“O Analista, a Criança e Seus Pais: Considerações Acerca do Ato Analítico na Psicanálise Com Crianças

Quando uma criança chega a uma análise trazida pelas mãos de seus pais, cabe ao analista um duplo movimento: “fundar” a demanda dos pais e também “fundar” a demanda da criança. Isso porque a queixa apresentada pelos pais nas primeiras entrevistas nem sempre é aquela que, de fato, motivou-os a buscar uma análise para seu filho, tão pouco reflete o sofrimento da criança. Torna-se necessário, então, o analista questionar: trata-sede um sintoma da criança ou um sintoma na criança?

Outro duplo trabalho é colocado ao analista desde o início: estabelecer a transferência com os pais e também com a criança. Pois não é sem importância que uma criança necessite de um outro que se responsabilize por ela nessa jornada, porém, dar lugar aos pais na análise dos pequenos adquire maior relevância pelo fato de o sintoma da criança, não raro, tocar em um ponto sensível do casal parental.

Esses duplos trabalhos devem ser considerados com muito cuidado pelo analista que deseja empreender uma análise com crianças, já que Freud advertia em 1920 que não é indiferente que alguém inicie uma psicanálise por vontade própria ou que seja conduzido a ela por outros.

Historicamente muitos debates calorosos foram feitos em torno das possibilidades e impossibilidades da prática da psicanálise com crianças.

Na busca de localizar o trabalho de crianças na perspectiva da psicanálise Alba Flesler adverte que é de suma importância para a direção do tratamento que o analista delimite para si o que é uma criança. A autora sentencia: “Diga-me o que é uma criança e te direis como a analisas”.

Isso porque o objeto da psicanálise não é a criança, tão pouco o adulto. A psicanálise trata do sujeito, seja qual for o tempo cronológico vivido por aquele que o sustenta.

Se a psicanálise não se ocupa especificamente da cronologia, desenvolvendo uma técnica específica para cada idade, não é indiferente a ela os tempos do sujeito. Pois o sujeito de estrutura tem tempos: tempos de experiência com a falta, de redistribuição de gozo e orientação do desejo.

Ter o sujeito como alvo de mira na intervenção do analista e considerar que este sujeito tem tempos põe em evidência que o lugar dos pais na análise dos pequenos não se reduz a um mero recurso técnico.

Há um ato psicanalítico a ser realizado com os pais, que padecem do ou padecem com o sintoma da criança. Há um ato psicanalítico a ser realizado com a criança que realiza o fantasma dos pais. Lacan, em seu seminário O Ato Psicanalítico nos ensina que o ato analítico está no próprio manejo da transferência, já que a transferência é a colocação em ato do inconsciente.

Assim para cada encontro uma análise e para cada análise um (ou mais de um) ato analítico. A cada encontro com a criança e com seus pais cabe ao analista, autorizado pela transferência, ocupar o lugar de suposto saber, de objeto causa de desejo, de se fazer semblante, para que ao final desse processo o analista possa, pela criança e por seus pais, ser destituído, “desser”, se tornar dejeto.

Foi o que me ensinou Antônio, 5 anos, trazido por sua mãe por uma queixa de fobia. Logo nas entrevistas preliminares a mãe pede para que eu veja seu filho, justificando que ele estava ansioso por vir à análise.

No encontro com Antônio nada encontrei: não encontrava o sofrimento, nem a ansiedade em me ver.

Compreendi, então que antes de uma transferência estabelecida, o risco de atender à demanda aumenta. Vi-me, desta forma, saindo da posição de objeto a, fazendo parceria com o sintoma que ali se apresentava.

Assim, sobretudo nas entrevistas iniciais, há de se ter muita prudência com a demanda, com a transferência e com o saber, que é sempre suposto.

O que se busca em uma análise, seja para ”pessoas grandes” ou “pequenas”, é que o analisante possa chegar ao final e não estar mai aí para o gozo do Outro. Isso aprendo todos os dias com meus pequenos analisantes, seus pais e em minha própria análise.

Autora: Silvia Helena de Rezende Siste Maia

 

Referências Bibliográficas

FLESLER, Alba. A Psicanálise de Crianças e o lugar dos pais.Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 17 p.

FREUD, Sigmund (1920). A Psicogênese de um caso de Homossexualismo numa mulher. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII. 162 p.

LACAN, Jacques. (1967-1968). O Ato psicanalítico. Escola de Estudos Psicanalíticos