A Angústia e o Duplo

Esse trabalho é fruto do estudo que realizei ao longo desses últimos anos no cartel do seminário 10 de Lacan intitulado a angústia. Nesse seminário, em algumas passagens Lacan volta ao texto “O Estranho” de Freud (1919/1996) para afirmar a sua importância no que diz respeito ao tema da angústia. Nesse texto Freud faz uma análise sobre o conto de Hoffman: O Homem de Areia. Esse é um conto inserido no tipo de literatura denominado de fantástica. O que demarca esse gênero literário é, em suas narrativas, o aparecimento do insólito, do inquietante.

Diferente dos contos de fadas onde o fantástico e a fantasia se apresentam em um mundo totalmente diverso, separado da realidade, na literatura fantástica o acontecimento anormal irrompe no universo familiar, estruturado, hierarquizado (Franzim, 2014). Freud (1919/1996) amparado em Schelling (apud Freud 1919/1996) relaciona esse caráter ao Unheimlich: que é o nome de tudo que deveria ter permanecido secreto oculto, mas veio à luz (Freud 1919/1996 p.242).

É recorrente nos contos fantásticos que a irrupção do insólito se dê pelo aparecimento do duplo. O duplo emerge de forma inquietante, e muitas vezes se apresenta como o estrangeiro, o monstruoso o irreconhecível, que nesses textos são aplicados a elementos como o espelho, o retrato que dão esse estatuto de “refração da imagem humana” do seu lado obscuro que está por trás de cada indivíduo (Ceserani, 2006 p.83, apud Franzim, 2014). Um representante desta forma literária é Edgar Allan Poe, e será sobre um de seus contos que irei tratar aqui dessa relação entre angústia e o duplo. O conto é intitulado William Wilson, que por sinal, já foi material para alguns textos de psicanálise. Mas faço aqui o meu recorte.

O narrador inicia o conto pedindo que seja permitido a ele se chamar nesse momento de William Wilson (o seu nome verdadeiro é objeto de desprezo e de ódio para a sua família). Nesse recorte que faço do texto em questão, convido-os a escutar assim esse nome: Will I am (eu sou o desejo) – Will son (filho do desejo). O que nos leva a pensar que é muito diferente ser o filho de um desejo, desejo dos pais, que remete a esse desejo entre os pais, capaz de gerar um filho, permitindo que ele seja significado falicamente. E estar no lugar desse desejo, com o seu ser, como objeto de gozo, sendo gozado falicamente. É na fronteira entre desejo e gozo que Lacan (2005) localiza a angústia. Lacan (2005) consegue ler nas letras de Freud que a angústia não está relacionada à falta como uma impossibilidade de completude marcada pela castração, mas à ausência desta, ou seja, a possibilidade de que falte a falta. Porém para que ela falte ela deve retroativamente ter estado lá. Sigamos com o conto, em sua origem.

O narrador afirma que vai narrar, sem desejar com isso encerrar, a lembrança do que ele denomina como “meus últimos anos de indizível miséria e crimes imperdoáveis”, e que com esse relato quer “apenas determinar a origem”, como um acaso um acidente único que trouxe a maldição de distanciá-lo da “perversidade comum” (Poe, 1981, p.85). Vejam que o narrador nos convida a retroagir com ele em sua história, mas adverte que não irá conseguir com isso encerra-la, mas tenta persuadir o leitor de que, de certa maneira, foi “escravo de circunstâncias que desafiavam todo o controle humano” e diz: “jamais alguém sucumbiu como eu a essas circunstâncias fatais” (Poe, 1981, p.86).

A origem nos remete a constituição do sujeito, que para a psicanálise é “um sujeito da estrutura que não tem idade, mas tempos” (Fesler, 2012, p.19). Nessa operação de subjetivação, que não é cronológica, mas lógica, os tempos são também de resposta que o sujeito pode dar às fatalidades de sua vida. Em uma das etapas dessa operação o objeto a aparece, na função do lado do Outro como um resto. Nessa etapa Lacan (2005) posiciona a angústia, apontando que é necessário que mais uma etapa seja realizada nessa operação, que é aquela em que uma perda de gozo pode fazer resultar o aparecimento do sujeito dividido do lado do Outro, onde Lacan (2005) posiciona o desejo.

