém poderia indagar: você não se equivocou na ordem das coisas? Não seria o inverso, um analista, um ato analítico? Afinal, não é necessário haver analista para que o ato se produza?

E na sequência, ainda sobre o título, nova objeção poderia ser feita ao artigo um utilizado, artigo este que, embora se classifique como indefinido, pode comportar paradoxalmente duas idéias distintas. Uma delas aponta para certa singularidade ou particularidade do ato e do analista, um e não qualquer outro, um e não todos, não uma categoria. A outra, ao contrário, pode sugerir para ambos os termos implicados a possibilidade de integridade, existência ontológica, concretude, totalidade ou universalização: um todo.

Respondo aos meus interlocutores imaginários que graças à inevitável equivocidade da linguagem realmente todas estas observações ou objeções procedem, mas apesar de terem lá a sua verdade não tornam inoperante meu tema e, portante, não invalidam outras possíveis articulações que procuro traçar neste texto.

No que concerne ao analista já sabemos não se tratar de uma profissão, ocupação, condição ou dom. Então, como pergunta Lacan no Seminário “O ato analítico”, logo no início da lição de 13 de março de 68: o que é ser psicanalista?

Algumas respostas possíveis: ser analista é, com sua presença, suportar fazer semblante do objeto que convém a cada analisante até o momento final de cair desta posição a fazer o luto desta perda. É reconhecer que a análise é apenas um dispositivo temporário, uma pretensa situação, e que o que se passa ali, incluindo o analista, é fruto do mesmo. Ou ainda: ser analista é trabalhar na direção de não sê-lo, é sustentar um lugar na transferência para sair dele. É saber que não se é analista (e aí a condição ontológica é negada), se está analista, faz-se analista na e pela transferência.

Diz-se também que o psicanalista se define como uma função matemática, ou seja, pela existência de uma relação entre duas grandezas ou entre duas variáveis. Numa função matemática, a mudança na variável independente x, deve produzir alteração também constante a despeito da variação de x, não há função.

Desta forma, se definimos o analista como uma função matemática, ele não é per se, ele está, ele se faz na dependência da existência de relação entre duas variáveis, a saber, o desejo do analista e a demanda de análise, ou seja, mais uma vez, na dependência da transferência.

Concluiu-se que o analista não participa de uma categoria ou classe, a profissão analista, e também não existe como entidade ou identidade acabada, não é um ser singular. Entretanto, penso que a função analista e efetiva, e, assim, se particulariza, a cada vez, a cada ato analítico.

Desta maneira, retornando ao artigo do título, o analista como função é sempre um, no sentido único, com cada um de seus analisantes ou, ainda, um a cada uma das sessões com cada um dos seus analisantes ou mais, um a cada um de seus atos em cada uma das sessões com cada um de seus analisantes. Neste ponto proponho uma leitura deste um em referência à forma como Lacan trabalha o traço unário no seminário IX, A Identificação.

O traço unário surge do apagamento do objeto, marcando a divisão do sujeito pela linguagem, o distanciamento do objeto e a pura diferença. O traço é significante de uma ausência que se presentifica a cada volta da repetição, onde Lacan localiza a origem do inconsciente e do desejo. Trata-se da marca primeira de surgimento do sujeito a partir do significante, todo significante tem o traço como suporte. Assim, o Um, do traço unário, é fundamento da diferença e não da unificação imaginária. Um como diferença, como ausência e como surgimento do significante. Assim também, um ato analítico, um analista, ambos como diferença e não unificação ou totalidade; como ausência, evanescentes e não ontológicos e, também, como produtos e produtores de significantes.

Com Lacan, nos desdobramentos de sua afirmação de que o ato é do analista e a tarefa é do analisante, encontramos as idéias de que o ato analítico instrumenta a tarefa ou habilita a marcha do analisante; que o ato só se confirma como tal a posteriori e que há ato analítico quando algo de novo pode começar. Assim, a intervenção do analista só será sancionada como ato se for eficaz em habilitar a tarefa do analisante e se, com ela, algo de novo puder começar.

Entendo que nesta articulação entre ato e tarefa, algo novo começa dos dois lados.

Do lado do analisante, trata-se da possibilidade de ler e de reescrever algum ponto de sua história de maneira alternativa às versões anteriores para poder fazer com os velhos traços o começo de um novo desenho, com os velhos movimentos, novos passos para uma nova coreografia. Passagem do eu não penso da alienação para o eu não sou, não sou o objeto que sustenta, faz suporte para o gozo do Outro.

Do lado do analista, a abertura ao novo deve ser condição de cada encontro, pois ele nada sabe antecipadamente sobre seu analisante, nem sobre o que será o percurso daquela análise e, tão pouco, qual será o seu fim. Assim, se há analista há sempre um novo começando a cada analisante, a cada sessão, a cada ato.

Mais uma vez retorno ao título do trabalho e agora peço que considerem o artigo um como indicador da abertura de uma série comportando ato e analista, um como o primeiro de outros que se seguem. Assim, poderíamos escrever: um ato analítico, um analista, um ato analítico, um analista… A partir desta série, um analista seguiu a um ato e precedeu a outro ou um analista esteve entre dois atos. Assim como o efeito de sujeito pode se produzir entre dois significantes, a função analista pode operar entre dois atos. Assim como o efeito de sujeito pode se produzir entre dois significantes, a função analista pode operar entre dois atos.

É verdade, se há analista pode haver ato, mas só com a confirmação do ato na tarefa do analisante é que se afirma ter havido analista. Por efeito de retroação, sabe-se ter havido, ou não, ato analítico e analista.

A produção de um analista é mesmo tarefa impossível, impossível de ser finalizada por completo e também por isso Lacan afirma que começamos a ser psicanalistas no final de uma análise. Mais uma vez, há ato (agora, final, do final de uma análise) onde algo novo começa (um analista).

Observem: o final de uma análise é só o começo. Certamente a nossa análise (ou análises) é condição fundamental para a passagem a analista, para a sustentação desta função. mas é só o começo e um começo muito particular, pois não pressupõe um fim. Para nós analistas, o ditado perde seu valor: nem tudo que começa, termina, ao menos não definitivamente.

Esta condição costuma provocar angústia, em especial aos habituados ao âmbito universitário e que inicia, um percurso com a psicanálise. Afinal, a vida escolar tem começo, meio e fim e com ele adquirimos títulos, diplomas, garantias. Já um analista que acompanha Lacan sabe que só os tolos esperam garantias. Mas este mesmo analista também sabe que o desconforto da ausência de garantias torna-se suportável através de uma análise que possa produzir a derrocada do Outro, libertando-o dos efeitos inibitórios destas ilusórias garantias e habilitando-o a fazer ali com.

Com isto não digo que a função analista se dê confortavelmente, sem dificuldades ou impasses. Muito pelo contrário, sustentar este lugar tem um custo pessoal significativo: pagamos com nosso ser, dele devemos abdicar, é o primeiro luto que o analista deve fazer para sustentar sua função através do desejo do analista. E depois, ao final de cada percurso analítico, novo luto do analista, agora da própria função, da pretensa situação instalada pela transferência, do lugar de semblante de causa de desejo sustentado.

Frente a estas e muitas outras dificuldades que a prática me apresenta, relembro e me amparo em algumas palavras de Lacan no seminário sobre a transferência: “Não sejamos demasiados otimistas, nem demasiados orgulhosos de nós mesmos, mas digamos ainda assim que vocês tiveram, todos quantos são, uma pequena preocupação quanto ao limite do deserto… Trata-se daquilo que está no coração da resposta que o analista deve dar para dar conta do poder da transferência. Essa posição, eu a distingo dizendo que no próprio lugar que é o seu, o analista deve se ausentar de todo ideal de analista” (p. 469).

Sem certezas e garantias, reconhecendo os limites e distante de um ideal, mas com o desejo de produzir algumas respostas, não todas e nem definitivas, dedico este texto à memória de uma ex-analisante cuja transferência foi suspensa, mas, infelizmente, não pode ser terminada. Restou para mim o trabalho de luto da função analista de uma forma mais difícil e dolorosa do que de costume e, também por isso, sigo trabalhando, compartilhando com vocês minhas letras e buscando abrir a cada momento em minha clínica, novas séries: um ato analítico, um analista, um ato analítico, um analista…

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan
Membro da ALPL
zeilatorezan@associacaolivrepsanalise.com.br

 

Referência Bibliográfica

Lacan, J. O ato psicanalítico. Porto Alegre: Escola de Estudos Freudianos, 2010.

Lacanm J. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Lacan, J. O seminário, livro 9: a identificação. Recife: CEF, 2003,

O Nome Que Cada Um Faz

Lacan apresenta, neste seminário 23, o Sinthoma como um elemento a mais, além dos três sobre o qual vinha trabalhando até então, a saber: o Real, o Simbólico e o Imaginário. Assim, o Sinthoma é um quarto elemento e é considerado neste seminário como necessário para um bom enlace destas três dimensões, RSI, da nossa existência. Mais um, para além dos três, que se diferencia dos demais e auxilia no enlace e limites destas três dimensões. Faço aqui uma pequena aproximação, guardadas as devidas diferenças, entre a função do Sinthoma e a função mais um no Cartel: auxiliar no enlace dos membros em sua tarefa, favorecendo os limites deste laço transferencial e o combate à cristalização das identificações e dos fenômenos de liderança.

É muito interessante como a partir desta estrutura do Cartel que lhes apresentei, cada membro se singulariza neste processo de trabalho em grupo: o recorte do tema, a autoria e o estilo de cada um aí se produz. E para mim, neste momento de trabalho, o seminário O Sinthoma é marcado e me marca exatamente por questões referentes à singularidade, ao estilo, à autoria, ao nome que cada um faz e com o qual pode fazer sua existência. Entendo este como um dos eixos que Lacan trabalha neste seminário, ele utiliza a expressão fazer-se um nome a partir de uma leitura da escrita, da obra de Joyce, apostando que seu nome como escritor teve um papel fundamental em sua vida, papel de Sinthoma. A sua escrita, que parece almejar a criação de uma nova língua, teria feito para Joyce suplência de uma nomeação paterna talvez mais insuficiente do que a desejada. Joyce, escritor, fez-se um nome.

