Do desamparo à liberdade.

Texto apresentado na VIII Jornada ALPL – A Angústia 17 e 24 de abril de 2021.

RELAÇÃO DE OBJETO E AS VIAS PERVERSAS DO DESEJO

Por: Maria de Fátima Oliveira
A relação de objeto concerne a uma posição subjetiva e ambígua entre o natural e o simbólico, que baliza o desejo desde a amamentação, vista uma posição natural do feminino; embora, não se defina um sujeito feminino pela ótica do corpo biológico, uma vez que o sujeito é instituído pela linguagem, o que por meio desta enoda o sujeito numa instituição entre real, o imaginário e o simbólico. Tal visão retira a mulher do encargo de responder sua posição no mundo em resposta ao corpo biológico, em que pese, a homossexualidade feminina transite no simbólico. Assim, para discorrer acerca do tema relação de objeto, proponho a articulação entre os seguintes textos: A jovem homossexual, O caso Dora e bate-se numa criança.
Freud em 1923, em “a organização genital infantil”, discorre sobre a organização fálica, afirmando que essa organização atinge tanto o sexo masculino quanto o feminino acerca de ter falo ou não, mas aquele que é desprovido dele equivale a ser castrado. Em 1931, Freud para resolver esse debate sobre a questão fálica na menina, refere que ela quando entra no Édipo começa a desejar o pai como substituto do falo faltoso, e a decepção de não receber o falo do pai, faz com que ela volte atrás com sua identificação a ele e retorna a direção feminina. Diz também que inconscientemente institui uma privação de menina desejada, por meio do debate edípico. Já na visão de Lacan, o falo entra em jogo ao alcance daquilo que foi dito, e o modo que o sujeito lida com o que foi instituído gira em torno do simbólico respectivo à experiência vivida e articula-se inclusive com a problemática dessa vivência. Porém, o que prevaleceu da fase fálica tem-se o efeito da frustração, instituída no campo do inconsciente, assim como suas resoluções estruturais. Mas a frustração só tem função a partir da vivência do sujeito na fase de castração articulada com a privação, em que necessita também da frustração como uma condição para o sujeito lidar com a castração pela via da frustração, visando a privação como uma representação, que não tem relação com o concreto uma vez que articula – se no simbólico. Vale dizer, que a frustração é a falta de objeto e não privação. O que faz menção à frustração incide naquilo que o sujeito foi privado, a partir de uma demanda dirigida a alguém que faz parte do jogo – é a privação ou atendimento do pleiteado que enoda ao valor conferido ao sujeito pelo Outro. Nessa dialética, entre satisfações e decepções, no momento em que o sujeito entra na ordem simbólica, entra
também na ordem da dívida, a partir do vivenciado em que inaugura o sujeito na cadeia significante e ordena seu posicionamento. A psicogênese de um caso de homossexualidade feminina reporta à articulação desses elementos.
À saber, inicia-se com o caso da jovem homossexual em que Freud começa com as entrevistas preliminares, lida com as resistências, com a sensação que nada está operando; em contra partida, vê o que se passou e põe em evidência algumas etapas. A primeira delas é que para a jovem o seu irmão mais velho não tinha objeto fálico, até ali a menina nunca foi neurótica, não mostrou sintoma histérico e nada de patológico em sua história infantil. Mais tarde, uma posição singular que ela ocupa diante de uma mulher um tanto destituída socialmente e após o desenlace entre ela e essa dama, vai levá-la à consulta com Freud. Contou a Freud que certo dia seu pai a viu passeando com a dama e lhe lançou um olhar reprovador. A dama ao saber que o pai da jovem ficou aborrecido, disse a jovem que não se veriam mais. Então, a jovem se joga numa ponte de uma linha férrea, cai, tem algumas fraturas, mas não morre. Apesar dela apresentar um desenvolvimento normal até 13/14 anos, nos moldes de uma mãe por cuidar de uma criança de amigos da família, inesperadamente, começa frequentar mulheres qualificadas como maduras, o que para Freud seria tipos de substitutos maternos, em que a partir da orientação normal do sujeito leva a menina ao desejo de ter um filho do pai. Assim, Freud diz que o sujeito deve conceber a crise originária que o fez engajar no sentido oposto. Houve uma inversão subjetiva, em que Freud tenta articular como decepção relacionado ao objeto de desejo, que se traduz por uma inversão da posição do sujeito, pois ele se identifica com este objeto, o que equivale a uma regressão ao narcisismo. E o que opera nessa posição de inversão é que por volta dos 15 anos, a menina se engajava no caminho de tomar posse da criança imaginária – sua mãe tem outro filho, um terceiro irmão. Para Freud é aí que está o ponto chave, uma vez que é na chegada de um irmão que precipitou uma inversão na orientação sexual da menina em questão, pois coincide com o momento que ela muda de posição, considerado por Freud fenômeno como reativo, supondo que a jovem continua ressentida com o pai, uma vez que se mostra agressiva a ele.
Freud interpreta que a tentativa de suicídio ocorre após a decepção produzido pelo objeto de seu apego, ou seja, a dama que se opõe a ela. Logo, a agressão dirigida ao pai, nesse ato simbólico, ao cair da pequena ponte, reflete o niederkamnen de uma criança no parque, ou seja, traduzido do alemão “o que foi posto para baixo”. Embora para Freud foi um caso em que a resistência não foi vencida, uma vez que ela manteve sua posição subjetiva e não
conseguiu ir muito longe com o tratamento desta jovem, articula sobre o amor idealizado que a coloca à disposição da dama, tida uma referência e uma atração sentida para não satisfação como instituição da falta na relação com o objeto. No entanto, este caso ilustra o funcionamento que categoriza a falta de objeto. A crise ocorre por que intervém o objeto real, pois a criança é instituída no plano simbólico, não mais imaginária que o filho lhe seria dado e dado a outra, no caso à mãe, e o fato de objeto real materializado pela falta de ser sua mãe quem a tem a seu lado, a conduz no plano da frustração. Com efeito, seu amor cortês entra em questão a saber que o que é buscado na mulher é o que falta a ela, que concerne ao falo, o objeto em questão. Para Lacan, a constituição do sujeito está engendrada com a inscrição da falta, intrínseco a perda do objeto, que inaugura o sujeito no universo da falta, desejo e finitude. Ainda em Lacan (1957-58/1999; pag. 198), tem-se a primazia do falo instituído no campo do simbólico por meio da linguagem e introjeção da lei, que se anuncia o incesto e insere-se uma lei que ultrapassa a relação falo- mãe- criança.
Seguindo pelas vias perversas do desejo temos os três tempos do Édipo: 1º privação; 2º frustração; 3º castração – são os tempos edípicos que Lacan faz menção aos três tempos da inscrição da falta – e o primeiro tempo do Édipo compõe a posição de objeto de desejo da mãe ocupada pela criança, a qual, de acordo com o desejo da mãe, busca ser o próprio falo a partir da construção fantasmática do assassinato do pai. Deste modo, o pai não aparece, mas de maneira velada o pai simbólico surge como um significante, “nome do pai”, com a função de fundar a lei no Outro, que visa substituir o significante materno, o qual interdita a mãe e insere o sujeito na cadeia significante a partir da produção da metáfora. Nesta via, instaurado na ordem simbólica, a castração barra o gozo absoluto e engendra o desejo, instituindo no sujeito uma frustração imaginária na relação ao objeto da mãe. Temos então a primeira etapa fálica, em que insere a metáfora, em que Outro se organiza no lugar de simbólico com a lei do desejo.
No segundo tempo do Édipo, remete a mãe à lei conforme o pai imaginário, com a função de barrar a mãe, constituindo seu discurso por meio da lei simbólica. Assim, a lei já inscrita é tida a partir do discurso em que o pai fora excluído, mas à medida que a mãe é privada de manter a criança em posição de objeto, o sujeito (criança) submete-se a onipotência do pai, onde se ergue hipoteticamente em onipotência diante do desejo materno.
Já o terceiro tempo a castração e privação podem dizer de um pai potente, uma vez que o sujeito castrado, por meio do suposto detentor do falo, se abre a partir do ideal do eu, e conferido pelo valor simbólico inscrito no primeiro tempo se intercambiam entre pai real e pai
imaginário – castrador e privador, conforme o sujeito atravessa do segundo tempo para o terceiro tempo, ele, privado de ser o falo da mãe – sustenta-se o pai real. Para Freud (1933-1996) o sujeito conduz a uma saída ideal instituído como uma figura de autoridade, pois para não perder o amor do pai diviniza-o. Mas Lacan, (1959/1960 – 1997) vai dizer que esse pai imaginário é ele e não o pai real que é o fundamento da imagem providencial de Deus.
Contudo, para articular a falta do sujeito a partir dos casos de Freud, com a reformulação de Lacan acerca da instituição da falta e com o texto bate-se numa criança, Freud diz da fantasia, cuja função é substituir por uma série de transformações outras fantasias, as quais se compreendem na evolução do sujeito, bem como estrutura subjetiva e situar o que revela o fenômeno. Logo na primeira fantasia, ainda em Freud, quando o sujeito assume a seguinte forma, “meu pai bate numa criança que é a criança que eu odeio”, concerne a uma fantasia que faz menção a história do sujeito em que aparece a irmã ou o irmão como um rival, em que pela presença ou pelos cuidados, frustra a criança da afeição dos pais, em especial o pai. Nessa via, trata-se da menina já constituída pelo complexo de Édipo, nesse caso o pai ocupa uma posição primitiva, num enredo que comporta três personagens.
Para Lacan existe o agente da punição, existe aquele que se submete a ela e existe o sujeito. “Aquele que se submete é, nomeadamente, uma criança que o sujeito odeia, e que ele vê, desse modo, despencar da preferência parental que está em jogo, enquanto se sente, ele próprio, privilegiado pelo fato de que o outro despenca dessa preferência” (LACAN, 1956-1957/1995 PÁG. 117)
Nessa dimensão temos três implicações: primeiro, bate no outro por medo de eu não acreditar que o prefiram a mim. O que já faz referência ao terceiro sujeito, na medida em que o sujeito tem que acreditar ou inferir alguma coisa sobre um certo comportamento que se dirige ao objeto segundo, ou seja ao irmão, já que é em detrimento a ele que o sujeito confere seu desejo de ser amado ou preferido.
Na segunda etapa: “eu sou espancado por meu pai”, enquanto a primeira fantasia é uma fantasia que encerra uma organização, uma estrutura que põe ali um sentido, na segunda etapa, mesmo que ambígua, Freud refere à essência do masoquismo, pois encena que o sujeito participa da ação daquele que o agride e o golpeia. Essa estruturação perversa se compreende no processo em articulação com o complexo de Édipo. Nesta via, o sujeito encontra seu estatuto de objeto, de carácter egóico correspondente ao seu desejo engajado nos trilhos imaginários que formam o que se chama de suas fixações libidinais.
No caso da jovem homossexual, ali pelos seus 13, 14 anos, valoriza um objeto que é uma criança de quem cuida, ligada pelos laços de afeição. Aos olhos de todos, é tida como uma garota bem orientada pelo que é esperado, uma vocação à maternidade. Nesse entendimento, ela produz uma espécie de inversão ao interessar-se por objetos de amor pelos significantes da feminilidade. Apaixona-se por uma dama, na qual investe a amada por meio de uma elaborada atitude masculina e sem exigência característica de uma relação amorosa. Essa dialética subjetiva, que concerne ao ter o falo, é tida como algo inconsciente a partir do que foi escrito, ou seja, a castração, o que no caso do perverso é desmentido. Nessa via, como um mecanismo de defesa, a jovem homossexual, pela via do real imaginário e da dialética simbólica, toma o falo como um elemento imaginário, o que na fantasia assume como dom daquilo que tem. Nesse ponto, Freud afirma ser o que inaugura a menina no complexo de édipo. Para ele, a menina na primeira fase do édipo se liga ao fato de que o pênis que ela deseja é a criança que ela espera receber do pai, como um substituto, o que na jovem homossexual trata-se de uma criança real. A menina cuida de uma criança que está em jogo.
Gráfico Mãe imaginária Criança real
Pênis imaginário Pai simbólico
A criança é para ela substituição fálica que se constitui sem saber a mãe imaginária, assim frustrada pelo pênis imaginário num nível menor. Essa frustração originária põe o sujeito em posição de objeto, pertinente ao seu próprio corpo. Segundo Freud, a jovem homossexual ama como homem por estar numa posição viril.
Gráfico. Criança Dama real
Pai imaginário Pênis simbólico
Onde era mãe imaginária, temos a criança. Em a’ está a dama, objeto de amor que substitui a criança. Em A não barrado, o pênis simbólico é o que está para além do amor, com efeito, está para além do sujeito, justamente o que ela não tem. Se a dama é amada, é na medida em que ela não tem o pênis simbólico, produzindo, assim, uma permutação que fez passar no imaginário para o par simbólico, por identificação do sujeito na função do pai.
Assim, na primeira estruturação simbólica imaginária, equivale pênis imaginário – criança, instaura o sujeito como mãe imaginária, com referência a este mais além que é o pai. Por meio desta função simbólica, pode dar o falo. Quando o pai ‘’intervém do real para dar uma
criança a mãe, ou seja, fazer dessa criança diante de quem o sujeito está em relação ao imaginário da criança real” (LACAN, 1956 -1957 /1995, PAG. 135).
Algo se institui onde ela não se sustenta, mas na posição imaginária. O que passar para o segundo tempo, pela intervenção do pai real no nível da criança frustrada há uma transformação na lógica a partir do pai imaginário, a dama, o pênis simbólico, como uma inversão em que a relação com o pai também se relacionava com a ordem simbólica ao mesmo tempo que se desloca no sentido imaginário, onde se tem a projeção inconsciente do que concerne ao primeiro tempo, uma relação perversa, numa relação imaginaria, a saber sua relação com a dama. Temos então o terceiro tempo.
Gráfico. Criança Dama
Pai imaginário Pênis imaginário
Para terminar, tanto no caso Dora quanto da jovem homossexual, temos os mesmos personagens. O pai, o filho e uma dama, e é em torno da dama que gira a inversão. Dora também faz identificação com o personagem viril, e ela por intermédio do senhor K., e na medida em que ela é o senhor K., nesse ponto imaginário, a partir dessa identificação se liga a senhora K. Esse fato ocorre porque seu pai é um homem impotente; assim, toda dialética está na impotência do pai, fazendo referência à falta fálica. Então, a criança é frustrada, onde a mãe intervém noutro aspecto – ela dá ou não dá. Nessa dialética, em que a mãe na medida que o dom é signo de amor, o pai atravessa como falo faltante, fundamental constitutiva da posição do sujeito em questão. Por outro lado, o dom é dado por nada, nada é o imaginário dessa troca, mesmo que seja pelo interesse é também pura gratuidade. Por detrás do que se dá existe tudo que lhe falta. Dora ama seu pai, precisamente pelo que ele não dá, assim o desejo se dá a partir de falta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, S. (1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
______ (1914) “Sobre o narcisismo: uma introdução”. v.XIV, p.77-110.
______ (1923) “O ego e o id”. v.XIX, p.15-82. (1926) “Inibições, sintomas e angústia”, v.XX, p.81-174.
_____ (1930) “Mal-estar na civilização”, v.XXI, p.73-150. (1933) “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”, v.XXI, p.63-84.
LACAN, J, (1956-1957/1995) O Seminário livro 4, A relação de objeto.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
_____ (1957-1958/1999) O Seminário livro 5, As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
_____ (1959-1960/1997) O Seminário livro 7, A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
_____ (1963/2005) Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
_____ (1969-1970/1992) O Seminário livro 17, O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1973/1993) O Seminário, Livro XX, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Quintella, Rogerio. O desmentido da privação na atualidade- PDF (PPGTP/UFRJ). Rio de Janeiro, abril 2018.