As respostas dadas nunca são completas e nem definitivas, mas definitórias de um tempo que está por vir. Sigamos então nesses tempos vindouros do conto.

O narrador fala de sua origem e diz descender de uma família que possui “um temperamento imaginativo e facilmente impressionável” – desde a primeira infância tem a prova de que “herdou em cheio” esse caráter de sua família, que com o passar da idade se desenvolveu com mais força, tornando-se “voluntarioso” e dado a caprichos “selvagens” e “paixões indomáveis” (Poe; 1981 p.86).

Descreve os pais como de “espírito fraco” e “atormentados pelos mesmos defeitos constitutivos” (p.86) dele, pouco podendo fazer para deter as más tendências que o caracterizavam. Fizeram algumas tentativas que, segundo o narrador, foram fracas, e trouxeram para ele um triunfo completo, e “a sua voz ganhou força de lei doméstica” (p.86). Ainda criança foi abandonado ao seu livre arbítrio senhor de todas as suas ações “exceto de nome” (p.86).

Essa observação nos remete a nominação sobre a qual nada pode o seu livre arbítrio, uma vez que o sujeito é determinado, a sua revelia, pela função simbólica da linguagem, sofrendo em sua constituição os efeitos do discurso que o antecede, construído pelo Outro.

Avancemos um pouco mais. O narrador segue descrevendo o que chama de: “os anos do terceiro lustro de minha vida” (Poe, 1981, p.87) tempo que passou em um colégio interno. Lustro corresponde a um período de cinco anos, assim terceiro lustro: dos 10 aos 15 anos. Afirma que agora pode distinguir como nessa época estavam presentes as “primeiras advertências ambíguas do destino” (p.87). Relata a rigidez do colégio, as regras que deviam ser seguidas, e a figura do diretor da escola que era também o pastor da igreja. Descreve esses anos como tendo pouco para relembrar.

Diz que por sua natureza imperiosa, conseguiu ter ascendência sobre todos que não eram mais velhos do que ele exceto um. Era um aluno que tinha o mesmo nome que o seu, se referindo a ele, na maior parte das vezes, como Wilson. Além do nome, tinha a mesma idade, a mesma altura e entrou no colégio no mesmo dia que ele. Sobre o seu nome diz: “Sempre sentira aversão por meu infeliz nome de família deselegante, e por meu prenome tão vulgar e absolutamente plebeu” (Poe, 1981 p.93). O que lhe perturbava era o fato desse aluno também ter esse nome e por ser também um estranho. Wilson rivalizava com ele e contrariava a sua ditadura. Essa rebeldia de seu homônimo era para ele o maior constrangimento, e fazia um esforço “perpétuo” (p.93) para não ser dominado por essa superioridade que na realidade ele mesmo diz ser uma igualdade, que só era percebida por ele.

Diz que o seu homônimo era desprovido de sua ambição que o único desejo era rivalizar, opor-se a ele e que em seus ultrajes existia certo ar de afetuosidade desagradável. Só conseguia entender essa conduta supondo uma suficiência perfeita nele. Brigavam todos os dias, mas mesmo saindo vitorioso Wilson o fazia sentir que não tinha merecido a vitória. Não conseguia encontrar nele um ponto vulnerável. A única fraqueza era em seu aparelho vocal, a sua voz era baixa, o que o impedia de erguê-la acima de um sussurro, e que apesar de baixa se transformou em um perfeito eco da sua. Afirma: “A que ponto esse curioso retrato (porque não posso chama-lo propriamente uma caricatura) me atormentava, é o que nem ouso tentar dizer” (Poe, 1981, p.94). Intervinha em sua vontade, com conselhos que eram recebidos com repugnância e assevera: “eu seria um homem melhor se não tivesse recusado os conselhos daqueles sussurros significativos” (Poe, 1981,p.95).

