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A Felicidade e a Boa Sorte do Sujeito

As pessoas procuram um psicanalista, um psicólogo ou um psiquiatra porque sofrem, das mais diversas maneiras. Como analista, recebo aqueles que trazem questões e sintomas bem delimitados e específicos, os quais atrapalham um viver mais alegre. Outros, ao contrário, falam de uma vida amplamente desafortunada e queixam de mal estar, apatia, tristeza e/ou de fracassos de forma generalizada. Há, ainda, a somatória das duas queixas: na falta de sorte generalizada algum sintoma se particulariza. Por sua vez, não são raros os que sentem-se acometidos pelo referido mal-estar e tristeza generalizados, a despeito de se considerarem pessoas de sorte: têm sucesso profissional, família, dinheiro, amor, mas, ainda assim, não são felizes.

Também observo ser frequente, nas diferentes apresentações no início de uma análise, a pergunta sobre o porquê da insistência dos sintomas, sentimentos e acontecimentos dos quais se queixam e para os quais buscam uma solução. Soma-se à tal questão a estranheza frente ao que parece se reapresentar de forma misteriosa, ou, como dizia Freud, demoníaca: a má sorte, o fracasso, o abandono, a tristeza.

Freud se interessou por e teorizou sobre essas diferentes formas de apresentar e vivenciar o sofrimento, marcando uma distinção entre neurose de transferência e neurose de caráter (1912 com um texto sobre a neurose obsessiva, 1916 – texto sobre alguns tipos de caráter e um capítulo de Além do princípio do prazer). Nas neuroses de transferência, um sintoma se apresenta muito claramente e o sujeito pede, em sua demanda de análise, para se livrar disso que não anda bem e insiste, pede para se livrar do sintoma que, muitas vezes, considera repetir-se em sua vida. Por outro lado, no que Freud denomina de caráter, temos sujeitos que apresentam um mal-estar e fracassos generalizados, sem uma formação sintomática muito bem estabelecida. Freud se intriga muito com esse segundo tipo, propõe que esses sujeitos possuem alguns traços de caráter que os levam a repetir tais fracassos, mas de forma que eles se apresentam como uma força demoníaca, como se o sujeito os sofresse passivamente, como se fossem uma armadilha do destino.

Então, quando realço as diferenças na maneira como aqueles que chegam para uma análise são afetados por e falam de seu sofrimento, me refiro não apenas à óbvia singularidade do discurso e do sofrimento de cada um, mas, em especial à diferença apontada por Freud entre a repetição que ele considera atrelada a uma formação sintomática e aquela que ele associa aos fracassos mais generalizados e como que pertencentes ao acaso. O redimensionamento, através do trabalho de Lacan, da concepçãode sintoma aí em voga, não exclui, em meu entendimento, o valor da formulação freudiana, a qual nos indica a necessidade de precisarmos o conceito de repetição e já reconhece no mesmo mais de uma dimensão e a transcendência da mera reprodução.

Vejamos como podemos encontrar esses elementos na prática. Quando alguém chega dizendo que a bebida ou as drogas se tornaram um tormento, um sofrimento do qual quer se livrar, é possível dizer que apresenta sua questão de trabalho como um sintoma (pois reconhece algo que não vai bem, do qual quer tratar e no qual se vê implicado) e se pergunta porque repete: “Por que não paro de beber ou me drogar? Porque continuo fazendo isso se sei que não me faz bem?” Ou ainda, quando alguém se queixa de impotência e se pergunta: “Porque brocho cada vez que me interesso por uma mulher?” Insisto, nessas situações, a pergunta sobre a repetição está colocada de maneira direta – a insistência de algo atrelado ao sofrimento, atrelado ao sintoma, lhe intriga – e o sujeito se diz aí implicado.

Entretanto, a pergunta sobre a repetição também está presente quando, de forma aparentemente passiva, o sujeito se encontra sempre no mesmo lugar e isso lhe provoca angústia ou mal-estar generalizados. Sujeitos que parecem “destinados” à ingratidão, ao abandono, à solidão, ao fracasso, pois em várias esferas de suas vidas isso se repete. Homens ou mulheres cuja vida amorosa é sentida como um fracasso eterno, com relacionamentos que contemplam fases e finais semelhantes ou mesmo idênticos. Pessoas que profissionalmente não crescem e são vítimas dos mais variados acontecimentos: roubo de sócio, demissão em massa, depressão econômica que leva à perda do emprego, falência. Nesses casos, a pergunta sobre a repetição é feita colocando em questão o acaso, o destino, o azar ou má sorte. Foi por este tipo de repetição que Freud mais se interessou, talvez porque ela coloca em cena o além do princípio do prazer, evidenciando a contravenção da natureza no humano que Freud associou ao conceito de determinismo psíquico. Mas hoje, acredito que ambos os aspectos da repetição devem nos interessar, pois compõem com importância a clínica.

Como analistas, em nossa clínica, devemos sempre nos interessar e acompanhar as questões no que elas apresentam de singular a cada vez que são formuladas. Também como analistas, no trabalho de transmissão, como é o de hoje, devemos procurar construir, a partir do que é singular, elementos que possam nos ajudar a nortear a clínica. Nesse sentido, o meu interesse é produzir uma leitura, sempre a partir daquilo que a clínica me convoca, sobre a articulação, feita por Lacan, entre a repetição e a felicidade e/ou boa sorte (feliz acaso ou boa fortuna), em francês: bonheur e bon heur. Para tanto, a partir dos comentários que tracei inicialmente, chamo a atenção de vocês para alguns elementos que fundamentarão este meu recorte do tema da repetição.