SOFRIMENTO, MORTE, PSICANÁLISE E ARTE NA PANDEMIA: UM TRATAMENTO PARA A ANGÚSTIA

 “A gente não pensa na morte. Até que ela nos pega” (Matheus Nachtergaele em “Desconserto”).

 

Durante o período da pandemia, assisti o monólogo de Matheus Nachtergaele, intitulado “Desconserto”, onde ele faz uma releitura de sua peça “Processo de Conscerto do Desejo”. Ele trabalha com os escritos de sua mãe, que se suicidou quando ele ainda era um bebê (Maria Cecília se suicidou aos 22 anos quando Matheus tinha três meses).

Neste período de pandemia, em que estamos vivendo a experiência da morte de forma tão próxima, me impactou demais tanto o espetáculo quanto o processo de criação de Matheus. Eu já havia ficado impactada na primeira vez em que a assisti a peça “Processo de Conscerto do Desejo”, ao vivo, no teatro Marista, aqui em Londrina, num Filo de uns três anos atrás. Desta vez assisti há cerca de uns três meses, de forma virtual, pelo canal do sesc.

Sendo sua mãe dramaturga, Matheus, se apoia nos fragmentos dos escritos deixados por ela, nas histórias que seu pai lhe contava, nas músicas que ela gostava de ouvir, nos objetos de que ela gostava; para dar vida a ela. Ao longo da peça ele diz que quis “construir uma imagem da mãe”. Dá pra imaginar o que é pra qualquer um de nós perder a mãe sendo um bebê tão pequeno, e de forma tão violenta? Que lembrança ele poderia ter dela? E mais, que mensagem ele recebeu dessa mãe sobre quem é ele próprio? Matheus conta que isso o marcou ao longo de toda vida, e que a peça foi justamente uma forma de lidar com esse luto da mãe.

Com o que ficou após a morte dela, ele dá contorno, fantasmariza a mãe, construindo uma resposta às suas perguntas: “mãe por que você me abandonou? Por que você se matou?” Em Psicanálise, “Che voi?”, o que desejas de mim? Na pergunta da criança desvela-se a necessidade de um Outro que a reconheça para justificar a sua existência. Lacan nos lembra que o Outro é o lugar do significante, ou seja, retomando o estádio do espelho, a criança, ao reconhecer, jubilatoriamente, a própria imagem no espelho, volta-se para o adulto que a segura, em busca da confirmação “tu és”. A criança se identifica com essa imagem, e esta é assegurada pela mãe, que lhe diz que aquela ali é ela. A criança se vê então a partir do olhar desejante da mãe.

O Estadio do Espelho lacaniano (1949/1998) nos diz que a subjetividade do humano nasce a partir do desejo do Outro. Segundo a teoria freudiana, o nascimento de um filho implica para os pais na possibilidade de uma restituição narcísica. Para o bebê, estar colocado antecipadamente nesse lugar, na fantasmática parental, permite a ele não somente sua sobrevivência biológica, mas também uma inserção no mundo humano, a partir de seu enlace a esse desejo parental. O bebê humano, diferente dos animais, que possuem um modo único e determinado de realizar as funções para sua sobrevivência, nasce biologicamente imaturo, incapaz de dar conta de cuidar de si e de entender sozinho o que se passa a sua volta e em seu próprio corpo. Ao puro grito do bebê, decorrente de um incômodo gerado por um excesso de excitação, é necessário que uma mãe o tome como um apelo, respondendo não apenas com a eliminação dessa excitação, mas pondo palavras nisso que era do biológico. Dessa forma, a partir do encontro com o Outro, começa a se inscrever na criança um outro registro, que produz uma marca a partir de uma experiência de satisfação. A relação com a mãe possibilita uma antecipação de uma unificação do corpo do bebê e a precipitação de um eu.

Ao longo de seu monólogo, Matheus conserta, com s, o próprio desejo: o luto permanente de sua mãe, em suas próprias palavras, em uma entrevista sobre a peça: “esse abandono, esses caguetes que carrego, eu queria deixar na peça, e a partir daí ver o que eu quero”. Ele resgata as vivências dessa mulher, a tristeza permanente que ela carrega, as pequenas alegrias, a tentativa de buscar saídas, e o empuxo à morte. Freud pontua que estar enlutado implica em identificar-se com o objeto perdido. Matheus, um bebê abandonado, cujo primeiro espelho lhe refletiu a imagem de desesperança e tristeza, (quem sabe desespero?).

Porém, nos escritos da mãe, ao falar dele, a mãe diz que o desmamou, que ele passa a se interessar em brincar com o sininho, e faz recomendações de cuidados com ele. Ele reconhece nisso que ela o separou dela antes de ir para a morte. Desta forma, ele encontra uma mãe que o separa de si e o abandona para ser cuidado por outros que pudessem fazê-lo. A partir dos significantes do Outro ele constrói a sua narrativa, uma interpretação acerca de sua própria história e de seu lugar no desejo do Outro.

Da fala de Matheus sobre o processo de criação da peça, não consigo deixar de pensar no processo do conscerto do desejo com uma a analogia ao processo de análise, onde acompanhamos Matheus da angústia ao desejo. Para falar da angústia, Lacan (1962-63) traz a imagem de estarmos diante de um louva-deus gigante travestidos de algo que nós próprios desconhecemos. Nesta situação não sabemos que objeto somos diante do desejo do Outro, correndo o risco de sermos um objeto apetecente aos olhos dele, podendo então ser devorados. Ele traz, retomando o grafo do desejo, na relação do sujeito com o significante (do Outro), a pergunta que se coloca “che voi?”, desdobrando em “o que ele quer comigo?” e “como me quer ele?”

 

Fazendo referência à situação vivenciada por todos nós neste momento, e que nos tem posto em angústia, podemos desdobrar algumas perguntas: o que esse vírus quer comigo? Serei do grupo de risco? Vou morrer? Como pagarei minhas contas? Poderei trabalhar? O que faço com meus filhos? Quero este marido? Lacan diz que a angústia é sinal do real. O real, para Lacan, seria o que nos coloca diante da castração, ou seja, da falta. Diante da falta no Outro, o sujeito responde com a própria falta, em outras palavras, frente ao encontro com o Real, o sujeito responde como objeto, e isso causa angústia.

Diante disso, o que faz uma psicanálise? A ideia de que é possível o preenchimento da falta, por meio de algum objeto, é consequente de uma outra, a de que falta é algo a ser corrigido. Por meio das intervenções, o analista visa possibilita surgir o lugar da falta como não tamponável. Assim possibilita ao analisando perceber-se nas relações que o configuraram enquanto sujeito na vida, e que posição tomou diante delas. Isso possibilita a passagem da angústia ao desejo.

Trago uma citação de Lacan (1974), que tem sido bastante utilizada nesses tempos, ouvi em lives de Colette Soler e Marcelo Veras a lembrança: “A Psicanálise é o pulmão artificial, graças ao qual tentamos assegurar o que precisamos encontrar de gozo no falar para que a história continue”. À ocasião ele diz da psicanálise como um discurso avesso ao discurso da ciência.[1] O que estes psicanalistas destacam, e eu, no ensejo deles, é o que pode a psicanálise diante disso que estamos vivendo? Sim, é inegável a importância da ciência neste momento, ela é que nos tirará da condição de perda sem perspectiva de fim que estamos vivendo. Porém, penso que tão importante quanto assegurar a vida, é possibilitar continuar vivendo, num mundo que não é mais o mesmo. “…encontrar de gozo no falar para que a história continue”. Eu troquei, sem querer, história por “vida”. Acho que, realmente acredito, que a psicanálise, assim como a arte, de Matheus, é o que possibilita que a vida continue.

Me lembrei de uma outra coisa que assisti durante a pandemia que é o episódio de um programa do Gregório Didivier, chamado “Leveza”, onde ele trata exatamente disso. Ele diz que uma das coisas que tem ajudado as pessoas a ficarem leves nesse período de pandemia, a enfrentar a solidão, a separação, a ansiedade, o medo, são produtos da cabeça dos artistas: “a série que eu estou vendo, o livro que eu estou lendo, as músicas que eu ouço todo dia de manhã, as lives da Tereza Cristina…”.

E o mais interessante é a leitura que ele faz sobre a função da arte, ele diz que ela não vem no sentido de desviar a atenção da morte, do sofrimento e de tudo o que estamos vivendo, é justamente o oposto. Ele defende a tese de que arte é principalmente sobre morte, seja pra lembrar que muita gente já morreu, seja pra lembrar que você vai morrer. Ele cita uma expressão em latim Memento mori, muito utilizada em uma determinada época: “lembre que você vai morrer”. E daí ele começa a desdobrar filósofos, escritores, roteiristas, compositores, pintores que tratam sobre a morte e o morrer ao longo de toda a História.

Ele diz que além de ajudar a gente a lidar com a morte, a arte possibilita processar a morte coletivamente. Não falar sobre a morte é ficar refém da morte. A arte é a memória viva em movimento, e ao falar da morte de alguém, a gente impede que a morte encerre a vida da pessoa. A arte é um jeito que a humanidade inventou de superar a morte e valorizar a vida.

Voltando ao “Processo de Conscerto sobre o Desejo”, entendo que Matheus, com música, poesia e muita sensibilidade, ele faz um concerto, com c, uma obra de arte, uma celebração do que foi possível, frente ao inexplicável, destila o ressentimento, a dor, a raiva, o medo, o amor. Assim, atuando a peça de sua mãe, ele se torna obra dela, respondendo a que veio ao mundo. Para ele, que se reconhece como um ator de teatro, “O teatro é uma prática que deriva de emoções”. Matheus cria uma obra que nos emociona, nos arrebata, nos implica, nos instrumentaliza para lidar com nossos próprios ressentimento, dor, raiva, medo e amor. Ou seja, deixa de ser dele, o ultrapassa e cumpre sua função de obra de arte. Matheus nos desconcerta.

 

REFERÊNCIAS

LACAN, J. O Estadio do espelho como formação da função do eu. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p.96- 103.

 

LACAN, J. (1962-63).O seminário, livro 10: A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

LACAN, Le Coq-Héron, 1974, nº 46/47, p. 3-8 – Declaration à France Culture.

 

[1] discurso do mestre.

“DECIFRA-ME OU TE DEVORO”: REFLEXÕES SOBRE A ANGÚSTIA E OS ATENDIMENTOS ON LINE NOS TEMPOS DE PANDEMIA

“DECIFRA-ME OU TE DEVORO”:

REFLEXÕES SOBRE A ANGÚSTIA E

OS ATENDIMENTOS ON LINE NOS TEMPOS DE PANDEMIA

 

Mônica Fujimura Leite

 

Diante da imposição do isolamento social, precisamos fechar as portas de nossas clínicas e passar a atender on line. Neste momento, era a única forma de dar seguimento ao trabalho, sustentando uma posição e um anteparo frente aos desdobramentos que a situação impunha.

Frente ao desamparo vivenciado, o tema veio muito a calhar com o seminário que eu vinha estudando com colegas da ALPL, na modalidade de cartel. Assim, me propus a pensar se os fenômenos experienciados poderiam ser articulados ao conceito da angústia, conforme Lacan o propõe, e como se daria o tratamento disso numa análise on line. Gostaria de agradecer as interlocuções realizadas, com minhas colegas de cartel, bem como com os demais membros, nos fóruns, reuniões de eixo e seminários.

A pandemia trouxe uma condição de sofrimento. Fomos afetados nos três pilares de nossa existência e que Freud (1929/1996) aponta como fontes de sofrimento: nosso corpo, o outro e a natureza. Ouvimos relatos das perdas (da liberdade, dos objetos de gozo, do trabalho, da morte, da saudade); de o contato com o outro, tão primordial ao humano, ser a fonte do contágio; de o vírus ser uma resposta da natureza frente às intempéries humanas ao planeta.

Porém, dizer que este sofrimento afeta a todos da mesma forma não é verdadeiro. Colette Soler, em uma live, diz que o sofrimento, para além da circunstância que o produz e desencadeia, é relacionado ao inconsciente de cada um, e participa do gozo inerente ao sintoma.

De que forma isso se dá? Retornando à letra de Freud, no texto supracitado, ele diz que, quando somos atingidos em uma dessas direções, nos deparamos com o nosso desamparo primordial, contra o qual tentamos fazer frente através da civilização. Freud localiza esse desamparo à condição própria do humano que, diante de sua fragilidade e despreparo constituintes, é totalmente dependente de um outro humano para sobreviver. Isso é traumático. Diante da falta de resposta instintual do bebê, o adulto codifica as vivências infantis por meio da linguagem, armando o circuito pulsional, tirando o infans da condição de ser vivente e ascendendo-lhe à condição humana. Ter sua existência atrelada ao desejo de um outro traz ao infante o temor de perdê-lo, ficando para ele a interpretação de que o outro é a fonte de seu sofrimento. Dentro deste circuito, onde podemos situar a angústia?

Freud, em “O Estranho” traz duas ideias, a de que a angústia seria um sinal de uma ameaça ao eu, ameaça da castração (entendendo castração como perda), sendo consequência, portanto do recalque; e, posteriormente, que a angústia é que produziria o recalque, que seria então uma defesa contra a angústia. Lacan, no seminário 10 (p. 153) retoma o dito freudiano, questionando-o, de como a angústia[i] poderia ser defesa, e ao mesmo tempo, algo contra o qual o eu se defenderia? Ele traz então a ideia de que a “defesa não é contra a angústia, mas contra aquilo de que a angústia é sinal” (p. 153). Não se trata de defesa contra a angústia, mas de uma certa falta. Falta de que?

            De acordo com Lacan (seminário 10), a angústia aparece quando a falta do Outro falta. Partindo exatamente de onde Freud nos deixou, em termos lacanianos, para existir, o humano precisa ter sua existência reconhecida por outro humano, ou seja, se engajar no desejo do Outro. “O desejo do homem é o desejo do Outro” (p. 31). Na medida em que o Outro falta, e não sabe o que lhe falta, o sujeito é implicado, a partir de sua própria falta, a ocupar o lugar de objeto que supostamente completaria ao Outro, e consequentemente a ele mesmo (p. 32-33).

 Lacan nos lembra que o Outro é o lugar do significante, ou seja, retomando o estádio do espelho, a criança, ao reconhecer, jubilatoriamente, a própria imagem no espelho, volta-se para o adulto que a segura, em busca da confirmação “tu és” (p. 41)[ii]. Ele diz, porém, que nem todo investimento libidinal passa pela imagem especular, resgatando o conceito de falo, enquanto uma lacuna que fica na imagem, ou seja, uma falta.

É isso que possibilita o desejo: na medida em que algo escapa da significação do Outro, o sujeito fica impedido de identificar o objeto que completaria a falta. Assim, constitui-se a cena fantasmática, que implica no sujeito separado do objeto de desejo, na esperança de alcançá-lo. Nas palavras de Lacan: “o a[iii], suporte do desejo na fantasia, não é visível naquilo que constitui para o homem a imagem de seu desejo” (p. 51). Isso que resiste à significantização é o que possibilita ao sujeito ser desejante.