Acredito que Lacan não pretendeu construir o caso Joyce, bem que ele gostaria, lamenta não ter analisado Joyce, que, aliás, pelo que dizem, era crítico e avesso à psicanálise. Entendo que Lacan quiz aprender e criar com Joyce e sua escrita. Entendo que Lacan se interessou pela posição inventiva de Joyce frente à língua, por seu trabalho com a transliteraração e com a homofonia, pela forma como ele introduz na escrita um sem sentido ou um para além do sentido convencional ou gramatical da língua. Acho que se interessou por estas invenções de Joyce porque elas se aproximam muito de uma série de coisas muito importantes para a nossa clínica que foram criadas por Lacan.

Assim como Joyce, Lacan fala de uma nova língua, propõe que somos habitados por e nos ocupamos na clínica de uma nova língua, que denomina lalangue, e de um discurso sem palavras, ambos distantes do sentido e da estrutura da língua que aprendemos e intencionados usar em nossas sempre falhas tentativas de comunicação. Um outro interesse que acredito que Lacan teve no trabalho de Joyce foi a maneira como ele lida com o tempo. Não há uma simples linearidade no texto de Joyce, ele rompe com a cronologia e impõe uma lógica, uma lógica de associações e derivações centradas antes no próprio texto e não em uma razão ou em memórias. E é também com um tempo lógico e não cronológico que trabalhamos, não é o passado ou a memória que nos causa dificuldades, mas sim o Real e a detenção em tempos que não podem passar. Ainda considero que a construção da hipótese de que Joyce fez-se um nome através de sua escrita, de sua obra, tem para Lacan um valor comparativo com a sua proposta de que uma psicanálise também pode produzir esta função, nos dois sentidos que a expressão comporta: nomear-se e tornar-se um nome, fazer ser a partir deste nome.

Quando o título do meu trabalho se precipitou, quando a nomeação do meu texto se impôs para mim, imediatamente lembrei de uma situação que vou lhes contar. Ministrava na faculdade uma disciplina sobre toxicomanias e convidei profissionais de uma série de instituições de tratamento de toxicômanos para falarem de seus trabalhos. Uma destas instituições enviou para a apresentação além do psicólogo, um ex-paciente que se tornou funcionário deste local. Ele foi contando sobre a avalanches de perda sem sua vida em função das drogas, com destaque para a mulher que ele muito amava e como, a partir do tratamento, lutou para reconquistá-la. Com veemência, ele afirmou que as reconquistas se deram a partir do momento em que ele pode ter um nome e proclamou com emoção: “agora eu tenho um nome, eu tenho um nome!” E vejam que interessante, ele não fez nenhuma referência ao seu nome próprio.

Muitas vezes encontramos os saberes da psicanálise explicitados de forma lógica e simples, com a simplicidade que toda lógica porta, em frases de nossos analisantes ou em cenas como esta. Este rapaz estava dizendo que pode fazer-se uma nomeação, que algo lhe permitiu fazer um nome, um nome que lhe faltava, embora ele tivera sido batizado e registrado quando nasceu. Ele pode fazer um nome e com isso fazer coisas que antes não conseguia: trabalhar, amar, ter planos e objetivos.

Fazer-se um nome, saber fazer ali com, ser artesão de si mesmo, uma língua que se cria, um inconsciente que se inventa, são expressões que Lacan usa no período de trabalho no qual o seminário 23 foi proferido e nas quais os verbos se destacam:fazer, saber fazer, criar, inventar. Verbos que falam de uma atividade que considero fantástica e fundamental para nós psicanalistas. Mais do que ser envolvido e sofrer os efeitos da linguagem, fazemos com ela e com seus efeitos ao longo de nossas vidas e na nossa clínica. Uma psicanálise não é uma filosofia, ela deve implicar movimento e transformação. Este é um ponto importante quando Lacan passa a falar de um inconsciente real e não mais simbólico. Não se trata mais de produzir sentido, de compreender, mas de fazer parada em algo que insiste através do saber fazer com seu sintoma, da produção de novos gozos menos adoentados ou sofridos.

O nosso sujeito, o sujeito da psicanálise, está subposto a uma estrutura produzida pelo atravessamento e efeitos da linguagem no humano, efeitos em três dimensões, RSI, as quais operam na existência de forma articulada. Na medida em que são tomadas em conjunto, enlaçadas, cada dimensão se articula, se refere e faz limite em relação às outras. Estar subposto é estar debaixo desta estrutura e isto implica suportá-la, o sujeito é este que suporta, que carrega os efeitos do Real, do Simbólico e do Imaginário. Embora a estrutura seja una, RSI, pois estas dimensões formam e operam em cadeia, elas não são tomadas isoladamente, isto está longe de significar estabilidade e homogeneidade. A estrutura comporta movimento e mudança e contempla, sempre, a possibilidade de uma gama diferenciada de repostas do sujeito, respostas que denominamos de clínicas: inibições, sintomas, angústia, fenômenos elementares, fenômenos psicossomáticos. Todas estas manifestações podem ser lidas na escritura da cadeia borromeana, são respostas frente aos efeitos, aos movimentos, às invasões dos limites nesta cadeia de três dimensões que é a nossa existência.

Se vocês acompanham esta lógica, fica evidente que há para todos nós a possibilidade de produção das mais variadas respostas clínicas, sintomas não são exclusividade do grupo neuroses, assim como delírios e alucinações não são privilégio das psicoses e também as transgressões não são marca registrada das perversões. Bem, sempre soubemos disso, na medida que desde Freud não nos pautamos numa clínica fenomenológica. A diferença é que estas possibilidades de respostas variadas se tornam, nesta leitura que lhes apresento, um fato de estrutura e não mais uma montagem ou traços de um tipo clínico no outro. Com a expressão “um fato de estrutura”, quero indicar que a variabilidade de respostas está comportada na lógica, na escritura da cadeia borromeana pensada como estrutura. Assim, um sujeito pode estar psicótico e não sê-lo, pode neurotizar sua vida e não precisamos dizer que ele é neurótico, pode fazer muitas perversidades para consigo e os outros e não ser perverso. E mais, ele pode fazer tudo isto ao mesmo tempo: ter uma vida excessivamente regrada e ritualizada nos moldes obsessivos, o que não o impede de ter gozos perversos de várias formas ou de acreditar ser paranóicamente perseguido ou vigiado.

A tripartição freudiana se fundamenta na lógica edípica da castração, na fundação de um sujeito a partir da castração. Nesta outra lógica proposta por Lacan,em especial a partir da cadeia borromeana, o sujeito é parlêtre, é a perda estrutural de gozo introduzida pela linguagem e seus efeitos que nos caracteriza como sujeitos efunda a estrutura. Desta forma, a lógica edípica da castração deixa de ser o fundamentopara um diagnóstico, para uma classificação de acordo com a tripartição freudiana e adquire valor de leitura a respeito dos tempos do sujeito, tempos necessários de renovação de perdas de gozo, tempos de trabalho para o sujeito transformar a perdaestrutural de sua condição de parlêtre em falta, tempos que viabilizem um arranjo suficiente entre RSI, um enlace suficiente entre amor, desejo e gozo.

Que os arranjos e enlaces sejam suficientes, não significa que sejam absolutamente eficientes, ou seja, perfeitos. A estrutura é sempre falha, o sofrimento cotidiano na clínica e fora dela nos comprova este fato de estrutura. Como já vimos,uma psicanálise pode produzir formas menos sofridas de existir, pode viabilizar a criação de um saber fazer de outro modo, e, assim, diminuir os efeitos desta estrutura sempre falha. Nesta direção e acompanhando Lacan neste Seminário 23, fazer- se um nome é uma maneira de lidar com esta estrutura sempre falha na busca de rearranjos e enlaces que permitam mais tranquilidade, menos paralisia, mais criação, menos gozo podre. O nome que cada um faz e com o qual assina a autoria da obra que é a sua existência, o nome que cada um faz pode ter valor de Sinthoma. E, para tanto, não precisamos ser Joyce, escritor. Podemos ser, por exemplo, psicanalistas. Particularmente, acho este um nome muito interessante de fazer-se.

“Dígitos diminutos revelam-se tilintantes demais para frangalhonas frascárias. Anne escracha, flo escarrapacha – pode-se embora censurá-las?”

“Rochedo com abacaxi, limão cristalizado, amanteigado escocês. Uma garota açucarbesuntada padejando conchadas de creme para um irmão leigo. Alguma vaquinha escolar. Mau para os seus bandulhos. Fabricante de pastilhas e confeitos de Sua Majestade o Rei. Deus. Salve. Nosso. Sentado em seu trono, chupando jujubas vermelhas até o branco.”

“sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ela me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele para baixo de mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse eu quero Sims.”

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan
Membro da ALPL
zeilatorezan@associacaolivrepsicanalise.com.br

Sexo, Sexualidade e Sexuação

A partir da tríade amor, desejo e gozo sobre a qual trabalhamos neste ano na ALPL, elegi como título do texto de conclusão de cartel uma nova tríade: sexo, sexualidade e sexuação. Pretendo fazer um breve percurso sobre cada uma das tríades a fim de produzir uma articulação entre ambas, focando na importância dessa relação para o processo de sexuação. Ao longo do estudo do seminário 20, destacou-se para mim a proposição de Lacan sobre o que ele denomina sexuação. Tal interesse foi ganhando corpo em função de questões encontradas na prática clínica, em especial nos mais variados impasses frente às posições de homem e de mulher. Por fim, o recorte mais preciso da temática e a escolha do título se deram a partir de uma interlocução com a psicanalista argentina Alba Flesler.

AMOR, DESEJO E GOZO

Quando, seguindo Lacan, localizamos amor, desejo e gozo na cadeia borromeana, fica estabelecido que eles sofrem os efeitos das propriedades desta estrutura. Com a cadeia borromeana, real, simbólico e imaginário passam a ter o mesmo valor e operam de forma enlaçada e de maneira que essas dimensões fazem limites entre si. Portanto, ao situarmos a tríade em questão nessa estrutura borromeana, está proposto pensar amor, desejo e gozo também de forma enlaçada; não considerar uma hierarquia ou ordem valorativa entre eles e também reconhecer que cada um desses campos faz limite, faz borda aos demais. Com a cadeia borromeana, sabemos que quando uma dimensão não se delimita bem em relação à outra, temos excessos, invasões de um registro sobre o outro e, consequentemente, as nossas conhecidas manifestações clínicas. Seguindo a mesma lógica operatória, uma vez que amor, desejo e gozo estão localizados na estrutura borromeana, podemos ter falhas na delimitação de seus campos com a produção de excessos e invasões que ocasionem efeitos, digamos, de um certo descompasso ou um maior desarranjo entre os três campos, com consequências desagradáveis e complicadas. Vejamos alguns exemplos.