Em uma discussão mais violenta o seu homônimo falava e agia de maneira diferente, o que o estremeceu e interessou, pois trouxe a ele visões obscuras de sua infância, lembranças estranhas, confusas, precipitadas. Relata esse episodio para assinalar o encontro seguinte que teria com ele, logo após essa discussão. Vai ao seu quarto à noite para “pregar-lhe uma peça de mau gosto” há muito planejada, mas sempre fracassada. Queria faze-lo sentir “toda a força da maldade de que estava possuído”. (Poe, 1981 p.96). Quando entra no recinto onde Wilson estava dormindo, aproxima uma lâmpada de seu rosto. Sobre o que sente relata:

“Os meus olhos se detiveram sobre a sua fisionomia –fui tomado de um horror intolerável e inexplicável. Seriam mesmo as feições de William Wilson?” (Poe, 1981, p.96). Vê que eram os seus traços, mas tremia imaginando que não o eram. E diz: “Ele não me parecia assim – não me parecia tal nas horas que estava acordado” (Poe, 1981, p.96). Saiu imediatamente não só do quarto, mas da escola para nunca mais voltar. Volta para a casa dos pais. Diante do inquietante, do Unheimlich, volta para o Heimlich, busca o familiar.

O que inquieta o personagem nessa visão? Como ela pode ser sinistra? O sinistro se produz quando surge aquilo que, sendo destinado a permanecer oculto, entretanto se manifesta. O que o sinistro desvela é o sujeito sendo olhado nesse lugar de objeto, momento em que o desejável desponta como desejante (Harari, 1997). É ele mesmo que está ali fazendo a pergunta “como o Outro me quer?”, e respondendo a ela, com o seu ser.

O sujeito se vê ali nesse lugar de objeto, e a angústia o afeta sinalizando que a fronteira entre desejo e gozo pode vacilar, sinal de que o que está em risco de desaparecer é não somente o seu desejo, mas o seu próprio ser. Harari (1997) nos diz que a construção fantasmática opera como fornecedora de uma resposta apaziguadora a essa pergunta pelo desejo do Outro. Retrocedendo na narrativa do personagem alguns elementos podem apontar para os pontos de fracasso da construção fantasmática.

Lacan (2005) trata dos cinco pisos da constituição do objeto a, na operação de subjetivação do sujeito, e posiciona em um deles a voz, que ele relaciona ao protofantasma do romance familiar, a essa construção fantasmática que surge como resposta à pergunta pelas origens e que remete ao próprio surgimento de si. Para William Wilson parece não haver muito espaço para dúvida sobre a sua origem. O que ele herdou preenche em cheio esse espaço de construção de uma resposta sobre o lugar que poderia ter ocupado no desejo dos pais. Os seus pais são fracos, a voz de Willson (o filho do desejo) também o é: um sussurro. O fracasso do fantasma aponta para um vacilo da nominação que opera como corte e compromete o movimento da estrutura onde a presença / ausência do objeto a faz jogo, abrindo a possibilidade do enlaçamento entre a vontade de encontra-lo e a possibilidade de alcança-lo como um mais de gozar, e da amarração e consistência de cada registro na estrutura. (Fesler, 2012 p.27, p.51).

O sujeito tem tempos que estão marcados pelas contingências da vida, momentos em que essa operação lógica deve ser renovada. Voltemos ao tempo do conto, William Wilson se volta para os pais, período de sua adolescência momento em que o desejo dos pais é novamente colocado em jogo, momento em que deve ser possível aos pais renovar a antecipação do lugar do sujeito. As falhas nessa operação nos diz Flesler (2012) podem resultar em que “em lugar do desejo dos pais, ganha estatura um gozo maldito” (Flesler, 2012, p.61). O narrador afirma que esses poucos meses na casa dos pais foram de “ociosidade absoluta” (Poe,1981, p.97), nada acontece. Vai para outro colégio interno e diz que mergulha em um turbilhão de loucura, orgias, anos que desafiam as leis. Nesse período em dois episódios, ele afirma que Wilson aparece e sussurra misteriosamente em sem ouvido “William Wilson”, nessas aparições não pode mais lhe ver o rosto.