Então, respondendo à pergunta, a angústia surge quando algo aparece no lugar em que deveria estar preservado o lugar da falta. (p. 51)[iv]. Ou seja, o sujeito se vê na iminência de ver-se como objeto que completa o Outro, colocando a sua castração a serviço do que falta ao Outro (p. 56).

Observem que Lacan diverge radicalmente de Freud neste ponto, uma vez que para ele, conforme foi falado (e que ele retoma em Inibição, Sintoma e Angústia), a angústia seria uma reação frente à perda do objeto. Para Lacan, o sinal que a angústia introduz é frente ao desejo do Outro, que lhe dirige uma demanda que o anula, questionando o sujeito em sua própria perda, seu próprio desejo, na qual ele fica aprisionado (p. 169).

 

Além desta questão da demanda, Lacan situa a angústia frente a outros dois pilares: o gozo do Outro e o desejo do analista. Com relação ao gozo do Outro, Lacan refere que a angústia surge quando o objeto a (privado e incomunicável) torna-se um objeto intercambiável (comum, socializado, situável e reconhecível) (p. 100 e 103). Os objetos intercambiáveis são os objetos da pulsão, objetos parciais, que servem para preencher uma falta, sendo gozado pelo Outro.

 

Para tratar disso, Lacan traz o exemplo de estarmos diante de um louva-deus gigante, travestidos de algo que nós próprios desconhecemos. Nesta situação nossa angústia refere-se a não sabermos que objeto somos diante do desejo do Outro, correndo o risco de sermos um objeto apetecente aos olhos dele, podendo então ser devorados. Ele traz, retomando o grafo do desejo, na relação do sujeito com o significante (do Outro), a pergunta que se coloca “che voi?”, desdobrando em “o que ele quer comigo?” e “como me quer ele?” (p. 14).

 

Fazendo referência à situação vivenciada por todos nós neste momento, e que nos tem posto em angústia, podemos desdobrar tais perguntas: o que esse vírus quer comigo? Serei do grupo de risco? Vou morrer? O que acontecerá como meu emprego? Como pagarei minhas contas? Poderei trabalhar? O que faço com meus filhos? Quero este marido? No fórum da Fernanda, em que ela também trata dos atendimentos on line nos tempos de pandemia, Mônica Silva pergunta: frente ao encontro com o Real, o sujeito responde como objeto? Lacan diz que a angústia é sinal do real (p. 178). O real, para Lacan, seria o que nos coloca diante da castração, ou seja, da falta. Penso que seja neste sentido que Colette Soler traz que, diante de um fenômeno mundial (pan), cada sujeito responde individualmente. Conforme vimos com Lacan, diante da falta no Outro, o sujeito responde com a própria falta.

 

Diante disso, o que faz uma psicanálise? Fernanda traz em seu fórum que, por meio das intervenções, o analista visa esvaziar este lugar de objetos intercambiáveis, até que possa surgir o lugar da falta como não tamponável. Assim, o sujeito pode ocupar um outro lugar, diferente do de objeto intercambiável.

Assim, retomando, a angústia surge da relação do sujeito com o desejo do Outro, diante do qual ele responde com o próprio desejo, a partir de uma resposta sintomática. Lacan trata o sintoma, neste seminário, enquanto o que situa ao objeto a enquanto causa do desejo do sujeito (p. 304-305). Uma psicanálise possibilita então, de início, que o sujeito perceba o funcionamento de seu sintoma, ou seja, que há uma causa nele (p. 306).

 No seminário 10, Lacan diz que o caminho de uma análise passa pelo a, e que este é o objeto presente na transferência (p. 307). Assim, o sujeito se oferece nesse lugar de a ao analista (p. 61), pedindo-lhe que demande dele (p. 62). Lacan situa a transferência, neste seminário, que é a partir desta falta que o paciente ama, e repete isso com o analista (p. 122) (amor de transferência). Sabemos, desde Freud, que aceitamos a oferta, porém, não respondemos a partir dela. Desta forma, podemos levar o sujeito ao encontro com a interpretação da castração. Ao se deparar com a falta no Outro (analista), o sujeito é convocado a “dar o troco, através de um signo, o de sua própria castração” (p. 56)[v]. Assim, ao ofertar esse vazio, cuja presença serve de anteparo ao enganchamento das relações primordiais do paciente, o analista possibilita ao analisando perceber-se nessas relações que o configuraram enquanto sujeito na vida, e que posição tomou diante delas.

Isso possibilita a passagem da angústia ao desejo. Lacan diz que a angústia é intermediária entre o gozo e o desejo (p. 193). Na experiência analítica o sujeito retorna à função da falta na estrutura original (p. 151), marcando a falta como irredutível (p. 195), e passa da ameaça de castração para a angústia de castração (p. 195).  Assim, deixa de ver a falta como uma ameaça ou um defeito, admitindo-a como parte de si, desanodando-se da posição sintomática na qual se encontra, possibilitando a queda de a, e ascendendo ao desejo.  

Segundo Soler, isso se dá não tanto pela palavra do analista, mas é possível porque o analista encarna, no pano de fundo de seu silêncio, o objeto causa, a partir do qual o inconsciente se diz. E na análise on line, como o objeto se faz carne?

Lembremos que Lacan, no seminário 11, diz que o inconsciente se produz na análise e […] “não pode ser separado da presença do analista”. Diante disso, é importante compreender o que Lacan chama de presença do analista. Na Nota Italiana Lacan (1973) diz: “Só existe analista se o desejo lhe advir”. Podemos entender então que o analista ocupa determinada posição, a partir de um desejo: desejo do analista (p. 307). Chegamos aqui ao terceiro elemento trazido anteriormente por Lacan. O analista ocupa a posição de objeto causa de desejo.

 Bom, um início de resposta seria então a sustentação do desejo do analista, onde ele ocupa uma função. Além disso, a constituição do inconsciente se dá em transferência, marcando esta presença nos três registros – real, simbólico e imaginário. Existem as palavras e as articulações significantes, existe a cena que se monta, existem os afetos e objetos pulsionais que circulam entre analista e analisante. Essa é a condição para que a análise aconteça.

Comecemos pelo simbólico: em “A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder”, Lacan diz que o poder da psicanálise é o poder da palavra. Do lado do analistante, permanece nosso convite para que ele fale, inaugurando, com a associação livre. Do lado do analista, entramos com as pontuações, equivocidades, escanções, cortes. Mas a fala também comporta a dimensão do real, recupera-se um gozo ao falar.

No seminário 10 Lacan diz que os significantes vocalizados nos colocam diante do objeto a (p. 273). Assim, a voz entra como algo que está entre o sujeito e o Outro, sendo vista como estranha a ele, e instaurando um vazio. O sujeito incorpora os significantes do Outro (p. 301).

Numa situação de interação virtual, os especialistas dizem que a qualidade do som é mais importante que a imagem. Penso na radicalidade disso quando se refere a uma psicanálise, em que a fala não tem função de comunicação. Lacan diz que “o efeito do significante é fazer surgir no sujeito a dimensão do significado” (p. 311), e isso é particular para cada um. As chamadas “falhas de comunicação” decorrem de os objetos do mundo poderem entrar como causa para o sujeito (p. 315)[vi].

A fala está para além do enunciado, é um dos objetos da pulsão. Assim, o dizer implica em uma posição erógena e tem efeitos sobre o corpo. Implica em uma enunciação e um endereçamento, veicula desejo. Na instauração do inconsciente, a linguagem é incorporada pela voz. Como fica isso com a mediação da tela? Aurélio Souza, numa live do Espaço Moebius, diz que numa análise on line, o elemento intermediário que serve de contato entre o analista e o analisante modifica as condições de fala de ambos, modificando o que cada um pode ouvir, e a forma como é escutado o retorno que fazemos da fala do paciente para ele próprio.

 Como trabalhar as escanções, as interrupções, as respirações e os suspiros, quando estamos assujeitados à conexão do provedor da internet? Como garantir uma escuta? Ou um silêncio? Como intervir num mal-entendido sem saber se foi uma falha técnica ou do discurso do paciente? Como saber se ele não escutou por resistência ou por “rede desistência”?

Sobre o silêncio, encontrei em Hernandez (2004) uma citação de Lacan, no seminário A lógica do fantasma que diz existirem duas formas de silêncio. Taceo seria o da palavra não-dita, do calar, do silenciar ou ser silenciado. De outra parte, sileo seria um silêncio fundante, estruturante, do buraco da significação. Quando há palavras para se dizer, mas não são ditas, cala-se; por outro lado, quando faltam palavras para dizer o que se deseja, silencia-se. Pela tela não é possível saber se o silêncio é um ou o outro.

Cristhian Dunker, em seu canal do youtube, diz que numa análise on line a resistência começa a tomar força, sendo mais fácil desencontrar horários, desligar a tela… Eu já vivi atrasos, outros compromissos, esquecimentos. Visitas familiares que chegam, interrupções de setting.

Pelo viés imaginário, em sua clínica presencial, o analista oferece um setting, e isso implica, para além da sustentação de uma função, também a oferta e sustentação de um lugar, um horário, do sigilo, do divã, a disposição dos corpos no espaço, a interrupção do olhar, a interrupção da sessão. Diante destas questões, encontro interlocução novamente com Aurélio Souza, que diz que há efeitos transferenciais numa análise on line, na medida em que não garante a privacidade, e uma exacerbação do imaginário.

Numa análise on line, quem chama? Quem fica na espera? Como lidar com as falhas ou perdas de conexão? Repomos a sessão? De quem é o problema técnico? De quem é a falta? A sua internet não funciona, ou é a minha? Quem se responsabiliza?

São questões, que não sei se têm uma resposta definitiva. Sei que tenho praticado o trabalho clínico com a psicanálise on line, e que tem sido possível a continuidade do tratamento das questões trazidas pelos pacientes, além de situações inusitadas e surpreendentes. Mas esses desdobramentos têm feito ruído. Me vejo muito mais cansada e tendendo a concordar com os psicanalistas que dizem ser possível, contanto que se intercalem encontros presenciais.

REFERÊNCIAS

 

Freud, “O Estranho”

Freud, S. O Mal Estar na Civilização. (1929/1996)

 

Freud, Inibição, Sintoma e Angústia

Lacan, J. Nota Italiana (1973) p. 311-315. In: ________Outros Escritos, RJ, Jorge Zahar Ed, 2003, trad. Vera Ribeiro.

LACAN, J. (1962-63).O seminário, livro 10: A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

LACAN, J. (1964).O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

 

“A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder”

 

LACAN, Le Coq-Héron, 1974, nº 46/47, p. 3-8 – Declaration à France Culture

 

Lacan, Jacques (2003b). Nota italiana. InOutros escritos. Campo Freudiano no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original transmitido em 1973)

 

Hernandez, Juliana. (2004). O duplo estatuto do silêncio. Psicologia USP, 15(1-2), 129-147. Disponível em https://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642004000100016 Acesso em 19 maio 2018.

 

complementar

Lacan, Jacques (2008a). Lição XVI. Seminário 14: A lógica do fantasma. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife: publicação para circulação interna. (Trabalho original transmitido em 1967).

[i] Para Lacan, a angústia não é uma emoção, mas um afeto. Isso implica em que ela não é passível de recalque, fica à deriva, o que é recalcado são os significantes que o amarram (p. 23)

[ii] Lacan reforça que as coisas do mundo se colocam em cena a partir das leis do significante (p. 42-43).

[iii] O objeto a, Lacan o situa originalmente como suporte do desejo, ou seja, como causador dele (p. 113 e 115).

[iv] Lacan diz que quando o lugar do -ⱷ é preenchido, surge “a angústia de castração, em sua relação com o Outro” (p. 55).

[v] “é na medida em que se esgotam até o fim, até o fundo da tigela, todas as formas de demanda, até a demanda zero, que vemos aparecer no fundo a relação de castração” (p. 63).

[vi] Torneira de Piaget, em que a criança parecia compreender a explicação do funcionamento, proposta pelo adulto, mas quando ia ensinar outra criança, algo se perdia e ela não conseguia explicar.

Angústia e desejo de Freud a Lacan

ANGÚSTIA E DESEJO DE FREUD A LACAN

Angústia, em alemão ”Angst”, embora possa ter outros sentidos, é uma tradução que pode reportar-se ao medo. No viés que delineia o conceito de Angústia em Freud (1916-1917), refere-se a um afeto com reações corporais ou a sensações indefinidas, como um incômodo, por exemplo. O afeto que Freud refere não tem a ver com o sentimento de emoção; por outro lado essa sensação indefinida ou estranha se liga a um fenômeno oriundo do campo psíquico, sendo uma excitação que se refere à energia que investe o psiquismo.
Em 1926, Freud atribuiu angústia a uma energia psíquica, uma excitação, que se liga a uma representação para marcar um funcionamento no psiquismo do sujeito, compondo um representante da pulsão que o sujeito recalca. Esse representante é utilizado como um mecanismo de defesa atribuído a um caráter econômico. E o recalque faz menção a uma representação inconciliável, por exemplo, uma alergia ou um distúrbio respiratório. Freud (1926) ainda atribuiu a fobia como veiculada a um segundo objeto, cuja alusão (cavalo) é enlaçada ao medo, visto no caso do pequeno Hans, um estudo a acerca da neurose de angústia, atendido por Freud em 1909. Freud discute, inclusive, sobre a repetição como fixações que determinam os retornos do recalcado na cadeia pulsional como conteúdo a ser elaborado e que sempre reaparece nos sonhos, nos chistes, atos falhos, entre outros. Mais tarde, em 1933, Freud define que é o ego que recalca para evitar a representação daquilo que o sujeito não consegue lidar por ser assunto ainda intratável. E o afeto que fica fora do campo representacional e que não é nomeado equivale a uma angústia sem representação no corpo.
Sobre o arcabouço da construção teórica desenvolvida por Freud acerca da angústia no sujeito, assim como seus mecanismos de defesa, Lacan (1962- 1963/2005) retoma a teoria freudiana e salienta que as defesas não são construídas para barrar a angústia, mas diz respeito à resposta a algo que ela destina, ao que ele nomeia como signo no seminário “desejo do Outro”; é o que ocorre com a perda do limite do sujeito e faz menção a um vazio que não tem borda, a partir de algo que o captura e o aliena, embora tenha seu aspecto fenomênico, uma vez que se articula com o real, mas também não é sem objeto. Em relação ao termo ‘’objeto’’ me refiro ‘’objeto de desejo’’. Esse tal objeto não existe, uma vez que a pulsão não tem objeto definido, mas articula-
se entre a significação fálica, a falta de objeto e o tamponamento da falta. Pretendo desenvolver um pouco mais à frente deste texto sobre esses últimos conceitos, no intuito de discorrer um pouco mais sobre a angústia, o conceito em questão. Ocorre que, em 1974-1975, Lacan se distancia mais ainda de Freud e conceitua que angústia é invasão do real no imaginário bem como um desejo insabido, ou seja, a falta constituinte que se reporta à estrutura do sujeito articulando o desejo ao campo do gozo, bordejando o gozo do Outro na baila dos significantes e do enodamento borromeano na via daquilo que está no eixo da inibição, do sintoma e da angústia.
Essas saídas do sujeito no processo de castração vão designar três modos de exercer a função de nome-do-pai, dando a ele um nome por meio dos seguintes processos: privação, frustração e castração. Como resultantes, a inibição e o sintoma fazem menção à elaboração do sujeito diante da angústia de castração, dando também ao sujeito um lugar no mundo enquanto significante, de onde se sustenta no gozo através de uma nomeação do real realizada pelo imaginário e pelo simbólico. Por isso, ocorre uma estabilização dos fenômenos para o sujeito instituído, embora o sujeito faça sintoma como mecanismo de defesa.
Ainda ao que refere a angústia, Lacan em (1962-1963/2005), no primeiro capítulo de ‘’o seminário’’, livro 10, diz que a “estrutura da angústia faz menção à fantasia, por assim dizer, a mesma coisa, já que a angústia é invasão do real no imaginário”. Pode ocorrer que a angústia faça sintoma, por exemplo: xerostomia (boca seca), tremores, entre outros. Mas se o sintoma é definido como a invasão do simbólico no real, resultando da bricolagem do significante com o real, no caso da angústia o real presente no sintoma faz referência à satisfação pulsional, que, de maneira indireta, implica o corpo, uma vez que o significante organiza a forma de satisfação pulsional; logo, a falta que aparece no campo do desejo é o que o gozo pretende eliminar, ou seja, impede o sujeito de alcançar o objeto de satisfação. Por exemplo, é comum que o sujeito partilhe com o analista sua vontade de eliminar o sintoma que sustenta seu gozo no “impedimento’’, em contradição com o desejo de se manter impedido.
De acordo com Lacan seminário 10 (1962-1963/2005), “estar impedido é um sintoma (…)”, logo o impedimento que é suscitado no sujeito se liga a uma armadilha, na qual ele se vê embaraçado, ou melhor dizendo, capturado pela imagem especular – falo instituído pelo Outro – assim como dividido entre aquilo que concerne à captura