Certa vez uma mulher disse com toda a sinceridade e sem metáforas que havia pensado em congelar seu bebê, pois não sabia como fazê-lo parar de chorar. Era atormentada pelo medo de que a criança morresse e alternava tempos de cuidados maciços e excessivos com esquecimentos e descuidos. Poucos anos depois a criança morreu com um diagnóstico impreciso. O apetite devorador do gozo em cena dirigido à criança não pode ser freado pelo amor e/ou pelo desejo.

Não é raro ouvir jovens dizerem-se sem gosto por nada, muitas vezes deslizam metonimicamente da uma escolha de curso a outra, de um ficante a outro, de um estilo a outro, de uma droga a outra. Outras vezes, talvez para se defenderem da corrida desenfreada do desejo, sofrem de intensa inibição e apatia. Seus pais, ainda que amorosos e liberais (talvez permissivos), são tidos por esses jovenzinhos como distantes e não interessados por eles. Façam o que fizerem, acreditam não haver satisfação por parte dos pais, parece não haver quantum de gozo ou de amor suficientes para enlaçar o desejo de forma a refreá-lo.

Meu filho é tudo para mim; foi sempre tudo muito: muito amor, muita proteção; sempre foi uma criança frágil; eu só tenho minha filha na vida…
Essas e outras frases estão, com frequência, na fala de mães de crianças e adolescentes, nem sempre no sentido cronológico do termo, às vezes no sentido lógico também. Não é raro receber telefonemas de mães de jovens adultos para agendar horário para eles, momento em que falam algumas frases como as citadas. Uma delas chegou a ir pessoalmente ao meu consultório, para me conhecer, antes que o filho de mais de 20 anos fosse se consultar. Tudo isso por amor. Muito amor, só por amor. Sabemos como o amor como um fim em si mesmo é mortífero. Em geral, estes jovens se apresentam tímidos, desnorteados, dependentes, um tanto deprimidos e inibidos, atormentados com a sexualidade e incapazes de realizar escolhas e tomar decisões.

Feita a leitura sobre a primeira tríade, passo a alguns comentários sobre a segunda, e seguindo a indicação que Alba Flesler me deu na referida interlocução, destaco a importância de diferenciarmos e, ao mesmo tempo, relacionarmos sexo, sexualidade e sexuação. Sim, é necessário considerar os três termos e mesmo a relação entre eles, o conceito de sexuação estabelecido por Lacan não nega a existência, a importância e os efeitos do sexo e da sexualidade. E, na medida em que delineamos as diferenças e a relações entre tais termos, nos deparamos com a importância do enlace de amor, desejo e gozo no casal parental e em suas funções materna e paterna para o processo da sexuação.

O SEXO

O sexo é biológico, não há como desconhecer que nascemos portadores de um sexo anatômico, que mesmo não sendo o destino, não é sem consequências em nossa existência. As expectativas dos pais para o nascimento de uma criança certamente incluem o imaginário sobre seu sexo anatômico e junto com ele há uma série definições pré-estabelecidas por serem associadas àquele sexo: o nome próprio, as roupas, acessórios, brinquedos, cores e decoração do quarto, os comportamentos e desenvolvimento esperados(meninas são mais calmas, delicadas e afetuosas, os meninos mais agitados, arteiros e independentes; as meninas falam e andam mais cedo; meninos gostam de matemática e as meninas de português). Portanto, não é tão simples quando todo esse imaginário é construído para um sexo e é o outro que aparece no exame de ultrassom ou na nascimento da criança. Era uma vez um casal que esperava o nascimento de seu primogênito, nasceu uma menina que recebeu o nome de Sidiney. Ela tornou-se freira e adotou um nome feminino, nome de uma santa pouco conhecida e que em sua origem latina significa gozo, prazer, júbilo. Insisto, o sexo com o qual nascemos, o sexo biológico não é para nós o destino, ele não sela ou define uma posição de homem ou de mulher, mas está implicado no processo de produção dessas posições.

A SEXUALIDADE

Portanto, não sendo o sexo o destino, a sexualidade não é determinada pelas gônadas sexuais. A sexualidade vai se imprimindo num corpo que porta um sexo e é tomado pelo Outro como objeto de amor, de desejo e de gozo. Trata-se da erotização do Outro sobre esse corpo que porta um sexo. À medida que a criança é tomada alternativamente como tampão e como causa da falta no Outro, o tempo pode passar para que ela chegue ao que Freud chama de primeiro despertar sexual, quando é necessário que caia o véu da inteireza materna, um tempo provocador de angústia pelo abalo do imaginário de ser o falo da mamãe, e tempo prévio à possibilidade de não mais ser o falo, mas de poder tê-lo.

Mais à frente, é necessário haver por parte dos pais o reconhecimento e a autorização para crescer e se apropriar de um saber sobre seu sexo e sobre a sexualidade. No denominado segundo despertar sexual, o real do sexo e da diferença sexual é colocado em cena novamente, se deparar com o outro e seu corpo é agora um fato concreto, nem sempre fácil de abordar. Assim, esse tempo se caracteriza como um novo momento de angústia, agora também frente à sexuação, à redistribuição dos gozos, inclusive para que haja o enlace entre amor, desejo e gozo e ao encontro com o outro.

Havia uma mocinha muito curiosa e fascinada pelo funcionamento do corpo (o cérebro, os genes, os hormônios), e seu corpo correspondia a esse interesse de forma dolorosa: cólicas menstruais excessivas, dores de estômago, insônia, alergias e manchas na pele. Um dia, ela me perguntou: “você que é psicanalista, me diga, a sexualidade é assim tão importante nas nossas vidas?” Na verdade ela não demonstrava dúvidas quanto a isso, o difícil estava em como responder à importância da sexualidade e da sexuação.

Observo que o corpo portador de um sexo torna-se também um corpo da sexualidade e pode haver aí um desencontro entre o esperado para o sexo anatômico, os chamados da sexualidade e a posição sexuada. De qualquer forma, a sexualidade não é sem o sexo e ambos estão implicados na sexuação.

A SEXUAÇÃO

Dizer que a sexuação é um fato de discurso e não é determinada pelo sexo anatômico, mas não é sem a sexualidade, indica a implicação e a importância desta última na sexuação e, portanto, nos remete ao operador fálico como central nesta concepção. Sobre esse ponto destaco um posicionamento de Alba Flesler (2010). Com uma prática clínica extensa com crianças e adolescentes, a autora atribui relevância ao desejo entre o casal parental e seus efeitos sobre o sujeito. Não é sem consequências para as funções materna e paterna o que se passa entre a mulher e o homem, ou seja, entre o casal parental.

Nesta direção, não é vã a afirmação de Lacan: um pai merece amor e respeito quando toma sua mulher no lugar de causa de seu desejo. Assim, ele pode exercer sua função de nominação e colocar as coisas em seus devidos lugares: nomeia-se como pai, nomeia aquela como sua mulher e a criança como seu filho. Para que os tempos passem, a criança cresça, a função fálica e a falta se inscrevam é necessário que os pais possam relançar suas apostas e contribuir para que novas perdas de gozo se dêem. Para nós, parlêtres, não há ganhos sem perdas. E esse jogo do quem perde, ganha, está atrelado ao lugar que a criança ocupa para os pais, à maneira como ela é tomada pelo amor, pelo desejo e pelo gozo dos pais e também pelos efeitos do enlace de amor, desejo e gozo no casal.

Acima observei que o operador fálico é central ao conceito de sexuação, pois bem, na leitura de Lacan, dizer-se homem ou mulher indica a existência de duas diferentes modalidades de gozo a partir da lógica fálica. A sexuação trata, portanto, de uma divisão entre os seres falantes em relação a dois modos de gozo e não em relação ao sexo anatômico. Lacan (1985) reune suas elaborações acerca da diferença entre homem e mulher em fórmulas matematizadas, conhecidas como as fórmulas quânticas da sexuação.

Fórmulas Quânticas da Sexuação Conforme Lacan

A leitura desse quadro e suas fórmulas indica que do lado homem para todos se cumprem a função fálica, mas isso só pode ocorrer porque existe ao menos um que escapou a ela, ao menos um diz não à castração, a exceção faz a regra e permite o fechamento do conjunto. Por sua vez, do lado mulher não há exceção que possa fazer regra ou conjunto. Toda mulher está submetida à lógica fálica e como não há uma que escape, essa lógica não funciona por completo, a mulher está “não-toda” na lógica fálica. Então, a lógica fálica não recobre totalmente o que é ser mulher, como recobre o que é ser homem. Isso permite que deste lado se vá mais além da lógica fálica, num mais-além do gozo fálico. Desse lado não há conjunto que se feche e não todo do sujeito está submetido à lógica fálica, todo sujeito, porém, não todo de cada sujeito. Aqui nos deparamos com o aforismo a mulher não existe, no sentido de que não existe um significante que a diga, que a defina por inteiro, e não há um conjunto das mulheres.

Enfatizo como a função fálica é central à sexuação, o falo simbólico introduz a lógica da incompletude, possibilitando haver também um gozo além do fálico. E como vimos acima, para que a inscrição fálica se dê, para que a falta opere, há todo um processo de sexualização do vivente que depende, entre outras coisas, de como a criança é tomada pelos pais no enlace de amor, desejo e gozo. A sexuação se associa à nossa condição fundamental de parlêtre, e por sermos seres de fala não há mais uma relação direta e completa com as coisas, o atravessamento da linguagem produz um rombo, um buraco estrutural em nossa existência. Mas, para que esse buraco estrutural seja elevado ao estatuto de falta, e o desejo possa advir, as funções de antecipação materna e de nominação paterna são fundamentais. Retomo e ressalto a importância da nominação nesse processo, é através da nominação que o pai interdita o gozo incestuoso afim de que novos gozos possam ser autorizados, inclusive aquele que tange à sexualidade e à autorização de uma posição sexuada.