O primeiro ponto, que peço que considerem com cuidado, é que na busca de um tratamento que possa eliminar ou diminuir o sofrimento está sempre implicada uma demanda de encontrar alguma felicidade ou, por vezes, muita ou toda felicidade. É o que os analisantes nos dizem, eles querem ser felizes e se intrigam por não serem: “tenho tudo para ser feliz e não sou; quero apenas ser feliz; porque eu nunca me sinto feliz?; não sei o que é felicidade…” Foi também o que Freud (1930/1996) observou em Mal-estar na civilização: “O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar? A resposta não pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer.” E, por sua vez, Lacan (1959-60/1997): “O que nos demandam, é preciso chamá-la por uma palavra simples, é a felicidade.” (p.350). Nessa direção, uma questão importante sobre a qual pretendo trabalhar hoje: o que é felicidade para a psicanálise e qual é a felicidade que os analisantes nos demandam, já adiantando haver uma diferença entre ambas.

Em segundo lugar, chamo a atenção de vocês para a relação, estabelecida nas queixas, entre a infelicidade e o que se repete. Tanto a insistência de sintomas, quanto o estranho acaso de acontecimentos e sentimentos são identificados como obstáculos à felicidade. Atrelada à tal constatação, observo que o incômodo, a intriga e a estranheza provocados pela repetição, favorecem uma demanda de análise, na qual se busca, entre outras coisas, a tal felicidade.

Na sequência, percebam que boa sorte, sucesso e felicidade não andam necessariamente juntos, como, a princípio, se poderia pensar. Nem sempre a aparente boa sorte ou sucesso são vivenciados de forma feliz e, nem sempre, aquilo que olhares externos veem como fracasso ou como má sorte faz a infelicidade do sujeito. Muito bem, mas então, o que é e onde está a felicidade? E ainda, o que pode ser a boa sorte para o sujeito do qual a psicanálise se ocupa?

Em Televisão – texto publicado a partir de uma entrevista dada por Lacan (2003) em 1973 – no momento em que está respondendo a uma questão sobre o suposto descaso com os afetos em seu trabalho, Lacan contra-argumenta, falando da importância que deu à angústia, à qual dedicou um de seus seminários e sobre a qual produziu uma leitura que não mais nos permite desconsiderá-la na clínica. A partir desta referência à sua particular tomada e posicionamento sobre o afeto, Lacan passa a discorrer sobre a tristeza, o gay sçavoir e a felicidade. Situando a tristeza e o gay sçavoir – saber alegre que podemos alcançar em uma análise – em polos opostos, indica que a ética da psicanálise é a do bemdizer e que só há saber, gay sçavoir, no não sentido. Entre um polo e o outro, entre a tristeza e o gay sçavoir, Lacan pergunta onde estaria a felicidade:

“Nisso tudo, onde está o que traz felicidade, feliz acaso? Exatamente em toda
parte. O sujeito é feliz. Esta é a sua definição, já que ele só pode dever tudo ao
acaso, à fortuna, em outras palavras, e que todo acaso lhe é bom para aquilo que
o sustenta, ou seja, para que ele se repita. O espantoso não é que ele seja feliz sem
desconfiar do que o reduziu a isso – sua dependência da estrutura – mas que
adquira a idéia de beatitude, uma idéia que vai tão longe que o sujeito sente-se
exilado nela.” (p.525)

Vejam só, diferentemente de Freud, que considerou a felicidade impossível e relacionou a repetição a essa impossibilidade e, também, contrariamente ao que ouvimos de nossos analisantes, Lacan diz que a felicidade já está com o sujeito e está atrelada, exatamente, à repetição. O que isso quer dizer? Antes de esboçar uma leitura a esse respeito, acrescento mais uma citação de dois anos mais tarde, em uma conferência pronunciada em 1975 nos Estados Unidos, na Universidade de Yale, Lacan toca novamente na felicidade, atrelando-a ao final de análise:

“Me desculpem se o que eu digo parece – o que não é – audaz. Somente posso dar
testemunho do que minha prática me provê. Uma análise não deve ser levada
muito longe. Quando o analisante pensa que é feliz por viver, é suficiente.”

Me soam mesmo muito intrigantes essas formulações de Lacan e espero que vocês me acompanhem no interesse pelas mesmas e no trabalho de desdobrá-las. Primeiro, o sujeito é feliz por definição, mas não sabe muito bem disso, e tal condição se articula à repetição como lei constituinte do sujeito, está atrelada à boa sorte ou feliz acaso como fato de estrutura. Pouco depois, o final de análise é associado à possibilidade de se “pensar feliz por viver”. Arrisco uma hipótese: será que “pensar ser feliz por viver” significa poder saber, saber alegremente, sobre a primeira afirmação, ou seja, sobre o fato de que “o sujeito é feliz” nisso que atualiza o encontro faltoso com o Real?

Me parece uma leitura possível, principalmente quando retorno à clínica. Exemplifico com um final de trabalho de uma analisante que foi para mim muito marcante e com o qual pude apreender um pouco mais as referidas construções de Lacan. Após alguns anos de trabalho sobre a impossibilidade de sentir-se bem em sua vida de forma geral, fato bem representado pelos repetitivos fracassos em exames para uma almejada ascensão profissional, ela conclui que seus fracassos eram para ela, até então, um feliz acaso e não uma má sorte. Feliz acaso que ela produzia, pois fracassar nas provas permitia que se descolasse de um ideal de perfeição, de filha perfeita, que a aterrorizava. Então, a repetição se emparalha com o sintoma, delimitado por seu fantasma, protegendo-a de uma suposta posição à mercê do Outro. Finaliza aí sua análise, pouco antes de obter o resultado do último exame que havia feito (pois o resultado já não mais importava, não era mais nele que estava sua felicidade) e no qual, vim a saber depois, obteve sucesso. Na saída da última sessão, me abraçou, agradeceu pelos anos de trabalho e disse, com ternura, que um dia voltaria, mas que naquele momento pensava que era feliz. Tantas vezes enlouquecemos para tentar compreender a teoria, quando, na verdade, se acompanharmos com atenção o que nos dizem os analisantes, conseguiremos construir a teoria com a leitura do discurso aí produzido.