narcísica, a partir do investimento libidinal e o objeto de desejo, ao qual o sujeito se vê impedido à medida que se aproxima do objeto em questão em decorrência da angústia.
Voltando ao trecho do texto “tal objeto não existe, uma vez que a pulsão não tem objeto, mas articula-se entre a significação fálica, a falta de objeto e o tamponamento da falta” a fim de desenvolver um pouco mais, começo com a significação fálica e sua proximidade com a angústia a partir do exemplo que se segue para explicar de modo mais prático ao que pretendo abordar. Inicio discorrendo sobre a resposta a uma demanda, em que o sujeito se impõe em responder ao que se liga à sustentação fantasmagórica a partir do olhar do Outro e o seu real desejo que ainda está na via do Outro. Por exemplo, um sujeito que responde na posição de um significante negativo (ⱷ – falta mãe), ou seja, não sendo para o Outro o que se espera dele. Entretanto, o sujeito sustenta esse lugar mesmo que de modo conflitante, ao mesmo tempo em que ele faz de tudo para manter-se em tal lugar – gozo – articulado com o desejo do Outro. O impedimento pode aparecer quando o sujeito não consegue sustentar um projeto a partir da escolha de um objeto de desejo como objeto de satisfação. Pode ocorrer que o sujeito ainda não se desembaraçou e insiste em tamponar a falta pela via do desejo do Outro, uma condição em que se faz um nó – um empuxo como impedimento. Não há completude, mas aceitar a falta e buscar os mecanismos necessários para lidar com a angústia por meio de uma mudança subjetiva.
Não faltam casos clínicos para exemplificar, a começar por um discurso quase corriqueiro, principalmente em casos de adolescentes, assim como é possivel também em adultos, com esse enunciado: “eu não consigo fazer nada direito; gostaria muito de ter minha independência, mas sempre fracasso em qualquer coisa que resolvo fazer; eu não aguento mais, eu odeio quando minha mãe fica me cobrando”. Enunciação: “estou impedido de sair desse lugar de fracassado”, por outro lado, eu sou bem sucedido ao manter o significante “fracasso”, uma vez que o preço é alto, mas é desse lugar que me reconheço, tenho medo de saber que nada sou; ‘’fracassado é o lugar em que me sustento como o filho que sou, conferido por minha mãe” – desejo do Outro. Essa rachadura, a separação recalcada entre o Outro e o sujeito e o desejo do sujeito que ainda baila no desejo do Outro – sou ou não sou o falo? – surge como algo estranho nomeado como angústia por ser sentido pelo sujeito como algo inominável, uma vez que é impossivel ser para o Outro. Por outro lado, ‘’não ser’’, a partir do momento que começa tocar no significante da falta, provoca sensação de despedaçamento, ou seja, uma

angústia terrivel experimentanda pelo sujeito no processo de castração ou na queda do objeto.
Ainda sobre o significante ‘’falo’’ que contorna a problemática do ‘’eu ideal’’ ou ‘’ideal de eu’’, entra em jogo nessa lógica ⱷ+ falta a falta; ⱷ – falta mãe, veiculada ao desejo do Outro no ponto em que se faz um enigma. Esse ponto é justamente aquilo faz nó sintomático que ao mesmo tempo que encobre a sisão, revelando o que é ser um significante para outro significante, numa lógica em que a questão do falo para o sujeito, em um processo de análise, passa pelo predicado daquilo que é impossivel prever, pois quem sabe o insabido é o “sujeito suposto saber”, a saber, um equivoco possivel de vir a tona por meio da associação livre.
No seminário 20 “mais ainda”, Lacan (1972-1973 /2008) afirma que, frente ao impossível da relação sexual o sujeito só poderá contar com o falo pela via do imprevisto, ou seja, não se sabe o que vem do inconsciente e o que está na via de seu desejo, por isso a resistência; o que nos leva a pensar que no nível da incerteza do falo aborda-se o ponto chave, o ponto em que se anuncia o “objeto a” como sujeito causa do desejo e o que “não há como saber”, levando o sujeito lidar ou se haver com o imprevisto, um real que não se sabe, por exemplo o COVID 19. Não dá para prever também o modo singular de apreensão do real, o que também é gerador de angústia – o que no final de análise constitui-se como tratamento do “objeto a” e da angústia como algo que ficou paralizado, assim como a impossibilidade da relação sexual, ou seja, a completude, além das implicações enodadas com a privação tida como irreversível antes do sujeito iniciar um tratamento analítico – assim como um encontro amoroso, o que não implica ser vivido apenas pela via do pensamento. Nesse ponto, um processo de análise balizada pela transferência, bem como outros dispositivos para condução do tratamento, concordo com o que nos presenteia a Zeila em seu texto quando diz da acolhida e o cuidado que se impõe ao analista tratar um paciente em meio a uma crise de angústia. Não se trata de responder demandas, mas conduzir com uma delicadeza capaz de medir aquilo que o sujeito pode suportar durante o processo analítico. Achei pertinente os exemplos trazidos de Lacan, nos quais ele se colocou afetivamente, entre outros feitos com mestria. São medidas necessárias para trabalhar e lidar com a contigência que também suscita do lado do analista: “como lidar com a angústia diante do imprevisto da resistência de um processo analítico?”

“Contingência é aquilo que se resume o que submete a relação sexual a ser, para o ser falante, apenas o regime do encontro. Só como contingência é para a psicanálise, o falo, reservado nos tempos antigos aos mistérios, parou de não se inscrever. Nada mais”. (Lacan, 1977- 1978/1985 pág. 127).
Ao final de análise, enuncio que a contingência é o entendimento, a apreenção da incerteza daquilo que não há como saber vivenciando um real, na mais pura aceitação do que não se controla, de onde ressoa um sujeito que, ao mesmo tempo que tem ciência de sua impotência, se fortalece sustentado em si mesmo em meio a impossibilidade de tal controle, o que, paradoxalmente, se ampara diante da angústia provocada pela falta, ao mesmo tempo que faz laço de confiança em algo que não se sabe advindo do próprio sujeito.
Agradeço aos colegas esperando frutificar algumas discussões acerca do que eu não lembrei de mencionar.

FREUD, S. (1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
______ (1926) “Inibições, sintomas e angústia”, v.XX.
______ (1914) “Sobre o narcisismo: uma introdução”. v.XIV.
______ (1923) “Organização genital infantil”. v.XIX.
LACAN, J, (1962-1963/2005) O Seminário livro 10, A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1953-1954/1996) O Seminário livro 1, Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1977-1978/1985) O Seminário livro 2, O Eu na teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1972-1973/2008) O Seminário livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
LIMA, Mônica Assunção Costa. O sujeito da experiência psicanalítica entre o contingente e o necessário. Ágora (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 295-310, dez. 2002.

Apontamentos a partir do texto: “A angústia e desejo de Freud a Lacan”
Zeila Torezan

Se a vida fosse a mesma de antes, estaríamos reunidos no auditório de costume, teríamos ouvido a apresentação da Fátima (e não lido seu texto) e a minha intervenção seria feita a partir da fala dela, na função de debatedora. Mesmo a vida não sendo mais a mesma, me propus a ler e tentar trabalhar em parceria com ela de alguma forma, sempre com o desejo de seguirmos com o trabalho da ALPL. Como por esta via dos textos escritos, que escolhemos por ora, fica inviável um verdadeiro debate, logo não exerço aqui a função de debatedora, opto por escrever a respeito de alguns pontos abordados ou indicados no trabalho da Fátima. Agradeço à ela pelo texto e enfatizo a minha escolha: não vou comentar diretamento o texto (pelo fato de que não podemos dialogar por aqui), mas produzir algo a partir do que o trabalho dela me suscitou. Em função da proposta da Fátima de abordar a angústia e o desejo num percurso histórico, vou desenvolver meus apontamentos, procurando acompanhar e, se possível, ampliar um pouco o que o texto dela nos traz em duas vias que se entrelaçam: a relevância e particularidade clínica da angústia nos dias de hoje e a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito.
Paradoxalmente, vivemos um tempo difícil e promissor para a psicanálise. Sabemos que esta dicotomia não é nova, desde o seu início a clínica psicanalítica sabe ser eficaz no tratamento do sofrimento humano, mas enfrenta uma série de dificuldades, impasses e questionamentos. Entretanto, os percalços advindos de uma posição subjetiva onde a busca por um saber inconsciente é sobrepujada por uma demanda de gozo que a cultura propõe como necessário (Besset, 2002), produz impasses bem específicos e, arrisco dizer, maiores do que aqueles presentes desde o nascimento da Psicanálise e atrelados a uma ordem social regida pela presença de uma forte instância terceira, da repressão, do sofrimento e da culpabilidade neurótica. Um cenário árido e favorecedor, dentre outras coisas, da presença da angústia e das diferentes formas de atuações nas clínicas das toxicomanias, dos transtornos alimentares, da psicossomática, do pânico, das fobias e das melancolizações. Mas também, promissor, por, mais uma vez, a psicanálise trabalhar para buscar formas de lidar com a dor e o sofrimento humanos, e mostrar-se capaz de renovação teórica e técnica.
Não podemos esquecer também de toda a carga de anestesia psíquica e anulação subjetiva que a indústria farmacêutica pode, alegremente, nos proporcionar e ainda a presença da solidão e do enfraquecimento dos laços sociais, pretensamente substituídos pela comunicação virtual. Bem, mais do que nunca, com a pandemia e o isolamento dos corpos essas questões se intensificam. Chego a pensar se este mundo virtual em que agora fomos todos, em alguma medida, forçosamente mergulhados não tem potencial para se equiparar ou mesmo subrepujar as drogas farmacêuticas. Sem negar as inúmeras vantagens que essa via nos proporciona, ainda mais nos dias de hoje, não podemos fechar os olhos para os males que também comporta. E tais malefícios se aproximam daqueles das medicações: anestesia, entorpecimento, sedação intelectual, alegria virtual (e não química) de um mundo e de relações imaginários. Sim, recortes imaginários são necessários, hoje nos ajudam a quebrar o isolamento também, mas nos mantermos conectados não é estarmos próximos. Não podemos tomar uma coisa pela outra. Vocês poderiam dizer que estar geograficamente perto também não é, necessariamente, sinônimo de proximidade. Correto, mas não há nesse último caso a força, a amplitude, o poder e mesmo a sedução imaginários que o virtual comporta.
Avançar na discussão a respeito da clínica da angústia na contemporaneidade exige, como nos propôs a Fátima, a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito. Faço, então, alguns comentários a esse respeito, reforçando alguns pontos já tratados no texto da colega e ampliando alguns outros.
A obra freudiana apresenta duas teses sobre a angústia: na primeira, o recalque é postulado como produtor de angústia; na segunda, a angústia é anterior ao recalque e produz o mesmo. A construção da primeira teoria sobre a angústia está associada à diferenciação entre as
neuroses atuais e as psiconeuroses. As neuroses atuais, em especial a neurose de angústia, se caracterizam por um quantum de excitação sexual sem mediação simbólica e vivenciada diretamente no corpo sob a forma de angústia e, portanto, fora do recalque. Dito de outra forma, a angústia nas neuroses atuais é vista por Freud como uma energia livre decorrente da tensão física e sua ausência de intermediação psíquica. Com essa leitura sobre as psiconeuroses, temos a libidinização da tensão sexual, extrapolando a condição física desta tensão para o psiquismo. Freud considera os sintomas como indicadores de um excesso de libido e coloca a ideia de transformação deste excesso também em angústia. Tal excesso é vivenciado pelo eu como um perigo pulsional e estaria na base das psiconeuroses, pois frente a tal perigo o recalque atua como defesa. Com o recalque ocorre a separação entre ideia (representante representação) e afeto, sendo a angústia um dos possíveis destinos para o afeto (na condição de afeto livre). Portanto, temos a primeira tese sobre a angústia, marcada por um caráter econômico em que a angústia é um resultado, uma manifestação subjetiva de uma quantidade de energia não dominada, um produto do recalque e já está associada a um caráter defensivo. Este caráter defensivo é, nesse momento, enfatizado por Freud através da articulação da angústia a uma espécie de disposição preparatória para o perigo, pois à medida que o eu retira a libido dos representantes psíquicos, ele produz um nível de angústia suportável afim de que o eu não seja dominado pela angústia paralisante.
Com os elementos da segunda tópica e, em especial da segunda teoria pulsional, Freud (1996/1926) agrega à compreensão da angústia como libido transformada pelo efeito do recalque a ideia de uma angústia originária, associada ao trauma do nascimento, à imaturidade e dependência do humano, e, portanto, anterior ao recalque. Assim temos a segunda tese freudiana sobre a angústia, de caráter dinâmico, onde o recalque não causa a angústia pois ela está presente desde o início e por temê-la o eu recalca o que se apresenta como ameaçador por, de alguma forma, remeter à angústia originária (Giles, 2007). Freud avalia que a imaturidade e dependência absolutas do bebê propiciam uma vivência de desamparo e de perigo de aniquilamento que é traumática por não ser representada psiquicamente, sendo, portanto, angustiante. Toda vez que algo remeter a isto que é da ordem do trauma o eu se prepara para uma vivência angustiante. Assim, a angústia como sinal põe em evidência a angústia como defesa do eu, reação a um perigo inespecífico para impedir que um pânico desordenado se apodere do sujeito (Kaufmann, 1996).
Para Lacan, a angústia resguarda as condições de afeto e de sinal, não de um perigo interno ou externo, mas sim de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995). Lacan (2005/1962-63) prioriza, em Freud, O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas também como manifestação frente à falta da falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada. Assim, a angústia não é mais atribuída à falta, à perda do objeto, ao contrário, se presentifica no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante, ou seja, na possibilidade da falta vir a faltar. Nesta direção, Lacan (2005/1962-63) afirma ser a angustia não sem objeto e, ainda, ser um afeto que não engana. É necessário especificar que o objeto em questão, objeto a, é aquele definido como causa do desejo, aquele que precisa faltar para que o sujeito possa desejar. Produzido como resto no circuito pulsional, o objeto a é o que escapa à libidinização e à simbolização. A angústia é produzida se esse objeto não faltar e alguma coisa se presentificar em seu lugar, anulando a possibilidade do desejo. Assim a angústia não é sinal da falta, mas sim do fracasso desta última que é para o sujeito condição indispensável para sua existência desejante (Chemama, 1995). Desta forma, o que está em questão na angústia não é a dúvida, mas sim a certeza, por isso ser o afeto que não engana, de uma posição perante o desejo do Outro em que se corra o risco de devoração, onde o gozo do Outro se sobreponha ao desejo. O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). Nesta direção, sabemos que o desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. Assim, perante o enigma do desejo do Outro, que na verdade nada quer de mim, a angústia surge se o Outro não se apresentar e permanecer como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo, para ele.