O conceito de sexuação também permite concluir que não há para nós relação, proporção, no sentido lógico do termo entre os sexos. Não há acoplamento, não há adequação, não há encaixe perfeito entre os sexos de forma a produzir a anulação de dois e, portanto, da diferença. Então, duas posições sexuadas, dois modos de gozo: o gozo fálico do lado do homem e o mais além do gozo fálico do lado da mulher. Mas para chegarmos aí e podermos nos autorizar homem ou mulher, é necessário que sejamos tomados alternadamente no lugar de gozo e de significação fálica (e, para tanto, amor e desejo devem estar presentes), é necessário o enlace de amor, de desejo e de gozo para que de um sexo se chegue à sexuação, através da sexualidade.

Autora: Zeila Torezan

 

Referência Bibliográfica

Flesler, Alba. El niño en análisis y el lugar de los padres. Buenos Aires: Paidós, 2010.

Lacan, Jacques. O Seminário: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

Passo a Passo

Quando recebi, com muita alegria, o convite do Espaço Moebius com o tema desta Jornada, logo me ocorreu um pensamento que definiu o que abordaria em minha fala e também intitulou meu trabalho. Pensei: passo a passo; a prática clínica se produz passo a passo. Decidi me deixar levar por esta associação para escrever meu texto e compartilhar um pouco como tenho pensado e trabalhado a clínica e, em especial, como entendo que uma prática clínica vai se construindo.

Assim, já vou delimitando uma primeira formulação que hoje considero fundamental, mas, confesso a vocês, me custou muito tempo e trabalho: existe mais de uma psicanálise e, portanto, mais de uma clínica, há plural para ambas. Psicanálise, no singular, é aquela que cada um pratica a partir de um estilo próprio produzido, em especial, com a análise pessoal e de acordo com a adoção de uma determinada lógica a respeito de noções cruciais como as de sujeito, estrutura, inconsciente, transferência, ato analítico, cura, entre outras.

Enfatizo que levou muito tempo para que essa formulação pudesse ecoar de maneira efetiva em minha prática e posição como analista. No chamado frescor da juventude, época da vida que acredito combinar mais com calor do que com frescor, defendia com veemência a existência de uma só psicanálise, a única verdadeira. Tudo o mais que levasse tal nome era equívoco ou mesmo má fé, desvio, charlatanismo, enganação. Não pensem que voltei a acreditar em Papai Noel e tenho uma fé pura na humanidade, acho até que estou bem longe disso. Como em qualquer outra área de atuação, também existem equívocos importantes naquilo que, muitas vezes, se professa em nome de alguma psicanálise. Entretanto, tais distorções não excluem a existência de mais de uma leitura da teoria e de diferentes maneiras de trabalhar com a psicanálise de forma séria e ética. Existem diferentes lógicas que orientam as diferentes clínicas psicanalíticas que praticamos.

Atualmente considero que um dos passos mais importantes no processo de produção de um analista e de sua prática é a escolha de uma psicanálise a partir da qual constrói a clínica que pratica. Essa escolha e o trabalho que aí se produz embasado numa determinada lógica é o que legitima a clínica que se exercita.

Sigo fiel ao propósito de me deixar levar pela associação inicial (passo a passo, a prática clínica se produz passo a passo) e abro um segundo aspecto de trabalho. A expressão passo a passo comumente é associada a um ritmo lento, que demanda tempo, algo feito com tranquilidade e sem pressa. A rapidez nunca foi meu forte. A persistência me cai melhor. Sempre gostei de ditados como “quem tem pressa come cru” e “os últimos serão os primeiros” (este era meu preferido, afinal sou a última filha de oito irmãs e com o nome começando com a letra Z). Era assim, sem pressa e com persistência na escola, na execução das tarefas com antecedência pelo gosto de fazê-las devagar, na dança, no gosto pela Yoga ou no melhor potencial no atletismo nas provas de resistência do que nas de velocidade. E assim também tem sido o caminhar com a clínica psicanalítica, passo a passo, com persistência e resistência, num ritmo mais lento do que veloz.

Compartilho com vocês que tal ritmo na clínica muito me incomodou. As dificuldades encontradas na prática depois de tantos anos de análise, seminários, estudos, supervisões, tudo envolvendo bastante tempo e dinheiro, me pareciam indicadoras de uma espécie de atraso. Hoje me sinto auxiliada pelos referidos anos de muito trabalho e pelas dificuldades e tenho outra leitura deste processo. Ressalvada a obviedade das diferenças individuais, aposto no que a minha associação revela: ao menos nesta psicanálise que escolhi, a prática clínica se produz de fato lentamente, passo a passo. E, ao invés de problema, isso agora me parece, se não solução, ao menos condição. É passo a passo que vamos fazendo nosso caminho, abrindo nossa trilha.

Tuto, cito, jacundi, dizia Freud, na conferência 28 (1916-17), com a psicanálise não é possível que as coisas se deem de forma fácil, breve e com alegria, tanto do lado do analisante, quanto do analista. Portanto, creio ser necessário dispor de tranquilidade e paciência que permitam suportar os processos de produção de um analista, de construção de uma prática clínica e da condução de uma análise, os quais, além de morosos e trabalhosos são também intermináveis: um analista e sua clínica, assim como uma análise, jamais estarão definitivamente prontos e/ou acabados.

Pois bem, essa psicanálise que escolhi está longe de esperanças vãs de uma felicidade mágica, milagrosa ou química. Ela enfatiza a singularidade e o reconhecimento do sujeito e de sua implicação na vida que leva, sempre apontando para a responsabilização por aquilo que lhe sucede. Tal psicanálise afirma que um sujeito goza sofrendo e se esforça para manter essa situação até que ela se torne insuportável. Trata-se de um gozo paradoxal, que inibe, retira as energias, tolhe a liberdade e as perspectivas na vida, as quais se tornam limitadas e invadidas por fracassos.

Neste contexto, uma análise busca produzir alguma transformação, com a possibilidade de outras modalidades de gozo não tão sofredoras e/ou parasitárias. Harari (2008) diz que essa psicanálise visa produzir um pouco de liberdade em relação ao sintoma, para que se possa, como diz Freud, amar para além do seu sintoma como a si mesmo. Acho esta uma formulação muito interessante: que o gozo possa transcender aquele do sintoma, trabalhamos para que o sujeito possa transformar um gozo sintomático em outra coisa. A análise busca uma saída das inibições, dos fracassos, da fuga das responsabilidades, saída para tudo aquilo que impede uma passagem para o mundo, uma saída para aquilo que Freud chamava de introversão libidinal.

Saber fazer ali com, disse Lacan, com os mesmos elementos que compõe o sintoma e o sofrimento, fazer, produzir alguma outra coisa, transformar. Portanto, está em questão um agir no mundo e não apenas uma nova leitura interior, um insight. Poder se libertar um pouco do que parecia um destino, produzindo um estilo. Esta pode ser uma forma de se pensar o fim de análise. Bem, não dá para fazer isso rapidamente, tem que ser passo a passo.

Prosseguindo nas associações, passo a passo pode remeter a uma ordem fixa e necessária, geralmente graduada de uma menor para uma maior complexidade ou dificuldade, a ser seguida para que uma tarefa se complete. Uma sequência pré-estabelecida de passos a serem dados para alcançar um objetivo. Bem, o passo a passo aqui em questão não é bem assim. Acima fiz alusão à abertura de uma trilha, como quando andamos no mato e vamos abrindo o caminho. Emprestei esta metáfora de Isidoro Vegh (2013), ele a usa em seu livro Senderos del analisis, sendero é caminho, mas um caminho que se faz ao caminhar, como quando na abertura de uma trilha.

Acredito que com Lacan, aprendemos que não há como termos uma definição standard dos passos a darmos em nossa produção como analistas e o mesmo vale na condução de cada uma das análises que assumimos e, portanto, na construção de nossa prática clínica. Alguém poderia argumentar que há sim um primeiro passo no que tange à chamada formação de um analista, que seria chegar ao final de uma análise pessoal, afinal, sabemos que um final de análise produz um analista. E que o passo seguinte seria a entrada numa instituição, pois não é assim que Lacan enuncia, um analista se autoriza de si mesmo e de alguns outros? De acordo, mas quantos de nós começaram a prática clínica apenas após um final de análise? E quantos se jogaram numa escola após um final de análise? Creio que não ocorreu assim com a maioria de nós, é muito comum em nosso meio começarmos com a clínica bem antes de um final de análise, nem todos se envolvem em uma instituição e não considero que estes fatos nos desqualificam. Além do mais, podemos necessitar e decidir fazer outras voltas de análise, muito depois do final de uma primeira, não vejo nenhum mal nisso, e se houvesse esta ordem rígida dos passos, isso significaria que estaríamos regredindo, voltando passos atrás, ou que aquele primeiro final de análise não foi verdadeiro? Não penso que seja assim. Claro, existem passos necessários e fundamentais para a produção de um analista e de sua prática clínica, assim como para a condução de uma análise, mas não há como padronizá-los numa ordem obrigatória e essencialmente cronológica ou graduá-los do simples ao complexo.

E falando em simples e complexo, acompanho mais uma vez Isidoro Vegh (2013a) e agora também Tyszler (2011), ambos apresentam a formulação de que na psicanálise não partimos do simples para chegar ao complexo, ao contrário, o simples é o ponto de chegada. Uma chegada que se produz após muito trabalho em todos os sentidos: trabalho com os textos, trabalho com a clínica, trabalho de análise pessoal e de controle. Quando em nosso percurso vamos desenvolvendo e nos apropriando de uma determinada lógica que passa a operar em nossa prática, daí advém o simples, a lógica produz simplicidade e não complexidade. Simplicidade aqui rima com tranquilidade para suportar e acompanhar, sem pressa, o tempo, o ritmo, os passos de cada um de nossos analisantes.

A psicanálise como experiência da transferência e de sua manobra é uma operação lógica da qual o analista é a causa. Esta posição de analista não é nada confortável, Lacan (2000), em O saber do psicanalista, chega a dizer que é uma aberração que ao final de uma análise alguém se decida a trabalhar como analista, se decida a ocupar uma posição tão incômoda. O operador desejo do analista é um nome dessa aberração. A análise do analista precisa, portanto, produzir o operador desejo do analista para capacitá-lo a dirigir os tratamentos analíticos do começo ao fim da transferência. Neste sentido, acredito que um outro passo fundamental na produção de um analista é que ele possa desdobrar em sua análise pessoal a seguinte pregunta: por que quero trabalhar como analista? Por que esta aberração me concerne?