Como todo analisante, essa jovem chegou demandando, através de sua queixa, felicidade e acreditava que era com a aprovação em um exame que a alcançaria. Posição absolutamente exemplar da idéia de felicidade que temos na cultura, ainda por influência de Kant: a felicidade é um bem a ser alcançado por merecimento e é associado à boa adaptação. Pesa sobre essa formulação um valor moral, muito explorado pelo utilitarismo e pelo capitalismo. Entendo que é essa felicidade que, não apenas essa moça, mas todos os analisantes chegam demandando. De uma forma ou de outra, apostam que com a análise serão pessoas melhores, bem adaptadas e, então, merecerão ou alcançarão a felicidade. Certamente, não é isso que uma análise pode oferecer, mas tudo bem, porque trabalhando, essa jovem – e quem mais apostar em uma análise – percebe que boa sorte e sucesso nem sempre andam juntos e que o encontro faltoso da repetição é necessário e traz boa sorte. A partir daí, o sintoma perde sua função e se torna prescindível, assim, a aprovação deixou de ser temerosa e a idéia de felicidade adquiriu uma outra dimensão: ela pode pensar ser feliz ao invés de se escravizar sendo a boa menina para merecer a felicidade.

Agamben (2007), em um pequeno e denso texto denominado Magia e Felicidade, apresenta essa noção de felicidade, que se contrapõe à moral kantiana, da qual trata Lacan e que pode ser reconhecida por essa jovem. Amparado pelas idéias de Walter Benjamin, Giorgio Agamben diz: 

“Benjamim disse, certa vez, que a primeira experiência que a criança tem do
mundo não é a de que ‘os adultos são mais fortes, mas sua incapacidade de
magia’. A afirmação, proferida sob o efeito de uma dose de vinte miligramas de
mescalina, não é, por isso, menos exata. É provável, aliás, que a invencível
tristeza que às vezes toma conta das crianças nasça precisamente dessa
consciência de não serem capazes de magia. O que podemos alcançar por nossos
méritos e esforço não pode nos tornar realmente felizes. Só a magia pode fazê-lo.
Isso não passou despercebido ao gênio infantil de Mozart, que, em carta a
Bullinger, vislumbrou com precisão a secreta solidariedade entre magia e
felicidade: ‘Viver bem e viver feliz são duas coisas diferentes, e a segunda, sem
alguma magia, certamente não me tocará. Para isso deveria acontecer algo
verdadeiramente fora do natural’. ” (p.23)

Não há nada mais fora do natural do que o sujeito do qual a psicanálise se ocupa, a linguagem produz uma desorientação pela perda do instinto e o inevitável desencontro entre as palavras e as coisas. Não há nada mais fora do natural e, aparentemente, mágico (demoníaco, diria Freud; necessário, diria Lacan) do que a repetição, associada por Lacan à estrutura do sujeito. Portanto, em sua desnaturação e magia, o sujeito é feliz; o sujeito é feliz na repetição que o sustenta na sempre diferença entre o esperado e o encontrado, no encontro sempre falho e não-todo.

Retomo o texto de Agamben:

“Na antiga máxima segundo a qual quem se dá conta de ser feliz já deixou de sê-
lo, mostra-se que o estreitamento do vínculo entre magia e felicidade não é
simplesmente imoral, e que ele pode até ser sinal de uma ética superior. A
felicidade tem, pois, com seu sujeito uma relação paradoxal. Quem é feliz, não
pode saber que o é; o sujeito da felicidade não é um sujeito, não tem a forma de
uma consciência, mesmo que fosse a melhor. Nesse caso a magia faz valer sua
exceção, a única que permite a um homem dizer-se ou considerar-se feliz.” (p. 24)

Sim, como Lacan, Agamben trabalha a felicidade sobre uma outra ótica que não a kantiana e, dessa felicidade não natural, não moral e mágica que está com o sujeito por sua estrutura, não se trata de sabê-la conscientemente. Mas é possível se produzir um outro tipo de saber sobre ela, um saber alegre que nos permita pensar que somos felizes quando o necessário do encontro faltoso da repetição deixa de ser sentido como má sorte. Dito de outra forma, pensamos ou sabemos ser felizes quando estamos de bem com o inconsciente que nos determina e, portanto, com algum inevitável mal-estar a partir do efeito de não proporção, de desencontro e de não-todo provocado pela linguagem. É isso…. ou pior.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

Agamben, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: J. Strachey, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, Jacques. O aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 7. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

Lacan, Jacques. Televisão. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Lacan, Jacques. Conferência na Universidade de Yale. Disponível em: www.elpsicoanalistalector.blogspot.com.br.

O que se Repete na Violência?

Bom dia, meu nome é Silvia Siste, sou membro da Associação Livre e hoje trouxe a vocês algumas questões referentes ao nosso eixo de trabalho desse ano – a repetição – articuladas uma questão que me mobiliza bastante, que é a violência.

Pensar sobre o conceito de repetição me parece muito oportuno, já que quem me acompanha na Associação deve ter percebido que a violência é um tema recorrente em meus trabalhos. Para quem não me conhece, é preciso indicar de onde vem minha questão.

            Trabalho em uma unidade do CREAS – PAEFI, que é um serviço da Política Nacional de Assistência Social que atende indivíduos e famílias onde um ou mais de seus membros tem algum direito violado e no caso do CREAS III, onde atuo, são crianças e adolescentes e seus familiares que estão em situação de violência.

            Ao organizar essas considerações optei por dividir com vocês o que venho construindo, o que tenho entendido até o momento sobre o que faz com que crianças sejam alvo de tanta agressão.

            O que chega até nós no CREAS III não é um tapa no bumbum; são orelhas com lesões, marca de cinta na perna, mordida no rosto, relatos de abusos sexuais cometidos por pais, avós, padrastos, tios, com conivência ou não da mãe e/ou outros membros da família, da vizinhança, dos serviços. São crianças fora da escola, fora de casa, fora da ordem da civilização e isso dói, dói nelas, dói nos familiares, dói nos profissionais que se debruçam sobre isso que chamarei, por minha conta e risco, de “clínica da violência”.