Esses episódios produzem nele um efeito de estranhamento muito vívido, mas que logo se esvai. Em um momento em que está no auge de uma dessas orgias, envolvido em um jogo de cartas que leva a total ruína um abastado colega, o duplo volta novamente a aparecer e desmascara os seus truques perante os demais. Novamente não consegue ver o seu rosto, mas ressalta que ele está vestido de uma maneira muito singular como ele. O narrador conta então que é expulso pelos seus colegas e sai em viagem pelo continente “angustiado de horror e vergonha”, “tomado de pânico” e afirma “fugi em vão” (Poe, 1981, p.104) Wilson continua a parecer interferindo em sua vontade e de maneira que ele não pudesse ver seu rosto. Relata: “conselheiro em Eton, destruidor de minha honra em Oxford, aquele que frustrou minha ambição em Roma, minha vingança em Paris, meu amor apaixonado em Nápoles, e o que ele chamava erroneamente, a minha avareza no Egito” (Poe, 1981, p.105).

Narra então a cena descrita por ele como: “a terrível cena final do drama” (Poe, 1981,p.105). Diz ter se submetido até então ao seu domínio, mas nesse dia resolve “libertar-se dessa escravidão” (p.105). Estava em uma festa a fantasia e, “movido por um motivo indigno” (p.105), procurava a jovem e bela esposa do anfitrião. Quando está preste a alcança-la sentiu uma mão em seu ombro e “depois esse inesquecível, profundo e maldito sussurro” (p.106) em seu ouvido. Ele então tomado de cólera ordena-o que o siga. E em uma pequena antecâmara inicia um duelo.

Encurrala-o na parede e desfere a espada em seu peito, golpe após golpe. Nesse momento diz que alguém tenta abrir a porta, apressa-se para evitar a intromissão e
quando se volta para o seu adversário, esse curto instante em que ele se desviou foi suficiente para produzir uma mudança na cena que o espanta e causa horror, e descreve assim:

(…) Um vasto espelho – em minha perturbação pareceu-me assim, a
principio – erguia-se no ponto onde antes nada vira; e, enquanto me
dirigia tomado de horror, para esse espelho, minha própria imagem, mas
com o rosto pálido e manchado de sangue, adiantou-se ao meu encontro,
com um passo fraco e vacilante. (…) Era Wilson, mas Wilson sem mais
sussurrar agora as palavras, tanto que teria sido possível acreditar que eu
próprio falava, quando ele me disse:
Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, também estás morto…
morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu
existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como
assassinaste absolutamente a ti mesmo. (Poe, 1981 p.107)

Pobre William Willson supôs que era no desaparecimento de um que o outro existiria, não percebeu que não há céu sem inferno… pobre moço como diria o poeta.

Autora: Mônica Maria Silva
Ppsicóloga clinica CRP 08/14090
Clinica L´espacepsy Psicanálise
Membro da Associação Livre Psicanálise em Londrina.

Texto apresentado na II Jornada da Associação Livre Psicanálise em Londrina – 21 e 22 de Novembro de 2014

 

Referência Bibliográfica

FLESLER, A (2012). A psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

FRANZIM, M.S (2014). O caráter insólito da escrita Rubiana: diálogos a partir de “Marina a Intangível”. (Dissertação de mestrado, não publicada, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, Londrina).

FREUD, S. (1996). O estranho. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (Vol. 17). (J. Salomão. Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1919).

HARARI, R. (1997) O seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios.

LACAN, J. (2005) O seminário 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar.

POE, E.A (1981) William Wilson In: Histórias extraordinárias. São Paulo: Abril Culturas, 1981.

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