A expressão usada por Lacan, “passo o tempo passando o passe” (Vegh, 2013a) parece indicar, mais uma vez, o interminável da tarefa de produzir-se analista e, portanto, a inexistência de uma resposta única e definitiva para a pergunta que estabeleci acima. Acredito que esta pergunta deva ser renovada e retrabalhada ao longo de nosso caminhar, de nossos passos, como analistas e que, em diferentes momentos, esta aberração pode nos concerner por diferentes motivos. E mais, se não há uma condição ontológica em nossa função, se não somos analistas, apenas operamos como tal, ocupamos este lugar, a renovação de tal questão me parece mesmo necessária, pois, em algum momento pode ocorrer que esta aberração não me concerne mais e, consequentemente, o operador do desejo do analista não pode mais ser sustentado. Se podemos pensar a condição de analista como um sinthoma, ou seja, como algo que opera em nossa estrutura e aí tem uma função, é possível considerar que este sinthoma possa ser substituído por outro, que ele perca o valor e função que adquiriu na estrutura. Passos infindáveis, mas nem por isso, necessariamente, eternos.

Por fim, quero destacar a importância, para a prática clínica de cada um de nós, do passo que estamos dando aqui nestes dois dias de trabalho. Que o analista seja ao menos dois, diz Lacan, que ele possa, para além da sua clínica e das análises que conduz, trabalhar sobre sua prática e transmitir algo sobre ela. É o que fizemos, com entusiasmo, nesta Jornada. Muito obrigada pela companhia de vocês nesse passo.

Autora: Zeila Torezan
zeilatorezan@gmail.com

 

Referência Bibliográfica

Harari, Roberto. O Psicanalista, o que é isso? Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2008.

Lacan, Jacques. O saber do psicanalista (71-72). Recife: CEF, 2000.

Tyszler, Jean-Jacques. As metamorfoses do objeto. Clínica da pulsão, da fantasia e da letra. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2011.

Vegh, Isidoro. As intervenções do analista. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2001.

Vegh, Isidoro. Senderos del análisis. Progresiones y regresiones. Buenos Aires: Paidós, 2013.

Vegh, Isidoro. Paso a pase con Lacan. Buenos Aires: Letra Viva, 2013a

A Felicidade e a Boa Sorte do Sujeito

As pessoas procuram um psicanalista, um psicólogo ou um psiquiatra porque sofrem, das mais diversas maneiras. Como analista, recebo aqueles que trazem questões e sintomas bem delimitados e específicos, os quais atrapalham um viver mais alegre. Outros, ao contrário, falam de uma vida amplamente desafortunada e queixam de mal estar, apatia, tristeza e/ou de fracassos de forma generalizada. Há, ainda, a somatória das duas queixas: na falta de sorte generalizada algum sintoma se particulariza. Por sua vez, não são raros os que sentem-se acometidos pelo referido mal-estar e tristeza generalizados, a despeito de se considerarem pessoas de sorte: têm sucesso profissional, família, dinheiro, amor, mas, ainda assim, não são felizes.

Também observo ser frequente, nas diferentes apresentações no início de uma análise, a pergunta sobre o porquê da insistência dos sintomas, sentimentos e acontecimentos dos quais se queixam e para os quais buscam uma solução. Soma-se à tal questão a estranheza frente ao que parece se reapresentar de forma misteriosa, ou, como dizia Freud, demoníaca: a má sorte, o fracasso, o abandono, a tristeza.

Freud se interessou por e teorizou sobre essas diferentes formas de apresentar e vivenciar o sofrimento, marcando uma distinção entre neurose de transferência e neurose de caráter (1912 com um texto sobre a neurose obsessiva, 1916 – texto sobre alguns tipos de caráter e um capítulo de Além do princípio do prazer). Nas neuroses de transferência, um sintoma se apresenta muito claramente e o sujeito pede, em sua demanda de análise, para se livrar disso que não anda bem e insiste, pede para se livrar do sintoma que, muitas vezes, considera repetir-se em sua vida. Por outro lado, no que Freud denomina de caráter, temos sujeitos que apresentam um mal-estar e fracassos generalizados, sem uma formação sintomática muito bem estabelecida. Freud se intriga muito com esse segundo tipo, propõe que esses sujeitos possuem alguns traços de caráter que os levam a repetir tais fracassos, mas de forma que eles se apresentam como uma força demoníaca, como se o sujeito os sofresse passivamente, como se fossem uma armadilha do destino.

Então, quando realço as diferenças na maneira como aqueles que chegam para uma análise são afetados por e falam de seu sofrimento, me refiro não apenas à óbvia singularidade do discurso e do sofrimento de cada um, mas, em especial à diferença apontada por Freud entre a repetição que ele considera atrelada a uma formação sintomática e aquela que ele associa aos fracassos mais generalizados e como que pertencentes ao acaso. O redimensionamento, através do trabalho de Lacan, da concepçãode sintoma aí em voga, não exclui, em meu entendimento, o valor da formulação freudiana, a qual nos indica a necessidade de precisarmos o conceito de repetição e já reconhece no mesmo mais de uma dimensão e a transcendência da mera reprodução.

Vejamos como podemos encontrar esses elementos na prática. Quando alguém chega dizendo que a bebida ou as drogas se tornaram um tormento, um sofrimento do qual quer se livrar, é possível dizer que apresenta sua questão de trabalho como um sintoma (pois reconhece algo que não vai bem, do qual quer tratar e no qual se vê implicado) e se pergunta porque repete: “Por que não paro de beber ou me drogar? Porque continuo fazendo isso se sei que não me faz bem?” Ou ainda, quando alguém se queixa de impotência e se pergunta: “Porque brocho cada vez que me interesso por uma mulher?” Insisto, nessas situações, a pergunta sobre a repetição está colocada de maneira direta – a insistência de algo atrelado ao sofrimento, atrelado ao sintoma, lhe intriga – e o sujeito se diz aí implicado.

Entretanto, a pergunta sobre a repetição também está presente quando, de forma aparentemente passiva, o sujeito se encontra sempre no mesmo lugar e isso lhe provoca angústia ou mal-estar generalizados. Sujeitos que parecem “destinados” à ingratidão, ao abandono, à solidão, ao fracasso, pois em várias esferas de suas vidas isso se repete. Homens ou mulheres cuja vida amorosa é sentida como um fracasso eterno, com relacionamentos que contemplam fases e finais semelhantes ou mesmo idênticos. Pessoas que profissionalmente não crescem e são vítimas dos mais variados acontecimentos: roubo de sócio, demissão em massa, depressão econômica que leva à perda do emprego, falência. Nesses casos, a pergunta sobre a repetição é feita colocando em questão o acaso, o destino, o azar ou má sorte. Foi por este tipo de repetição que Freud mais se interessou, talvez porque ela coloca em cena o além do princípio do prazer, evidenciando a contravenção da natureza no humano que Freud associou ao conceito de determinismo psíquico. Mas hoje, acredito que ambos os aspectos da repetição devem nos interessar, pois compõem com importância a clínica.

Como analistas, em nossa clínica, devemos sempre nos interessar e acompanhar as questões no que elas apresentam de singular a cada vez que são formuladas. Também como analistas, no trabalho de transmissão, como é o de hoje, devemos procurar construir, a partir do que é singular, elementos que possam nos ajudar a nortear a clínica. Nesse sentido, o meu interesse é produzir uma leitura, sempre a partir daquilo que a clínica me convoca, sobre a articulação, feita por Lacan, entre a repetição e a felicidade e/ou boa sorte (feliz acaso ou boa fortuna), em francês: bonheur e bon heur. Para tanto, a partir dos comentários que tracei inicialmente, chamo a atenção de vocês para alguns elementos que fundamentarão este meu recorte do tema da repetição.

O primeiro ponto, que peço que considerem com cuidado, é que na busca de um tratamento que possa eliminar ou diminuir o sofrimento está sempre implicada uma demanda de encontrar alguma felicidade ou, por vezes, muita ou toda felicidade. É o que os analisantes nos dizem, eles querem ser felizes e se intrigam por não serem: “tenho tudo para ser feliz e não sou; quero apenas ser feliz; porque eu nunca me sinto feliz?; não sei o que é felicidade…” Foi também o que Freud (1930/1996) observou em Mal-estar na civilização: “O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar? A resposta não pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer.” E, por sua vez, Lacan (1959-60/1997): “O que nos demandam, é preciso chamá-la por uma palavra simples, é a felicidade.” (p.350). Nessa direção, uma questão importante sobre a qual pretendo trabalhar hoje: o que é felicidade para a psicanálise e qual é a felicidade que os analisantes nos demandam, já adiantando haver uma diferença entre ambas.

Em segundo lugar, chamo a atenção de vocês para a relação, estabelecida nas queixas, entre a infelicidade e o que se repete. Tanto a insistência de sintomas, quanto o estranho acaso de acontecimentos e sentimentos são identificados como obstáculos à felicidade. Atrelada à tal constatação, observo que o incômodo, a intriga e a estranheza provocados pela repetição, favorecem uma demanda de análise, na qual se busca, entre outras coisas, a tal felicidade.

Na sequência, percebam que boa sorte, sucesso e felicidade não andam necessariamente juntos, como, a princípio, se poderia pensar. Nem sempre a aparente boa sorte ou sucesso são vivenciados de forma feliz e, nem sempre, aquilo que olhares externos veem como fracasso ou como má sorte faz a infelicidade do sujeito. Muito bem, mas então, o que é e onde está a felicidade? E ainda, o que pode ser a boa sorte para o sujeito do qual a psicanálise se ocupa?