Com estes fundamentos teóricos, não nos parece difícil interpretar as manifestações clínicas tão comuns em nossos dias pela via das patologias do ato (toxicomanias, pânico, bulimia e anorexia, melancolizações…), recursos frente à angústia e à inibição, como efeito da presença de um Outro pouco faltante ou marcado mais pela falta imaginária do que pela falta simbólica. Posicionamento bastante condizente com o discurso social reinante de um imperativo necessário de ascensão a um gozo sem limites. Dessa maneira, nos deparamos com sujeitos tão apáticos, pouco desejantes, e também muito suscetíveis à melancolização e à angústia por uma falha, vacilação, naquilo que diz respeito a estrutura da falta e à possibilidade de ser a, causa do desejo para o Outro e não objeto de desejo do Outro. No que concerne à condução clínica, Lacan afirma a angústia como necessária, fiando-se nos ensinamentos freudianos da angústia como sinal de alarme que possibilite ao eu o acionamento de defesas que impeçam o transbordamento da angústia de forma paralisante. Assim, ela também pode servir como sinal na análise dos limites entre desejo e o gozo, como indicador do quanto a estrutura do fantasma garante, para esse sujeito, o seu lugar no desejo. Em certa medida, parece-nos que a angústia neste nível de sinal tem fracassado em nossos dias, assim como o sintoma já não se apresenta mais tão clara e frequentemente: em geral se apresentam sob o signo da apatia alienante ou da angústia paralisante. Neste contexto, certamente devemos nos haver com especificidades na condução clínica que implicam, de começo, dificuldades e maior tempo no estabelecimento transferencial e na fundação da demanda de análise. Manobras que viabilizem a saída da angústia paralisante e/ou da inibição não pela via do ato, mas da palavra, certamente necessitam que o desejo do analista possa se sustentar de forma eficaz, inclusive naquilo que diz respeito à prática da vacilação calculada. Parece interessante que para lidarmos com aquilo que é exatamente da ordem de uma vacilação na estrutura, recorramos a um outro campo também de vacilação, e que tenhamos constatado que esta última pode comportar atos de criação e subjetivação e não de fracasso e destituição, na renovação necessária da psicanálise e sua clínica.
Referências
BESSET, V. L. A clínica da Angústia. São Paulo: Editora Escuta, 2002. 216p.
CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241p.
FREUD, S. O Estranho [1917]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GILES, C. Sobre o conceito de angústia em Freud. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p.11-21.
GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p.11-21. p.58-66.
KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 784p.
LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 366p.

Segurar pela mão, para não deixar cair

No evento de abertura dos trabalhos da ALPL deste ano, Edinei iniciou com uma leitura
sobre os caminhos, os motivos de nosso grupo ter eleito o tema da angústia como eixo de
2020, o que para mim foi muito interessante, pois, não pude estar presente na reunião de
definição do tema. Se me recordo, razoavelmente bem, ele identificou que a partir de uma
certa prevalência no grupo para o estudo do conceito de gozo ou para o trabalho com os
registros e a cadeia borromeana (RSI), ambos a partir de questões suscitadas pelo tema
do ano anterior (corpo e sintoma), a angústia emergiu como uma possibilidade de
contemplar os dois campos de estudo e, claro, como uma via interessante para a reflexão
e discussão de inumeráveis questões clínicas. Questões clínicas, seja no tocante à
estrutura do sujeito, às manifestações clínicas, às posições subjetivas, ao manejo
transferencial ou às articulações e efeitos do nosso tempo sobre o sujeito e a prática
clínica. Questões que, na realidade, nos ocupam sempre, todo o tempo, ainda que com
enfoques diferentes, seja lá qual for a temática conceitual em foco.
Bem, menos de um mês após estarmos todos juntos no referido evento, ouvindo e
dialogando, o Real encarnado na pandemia, que já se impunha ao redor do mundo, não
só bateu forte em nossa porta, ele a arrombou e entrou com tudo, sem pedir licença, como,
aliás, lhe é de costume. Assim, lamentavelmente, o tema da angústia se contextualizou,
ainda mais, num para além das motivações de nosso grupo e ganhou força, atualidade e
adequação também maiores, inquestionáveis e prementes. Neste momento, não há como
não nos debruçarmos sobre essa temática e todas as suas possíveis articulações. Inclusive,
a temática do corpo estudada no ano passado e já base para a escolha do tema atual se
atualiza e potencializa para o trabalho nesse momento onde vivemos um isolamento
global dos corpos, momento paradoxal em que o corpo escancaradamente frágil é também
um potencial disseminador da morte. Nos isolamos para não morrer e para não matar.
Como isso pode não angustiar alguém?

1 Texto produzido para ser apresentado e debatido no Fórum da ALPL de 30/03/20 (o que não ocorreu
dado as medidas sanitárias na pandemia)
Ironia do destino? Acaso? Premonição? Recorrer ao imaginário e fazer uso dessas ou de
outras tantas explicações, não apenas para um suposto “acerto” na escolha antecipada do
tema, mas também para produzir algum sentido à loucura que estamos vivendo, faz parte
e é mesmo necessário para lidarmos com o sempre avassalador Real. Necessário, mas,
não suficiente. Para além de uma cobertura imaginária, a psicanálise nos convida a algo
mais. O convite é para lermos a nossa ex-istência como marcada por uma perda originária
e estrutural introduzida pela linguagem e, inexoravelmente, sofrendo os efeitos das três
dimensões: real, simbólico e imaginário. Dessa forma, a psicanálise demarca uma
diferença, tanto do ser, da criatura heterônoma fruto da religião, quanto do homem da
ciência, orgânico e autônomo, capaz de dominar o universo. Assim, nasce o conceito de
sujeito, marcado pela castração na origem, submetido aos efeitos das três dimensões que
passam a operar em sua ex-sistência mas, também, sempre responsável por sua posição.
Vejam, é um convite que, paradoxalmente, não nos poupa, eticamente, da angústia, pois,
responder por nossa posição também convoca angústia.
Resumindo, a angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito. Edinei
trabalhou sobre isso em sua intervenção, retomando o quadro da divisão do sujeito e nos
indicando que dois conceitos ganham centralidade no Seminário 10 (Lacan, 2005),
através do trabalho com a angústia: o objeto a como causa do desejo e o desejo do Outro.
Infelizmente, não estava presente na apresentação da Marina, inaugurando o Seminário
de Fundamentos deste ano, mas imagino que ela também deva ter tratado disso para
desdobrar o aforisma tema do encontro: “a angústia não é sem objeto”. Quero ainda
sublinhar e mais à frente comentar um pouco mais, a expressão citada por Edinei na
conferência inaugural, a partir do trabalho com o quadro apresentado no Seminário 10,
onde Lacan (2005) situa inibição, sintoma e angústia e suas articulações: a angústia está
no horizonte do trabalho analítico.
Muito bem, a angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito e assim se
articula ao objeto a e ao desejo do Outro (não se reduzindo, portanto, ao campo
fenomênico) e, ainda, está no horizonte da clínica psicanalítica. Mas, como vocês sabem,
a angústia também é um afeto e como tal é experimentado, vivido na experiência e,
portanto, é um conceito que mesmo não se reduzindo ao campo fenomênico, comunga
com ele. Aliás, é um afeto experimentado a qualquer tempo ou lugar, a angústia não
espera a análise para se manifestar como fenômeno na experiência, embora esteja no
horizonte do tratamento e possa surgir como fruto do trabalho. Muitas vezes, inclusive, é
esse afeto que leva alguém à análise e, nesses casos, ele está no início de uma psicanálise
e não apenas em seu horizonte. E, mais, não é um afeto qualquer, equiparável a outros, é
um afeto que ganha com Lacan um estatuto singular pelo fato de ser o único que não
engana o eu (diferentemente dos demais, como, por exemplo, o amor ou a culpa), não
engana o eu por ser um sinal do encontro com o real e a única tradução subjetiva (afeto)
do objeto a. “O que é buscado é, no Outro, a resposta à queda essencial do sujeito em sua
miséria suprema, e essa resposta é a angústia” (Lacan, 2005, p.182 – 6/3/63), expressão
fortíssima associando a angústia à essa experiência do encontro com o desejo do Outro e
também ao encontro com o objeto a sem as vestimentas do fantasma, angústia como a
tradução subjetiva (afeto) desse encontro.
Entretanto, embora a angústia possa ser vivenciada fora do dispositivo analítico, digamos,
na cena do mundo e não apenas da cena analítica, digo que como analistas nos ocupamos
prioritariamente daquela produzida em intensão e que se faz presente na estrutura e pela
estrutura (horizonte) do trabalho analítico. O que não invalida, de forma alguma, a
possibilidade e o interesse no trabalho, na investigação da angústia em extensão, ou seja,
na cena do mundo. Por exemplo: a angústia que estamos vivendo agora com a pandemia
nos mais diversos sentidos (isolamento dos corpos, medo da morte, consequências
econômicas e sociais), a angústia junto aos fenômenos socias e políticos (violência
urbana, governança, catástrofes naturais), a angústia frente à criação (inibição ao escrever,
criação artística). Um trabalho da psicanálise em extensão pode e deve se ocupar de
produzir uma leitura, de produzir teoria, de produzir um discurso que dialogue com
outros, a respeito da angústia atrelada e experimentada nessas circunstâncias. Até porque,
a cena analítica não está isolada e protegida da cena do mundo. Não vivemos numa bolha.
A cena do mundo chega à cena analítica junto com nossos analisantes e também conosco,
analistas. É o que eu enfatizava a pouco a respeito da atualização e potencialização de
questões também clínicas sobre o tema da angústia na pandemia.
Mas, acredito ser de extrema importância diferenciarmos e demarcarmos essas duas
instâncias (a intensão e a extensão) e avalio que a intensão ganha uma dimensão
prioritária para quem se dedica a conduzir análises. Não se trata de uma gradação de
importância, de uma valoração da intensão contra a extensão. Trata-se, apenas, de
responsabilidade, de ética, pois, uma vez abraçada a posição de analista, uma vez que as
portas de nossos consultórios estão abertas, entendo ser nosso dever a disponibilidade ao
trabalho. Para mim, disponibilidade ao trabalho clínico significa a máxima dedicação às
demandas que acolho, à escuta e, portanto, à atenção e investigação de todos os elementos
presentes na transferência e na direção da cura. E isso dá muito, muito trabalho e consome
muito tempo e energia. Como uma das marcas inexoráveis de uma análise é o óbvio fato
de que não dá para abraçar o mundo, escolhas precisam ser feitas. Assim, entendo que a
angústia que comunga com o dispositivo analítico, aquela que participa da estrutura do
dispositivo e que também é vivida na experiência do sujeito em análise como afeto, é
prioritária para o analista. Então, vamos à ela, à angústia em intensão, mais
especificamente, procurando desenvolver alguns pontos já mencionados acima e também
avançar em outros.
Observem, enfatizo que a angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito (e,
assim, se articula ao objeto a e ao desejo do Outro) e quando dizemos que ela está no
horizonte da clínica psicanalítica, significa que ela também está associada à estrutura do
dispositivo analítico (veremos isso mais detalhadamente). E ainda, sem nunca perder de
vista, a angústia é um afeto, afeto muito particular. No que tange ao trabalho analítico, a
angústia é, além de particular, um afeto paradoxal, na mesma direção que é paradoxal a
transferência, ou seja, a angústia é tanto condição quanto obstáculo para a análise.
Condição exatamente por ser esse afeto puro, não enganador, sinal de que o sujeito está
se deparando com questões essenciais à análise: o objeto a e o desejo do Outro. Por isso
dizemos comumente: sem angústia não há análise. Quando temos uma pessoa à nossa
frente, em entrevistas iniciais, que a despeito de nos ter procurado, o que pressupõe a
existência de algum sofrimento e o desejo de mudança, se apresenta ainda de certa forma
indiferente ao que fala e/ou aos nossos questionamentos, ou mesmo alguém que já iniciou
sua análise, que está no divã e que em determinados períodos não se deixa tocar, afetar
pela associação livre e seus desdobramentos, sabemos que temos que ser pacientes e
procurar operar com o máximo de rigor para que o dispositivo analítico funcione em sua
máxima potência e, com isso, a angústia se produza e com ela impulsione o trabalho e
alcance as questões essenciais à análise.
Quero sublinhar que não se trata de o analista induzir ou gerar angústia através de suas
intervenções ou manejo da transferência e, sim, de favorecer, desde o seu lugar e o desejo
do analista, o bom andamento do dispositivo para que a angústia possa advir. Sim, o bom
andamento do dispositivo para que a angústia possa advir, pois, desdobrando o que
indiquei acima, o dispositivo analítico tem por estrutura um funcionamento que convoca
a angústia. A simples presença do analista, desde que haja transferência, pois só assim há
analista, já é suficiente para que o analisante o coloque no lugar do Outro que deseja e
deseja algo além do que diz, algo que não se sabe bem o que é. Por mais cuidadosos que
sejamos com a nossa posição, isso é inexorável, inevitável, a presença do analista convoca
a angústia. Além disso, o analista é o suporte das projeções dos objetos a que compõem
o fantasma de seus analisantes, então, o objeto a compõem a cena analítica também
através da presença do analista. A esse respeito, Lacan (2005) observou que a estrutura
da angústia é a mesma do fantasma (14/11/62), com a diferença de que na angústia o a
está sem a cobertura imaginária do fantasma. Bem, o trabalho de análise vai desvestindo
o a, esse nada, oco, vazio que provoca a angústia. Por fim, a regra mais básica, falar em
associação livre, se levada seriamente, convoca a angústia, pois convida o sujeito à
responsabilidade e a avançar nas questões essenciais à análise e atreladas à angústia: o
objeto a e o desejo do Outro. Assim, a estrutura do dispositivo analítico provoca, no
sentido de favorecer e não de criar ou produzir, a angústia pois têm elementos comuns
em suas estruturas (a angústia e o trabalho analítico).
Insisto, não se trata de indução proposital de angústia através do analista e seu manejo
para que a análise avance. Não somos máquinas geradoras de angústia, nem se quisermos
não podemos, pois a angústia não é gerada, produzida por nada exterior, nem por
ninguém. Esse afeto é, sim, favorecido, provocado, tanto pelo dispositivo analítico em
sua estrutura, como acabo de mencionar, quanto por circunstâncias, como a atual, em que
o Real se apresenta nu e cru. Bem, o que pode acontecer é que a angústia seja provocada
em excesso de forma acidental, o que equivale a dizer que aí não há mais analista, pois
ele saiu de seu bom lugar. Por exemplo, se o dito analista passar ao ato, surtar,
enlouquecer durante uma sessão (e, observemos, não é impossível) e assim encarnar o
Real através da loucura ou se encarnar o Outro ou mesmo o objeto a que deve fazer
suporte. Fora isso, acredito que ele não tenha como “apresentar” o Real ao sujeito, porque
não há intermediário para o Real, ele dispensa apresentações. Portanto, não procede a
ideia de procurarmos “boas” intervenções que provoquem a angústia, não é possível e
não é necessário, a estrutura do dispositivo já se encarrega disso e, se somos demandados
no lugar de analistas, zelaremos para que a estrutura opere adequadamente.
Então vejam, o que o analista pode e deve fazer, além de ocupar e operar desde o seu
lugar para zelar pelo bom funcionamento do dispositivo, é intervir de forma a tentar
amenizar a angústia, tanto aquela já vivida pelo sujeito quando ele chega à análise, quanto
aquela naturalmente favorecida pelo trabalho analítico, quando avaliar que está num nível
insuportável. Assim, a meu ver, é mero imaginário, fantasia, a ideia, propagada por certos
analistas e manifestada por alguns analisantes ou mesmo em círculos socias, de que o
analista tem que ser duro, pegar pesado, ser cruel em suas intervenções, pois isso
“produziria” a angústia necessária ao movimento da análise. Isso não tem nenhum
fundamento lógico, puro imaginário, pura fantasia. Na verdade, entendo que se
ocuparmos tal posição, não há mais analista e, portanto, não há análise. O que há numa
circunstância dessas é gozo e não movimento pela angústia, gozo dos dois lados e isso
não é análise, isso obstaculiza e não movimenta o trabalho. E, companheira frequente do
gozo, haverá culpa. Esse afeto sim, a culpa, pode ser muito bem induzido por esse tipo de
postura, ou melhor, de impostura. Ela, a culpa, pode ser produzida por intervenções do
analista, pois o supereu nunca deixa a desejar quando é convocado, sabemos bem disso.
O analista deve ser preciso em suas intervenções, em seus cortes e precisão, ao contrário
de violência ou brutalidade, exige delicadeza, sutileza, e uma firmeza que advém da
tranquilidade e não da dureza, precisão cirúrgica. O que não impede que, eventualmente,
o analisante vivencie as intervenções de uma forma dura, que elas, muitas vezes, o toquem
de maneira dolorida. Mas, isso é muito diferente de o analista ter o propósito, a meta (e
mais, se regozijar com isso, gozar com o sofrimento) de inflingir dor em nome de uma
suposta técnica e/ou como resposta à demanda, até bem comum, de alguns analisantes:
“bata-me”. Ambos, supostamente, para a angústia ser “propositalmente produzida” e
gerar trabalho analítico. Não, com a psicanálise não se trata de resolver as coisas na
porrada. Isso é só mais uma ilusão para continuarmos gozando e, como analistas, devemos
estar bem advertidos disso.
Relembrando o paradoxo da angústia como possibilidade e como obstáculo para a análise,
observo que já fui introduzindo o segundo ponto, a angústia como o que pode fazer
obstáculo na clínica, a partir do que acabo de indicar sobre a necessidade de avaliarmos
o nível, o quantum de angústia e procurarmos intervir para amenizá-la, quando necessário.
O obstáculo pode se produzir exatamente se a angústia for, para o sujeito em questão,
insuportável. E obstáculo pode significar desde impasses ao trabalho (dificuldades na
fala, nas associações, atuações) até a passagem ao ato e/ou a ruptura da transferência. E
como podemos medir isso? É claro que não temos parâmetros que se generalizem para
todos e nem se trata de pensar no estabelecimento de um quantum ideal de angústia, mas
as dificuldades acima citadas, se percebidas rapidamente, podem servir de sinal, de alerta
de que o nível de angústia não está suportável. O manejo para a amenização da angústia
é muito simples, mas, como tudo na clínica, nada banal, pois, devemos operar tais gestos
e intervenções como todos os demais, ancorados em uma lógica e não ao acaso ou por um
jeito de ser: um sorriso ao chegar ou ao final da sessão, a oferta de um lenço ou a indicação
do banheiro para a pessoa se recompor antes de sair, uma observação que convoque um
chiste, uma pergunta se trouxe guarda-chuva, desejar uma boa semana, bom trabalho ou
uma boa viagem, uma sala de espera e de atendimento aconchegantes, a acolhida do
pedido de uma sessão a mais, o cuidado com o os horários, com a pontualidade… Sempre
dentro de um contexto do trabalho.
Aliás, temos vários relatos de analisantes de Lacan, está na internet e em alguns livros
também, de que ele usava exaustivamente esses recursos. Lembro agora de um relato no
qual ele põe a mão no casaco da pessoa na saída da sessão e diz de uma forma muito
amorosa: “esse casaco é muito fino para o clima que estamos meu querido, assim você
vai se resfriar!” Em outro relato ele telefona para a analisante que já faltara a seguidas
sessões e diz: “minha querida, quando voltarei a vê-la?” Ainda há vários relatos de que
ele chamava os analisantes de forma simpática e afável, quase sempre dizendo: “venha,
meu querido”. Recentemente, a coluna de Contardo Caligaris na Folha de São Paulo
(3/4/2020) trouxe mais um desses exemplos: ele conta de uma amiga que o encontrou
num café onde os analisantes e supervisionandos de Lacan se reuniam depois ou entre as
sessões, ela saiu de uma sessão absolutamente transtornada e angustiada, ficou ali
paralisada por um tempo e levantou-se dizendo que precisava voltar lá. Ele a esperou
retornar novamente, ela chegou sorrindo, aliviada, balançando a cabeça e lhe contou: “tive
uma sessão sobre os desejos mais duvidosos que pairavam sobre o meu berço; descobri
que sou filha de uma farsa sinistra. Enfim, saí da sessão péssima. Voltei para dizer a
Lacan: com a história que lhe contei, fico com a impressão de que estou fodida. E aí ele
me disse: Mas, minha querida, não é apenas uma impressão: com a história que é a sua,
você está mesmo fodida”. Enfim, são inúmeros os exemplos, o que me faz pensar ainda
mais, de onde diabos saiu essa infeliz e infundada ideia do analista lacaniano durão, rude,
violento, que bate pesado.
A guisa de conclusão, para o momento, e na direção da minimização da angústia quando
necessário, de oferecer acolhida e sustentação, além dos relatos daqueles que se
analisaram com Lacan, temos registros claros sobre isso em seu seminário sobre a
Angústia. Por exemplo, sobre o grande desafio, prova constante para o analista, que é
estar atento aos sinais e avaliar o nível de angústia que pode ser suportada por cada um:
“sentir o que o sujeito pode suportar de angústia, é o que lhes põe à prova todo instante”
(Lacan, 2005, p.15 – 14/11/62). Um pouco mais à frente (23/1/63), trabalhando sobre o
acting out, encontramos: “Em seus referenciais clínicos, observem a que ponto segurar
pela mão para não deixá-los cair é absolutamente essencial num certo tipo de relações de
sujeito. Quando se depararem com isso, vocês poderão ter certeza absoluta de que se trata
de um a para o sujeito” (p.136-37).
É isso, a angústia nos cerca por todos os lados, não há como escapar: está na estrutura do
conceito de sujeito, participa da estrutura do dispositivo analítico (horizonte), se
potencializa com o Real na cena do mundo. Na minha opinião, só encarando esse fato
podemos trabalhar de forma favorável, e reconhecê-lo implica considerar que não temos
alternativa a não ser seguir fielmente esses dois ensinamentos de Lacan: estarmos
advertidos ao desafio constante de avaliarmos o nível de angústia possível a cada um e a
cada momento (sim, para o mesmo sujeito, o nível de angústia não será o mesmo todo o
tempo!) e criarmos intervenções precisas e eficazes que sirvam como suporte, como uma
mão estendida, para não deixá-los cair.
Agradeço de coração aos que chegaram até aqui na leitura, sempre desejamos que nossas
letras sejam lidas. Mas, também registro meus sinceros agradecimentos aos que que não
puderam fazê-lo. Quiçá minha mão não tenha podido alcançá-los e segurá-los até o fim
do texto neste momento, pelos mais variados motivos!
Abril, 2020.
Zeila Torezan