            Isso porque no CREAS III nós, psicólogos, assistentes sociais, educadores e educadores sociais não praticamos a modalidade clínica, pensada como um consultório, com hora marcada, com um atendimento com duração X. Desenvolvemos trabalho psicossocial, trabalhando sempre que possível numa modalidade interdisciplinar e intra-serviços, como Ministério Público, Poder Judiciário, UBS, CRAS, Conselhos Tutelares, hospitais. É muita gente.

            Assim, uso o termo clínico, num sentido estrito, para me referir a um tipo de escuta, que busca na etimologia da palavra clínica sua verdadeira razão de ser: clínica, do grego “Kliné”, que significa inclinar-se sobre, como os antigos médicos faziam sobre seus pacientes, observando e tentando entender o que aqueles indícios de sofrimento queriam dizer e como trata-los a partir de então.

            Assim, é possível, numa modalidade psicossocial, inclinar-se sobre uma criança, um adolescente, uma mulher, um homem, uma avó, um tio, e ouvir o que eles trazem e geralmente, trazem muita coisa.

            É importante salientar que não se trata aqui de se propor a prática da psicanálise na instituição, pois entendo que os dispositivos institucionais não permitem transposições de uma prática à outra e nem seria desejável, são trabalhos diferentes. Mas trago alguns recortes da prática institucional porque eles me convocam a pensar sobre um conceito eminentemente clínico – a repetição – e como avançar no entendimento desse conceito pode auxiliar em minha escuta, na clínica ou fora dela.

            Uma das primeiras coisas que aprendi nesse ofício é que a violência contra a criança, o adolescente, a mulher, é a mesma violência. Poderia incluir aí os homens, porém, estes eu ouço pouco. Isso porque na nossa cultura as mulheres ainda são maioria quando se trata de se ocupar de filhos, netos, sobrinhos. Mas mesmo nestes casos é possível ter notícias de que, mesmo quando o homem é autor de violência, sua história não é muito diferente daquela que traz seu filho ao CREAS III: cuidador/cuidadora etilista, ou usuário de outras substâncias psicoativas, histórias de abandono, situação de rua, cuidadores com demandas para a saúde mental, mas que nunca procuram ajuda, pois não têm recursos para tal. Há ainda situações de pobreza, que intensificam as vulnerabilidades que já estão postas: vínculos fragilizados, saúde precária, pouca ou nenhuma qualificação para o trabalho formal, falta casa, falta lar, falta ar. E no meio de tanta pressão não respiram e se agridem. E como a criança é o lado frágil onde arrebenta a corda….

            Mas minha prática me mostra também que não é só nos lares empobrecidos que a violência ronda como assombração. A violência está em todos os lugares. Entretanto, o trabalho do CREAS III me ensinou que se a violência iguala ricos e pobres no potencial agressivo, separa-os no acesso dos serviços às situações de violência. A privacidade é um luxo destinado às famílias mais abastadas, e nem por isso menos violentas.

            Há também uma inquietação minha, que gostaria de compartilhar com vocês, que tem a ver com o que socialmente se entende por violência. Não falo da violência conceitual, que consta na definição dos estudiosos, do Google, ou das cartilhas que definem o que é violência e o que é contra lei. Me refiro a uma das modalidades de violência que o CREAS III atende, violência física intrafamiliar contra a criança, aquela que acontece no seio da família, cometida por algum suposto ente querido, muitas vezes nem tão querido assim. É que esta é uma modalidade de violência mais visível em tese, pois deixa frequentemente, marcas no corpo, principalmente se comparada a uma outra forma de violência nefasta, que é a violência ou abuso sexual,  que é mais silenciosa. A violência física, apesar de barulhenta e visível, torna-se invisível quando se entende que esta é uma forma legítima de educação, que a criança em questão pediu para apanhar, afinal de contas, “essa criança é impossível”.

            Lembro-me de uma bela menina, que aos oito ou nove anos, num acesso de fúria da mãe, esta mordeu-lhe o rosto. Já havia outras muitas agressões, o Conselho Tutelar já rondava esta criança e com a mordida, começou seu calvário: ora morava com uma avó, paterna, ora voltava com a mãe. A situação insustentável levou-a ao acolhimento institucional. Para meu grande espanto, ao perguntar para a mãe social como estava a criança lá, ouvi uma série de queixas sobre a menina e, no seu entendimento, se a mãe agia desta forma com ela era porque a garota mereceu. A frase não foi formulada de forma tão explícita, como coloco aqui, mas trago este exemplo para mostrar a vocês que mesmo os agentes de proteção escorregam muitas vezes em seu entendimento no que vem a ser violência contra criança e adolescente e as consequências desta violência para a vida de quem está em franco processo de constituição e desenvolvimento.

            O que incomoda é que, apesar de todos os aparatos protetivos, como Varas Especializadas de Proteção, Conselhos Tutelares, CREAS, Estatuto da Criança e Adolescente que já atingiu a maioridade faz tempo, ainda chega até nós crianças violentadas aos borbotões. Não digo com isso que não temos avançado. Os órgãos de proteção estão dando vez e voz para quem nunca teve, já que a violência contra criança e adolescente não é um fenômeno moderno.

            Uma outra questão interessante para nossa análise é o quanto a violência  incomoda. Constato, e quem trabalha com violência sabe, que este é um tema que não convoca muito, é ruim de ouvir. Com o tempo fui aprendendo que, se numa roda de conversa alguém me dirige a célebre frase: “E você, trabalha com o que?” , tenho duas alternativas: se quiser dar continuidade a conversa, digo que trabalho com crianças e adolescentes, mas se eu disser que trabalho com crianças e adolescentes que sofrem violência a chance da conversa terminar por ali é enorme. É visível o constrangimento das pessoas, o mal estar e quase sempre o comentário, “Nossa, deve ser pesado”. Porque é mesmo

            Diante do que expus, me resta então pensar o que leva tanta gente a ferir, maltratar, ameaçar pessoas que deveriam ser cuidadas, protegidas e amadas, como no caso das crianças? Não tem algo aí fora de lugar? Mas também tem os efeitos que a violência surte em cada um que sofre, que pratica e que vive a violência como espectador, seja ativo ou passivo. O título que dei a este trabalho também poderia ser: “A violência de todos nós”, porque ela é nossa, ela tem a ver comigo, com meu vizinho, violência não é do outro. É importante essa questão, por mais incômoda que pareça, pois a violência é um fenômeno tão grande, tão complexo, que um serviço sozinho não dá conta, um profissional sozinho não faz verão e o entendimento do caso a caso se faz urgente.