Em Televisão – texto publicado a partir de uma entrevista dada por Lacan (2003) em 1973 – no momento em que está respondendo a uma questão sobre o suposto descaso com os afetos em seu trabalho, Lacan contra-argumenta, falando da importância que deu à angústia, à qual dedicou um de seus seminários e sobre a qual produziu uma leitura que não mais nos permite desconsiderá-la na clínica. A partir desta referência à sua particular tomada e posicionamento sobre o afeto, Lacan passa a discorrer sobre a tristeza, o gay sçavoir e a felicidade. Situando a tristeza e o gay sçavoir – saber alegre que podemos alcançar em uma análise – em polos opostos, indica que a ética da psicanálise é a do bemdizer e que só há saber, gay sçavoir, no não sentido. Entre um polo e o outro, entre a tristeza e o gay sçavoir, Lacan pergunta onde estaria a felicidade:

“Nisso tudo, onde está o que traz felicidade, feliz acaso? Exatamente em toda
parte. O sujeito é feliz. Esta é a sua definição, já que ele só pode dever tudo ao
acaso, à fortuna, em outras palavras, e que todo acaso lhe é bom para aquilo que
o sustenta, ou seja, para que ele se repita. O espantoso não é que ele seja feliz sem
desconfiar do que o reduziu a isso – sua dependência da estrutura – mas que
adquira a idéia de beatitude, uma idéia que vai tão longe que o sujeito sente-se
exilado nela.” (p.525)

Vejam só, diferentemente de Freud, que considerou a felicidade impossível e relacionou a repetição a essa impossibilidade e, também, contrariamente ao que ouvimos de nossos analisantes, Lacan diz que a felicidade já está com o sujeito e está atrelada, exatamente, à repetição. O que isso quer dizer? Antes de esboçar uma leitura a esse respeito, acrescento mais uma citação de dois anos mais tarde, em uma conferência pronunciada em 1975 nos Estados Unidos, na Universidade de Yale, Lacan toca novamente na felicidade, atrelando-a ao final de análise:

“Me desculpem se o que eu digo parece – o que não é – audaz. Somente posso dar
testemunho do que minha prática me provê. Uma análise não deve ser levada
muito longe. Quando o analisante pensa que é feliz por viver, é suficiente.”

Me soam mesmo muito intrigantes essas formulações de Lacan e espero que vocês me acompanhem no interesse pelas mesmas e no trabalho de desdobrá-las. Primeiro, o sujeito é feliz por definição, mas não sabe muito bem disso, e tal condição se articula à repetição como lei constituinte do sujeito, está atrelada à boa sorte ou feliz acaso como fato de estrutura. Pouco depois, o final de análise é associado à possibilidade de se “pensar feliz por viver”. Arrisco uma hipótese: será que “pensar ser feliz por viver” significa poder saber, saber alegremente, sobre a primeira afirmação, ou seja, sobre o fato de que “o sujeito é feliz” nisso que atualiza o encontro faltoso com o Real?

Me parece uma leitura possível, principalmente quando retorno à clínica. Exemplifico com um final de trabalho de uma analisante que foi para mim muito marcante e com o qual pude apreender um pouco mais as referidas construções de Lacan. Após alguns anos de trabalho sobre a impossibilidade de sentir-se bem em sua vida de forma geral, fato bem representado pelos repetitivos fracassos em exames para uma almejada ascensão profissional, ela conclui que seus fracassos eram para ela, até então, um feliz acaso e não uma má sorte. Feliz acaso que ela produzia, pois fracassar nas provas permitia que se descolasse de um ideal de perfeição, de filha perfeita, que a aterrorizava. Então, a repetição se emparalha com o sintoma, delimitado por seu fantasma, protegendo-a de uma suposta posição à mercê do Outro. Finaliza aí sua análise, pouco antes de obter o resultado do último exame que havia feito (pois o resultado já não mais importava, não era mais nele que estava sua felicidade) e no qual, vim a saber depois, obteve sucesso. Na saída da última sessão, me abraçou, agradeceu pelos anos de trabalho e disse, com ternura, que um dia voltaria, mas que naquele momento pensava que era feliz. Tantas vezes enlouquecemos para tentar compreender a teoria, quando, na verdade, se acompanharmos com atenção o que nos dizem os analisantes, conseguiremos construir a teoria com a leitura do discurso aí produzido.

Como todo analisante, essa jovem chegou demandando, através de sua queixa, felicidade e acreditava que era com a aprovação em um exame que a alcançaria. Posição absolutamente exemplar da idéia de felicidade que temos na cultura, ainda por influência de Kant: a felicidade é um bem a ser alcançado por merecimento e é associado à boa adaptação. Pesa sobre essa formulação um valor moral, muito explorado pelo utilitarismo e pelo capitalismo. Entendo que é essa felicidade que, não apenas essa moça, mas todos os analisantes chegam demandando. De uma forma ou de outra, apostam que com a análise serão pessoas melhores, bem adaptadas e, então, merecerão ou alcançarão a felicidade. Certamente, não é isso que uma análise pode oferecer, mas tudo bem, porque trabalhando, essa jovem – e quem mais apostar em uma análise – percebe que boa sorte e sucesso nem sempre andam juntos e que o encontro faltoso da repetição é necessário e traz boa sorte. A partir daí, o sintoma perde sua função e se torna prescindível, assim, a aprovação deixou de ser temerosa e a idéia de felicidade adquiriu uma outra dimensão: ela pode pensar ser feliz ao invés de se escravizar sendo a boa menina para merecer a felicidade.

Agamben (2007), em um pequeno e denso texto denominado Magia e Felicidade, apresenta essa noção de felicidade, que se contrapõe à moral kantiana, da qual trata Lacan e que pode ser reconhecida por essa jovem. Amparado pelas idéias de Walter Benjamin, Giorgio Agamben diz: 

“Benjamim disse, certa vez, que a primeira experiência que a criança tem do
mundo não é a de que ‘os adultos são mais fortes, mas sua incapacidade de
magia’. A afirmação, proferida sob o efeito de uma dose de vinte miligramas de
mescalina, não é, por isso, menos exata. É provável, aliás, que a invencível
tristeza que às vezes toma conta das crianças nasça precisamente dessa
consciência de não serem capazes de magia. O que podemos alcançar por nossos
méritos e esforço não pode nos tornar realmente felizes. Só a magia pode fazê-lo.
Isso não passou despercebido ao gênio infantil de Mozart, que, em carta a
Bullinger, vislumbrou com precisão a secreta solidariedade entre magia e
felicidade: ‘Viver bem e viver feliz são duas coisas diferentes, e a segunda, sem
alguma magia, certamente não me tocará. Para isso deveria acontecer algo
verdadeiramente fora do natural’. ” (p.23)

Não há nada mais fora do natural do que o sujeito do qual a psicanálise se ocupa, a linguagem produz uma desorientação pela perda do instinto e o inevitável desencontro entre as palavras e as coisas. Não há nada mais fora do natural e, aparentemente, mágico (demoníaco, diria Freud; necessário, diria Lacan) do que a repetição, associada por Lacan à estrutura do sujeito. Portanto, em sua desnaturação e magia, o sujeito é feliz; o sujeito é feliz na repetição que o sustenta na sempre diferença entre o esperado e o encontrado, no encontro sempre falho e não-todo.

Retomo o texto de Agamben:

“Na antiga máxima segundo a qual quem se dá conta de ser feliz já deixou de sê-
lo, mostra-se que o estreitamento do vínculo entre magia e felicidade não é
simplesmente imoral, e que ele pode até ser sinal de uma ética superior. A
felicidade tem, pois, com seu sujeito uma relação paradoxal. Quem é feliz, não
pode saber que o é; o sujeito da felicidade não é um sujeito, não tem a forma de
uma consciência, mesmo que fosse a melhor. Nesse caso a magia faz valer sua
exceção, a única que permite a um homem dizer-se ou considerar-se feliz.” (p. 24)

Sim, como Lacan, Agamben trabalha a felicidade sobre uma outra ótica que não a kantiana e, dessa felicidade não natural, não moral e mágica que está com o sujeito por sua estrutura, não se trata de sabê-la conscientemente. Mas é possível se produzir um outro tipo de saber sobre ela, um saber alegre que nos permita pensar que somos felizes quando o necessário do encontro faltoso da repetição deixa de ser sentido como má sorte. Dito de outra forma, pensamos ou sabemos ser felizes quando estamos de bem com o inconsciente que nos determina e, portanto, com algum inevitável mal-estar a partir do efeito de não proporção, de desencontro e de não-todo provocado pela linguagem. É isso…. ou pior.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

Agamben, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: J. Strachey, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, Jacques. O aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 7. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

Lacan, Jacques. Televisão. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Lacan, Jacques. Conferência na Universidade de Yale. Disponível em: www.elpsicoanalistalector.blogspot.com.br.

Historiando Vidas ou a Constituição do Sujeito em Tempos de Violência

Um psicanalista, diante de uma criança pode posicionar-se de diferentes formas. Mas se um psicanalista, assim como eu, comungar das ideias de Alba Flesler quando afirma que o psicanalista atende a criança, mas aponta para o sujeito e pondera que este sujeito, mais que idade tem tempos, então este analista encontrará o que há de específico no ato analítico.

            A ideia inicial deste trabalho era refletir sobre as vicissitudes de um sujeito em constituição quando o Outro se apresenta a este pequeno sujeito com muita agressão.

            Lembro-me, ainda com espanto, de uma mãe que me procurou devido às sucessivas agressões que o pai havia cometido contra o filho do casal desde tenra idade. Naquele momento o filho, já adolescente, encontrava-se em uma outra (e quem sabe a mesma) situação de violência: trabalhava para o tráfico de drogas. Dizia-me a mãe: “Um dia quando Zezinho tinha por volta de três anos, o pai chegou em casa sob efeito de álcool e drogas. Zezinho estava adormecendo no sofá e o pai jogou-o longe, como se ele fosse uma almofada.”

            Penso ainda hoje o que é para um sujeito ocupar no mundo este lugar de almofada do pai, de objeto para o gozo do Outro. Quais as possibilidades de o sujeito advir? Não por acaso, Zezinho contou-me nas poucas ocasiões que tive de ouvi-lo sobre a crueldade e rigor de seu “patrão”, expressão que ele se utilizava para referir-se ao traficante, chefe da “boca” em que trabalhava.

            Tal reflexão – as vicissitudes da constituição do sujeito diante da agressão do Outro – torna-se um grande complicador, já que o sujeito responde ao chamado do Outro de maneira muito singular e tais respostas se relacionam com os tempos do sujeito.

            Os tempos a que me refiro situam-se entre a proposição do Outro e a resposta do sujeito a essa proposição.

            Recorro novamente a Flesler, que articulando os tempos que Lacan conceitualizou com os três registros do sujeito da estrutura, Real, Simbólico e Imaginário, situa-os da seguinte forma:

1 – Num primeiro momento, o Outro propõe e o sujeito responde que sim, se alienando da proposta. Trata-se de ser ou não o falo, um tempo onde predomina o registro Imaginário, com escassos recursos simbólicos para enlaçar Real e Imaginário.