Angustia e Contemporaneidade

Em primeiro lugar, o título deste trabalho propõe pensarmos numa certa relevância da angústia nos dias de hoje. Na sequência, evidencia a existência de particularidades da angústia e de suas manifestações na contemporaneidade. Estes dois indicadores podem ser desdobrados na direção de questões e impasses que se impõe ao manejo clínico da angústia na atualidade. Na realidade, se tomarmos como ponto de partida a clínica cotidiana, os aspectos acima indicados se apresentam de forma concomitante e não restitos ao tema da angústia que aqui nos concerne: as particulares e graves formas de sofrimento trazidas por sujeitos, digamos, um tanto apáticos, nos interrogam diariamente, impulsionando à produção teórica e à inovação clínica.

Paradoxalmente, tempo difícil e promissor para a Psicanálise. Tal afirmativa pode, com razão, ser contraposta à alegação de que esta dicotomia não é nova, pois desde o seu início a clínica psicanalítica sabe ser eficaz no tratamento do sofrimento humano, mas enfrenta uma série de dificuldades e questionamentos. Entretanto, os percalços advindos de uma posição subjetiva onde a busca por um saber inconsciente é sobrepujada por uma demanda de gozo, de um gozo-todo que a cultura propõe como necessário (Besset, 2002), impõe impasses bem específicos e, arrisco dizer, maiores do que aqueles presentes desde o nascimento da Psicanálise e atrelados a uma ordem social regida pela presença de uma forte instância terceira, da repressão, do sofrimento e da culpabilidade neurótica. Somamos a tal condição toda a carga de anestesia psíquica e anulação subjetiva que a indústria farmacêutica pode, alegremente, nos proporcionar e ainda a presença da solidão e do enfraquecimento dos laços sociais, pretensamente substituídos pela comunicação virtual.

Um cenário árido e, veremos, favorecedor, dentre outras coisas, da presença da angústia e das diferentes formas de atuações nas clínicas das toxicomanias, dos transtornos alimentares, da psicossomática, do pânico, das fobias e das melancolizações. Mas também, promissor, por, mais uma vez, a Psicanálise trabalhar para buscar formas de ludar com a dor e o sofrimento humanos, e mostrar-se capaz na renovação teórica e técnica.

Avançar na discussão acima esboçada a respeito da clínica da angústia na contemporaneidade exige a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito.

A obra freudiana apresenta duas teses sobre a angústia: na primeira, o recalque é postulado como produtor de angústia; na segunda, a angústia é anterior ao recalque e produz o mesmo. Embora Freud tenha priorizado a segunda tese, só possível a partir da segunda teoria das pulsões e da segunda tópica, não chega a descartar a primeira (Giles, 2007).

A construção da primeira teoria sobre a angústia está associada à diferenciação entre as neuroses atuais e as psiconeuroses; Neste contexto, as neuroses atuais, em especial a neurose de angústia, se caracterizam por um quantum de excitação sexual sem mediação simbólica e vivenciada diretamente no corpo sob a forma de angústia e, portanto, fora do recalque. Dito de outra forma, a angústia nas neuroses atuais é vista por Freud como uma energia livre decorrente da tensão física e sua ausência de intermediação psíquica. É interessante observar que nesta formulação temos algo esboçado na direção da segunda teoria onde a angústia será situada fora dor recalque por ser anterior ao mesmo e associada ao trauma, embora nem mesmo a primeira teoria da angústia estivesse ainda estabelecida.

Com a leitura sobre as psiconeuroses, temos a libidinização da tensão sexual, extrapolando a condição física desta tensão para o psiquismo. Freud considera os sintomas como indicadores de um excesso de libido e coloca a ideia de transformação deste excesso também em angústia. Tal excesso é vivenciado pelo eu como um perigo pulsional e estaria na base das psiconeuroses, pois frente a tal perigo o recalque atua como defesa. Com o recalque ocorre a separação entre ideia (representante representação) e afeto, sendo a angústia um dos possíveis destinos para o afeto (na condição de afeto livre). Portanto, temos a primeira tese sobre angústia, marcada por um caráter econômico em que a angústia é um resultado, uma manifestação subjetiva de uma quantidade de energia não dominada, um produto do recalque e já está associada a um caráter defensivo.

Este caráter defensivo é, nesse momento, enfatizado por Freud através da articulação da angústia a uma espécie de disposição preparatória para o perigo, pois à medida que o eu retira a libido dos representantes psíquicos, ele produz um nível de angústia suportável afim de que o eu não seja dominado pela angústia paralisante.

Com os elementos da segunda tópica e, em especial da segunda teoria pulsional, Freud (1996/1926) agrega à compreensão da angústia como libido transformada pelo efeito do recalque a ideia de uma angústia originária, associada ao trauma do nascimento, à imaturidade e dependência do humano, e, portando, anterior ao recalque. Assim temos a segunda tese freudiana sobre a angústia, de caráter dinâmico, onde o recalque não causa a angústia, pois ela está presente desde o início e por temê-la o eu recalca o que se apresenta como ameaçado por, de alguma forma,remeter à angústia originária (Giles, 2007).

Freud avalia que a imaturidade e dependência absolutas do bebê propiciam uma vivência de desamparo e de perigo de aniquilamento que é traumática por não ser representada psiquicamente, sendo, portanto, angustiante. Toda vez que algo remeter a isto que é da ordem do trauma o eu se prepara para uma vivência angustiante. Assim, a angústia como sinal põe em evidência a angústia como defesa do eu. Trata-se de uma reação a um perigo inespecífico para impedir que um pânico desordenado se apodere do sujeito (Kaufmann, 1996). De qualquer forma, para Freud, a angústia está associada à perda de objeto, pois o trauma se articula à separação e à perda da condição de falo para o Outro.

Para Lacan, a angústia resguarda sua condição, já estabelecida por Freud, de um afeto e de sinal, não de um perigo interno ou externo, mas sim de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995). Para além dos textos freudianos que teorizam sobre angústia, Lacan (2005/1962-63) prioriza O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas sim também como manifestação frente à faltada falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada. Assim, a angústia não é mais atribuída à falta, à perda do objeto, ao contrário, se presentifica no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante, ou seja, na possibilidade da falta vir a faltar.

Nesta direção, Lacan (205/1962-63) afirma ser angústia não sem objeto e, ainda, ser um afeto que não engana. É necessário especificar que o objeto em questão, objeto a, é aquele definido como causa do desejo, aquele que precisa faltar para que o sujeito possa desejar. Produzido como resto no circuito pulsional, o objeto a é o que escapa à libidinização e à simbolização. A angústia é produzida se esse objeto não faltar e alguma coisa se presentificar em seu lugar, anulando a possibilidade do desejo.