            Fui, então, reler um texto de Freud, de 1933, intitulado “Por que a Guerra?” que, apesar de distante em cronologia, assombra pela atualidade das questões que aborda. Trata-se, na verdade, de uma troca de correspondências entre Einstein e Freud, promovido pelo Instituto Internacional para Cooperação Intelectual existente na época, que estimulava a “troca de correspondências de profissionais de renome a respeito de assuntos destinados a servir de interesses comuns à Liga das Nações e à vida intelectual” (p. 191) e tal órgão publicava as cartas que dali surgiam.

            Einstein foi escolhido e sugeriu o nome de Freud para uma interlocução. O ilustre físico questiona o Dr. Freud, devido a seu “profundo conhecimento da vida instintiva do homem” (p.193), se existia alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra. O próprio Einstein vai tecendo considerações acerca do que entendia como motivação para que homens e nações guerreassem, considerações estas que Freud concorda ao longo de toda sua resposta, mas que comenta todas elas e vai além. 

            Freud inicia a discussão, a partir de um apontamento de Einstein, relacionando direito e violência. O pai da psicanálise considera que embora ambos os conceitos se afigurem como antíteses, uma se desenvolveu da outra. Freud afirma: “É pois um princípio geral que os conflitos de interesses entre homens são resolvidos pelo uso da violência.” (p. 199). Usa deste argumento para dizer que desde os primórdios da civilização, nas primeiras hordas, este princípio já era válido. E acrescenta que com a substituição da força muscular pelo uso de instrumentos, a partir do momento em que armas foram introduzidas, a superioridade intelectual começa a substituir a força muscular bruta. Porém os fins continuam sendo os mesmos, ou seja, a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior, “a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada no intelecto” (p. 198)

            No transcurso da evolução foi-se trilhando um caminho que partia da violência em direção ao direito e à lei, com o reconhecimento que a força de um grupo de indivíduos se contrapunha à força superior de um único homem. Nas palavras do Mestre “Vemos, assim, que a lei é a força da comunidade.” ( p.199) Mas faz também o seguinte comentário: “A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas  a violência da comunidade.” (p.199)

            Para que este novo sistema de direito ou justiça se mantenha é necessário que haja uma condição psicológica a ser preenchida: a transferência de poder para uma unidade maior, suplantando assim a violência, só é possível quando há laços emocionais unindo seus membros, laços estes que Freud denomina identificação.

            Mas Freud aponta que é impossível estabelecer julgamento geral das guerras de conquistas, ele cita algumas para mostrar, ao meu entender, que nossa análise deve contemplar o caso a caso, o particular. E aqui eu pego um gancho para dividir com vocês o que de fato este texto me inspira para meu trabalho.

Frente a um comentário de Einstein que demonstrava surpresa ante ao fato de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, Freud apresenta sua teoria das pulsões, que na versão brasileira foi equivocadamente traduzida por instinto.

Freud descreve que as pulsões são de dois tipos: aquelas que tendem a preservar e a unir, denominadas eróticas ou sexuais e aquelas que tendem a destruir e matar, as chamadas agressivas ou destrutivas. Acontece que tais pulsões são iguais em importância e os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambas. Freud assim exemplifica: “(….) o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade para atingir os seus propósitos.” (p. 203).

O pai da psicanálise se aprofunda na questão afirmando que as pulsões destrutivas estão em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento e reduzir à vida à condição de matéria inanimada, merecendo por isso ser denominada pulsão de morte, ao passo que as pulsões eróticas representam o esforço de viver.

Explica que a pulsão de morte torna-se destrutiva quando, com auxílio de órgãos especiais é dirigida para fora, para os objetos, preservando a própria vida, destruindo a vida alheia. No entanto, uma parte da pulsão de morte continua atuante dentro do organismo e essa internalização provoca os mais variados fenômenos, sejam eles normais ou patológicos.

Assim se essas forças se voltam para a destruição do mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deverá ser benéfico. E conclui que não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem, mas sim tentar desviá-los para que não necessitem encontrar expressão na guerra.

A saída que Freud aponta para este desvio situa-se justamente em seu antagonista, a pulsão de vida: O médico austríaco afirma: “Tudo que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra” (p. 205). E classifica tais vínculos em dois tipos: o amor, sem a finalidade sexual e a identificação. Diz Freud: “Tudo que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações” (p. 205)

O texto de Freud apontou-me que há algo entre pulsão de morte e repetição que se articula com a violência, mas até aqui não me foi possível avançar em minha questão.

Foi então que encontrei em um artigo de Ilka Franco Ferrari alguns elementos que me ajudaram a pensar as relações possíveis entre violência e repetição. Auxiliou-me a distinção feita pela autora entre os conceitos de agressividade e violência para o campo da psicanálise. De acordo com Ferrari (2006) a agressividade está circunscrita à estruturação do eu, enquanto a violência se ordena em torno da lógica que implica a entrada do vivente no campo da linguagem. Para Ferrari, na psicanálise a violência é vista sempre em um referencial que mostra que o encontro com a linguagem não é sem consequências para o humano.  Para ela compreender a violência por meio da Psicanálise supõe adentrar-se na constituição do laço social, considerar os discursos que imperam em dado contexto histórico e não perder de vista as formas como os sujeitos são capazes de responder aos mesmos já que a pulsão está presente também em momentos pacíficos. No entanto, não me conduzi por estes caminhos.