2 – A autora traça um segundo tempo, tempo de despertar, de deixar descoberto aquilo que se encobria; onde o que a criança vê é a castração do Outro primordial, tempo do primeiro despertar sexual, que no conceito lacaniano localiza-se o instante de ver, cujo predomínio é do registro  Real.

3- O tempo anterior abre possibilidades ao sujeito, ainda que desperte grande angústia. Surge, nesse momento o conflito de ser ou ter o falo, tempo que abre possibilidades para que a separação do Outro se efetue. Nesse tempo é de suma importância que se faça operar o “desejo dos pais”, operação de antecipação e nominação do sujeito, que aponta para o sujeito um lugar de não mais ser o falo, mas que permite ao sujeito ter falo. Tempo de predomínio do registro Imaginário. Esse lugar de ter falo só se faz possível se o Outro suporta a separação e a distribuição de gozo exigida por esse novo tempo.

4 – Caso o Outro suporte, segue-se um tempo, um tempo de sexualidade pulsante onde as crianças questionam normas e leis. Quando chancelada à busca pelo saber, a criança aprende a ler e escrever. Este tempo, tempo de compreender será de predomínio simbólico.

5 – Ao desdobramento desse tempo de compreender segue o segundo despertar sexual, ou como Flesler o coloca, o drama puberal ou adolescência, tempo de questionamentos sobre o sexo e a autoridade e, novamente, de predomínio do registro Real.

6 – Em um momento de concluir, de conclusão da infância, a operação desejo dos pais se faz novamente necessária, antecipando e nomeando novamente o sujeito, permitindo a ele um gozo para além do grupo familiar. Tempo de enlaçamento Real, Simbólico e Imaginário.

             A questão do tempo se faz necessária para essa reflexão sobre a constituição do sujeito e violência. Isso porque delimitar tais tempos, que não são cronológicos, mas lógicos e, logo, não seguem uma sequência natural, já que por ser um ser de linguagem o humano rompe com a natureza, toca em uma questão importante para nós hoje. Essa questão diz respeito à linha mestra deste ano em nossa associação, que é pensar sobre psicopatologia: sujeito e estrutura.

            As questões não nos tomam de assalto sem uma intencionalidade. Tal anseio pela reflexão proposta advém de um trabalho não analítico, em uma instituição pública voltada para crianças e adolescentes em situação de violência. O dia-a-dia com estes sujeitos em diferentes tempos de constituição me colocam muitos interrogantes. Ainda que o Estado demande que seus “técnicos” “livrem” as crianças encaminhadas para tal instituição de um suposto sofrimento que elas tenham vivido em razão da violência sofrida, o que ouço desses pequenos sujeitos é uma outra coisa. Ou dizendo de outra forma, ouço uma porção de coisas, que não necessariamente o que é ser vítima ou  ainda, o que é ser vítima de violência.

            Essa experiência institucional, de um trabalho não analítico, sustentado pelo desejo do analista (não me aprofundarei nessa questão), juntamente com os trabalhos desenvolvidos esse ano na Associação Livre, em especial o trabalho de cartel sobre o seminário 23, permitiu-me recolocar minha questão.

            Mais importante, para mim nesse momento, que as vicissitudes possíveis do sujeito que se vê muito precocemente enlaçado ao Outro em meio a agressão, são as respostas singulares que este sujeito dá ao vivido.

            Se a estrutura é a do sujeito que comporta sua posição frente à falta, há de se considerar o que Lacan nos coloca no final de seu ensino: a estrutura não como uma anterioridade e sim a que se constrói como efeito de linguagem e de forma retroativa. Dessa forma, a estrutura do sujeito não tem nada de palpável, de objetivável, de interioridade. O sujeito não é o objeto da psicanálise, pois a psicanálise não tem objeto. O que interessa ao analista é a aparição do sujeito, que não é objetivada.

            Sendo assim, numa oficina de contação de histórias na instituição pública em que ouço crianças de todas as idades e, por vezes, sujeitos em diferentes tempos, uma criança de onze anos revela ao grupo que sua história favorita era “O Diário de Anne Frank”, em meio a “Chapeuzinhos Vermelhos” e “Procurando Nemo”. Essa mesma criança, apreciadora da história de Anne Frank, conta-me ao pé do ouvido uma situação difícil pela qual passou antes de vir à oficina. Convidada a relatar o ocorrido ao grupo ela se nega, mas pede-me que conte. Com toda licença poética que me permiti, dramatizei seus percalços, dando um tom pessoal a uma história que, a partir de contada, passou a ser minha. Mas minha jovem interlocutora, foi aos poucos se apropriando de sua própria historia, acrescentando detalhes e construindo no grupo algo que lhe era pessoal e intransferível. A história contada despertou no grupo o desejo de contar histórias, de outros ou suas, construídas sempre no momento em que se toma a palavra.

            Entendi que a palavra nos dá âncora, faz ancoragem, permite ao vivente se segurar no mundo. Numa análise, se o texto que o analisante apresenta é um texto construído, então a possibilidade de reconstrução é enorme, dando-nos uma grande liberdade para trabalhar.

            E já que este trabalho se trata de crianças e histórias, terminarei este texto homenageando o saudoso poeta Manoel de Barros, que nos deixou recentemente e que entendia muito de palavra e criança: “A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos.”

Para mim, de forma poética, essa pode ser uma definição do trabalho da análise.

A Angústia e o Duplo

Esse trabalho é fruto do estudo que realizei ao longo desses últimos anos no cartel do seminário 10 de Lacan intitulado a angústia. Nesse seminário, em algumas passagens Lacan volta ao texto “O Estranho” de Freud (1919/1996) para afirmar a sua importância no que diz respeito ao tema da angústia. Nesse texto Freud faz uma análise sobre o conto de Hoffman: O Homem de Areia. Esse é um conto inserido no tipo de literatura denominado de fantástica. O que demarca esse gênero literário é, em suas narrativas, o aparecimento do insólito, do inquietante.

Diferente dos contos de fadas onde o fantástico e a fantasia se apresentam em um mundo totalmente diverso, separado da realidade, na literatura fantástica o acontecimento anormal irrompe no universo familiar, estruturado, hierarquizado (Franzim, 2014). Freud (1919/1996) amparado em Schelling (apud Freud 1919/1996) relaciona esse caráter ao Unheimlich: que é o nome de tudo que deveria ter permanecido secreto oculto, mas veio à luz (Freud 1919/1996 p.242).

É recorrente nos contos fantásticos que a irrupção do insólito se dê pelo aparecimento do duplo. O duplo emerge de forma inquietante, e muitas vezes se apresenta como o estrangeiro, o monstruoso o irreconhecível, que nesses textos são aplicados a elementos como o espelho, o retrato que dão esse estatuto de “refração da imagem humana” do seu lado obscuro que está por trás de cada indivíduo (Ceserani, 2006 p.83, apud Franzim, 2014). Um representante desta forma literária é Edgar Allan Poe, e será sobre um de seus contos que irei tratar aqui dessa relação entre angústia e o duplo. O conto é intitulado William Wilson, que por sinal, já foi material para alguns textos de psicanálise. Mas faço aqui o meu recorte.

O narrador inicia o conto pedindo que seja permitido a ele se chamar nesse momento de William Wilson (o seu nome verdadeiro é objeto de desprezo e de ódio para a sua família). Nesse recorte que faço do texto em questão, convido-os a escutar assim esse nome: Will I am (eu sou o desejo) – Will son (filho do desejo). O que nos leva a pensar que é muito diferente ser o filho de um desejo, desejo dos pais, que remete a esse desejo entre os pais, capaz de gerar um filho, permitindo que ele seja significado falicamente. E estar no lugar desse desejo, com o seu ser, como objeto de gozo, sendo gozado falicamente. É na fronteira entre desejo e gozo que Lacan (2005) localiza a angústia. Lacan (2005) consegue ler nas letras de Freud que a angústia não está relacionada à falta como uma impossibilidade de completude marcada pela castração, mas à ausência desta, ou seja, a possibilidade de que falte a falta. Porém para que ela falte ela deve retroativamente ter estado lá. Sigamos com o conto, em sua origem.

O narrador afirma que vai narrar, sem desejar com isso encerrar, a lembrança do que ele denomina como “meus últimos anos de indizível miséria e crimes imperdoáveis”, e que com esse relato quer “apenas determinar a origem”, como um acaso um acidente único que trouxe a maldição de distanciá-lo da “perversidade comum” (Poe, 1981, p.85). Vejam que o narrador nos convida a retroagir com ele em sua história, mas adverte que não irá conseguir com isso encerra-la, mas tenta persuadir o leitor de que, de certa maneira, foi “escravo de circunstâncias que desafiavam todo o controle humano” e diz: “jamais alguém sucumbiu como eu a essas circunstâncias fatais” (Poe, 1981, p.86).

A origem nos remete a constituição do sujeito, que para a psicanálise é “um sujeito da estrutura que não tem idade, mas tempos” (Fesler, 2012, p.19). Nessa operação de subjetivação, que não é cronológica, mas lógica, os tempos são também de resposta que o sujeito pode dar às fatalidades de sua vida. Em uma das etapas dessa operação o objeto a aparece, na função do lado do Outro como um resto. Nessa etapa Lacan (2005) posiciona a angústia, apontando que é necessário que mais uma etapa seja realizada nessa operação, que é aquela em que uma perda de gozo pode fazer resultar o aparecimento do sujeito dividido do lado do Outro, onde Lacan (2005) posiciona o desejo.

As respostas dadas nunca são completas e nem definitivas, mas definitórias de um tempo que está por vir. Sigamos então nesses tempos vindouros do conto.

O narrador fala de sua origem e diz descender de uma família que possui “um temperamento imaginativo e facilmente impressionável” – desde a primeira infância tem a prova de que “herdou em cheio” esse caráter de sua família, que com o passar da idade se desenvolveu com mais força, tornando-se “voluntarioso” e dado a caprichos “selvagens” e “paixões indomáveis” (Poe; 1981 p.86).

Descreve os pais como de “espírito fraco” e “atormentados pelos mesmos defeitos constitutivos” (p.86) dele, pouco podendo fazer para deter as más tendências que o caracterizavam. Fizeram algumas tentativas que, segundo o narrador, foram fracas, e trouxeram para ele um triunfo completo, e “a sua voz ganhou força de lei doméstica” (p.86). Ainda criança foi abandonado ao seu livre arbítrio senhor de todas as suas ações “exceto de nome” (p.86).