Assim a angústia não é sinal da falta, mas sim do fracasso desta ultima que é para o sujeito condição indispensável para sua existência desejante (Chemama, 1995). Desta forma, o que está em questão na angústia não é a dúvida, mas sim a certeza, por isso ser o afeto que não engana, de uma posição perante o desejo do Outro em que se corra o risco de devoração, onde o gozo do Outro se sobreponha ao desejo.

O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). Nesta direção, sabemos que o desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. Assim, peranteo enigma do desejo do Outro, que na verdade nada quer de mim, a angústia surge se o Outro não se apresentar e permanecer como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo, para ele.

Com estes fundamentos teóricos, não nos parece difícil interpretar as manifestações clínicas tão comuns em nossos dias pela via das patologias do ato (toxicomanias, pânico, bulimia e anorexia, melancolizações…), recursos frente à angústia e à inibição, como efeito da presença do Outro pouco faltante ou marcado mais pela falta imaginária do que pela falta simbólica. Posicionamento bastante condizente com o discurso social reinante de um imperativo necessário de ascensão ao gozo sem limites. Dessa maneira, nos deparamos com sujeitos tão apáticos, pouco desejantes, e também muito suscetíveis a melancolização e à angústia por uma falha, vacilação, naquilo que diz respeito à estrutura da falta e à possibilidade de ser a, causa do desejo para o Outro e não objeto de desejo do Outro.

No que concerne à condução clínica, Lacan afirma a angústia como necessária, filiando-se nos ensinamentos freudianos da angústia como sinal de alarme que possibilite ao eu o acionamento de defesas que impeçam o transbordamento da angústia de forma paralisante. Assim, ela também pode servir como sinal da análise dos limites entre desejo e o gozo, como indicador do quanto a estrutura do fantasma garante, para esse sujeito, o seu lugar no desejo. Em certa medida, parece-nos que a angústia neste nível de sinal tem fracassado em nossos dias, assim como o sintoma já não se apresenta mais tão clara e frequentemente: em geral se apresentam sob o signo da apatia alienante ou da angústia paralisante.

Neste contexto, certamente devemos nos haver com especificidades na condução clínica que implicam, de começo, dificuldades e maior tempo no estabelecimento transferencial e na função da demanda de análise. Manobras que viabilizem a saída da angústia paralisante e/ou da inibição não pela via do ato, mas da palavra, certamente necessitam que o desejo do analista possa se sustentar de forma eficaz, inclusive naquilo que diz respeito à prática da vacilação calculada.

Parece interessante que para lidarmos com aquilo que é exatamente da ordem de uma vacilação na estrutura, recorramos a outro campo também de vacilação, e que tenhamos constatado que esta última pode comportar atos de criação e subjetivação e não de fracasso e destituição, na renovação necessária da psicanálise e sua clínica.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

BESSET, V. L. A clínica da Angústia. São Paulo: Editora Escuta, 2002. 2016 p.

CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241 p.

FREUD, S. O Estranho [1917]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol IVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GILES, C. Sobre o conceito de angústia em Freud. InnRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p 11-21.

GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? InRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p. 11-21. p. 58-66.

KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 784 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 366 p.

 

Bibliografia Consultada

BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 418 p.

FREUD, S. Além do princípio de prazer [1920]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996 f.

FREUD, S. O ego e o id [1923]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. O mal-estar na civilização [1929]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. Conferência XXXI. Angústia e vida pulsional. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise [1932]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HARARI, R. O seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997. 241 p.

LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 552 p.

Sem Nome

Esboçando este trabalho, relativo ao desanolamento do Cartel sobre a Feminilidade, lembrei-me que elegi o tema em questão quando ouvia o Seminário de Charles Melman no ano passado. Melman falou, em algum momento, a respeito dos desencontros entre homens e mulheres e da impossibilidade de resposta, do lado masculino, à demanda feminina. Naturalmente ele articulou este aspecto ao fato da posição feminina não ser sustentada a partir do significante fálico, não havendo aí um significante que diga sobre ela.

Assim, se a problemática feminista situa-se ao redor da inexistência e do não-todo, torna-se hoje para mim significativo a tomada deste tema em um Cartel, por entendê-lo como um percurso de produção, de criação. E afina, não pode a criação ser definida como uma busca de resposta a esta posição feminina, na medida em que procura traçar significações exatamente aonde elas faltam? Particulares também me parece a composição deste grupo, cinco mulheres, e o longo caminho de estudos que escolhemos traçar, talvez numa vã tentativa de abrangência, de totalidade do tema, nesta busca de significações.

E, por estas e outras, me posiciono para escrever este trabalho de uma maneira bem diferente da usual. Em geral, primando pelo rigor teórico e temendo erros conceituais, me atenho aos textos estudados para o tema e aí componho algo. Desta vez, sentia desejo de um certo distanciamento teórico, de produzir um texto mais pessoa, menos técnico. E é nesse movimento que algumas idéias vão aparecendo e sobre elas vou escrevendo, talvez sem uma coerência absoluta, sem um fio condutor único, quem sabe com um caráter mesmo mais feminino, pois não é a loucura essencialmente feminina?

Bem, agora consigo entender porque temos o Dia Internacional das Mulheres e não existe o equivalente para os homens… Assim como porque o Movimento Feminista tem ares tão masculinos… Clamar, reivindicar, marcar uma existência de direito, assim como fazer semblante ao masculino não é para quem quer, mas para que não pode.

Certo dia, ao longo de nossos estudos, fui acometida por uma imagem: sentada na frente de uma belíssima penteadeira, vestimentas e penteado do início do século passado, eu retocava o pó-de-arroz e me preocupava com qual colar usar. Brinquei a respeito desta imagem com as colegas de Cartel, espécie de idealização avessa à condição da dita mulher moderna que para se fazer sujeito busca cada vez mais a negação de ser não-toda, num mundo onde isso acaba sendo muito custoso.

Custoso e duvidoso, pois a maternidade, ora indicada como matriz simbólica da feminilidade, parece reduzir-se a um espaço na agenda: programável, distancia-se do campo do desejo, mais uma tarefa, entre tantas, a cumprir…

Assisti recentemente um documentário genial de Marcelo Masagão, denominado “Nem gravata, nem honra”, a respeito da diferença entre homens e mulheres. Ali, na tomada de depoimentos de pessoas de uma pequena cidade do interior de São Paulo, entre tantos outros, dois elementos são apresentados: a mulher é dissimulada por natureza e gosta de romance.

Dissimulação e romance, máscara e demanda de amor, sem duvida dois aspectos atrelados à feminilidade, à posição feminina em sua luta de subjetivação, de fazer-se sujeito por debater-se com a falta de um significante que a enuncie.

A mascarada responde exatamente ao enigma da feminilidade, fazer-se desejar apesar de sua carência, mascarar a carência através de um corpo imaginariamente constituído como falo. Isso, ao mesmo tempo em que possa, a partir das identificações que permitam uma posição simétrica à da mão, portanto do lado da carência, desejar e amar um homem. Destino árduo e paradoxal que em tempos de “direitos iguais” parece ganhar requintes de dificuldades… Como é possível desejar e amar um homem a partir da pretensa igualdade? Como conciliar fragilidade nesta condição? Qual máscara usar no baile contemporâneo?

Romance, demanda de amor, o segundo aspecto aqui destacado será também uma tentativa de resposta ao primeiro? Pois parece que se tem algo do qual as mulheres não abrem mão, esse algo concerte exatamente à reivindicação de amor. O amor estabelece uma relação de sujeito a sujeito, da qual a mulher se beneficiaria exatamente por sua carência de subjetividade. É para serem sujeitos que as mulheres querem ser amadas, acreditando que assim serão dotadas daquilo que lhes falta: um significante que as diga.

Portanto não é pouco que este amor exige, pois demanda que ele possa mudar a ordem das coisas. Serge André nos fala o quanto este pedido de amor pode reivindicar, nesta tentativa de negação de ser não-toda, aludindo à seguinte fala de Julieta para Romeu: O que há num nome? O que chamamos rosa terio o mesmo perfume sob outro nome. Romeu, renuncia a teu nome; e em lugar deste nome, que não faz parte de ti, toma-me toda.

Então o que esta demanda de amor proclama, ou reclama, é uma revogação da lei, ou seja da castração, e, em seu lugar, a instauração de um estatuto particular, de uma regra, onde o ser mulher, o não toda, se transformaria em nome.

Sem Nome, além do título deste trabalho, era uma rede de sorveterias da cidade em que eu morava no início da minha adolescência. O sorvete era mesmo delicioso, a sorveteria famosa e eu me intrigava a respeito da escolha deste nome fantasia.

Achava mesmo que uma possível ausência de criatividade pudesse ser usada tão bem, pois Sem Nome era um “nome que pegou”, ninguém esquecia como se chamava a tal sorveteria… Acredito, que a capacidade criativa mascarada pela aparente simplicidade desta escolha e o fazer-se nome a partir de uma referência à ausência deste eram os elementos que me instigavam, e continuam a me intrigar, pois é sobre eles que estou escrevendo.

Mas será que o amor demandado pelas mulheres poderá recobri-las com o mesmo sucesso da sorveteria? Alcançará o amor este estatuto de traçar, delinear, criar significação onde ela inexista?

Deixo vocês com um poema de José Paulo Paes, que nos alcança a estas e tantas outas questões:

Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

 

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan 

Trabalho apresentado na Jornada de Carteis da Biblioteca Freudiana de Curitiba/2003, no desanolamento do Cartel sobre Feminilidade.

 

Referência Bibliográfica

ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 295 p.

FREUD, S. A feminilidade, 91932-3). Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ A dissolução do complexo de Édipo, (1924). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ Algumas conseqüências psíquicas da diferença sexual anatômica, (1925). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ Sobre a sexualidade feminina, (1931). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

MELMAN, C. Seminário: Novas Formas Clínicas, no início do terceiro milênio. Curitiba, abril, 2002.

PAES, J. P. Melhores Poemas. São Paulo: Global, 2000. 241 p.

É Possível Responder?

De início, reproduzo para vocês um e pequeno e curioso diálogo entre dois adolescentes:

“- Se eu não souber responder, vou chutar em c de Cristo ou d de Deus.”
“- E se você estiver em dúvida entre, exatamente, essas duas alternativas?”
“- Bom, aí eu vou em c de Cristo, porque d também pode ser de Diabo.”
“- Mas, veja bem, c também pode ser de Capeta!”
“- Ah… Então eu ponho a, de Amor!”

Nesta cena conversavam um rapaz e uma garota, ambos de quatorze anos a respeito de um simulado que estava prestes a ocorrer, Ainda que em tom de comicidade e de forma sutil, este diálogo pode remeter a aspectos cruciais e, muitas vezes, trágicos da adolescência hoje. Ao longo dos tempos, o caráter de crise marcou a época adolescente em nossas vidas. Crise ou, como diz Rassial (2000), estado-limite provisório na estrutura que deveria encerrar-se com o fim da adolescência, mas que pode também se encaminhar para o trágico. E sabemos ser este um desfecho hoje não raro – pela presença de graves acting outs ou de efetivas passagens ao ato – assim como por uma espécie de descaracterização da adolescência, pois ela tem sido recoberta pelo prolongamento da infância ou da latência, o que não nos distancia do trágico ainda que em outra vertente. É o que lemos em Lebrun (2010) a respeito da dificuldade de crescer e dos traços do adolescente hoje: “não mais um período de iniciação ou de provação, mas aquele de uma longa preservação do confronto com a realidade e com suas consequências, a manutenção precisamente na infância.” (p. 91).

Desta complexa trama que constitui a adolescência e dos vários fios através dos quais podemos tecer leituras e considerações sobre a mesma, proponho alguns comentários sobre a vertente por mim escutada a partir do recorte acima apresentado: a relação com o saber – no mais amplo sentido e em seus desdobramentos quanto às capacidades critica, reflexiva e criativa – e sua interface com a sexualidade. Assim, interrogo se é possível ao nosso adolescente responder, se ele pode autorizar-se a produzir respostas frente aos enigmas que devem estar se apresentando a ele (será que estão?).

Avalio o diálogo reproduzido como uma alusão ou mesmo um exemplo deste estado de impossibilidade ou de dificuldade de responder e também como característico de uma posição de distanciamento, de exterioridade, de passividade ou de alienação e, às vezes, de repulsa de nossos jovenzinhos frente ao saber. Penso que eles falam, nesta conversa, da ilusória e preguiçosa garantia de um “saber” alheio a si mesmo, alienado em uma suposta instância terceira, antes transcendente, hoje duvidosa: as letras minúsculas transitam errantemente entre Cristo e capeta, Deus e diabo. Longe de um ancoramento simbólico em seu necessário enodamento borromeano, tal posicionamento parece indicar um sujeito navegando ao léu, sem bússola e incapaz de traçar, de punho próprio, sua rota através das estrelas. Fiquei também sabendo que os elementos deste diálogo já constituem no meio onde ele foi produzido, uma espécie de gíria, pois quando alguém é interpelado sobre qual foi sua resposta para tal questão é habitual responder: “Ah, eu fui no c de Cristo!”, o que significa que não tinha a menor ideia do que se tratava na questão e assinalou uma das alternativas, mas não qualquer uma e, sim, aquela que Cristo lhe indicou: Cristo, protetoramente, respondeu por ele.

Para a palavra responder encontramos no dicionario (Ferreira, 2004) as seguintes definições: dar uma resposta ao que é dito, escrito ou perguntado; questionar ou apresentar razões contra (retrucar, responder a uma objeção); retribuir (responder a uma gentileza); repetir o som (o eco responde); fazer-se sentir por repercussão (a dor do braço me responde na cabeça); responsabilizar-se (ele responde pelo irmão, eu respondo por meus atos). Destaco este último significado, responder é responsabilizar-se, articulando-o aos dois primeiros: sou responsável por minhas respostas sejam elas questionadoras ou não. Ainda, recorrendo à etimologia da palavra responsabilidade, temos: vem do Latim responsus, particípio passado de respondere (responder, prometer em troca) a partir do prefixo re (de volta, para trás) mais spondere (garantir, prometer). Assim, responsabilidade se origina de responder que, por sua vez, comporta promessas e garantias.

Sustento uma posição frente ao outro quando respondo. Sustento na resposta uma posição de sujeito ao assumir a autoria de tais respostas, responsabilizando-me por elas. Afina, como á nos disse Lacan (1988) em 1965, por nossa posição de sujeito somos sempre responsáveis. Entretanto, se outro responde por mim, me eximo da responsabilidade, da autoria e das conseqüências deste ato. Dufour (2005) avalia que vivenciamos um declínio tanto do sujeito neurótico freudiano, quanto do sujeito crítico kantiano: ausência de responsabilização numa era de cabeças reduzidas. As cabeças se reduzem talvez numa razão inversamente proporcional ao aumento da massa muscular, dos corpos esculpidos pela malhação, pelos anabolizantes e pelas próteses de silicone. Assim, na impossibilidade de saber, chuto, e, muitas vezes, com violência. Déficit de atenção e dificuldades de aprendizagem, em especial da leitura e da escrita, inibições do pensar e da capacidade de criar, de inventar e reinventar o seu ser na conjunção de saber e fazer, dificuldades acompanhadas dos já comentados acting outs variados, da agitação motora, das transgressões de ordem social e sexual.