 A autora aponta ainda que, com referência à agressividade, tanto Freud quanto Lacan situam-na como constitutiva do eu, na base da constituição do eu e na sua relação com seus objetos. Diz que ambos os autores não negam sua existência, ao contrário, afirmam a agressividade na ordem humana, ordem libidinal. Existe a agressividade, mas ela pode ser sublimada, pode ser recalcada, não precisa ser atuada, pois o humano conta com o recurso da palavra, da mediação simbólica.

            No tocante à repetição, Ferrari afirma que ela mostrou à Freud que, em nome do princípio do prazer, a criança se aliena no Desejo do Outro, falando em termos lacanianos. Mostrou a ele que havia algo da ordem de uma compulsão à repetição, havia algo mais além do princípio do prazer, além e diferente do que havia sido chamado repetição. ”Era a pulsão de morte escancarando ao autor o fato de haver no humano uma tendência de retorno à ordem inanimada (…).” (p.55)

            Ferrari discute ainda que Lacan avança nessa discussão, ao considerar a violência própria da linguagem sobre o vivente que ao nascer, encontra o Outro do discurso. Nesse encontro ocorre a violência de alienar-se na lei dos significantes que são sempre do outro e finaliza afirmando que, além disso, há a violência própria à separação  do Outro, inerente ao processo de constituição subjetiva do sujeito,  tirando-o da alienação significante.

Assim, nesse percurso teórico, deparei-me com a violência que é a entrada do vivente no mundo da linguagem, da perda de gozo que implica esta entrada, perda do instinto, de sua condição natural para tornar-se um ser de sexo e de linguagem

O bebê humano, ao adentrar nesse mundo chega com a necessidade (de alimento, de abrigo) e essa necessidade traz dor. Diante do puro grito que o outro entende como um chamado, esse que toma o bebê nos cuidados satisfaz com o alimento, diminuindo a excitação. Na próxima situação de satisfação já há um traço mnêmico, uma marca e a segunda experiência não é igual à primeira. Entre o esperado e o encontrado há um hiato, um espaço, um encontro, que Lacan denomina encontro faltoso, ao qual somos sempre chamados com um real que escapa.

No centro deste encontro faltoso está a noção de objeto perdido, que nunca existiu. Diante da falta-a-ser do objeto de desejo, do objeto metonímico, o sujeito sai em busca desse objeto, desse objeto falido, essa é a razão mesma da estrutura do sujeito.

 

Pensar na violência que é própria à constituição do sujeito me faz pensar que é por isso que crianças e adolescentes para mim são tão caras, no sentido duplo que esta palavra carrega: tão queridas, tão custosas. Custa-me ouvir uma criança ou adolescente responder a partir de um lugar de dejeto, de lixo, de ser jogado fora. Custa-me ver um jovem tão jovem, transgredindo a lei, colocando-se em risco por ser esta parte que lhe cabe neste latifúndio, que me permita a paráfrase, João Cabral de Melo Neto. Porque lhe coube na vida este lugar.  Ao ouvir este garoto, garota mais de perto vemos que o que ele faz contra alguém sempre se volta contra ele. Daí a importância de emprestar a orelha, ouvir de um lugar onde o social não ouve e pensar o que é possível fazer a partir daí.

A violência se manifesta porque o humano é de fato violento. É a sua condição, não dá para escapar a ela. Ou melhor, o humano possui um potencial agressivo, cuja existência depende em parte dela. Penso que a violência incomoda, porque a agressividade do outro me põe em contato com a minha, ás vezes tão escondida, às vezes nem tanto.

 Mas agressividade não é sinônimo de agressão, nem toda finalidade é o aniquilamento próprio ou do outro. Freud, ao final de sua carta a Einstein, comenta o processo de civilização pelo qual tem passado a humanidade, que ele chama também de “evolução cultural”. Afirma que é a esse processo que devemos o melhor daquilo que nos tornamos, bem como uma boa parte do que padecemos, pois em mais de um sentido esse processo prejudica a função sexual. Considera que as modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização consistem num progressivo deslocamento dos fins pulsionais e numa limitação imposta aos impulsos pulsionais. Este é o preço que pagamos para vivermos com o outro, numa existência possível, mas não sem uma quota de mal estar.

Desta forma, é possível transformar a pulsão em obra, “opus” na sua origem latina. A pulsão tem essa característica, pode modificar sua finalidade, sem mudar a sua essência. Assim, a agressividade pode se voltar aos esportes, aos estudos, a um trabalho humanitário, uma roda de hip hop.

Assim se deu com Rita (nome fictício) cuja agressividade se manifestava em casa, na rua, na escola. Brigas e mentiras faziam parte de seu repertório constante, ameaças a colegas de escola. Vinda ao CREAS quando tornou público o abuso que vinha sofrendo praticado pelo padrasto, pode falar do sentimento de culpa, da dor de não se saber autora ou vítima de uma situação que a colocava sempre no limite, seu e do outro. Rita foi se sabendo aos poucos, podendo tomar partido de sua força nas aulas de educação física, nas corridas de atletismo. Encontrei Rita muitos anos depois, numa audiência, uma menina linda. Disse-me: “Estou bem, estou tranquila” e eu fiquei ainda melhor.

Tenho dificuldades de encerrar assuntos, gosto de falar e de ouvir. Assim uso das palavras de Adélia Prado, que sabe transformar a palavra em obra.

Diz a autora: “A vida é tão maravilhosa que não tem jeito de se pôr um ponto final.”

Muito obrigada.

 

Autora: Silvia Helena de Rezende Siste Maia

 

Referância Bibliográfica

FERRARI, Ilka Franco. Agressividade e Violëncia.  Scielo. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro. 2006, n.2, p.49-62. Disponível em www.scielo.br/php?script=sci_arttex&pid=S0103-56652006000200005

FREUD, Sigmund (1933). Por que a guerra.In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.XXII, p.191-208.