Essa observação nos remete a nominação sobre a qual nada pode o seu livre arbítrio, uma vez que o sujeito é determinado, a sua revelia, pela função simbólica da linguagem, sofrendo em sua constituição os efeitos do discurso que o antecede, construído pelo Outro.

Avancemos um pouco mais. O narrador segue descrevendo o que chama de: “os anos do terceiro lustro de minha vida” (Poe, 1981, p.87) tempo que passou em um colégio interno. Lustro corresponde a um período de cinco anos, assim terceiro lustro: dos 10 aos 15 anos. Afirma que agora pode distinguir como nessa época estavam presentes as “primeiras advertências ambíguas do destino” (p.87). Relata a rigidez do colégio, as regras que deviam ser seguidas, e a figura do diretor da escola que era também o pastor da igreja. Descreve esses anos como tendo pouco para relembrar.

Diz que por sua natureza imperiosa, conseguiu ter ascendência sobre todos que não eram mais velhos do que ele exceto um. Era um aluno que tinha o mesmo nome que o seu, se referindo a ele, na maior parte das vezes, como Wilson. Além do nome, tinha a mesma idade, a mesma altura e entrou no colégio no mesmo dia que ele. Sobre o seu nome diz: “Sempre sentira aversão por meu infeliz nome de família deselegante, e por meu prenome tão vulgar e absolutamente plebeu” (Poe, 1981 p.93). O que lhe perturbava era o fato desse aluno também ter esse nome e por ser também um estranho. Wilson rivalizava com ele e contrariava a sua ditadura. Essa rebeldia de seu homônimo era para ele o maior constrangimento, e fazia um esforço “perpétuo” (p.93) para não ser dominado por essa superioridade que na realidade ele mesmo diz ser uma igualdade, que só era percebida por ele.

Diz que o seu homônimo era desprovido de sua ambição que o único desejo era rivalizar, opor-se a ele e que em seus ultrajes existia certo ar de afetuosidade desagradável. Só conseguia entender essa conduta supondo uma suficiência perfeita nele. Brigavam todos os dias, mas mesmo saindo vitorioso Wilson o fazia sentir que não tinha merecido a vitória. Não conseguia encontrar nele um ponto vulnerável. A única fraqueza era em seu aparelho vocal, a sua voz era baixa, o que o impedia de erguê-la acima de um sussurro, e que apesar de baixa se transformou em um perfeito eco da sua. Afirma: “A que ponto esse curioso retrato (porque não posso chama-lo propriamente uma caricatura) me atormentava, é o que nem ouso tentar dizer” (Poe, 1981, p.94). Intervinha em sua vontade, com conselhos que eram recebidos com repugnância e assevera: “eu seria um homem melhor se não tivesse recusado os conselhos daqueles sussurros significativos” (Poe, 1981,p.95).

Em uma discussão mais violenta o seu homônimo falava e agia de maneira diferente, o que o estremeceu e interessou, pois trouxe a ele visões obscuras de sua infância, lembranças estranhas, confusas, precipitadas. Relata esse episodio para assinalar o encontro seguinte que teria com ele, logo após essa discussão. Vai ao seu quarto à noite para “pregar-lhe uma peça de mau gosto” há muito planejada, mas sempre fracassada. Queria faze-lo sentir “toda a força da maldade de que estava possuído”. (Poe, 1981 p.96). Quando entra no recinto onde Wilson estava dormindo, aproxima uma lâmpada de seu rosto. Sobre o que sente relata:

“Os meus olhos se detiveram sobre a sua fisionomia –fui tomado de um horror intolerável e inexplicável. Seriam mesmo as feições de William Wilson?” (Poe, 1981, p.96). Vê que eram os seus traços, mas tremia imaginando que não o eram. E diz: “Ele não me parecia assim – não me parecia tal nas horas que estava acordado” (Poe, 1981, p.96). Saiu imediatamente não só do quarto, mas da escola para nunca mais voltar. Volta para a casa dos pais. Diante do inquietante, do Unheimlich, volta para o Heimlich, busca o familiar.

O que inquieta o personagem nessa visão? Como ela pode ser sinistra? O sinistro se produz quando surge aquilo que, sendo destinado a permanecer oculto, entretanto se manifesta. O que o sinistro desvela é o sujeito sendo olhado nesse lugar de objeto, momento em que o desejável desponta como desejante (Harari, 1997). É ele mesmo que está ali fazendo a pergunta “como o Outro me quer?”, e respondendo a ela, com o seu ser.

O sujeito se vê ali nesse lugar de objeto, e a angústia o afeta sinalizando que a fronteira entre desejo e gozo pode vacilar, sinal de que o que está em risco de desaparecer é não somente o seu desejo, mas o seu próprio ser. Harari (1997) nos diz que a construção fantasmática opera como fornecedora de uma resposta apaziguadora a essa pergunta pelo desejo do Outro. Retrocedendo na narrativa do personagem alguns elementos podem apontar para os pontos de fracasso da construção fantasmática.

Lacan (2005) trata dos cinco pisos da constituição do objeto a, na operação de subjetivação do sujeito, e posiciona em um deles a voz, que ele relaciona ao protofantasma do romance familiar, a essa construção fantasmática que surge como resposta à pergunta pelas origens e que remete ao próprio surgimento de si. Para William Wilson parece não haver muito espaço para dúvida sobre a sua origem. O que ele herdou preenche em cheio esse espaço de construção de uma resposta sobre o lugar que poderia ter ocupado no desejo dos pais. Os seus pais são fracos, a voz de Willson (o filho do desejo) também o é: um sussurro. O fracasso do fantasma aponta para um vacilo da nominação que opera como corte e compromete o movimento da estrutura onde a presença / ausência do objeto a faz jogo, abrindo a possibilidade do enlaçamento entre a vontade de encontra-lo e a possibilidade de alcança-lo como um mais de gozar, e da amarração e consistência de cada registro na estrutura. (Fesler, 2012 p.27, p.51).

O sujeito tem tempos que estão marcados pelas contingências da vida, momentos em que essa operação lógica deve ser renovada. Voltemos ao tempo do conto, William Wilson se volta para os pais, período de sua adolescência momento em que o desejo dos pais é novamente colocado em jogo, momento em que deve ser possível aos pais renovar a antecipação do lugar do sujeito. As falhas nessa operação nos diz Flesler (2012) podem resultar em que “em lugar do desejo dos pais, ganha estatura um gozo maldito” (Flesler, 2012, p.61). O narrador afirma que esses poucos meses na casa dos pais foram de “ociosidade absoluta” (Poe,1981, p.97), nada acontece. Vai para outro colégio interno e diz que mergulha em um turbilhão de loucura, orgias, anos que desafiam as leis. Nesse período em dois episódios, ele afirma que Wilson aparece e sussurra misteriosamente em sem ouvido “William Wilson”, nessas aparições não pode mais lhe ver o rosto.

Esses episódios produzem nele um efeito de estranhamento muito vívido, mas que logo se esvai. Em um momento em que está no auge de uma dessas orgias, envolvido em um jogo de cartas que leva a total ruína um abastado colega, o duplo volta novamente a aparecer e desmascara os seus truques perante os demais. Novamente não consegue ver o seu rosto, mas ressalta que ele está vestido de uma maneira muito singular como ele. O narrador conta então que é expulso pelos seus colegas e sai em viagem pelo continente “angustiado de horror e vergonha”, “tomado de pânico” e afirma “fugi em vão” (Poe, 1981, p.104) Wilson continua a parecer interferindo em sua vontade e de maneira que ele não pudesse ver seu rosto. Relata: “conselheiro em Eton, destruidor de minha honra em Oxford, aquele que frustrou minha ambição em Roma, minha vingança em Paris, meu amor apaixonado em Nápoles, e o que ele chamava erroneamente, a minha avareza no Egito” (Poe, 1981, p.105).

Narra então a cena descrita por ele como: “a terrível cena final do drama” (Poe, 1981,p.105). Diz ter se submetido até então ao seu domínio, mas nesse dia resolve “libertar-se dessa escravidão” (p.105). Estava em uma festa a fantasia e, “movido por um motivo indigno” (p.105), procurava a jovem e bela esposa do anfitrião. Quando está preste a alcança-la sentiu uma mão em seu ombro e “depois esse inesquecível, profundo e maldito sussurro” (p.106) em seu ouvido. Ele então tomado de cólera ordena-o que o siga. E em uma pequena antecâmara inicia um duelo.

Encurrala-o na parede e desfere a espada em seu peito, golpe após golpe. Nesse momento diz que alguém tenta abrir a porta, apressa-se para evitar a intromissão e
quando se volta para o seu adversário, esse curto instante em que ele se desviou foi suficiente para produzir uma mudança na cena que o espanta e causa horror, e descreve assim:

(…) Um vasto espelho – em minha perturbação pareceu-me assim, a
principio – erguia-se no ponto onde antes nada vira; e, enquanto me
dirigia tomado de horror, para esse espelho, minha própria imagem, mas
com o rosto pálido e manchado de sangue, adiantou-se ao meu encontro,
com um passo fraco e vacilante. (…) Era Wilson, mas Wilson sem mais
sussurrar agora as palavras, tanto que teria sido possível acreditar que eu
próprio falava, quando ele me disse:
Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, também estás morto…
morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu
existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como
assassinaste absolutamente a ti mesmo. (Poe, 1981 p.107)

Pobre William Willson supôs que era no desaparecimento de um que o outro existiria, não percebeu que não há céu sem inferno… pobre moço como diria o poeta.

Autora: Mônica Maria Silva
Ppsicóloga clinica CRP 08/14090
Clinica L´espacepsy Psicanálise
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina.

Texto apresentado na II Jornada da Associação Livre Psicanálise em Londrina – 21 e 22 de Novembro de 2014

 

Referência Bibliográfica

FLESLER, A (2012). A psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

FRANZIM, M.S (2014). O caráter insólito da escrita Rubiana: diálogos a partir de “Marina a Intangível”. (Dissertação de mestrado, não publicada, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, Londrina).

FREUD, S. (1996). O estranho. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (Vol. 17). (J. Salomão. Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1919).

HARARI, R. (1997) O seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios.

LACAN, J. (2005) O seminário 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar.

POE, E.A (1981) William Wilson In: Histórias extraordinárias. São Paulo: Abril Culturas, 1981.