LACAN, Jacques. A agressividade em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p.104-126.

Saber e Repetição

O estudo sobre a temática da repetição esse ano provocou em mim algumas inquietações e questionamentos que me proponho a compartilhar com vocês.

Estudar um conceito em psicanálise é um trabalho que vai para além dos livros e dos textos, convoca a uma experiência que inclui também a clínica. Para mim, ao menos, é um vai e vem entre textos e reflexões sobre uma prática.

E assim também me propus a escrever este texto que agora apresento a vocês.

Quando pensei no tema a trabalhar aqui, confesso que não foi fácil, pois todo ano é assim, temos que em um determinado momento fazer essa escolha para que a organização dessa Jornada possa caminhar, distribuição das mesas, confecção dos materiais, e tudo mais. Então o que precipitou naquele momento de escolha foi o saber e a repetição. Poderia ter sido tantas outras coisas, mas foi essa.

Pensando na clínica, como o saber se relaciona com a repetição? Bom um paciente pode procurar por uma análise porque acredita, ou se incomoda com algumas repetições em sua vida. E quer saber porque isso acontece com ele. Mas outras vezes um paciente pode também chegar na análise querendo saber como resolver alguma questão em sua vida, alguma situação nova que tem que enfrentar, por exemplo. Nessas duas situações que acabo de descrever existe a referência a um saber, e a uma situação que faz com que as coisas não andem bem.

Mas que coisas são essas? Seguindo Lacan ao escutar este sujeito estamos advertidos de que ele ao dizer sobre o que lhe incomoda, não sabe o que diz. É um sujeito dividido entre o que diz e o que sabe (dividido entre saber e verdade). Chega nos dizendo que a maneira como ele ajeitou as coisas na sua vida até aqui não está funcionando, chegou em um ponto em que algo está tão incomodo que ele resolveu buscar uma ajuda.

Não é só um trabalho de análise que se pode procurar em situações assim. Alguns recorrem por exemplo aos textos, a livros, a um saber também. Existem livros que estampam esta promessa em suas capas, e em títulos chamativos. O que o sujeito busca? Uma referência, busca em algum lugar uma espécie de saber que possa ensinar como ele pode continuar caminhando pela vida de preferência sem sofrer. Procura por uma saída, uma mudança.

É interessante que uma categoria de livros assim receba o nome de autoajuda. Pensando em autoajuda como uma ajuda que o sujeito consegue por ele mesmo. Ele mesmo consegue se autoajudar. O que parece é existir um engodo, porque se assim fosse ele não precisaria do livro. Penso que aí também existe uma tentativa de encobrir a impossibilidade de existir um saber que de conta da verdade. Ou seja, um saber que possa dizer tudo.

Essa não possibilidade de existência de um saber que de conta da verdade está articulada com a própria constituição do sujeito. Ao sermos seres falantes somos afetados pela linguagem, com a linguagem já não fazemos relação direta com as coisas, não existe encaixe perfeito. Sempre irá existir uma falta que nunca poderá ser completada. Contudo a experiência de satisfação inscreve no psiquismo a existência de uma completude possível, miticamente experimentada, porém nunca mais encontrada.

Ao ser falado o sujeito, para existir, se aliena a essa fala respondendo com o seu ser (com sua própria falta) a uma falta que localiza no Outro. O bebê chora e a mãe diz tem fome, o bebê responde a essa demanda do Outro e se aliena a um significante vindo dele. Para existir como sujeito será necessária uma outra operação, a de separação, o sujeito se separando da alienação significante e nesta operação destacando um significante que o represente, se separando do Outro, se dividindo, marcando uma falta em ser um significante que completa o Outro.

A partir de Freud entendemos que a falta é estrutural, não temos como nos livrarmos dela. Esta impossibilidade de completude como um vício estrutural (a falta no Outro e no sujeito) é o que põe o desejo em movimento. No primeiro encontro com o desejo este se inscreve para o sujeito como desejo do desejo do Outro.

Porém existe aí também a tentativa de recuperação de um gozo, pois temos duas condições do objeto de causa do desejo, a partir da ausência, e de objeto de gozo, a partir da presença. O desejo inscrito para o sujeito como desejo do desejo do Outro, na operação de alienação, comporta um efeito de gozo, por uma suposição de assim completar a falta no Outro.

Na operação de separação o desejo estaria relacionado à tentativa de reencontrar um objeto suposto de satisfação plena, um objeto ausente que causa o desejo.

O sujeito chega a análise adoecido por um gozo que o retem, em uma condição de existência como desejo do desejo do Outro.

Qual o trabalho a ser feito? O que uma análise pode produzir e como isto tem relação com a repetição?

Será que o sujeito chega repetindo um sofrimento? A partir da leitura que Lacan faz dessa temática em Freud e principalmente pelas modificações que este introduz no texto Mais além do princípio do prazer, onde Freud vai vincular a repetição à pulsão de morte, ou seja, a um desligamento em oposição a ligação promovida pela pulsão de vida. Temos a repetição atrelada a inscrição da diferença, pois para haver diferença um desligamento, um efeito de rompimento se produz. E a partir daí uma possibilidade de mudança. De uma mudança de posicionamento em relação a falta.

A partir do que Freud vai desenvolvendo neste texto temos a repetição atrelada a um fato de estrutura, ou seja, não é algo que deve ser superado, faz parte da estrutura, acontece uma única vez e a partir de então se torna necessária.

Necessária para que? Para marcar uma diferença, para que uma mudança possa se produzir. A partir destas reflexões, e ao escrever este texto pensei se a repetição como fato de estrutura não estaria relacionada com a operação de separação. Penso que não é a toa que os nomes são diferentes, se a operação de separação e a repetição fossem a mesma coisa não teriam nomes diferentes. Então uma não se subsumi na outra. Porém o que me fez pensar nesta aproximação foi que tanto em uma como em outra temos como produto um significante que representa o sujeito.

O sujeito chega na análise dizendo sobre isto que se reproduz em sua vida, se não da mesma forma com os mesmos efeitos para ele. Repete/reproduz como tentativa de sair da mão do Outro, da prisão em um gozo que o adoece.

Na análise o trabalho é de suspender aquilo que se acredita saber. Penso em uma dupla suspensão de saber, do analista pela via do operador desejo do analista e do analisando pela via da quebra de sentido. Interrogando-se sobre o que mais pode ter aí? Vetorizando sua dúvida não por aquilo que ele chega afirmando que carece de sentido, mas para o que está construído para ele como uma verdade inquestionável. Uma abertura para que até mesmo tempo e espaço possam perder uma certa estabilidade que monta a consistência histórica desse sujeito.

Pela via da transferência, em um trabalho de análise, é possível alcançar a repetição, como uma operação produtora de diferença / corte por onde um novo significante pode ser produzido pelo sujeito. Um significante que o represente para outro significante. Então como se pode alcançar a repetição pela transferência? Desconstruindo, descristalizando sentidos, escavando, fazendo buraco para que algum encontro com o sem sentido possa tocar um pedaço do real. É pela via da busca de saber em um sujeito suposto a possui-lo que o analisando pode chegar mais próximo da verdade de seu desejo do saber inconsciente que o determina. Para ter desejo temos que marcar uma falha, uma abertura para desejar.

Podemos pensar que ele encontra o que ele não procurou. Procurou por um saber, mas algo retorna para ele, do que ele mesmo traz e que causa surpresa, que abala o sentido que até então ele tinha encontrado. Neste trabalho de escavar os sentidos é que o analista, sustentando a sua função, pode acessar a repetição, pela via da transferência.

Porque eu coloquei sustentando a sua função? Porque pode ser que em algum momento ele não sustente. E por mais que o paciente retorne, repita um caminho, volte a cada seção, se ele não encontra o analista, não há transferência que possa levar a repetição no sentido de acessa-la. O “tratamento” pode continuar, e um pode fingir que não morreu e o outro que vai vivendo, em um trabalho que embora possa parecer que produza algo diferente resulta na continuidade de uma modalidade de gozo.

De que mudança estamos falando? Na análise de uma mudança de posicionamento. Isso não quer dizer que grandes mudanças na realidade desse sujeito aconteçam que possam servir como atestado de que houve repetição. Essa mudança de posicionamento talvez possa enganar quem está de fora e  busca pistas de se houve ou não houve repetição. Será que mudou? Percebesse que a pessoa está diferente, mas não se sabe muito bem localizar em que.

Mas para o sujeito isso não engana. Embora também não consiga precisar quando ou o que necessariamente mudou, sabe, porque sente de maneira diferente, as coisas da realidade que passam a afeta-lo de outra forma. Não porque elas mudaram, mas por uma modificação em sua estrutura, por um efeito de sentido.

Eu gosto de pensar em formas de ilustrar as formulações que vou fazendo, isso me ajuda a dar mais concretude as coisas que me parecem tão abstratas. Em textos anteriores usei para isso contos que retirei da literatura. Esse ano não me surgiu nenhum o que me possibilitou fazer diferente inventar um, bem simples, não é um conto, mas uma estorinha bem simples que não deixa de ter referência as estórias que escutamos em nossas clinicas.

É como se o paciente que chegasse para a análise se encontrasse em um barco no meio do oceano. Para ele, até então, tudo estava bem em viver assim, mas algo pode estar se passando que faz com que essa tranquilidade fique ameaçada. Ele chega querendo saber como continuar tranquilo ali. No decorrer do trabalho, a partir do seu dizer, outros elementos podem ser incluídos nesta cena, elementos que se precipitam e são assinalados pelo analista. Existe um céu, sol, estrelas, elementos que vão propiciando uma modificação na posição do sujeito em relação a essa cena que ele constrói. Tem um trapiche, pode sair do barco, caminhar, dirigir um carro, voar de avião. Penso que não é o fato de que novos significantes possam ser incluídos na cena que produz uma diferença, mas o posicionamento do sujeito em relação a eles. Reposicionar o movimento como causa de seu desejo e partir desse ponto poder decidir até mesmo ficar parado apreciando a paisagem com maior tranquilidade, ou voltar para o barco, aquele em que ele chegou em sua análise.

O atravessamento da linguagem faz buraco e o fantasma é uma construção que o sujeito faz para dar conta dos efeitos que isso tem para ele. Essa construção fantasmática comporta para o sujeito uma impotência imaginária, na maneira como ela dá sustentação a existência desse sujeito, como aquele que deve garantir a falta no Outro.

Na estrutura isso que é da ordem do que não pode ser recoberto pelo imaginário ou significado pelo simbólico diz respeito ao Real [ao que não cessa de não se inscrever]. Lembrando que todos os três registros têm igual importância, tanto o Real, quanto o simbólico, quanto o imaginário, fazem parte da estrutura. A forma como estão acomodados é que pode ter uma relação com este efeito de sofrimento para o sujeito.

A análise permite transformar essa impotência imaginária em encontro possível com o Real. Com a impossibilidade de garantir a falta no Outro, e poder continuar existindo como causa de desejo. E como se faz isso? É dizendo para o sujeito que as coisas são assim? Talvez para alguns de nós isso, essa busca por um saber referencial na psicanálise faça parte da contingência que monta essa relação do saber com a falta.

E quando vamos buscar explicação nos textos de Lacan o que ele nos convoca? A um trabalho, a muito trabalho. A um trabalho que produz logo de cara um abalo os sentidos cristalizados, na lógica que estamos acostumados em um pensamento de causa e efeito.

Precisamos dar muitas voltas no texto, repetidas voltas, para poder ir escrevendo com mais tranquilidade um texto que seja próprio. Enquanto ainda não podemos, nos servimos das letras daqueles que nos antecederam nesse trabalho de ir além.

Autora: 

Texto apresentado na IV Jornada da Associação Livre Psicanálise em Londrina – Novembro/2016.