E neste difícil contexto de se fazer ser, a que amor se refere nosso jovem rapaz? Tempos atrás poderíamos escutar aí um enlace com a sexualidade, um arremesso do campo amoroso ao sexual. Seria, então, uma boa paquera, talvez o que chamamos (ou, melhor, chamávamos) de cantada, mas, pelo contexto de sua fala e pelos referenciais atuais, parece tratar-se de uma mor distante do humano e das possibilidades de ser no encontro com o outro sexo, amor por excelência, amor narcísico e totalizante. Um amor divino e etéreo que se basta pelo enunciado e produz falsas e malevolentes garantias de viver sem muitos esforços. E não é disso que se trata também na cotidiana “preferência” por uma existência fake, repleta de pretensos relacionamentos virtuais?

Silvia Amigo (2007) nos indica, de forma clara e consistente, a importância fundamental da criança vivenciar a alternância entre ser gozada e significada falicamente pelo Outro. Sabemos que a significação fálica não advirá se, num primeiro momento a criança não for tomada ilusoriamente como objeto de gozo, no entanto, é necessário que tal ilusão se dissipe e no distanciamento da obturação da falta, a criança evoque para o Outro a sua própria incompletude. Esta é a condição de base para que a falta em cada um dos registros possa se inscrever neste sujeito em constituição, condição para que a criança não seja toda capturada na imagem especular e que algo dela escape como apreendido pelo gozo do Outro, condição para que a criança adentre o campo da sexualidade.

Assim, quando chegada a adolescência, segundo despertar sexual como denomina Amigo (2007), segunda virada edípica, tempo de reescrita da falta em suas três instâncias,o sujeito deverá dispor das cartas necessárias para participar do jogo com boas chances de sair-se bem ainda que através da derrota em algumas partidas. Pois bem, se as bases da entrada na sexualidade foram estabelecidas, em face ao novo empuxo do real sexual que a adolescência produz o sujeito deverá encontrar, entre as cartas que porta e também no assentimento no Outro, o aval simbólico e a cobertura imaginária que permitam com que ele responda desde um lugar outro que não de bebezucho da mamãe ou de anjinho assexuado. Caso contrário, se frente a este empuxo do real o canal de união com a sexualidade se fecha, pode-se abrir o caminho para a morte.

Estamos de volta na possibilidade de responder, e agora explicito, responder ao empuxo do real sexual, construindo um saber que se conjugue com o fazer em vertentes de fazer com e de se fazer ser, num ato de autoria e de responsabilização. De posse desta possibilidade de percorrer os caminhos para a investigação da sexualidade, para o saber sobre o sexual, o estudo, a busca pelo conhecimento, as capacidades criativa, reflexiva e crítica podem aí se articular e, mais, tornarem-se, fonte de paixão e prazer. Para ser vivido de forma apaixonante, o estudo deve fazer corpo com a investigação sexual, se não, torna-se mera obrigação ou obediência (Amigo, 2007) ou, ainda, algo indiferente, inatingível e/ou repulsivo.

Uma mocinha muito simpática, de olhar vívido e curioso em época de vestibular veio falar comigo porque chorava a todo momento, dizia-se angustiada, temerosa e irritada, não conseguia dormir e estudar. Também não fazia amigos, todos ao redor eram concorrentes e só falavam de futilidades, não havia conversas inteligentes, não se indentificava com seus pares. Sua primeira frase foi ago como: “sempre fui boa aluna…  e agora… isso não é suficiente…”. Embora sua intenção fosse indicar que para entrar na faculdade não bastava ser boa, deveria ser a melhor, não é difícil escutar, para além deste enunciado, a insuficiência neste momento de sua vida da posição, da imagem de boa aluna ( e completo, de boa filha) para que ela pudesse responder, não apenas às questões dos vestibulares, mas às novas provas do real sexual e do encontro com o outro. Um sonho que disse ser “muito louco”: ela tinha um buraco na barriga que aumentava muito e como não encontrou quem a levasse ao hospital ela mesma resolveu suturá-lo e fazia isso com muita naturalidade, interesse e satisfação. Dizia-se muito curiosa e fascinada pelo funcionamento do corpo; o cérebro, os genes, os hormônios… E seu corpo respondia ao interesse: cólicas menstruais excessivas, dores de estômago, insônia, alergias, manchas na pele. Assim, num dado momento indagou: “você que é psicanalista, me diga, a sexualidade é assim tão importante nas nossas vidas?” Na verdade ela não demonstrava dúvidas quanto a isso e o difícil estavam em como responder à sexualidade em sua importância.

Melman (2009) propões que a crise atual da adolescência está atrelada ao fato de nós adultos não sabermos mais o que lhes dizer, pois os princípios e valores que orientaram as gerações anteriores parecem não ser mais de serventia para os jovens se posicionarem e serem reconhecidos. Hoje, avalia o autor, o reconhecimento social passa pela participação de uma cultura hedonista, na qual o consumo e a ostentação têm lugar de destaque. Acrescenta o fato inusitado de o assentimento para a sexualidade e o reconhecimento da identidade sexual subjulgarem-se à independência financeira. Além da necessária estranheza frente a esta situação – pois o que passa a validar a identidade de homem ou mulher é ser economicamente ativo, o que equivale a dizer que sou mulher ou homem através ou a partir do dinheiro – Melman também alerta para a indiferenciação aí presente, para o unissex, para uma identidade monossexuada, pois tal critério de reconhecimento se aplica igualmente a homens e mulheres. Mais uma vez, os jovens não estão aptos a responder à sexualidade e nós adultos estamos implicados nesta dificuldade através da incapacidade de transmitir-lhes elementos que possam ajudá-los na construção de suas respostas e na preparação para suas vidas, os habilitando para o crescimento.

Retomo o diálogo citado no inicio e complemento a cena com a presença de uma terceira personagem, outra mocinha da mesma idade dos dois primeiros, que acompanhava atenta e silenciosamente a conversa. Na verdade foi ela quem me narrou os fatos (e assim, em parte, inspirou o tema do trabalho) e ao final me disse, já nada silenciosamente, que o a de Amor, aquele Amor divino referido pelo rapaz, também poderia ser de ateu. Assim, faz referência não à Deus ou ao Diabo, não à Cristo ou ao Capeta, não ao Bem ou ao Mal, mas ao sujeito, ao humano. Sua observação é seguida da seguinte análise: muitos colegas rezam e não estudam, vão aos templos religiosos e não respeitam as regras e as pessoas na escola. Por fim, ela conclui dizendo: “… é claro que esse negócio não funciona!”.

É verdade, as cosas não tem mesmo funcionado muito bem hoje em dia no que tange à presença do sujeito e também a sua relação com o saber, pois para responder (e ser responsável) é preciso separar-se do Outro, é preciso sair da alienação e da cristalização, é preciso escrever e reescrever a falta e assim se fazer ser. Mas não esqueçamos que o a, referido pelos personagens seja ao Amor ou ao ateísmo, é para nós uma letrinha fundamental – aquela que representa o estatuto do objeto como faltante, da ordem da causa do desejo e que caracteriza a posição por excelência do analista – e, mais com ela também podemos escrever abertura. Sendo assim, mais do que nunca, vou de a.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan 

 

Referência Bibliográfica

AMIGO, Silvia. A clínica dos fracassos da fantasia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004.

HARARI, Roberto. Como se chama James Joyce? Salvador: Agalma; Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003.

LACAN, Jacques. A ciência e a verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LEBRUN, Jean Pierre. O mal-estar na subjetivação. Porto Alegre, CMC, 2009,

MELMAN, Charles. O que espera o adolescente da sexualidade e da morte. In: FLEIG, Conceição (org). Adolescente, sexo e morte. Porto Alegre, CMC, 2009.

RASSIAL. Jean Jacques. O sujeito em estado-limite. Rio de Janeiro. Companhia de Freud, 2000.

 

O Tacho e a Frigideira

Ao longo deste ano de trabalho, em um dado momento, destacou-separa mim uma colocação do psicanalista Isidoto Vegh, que ouvi na gravação de uma conferência por ele ministrada aqui em Curitiba, algo como: “o analista deve se analisar, e  muito, até o limite do possível, se não, não suporta estar nesta frigideira tantas vezes por dia.”

Acredito que esta metáfora ecoou em meus ouvidos porque o interesse por este cartel sobre o desejo do analista surgiu a partir de algumas inquietações em meu trabalho na enfermaria do Hospital Universitário de Londrina, e este eco produziu uma imagem, daquelas ao estilo das tirinhas da Mafalda, lá estava eu na enfermariam, num grande tacho, imersa em óleo quente.

As inquietações a que me refiro, dizem respeito à constatação de uma intensa, e peculiar, oscilação na minha capacidade e qualidade de trabalho com as pacientes internadas. Percebia claramente momentos em que conduzia entrevistas através de uma escuta analítica, atenta a produção de significantes e à emergência do sujeito inconsciente, e em outros, evidentemente aprisionada ao sentido, tangenciava a postura terapêutica.

Então, necessariamente, passei a me interrogar, não exclusivamente em minha análise, o que gerava esta incômoda e desmotivadora dicotomia, pois entendia que algo também do âmbito teórico deveria estar aí atrelado.

Esta percepção se associou ao fato, provavelmente por todos conhecido, de que no Brasil, em especial na última década, a bandeira da psicanálise no hospital foi içada, mas a impressão que tenho é que não se foi muito além disso. Impressão calcada na escassez de material bibliográfico nesta área, e portanto no pouco avanço teórico e prático aí presente.

Fato que gera estranheza, em virtude de ser essa vertente nitidamente controversa àquela que historicamente inaugurou os trabalhos “psi” em hospitais gerais, e que aí mantém predominância ao longo de meio século, a Psicologia Hospitalar. E esta estranheza agrega, para mim, mais interrogações: porque, a despeito de existirem alguns serviços onde trabalham psicanalistas, não há um desenvolvimento efetivo da Psicanálise nos Hospitais? Porque é praticamente inexistente a produção teórica nesta área?

Retomando, agora dentro do contexto acima, a esfera particular desta questão, as referidas oscilações na sustentação de uma escuta analítica nas enfermarias parecem apontar para, ou refletir, as dificuldades para não recuar ao desejo do analista.

Dificuldades que, ao meu ver, se acentuam muito no trabalho em hospital, pois os elementos que circunscrevem esta prática constituem demandas recorrentes para a promoção de saúde e “bem-estar”, comuns e pertinentes ao ideário médio, apropriadas, talvez, aos propósitos da Psicologia, mas inadequadas ao campo psicanalítico.

Refiro-me ao contexto institucional, partindo de seus objetivos e, consequentemente, refletindo no discurso predominante em toda a equipe de saúde, no qual o paciente é tratado como alguém, ou talvez seja mais adequado dizer algo, para o qual certamente se sabe o que é melhor.

Bem, e pela outra via, o paciente, na maioria das vezes já por sua estrutura, e ainda agravado pela condição de adoecimento, faz parceria neste jogo, se apresentando como este objeto, que entende que demandam, a ser cuidado, na espera de aquisição de saúde e bem-estar.

E o psicanalista, em sua função se posiciona desde o lugar da falta, pois não recuar ao desejo do analista significa suportar a própria castração. Assim, o analista, trabalhando com o conceito de transferência enquanto um fenômeno subjetivo e portanto concernente ao sujeito, estrutural e avesso às relações intersubjetivas, jamais contemplará qualquer tipo de “transmissão de bens”, ao contrário “ele sabe que deve oferecer um lugar vazio, que permite ao analisante articular seu desejo e não pretende poder oferecer o que falta ao outro” (Lebrun et al. 1994: 290).

Ainda temos que considerar que, na grande maioria das vezes, inversamente ao que ocorre no consultório, o analista vai até o paciente oferecer sua escuta, seja pela requisição de um terceiro, ou pela rotina de trabalho do primeiro.

Esta questão, sempre debatida nos colóquios e em alguns textos referentes à Psicanálise no hospital, via de regra evoca a formulação de Lacan de que “a oferta cria a demanda.“. Atualmente, escuto esta formulação não como uma resposta para o impasse citado, e sim como fonte de mais indagações.

Aliás, o mercado é regido por algo muito parecido, a ideia de que a oferta, a propaganda, gera uma “necessidade”. Mas sabemos que depende, e muito, de como e para quem a oferta é feita, e como o mercado não tem como contemplar as diferenças  individuais, aposta naquilo que considera funcionar para a maioria.

Bem, enfocar a individualidade, a particularidade de cada um, é o que há de fundamental, de precioso na escuta analítica, pois como nos coloca Lacan no encerramento do Seminário 11 (1998: 260): “O desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem, pela primeira vez, à posição de se assujeitar a ele“.

Mas se, para além de não oferecer respostas ou transmitir “bens”, o desejo do analista implica necessariamente em não demandar, me parece muito arriscado que no hospital, considerando os aspectos aqui já mencionados, a oferta acabe por produzir mais força na demanda de demanda que o circuito transferencial analítico contempla.

E esta demanda advinda de uma pessoa fisicamente debilitada, exalando sofrimento físico e muitas vezes estampado a figura da morte, não faz frigir o analista? E o óleo esquenta ainda mais com as convocações da equipe e da instituição para que se faça “alguma coisa”, demandas de eficácia e produtividade.

Sem desconsiderar, de forma alguma, a melhor suportabilidade da fritura por aqueles que estão em análise, e mais ainda por aqueles que nela já avançaram até o limite do possível, ainda assim entendo que nos deparamos aí com elementos significativos, no sentido do seu potencial para afetarem o narcisismo do analista, e portanto para estremecerem o desejo do analista.

Esta formulação tornou-se ainda mais consistente, quando ouvi alguns colegas psicanalistas ou em formação analítica que atuam em hospitais, identificarem uma maior “motivação” para o trabalho no momento em que se deparam com pacientes que enunciam uma demanda de cunho analítico, como se esse enunciado “tirasse” o analista do tacho.

E talvez, de maneira similar, seja alguma espécie de “conforto” que encontram os psicólogos quando, através de um posicionamento terapêutico, acreditam produzir algum tipo de “bem” para o paciente, amenizando os sentimentos de impotência favorecidos no contexto hospitalar.

Pelo que compreendi, a colocação inicialmente citada neste texto, apesar de indicar que de “somos feitos de substancia gozante“, e portando estamos sempre sujeitos à frigideira, refere-se a momentos particulares da clinica psicanalítica, nos quais o analista deve, e pode, suportar o calor e a dor da fritura, porque a despeito desta significar intensos ataques à aspectos importantes para a pessoa do analista, certamente não é como tal (pessoa) que ele aí está.

O que procurei desenvolver neste trabalho, é que no hospital estes momentos não são tão particulares assim, ao contrário, parecem ser extremamente freqüentes. Frequência tal que, por vezes, gere insuportabilidade da unção, a qual pode produzir alguns sintomas, como as referidas oscilações na qualidade do trabalho, desmotivação, paralisia, atuações humanitárias…

Sintomas que traduzem, portando, a impossibilidade da sustentação do desejo do analista, aquele que se mantém como enigma pelo fato de que nunca se satisfaz, e a conseqüente presentificação de uma demanda em seu lugar, aquela para a qual algo se torna objeto.

Lembro-me, auxiliada por meu caderninho de notas, que em uma de nossas reuniões de trabalho identificamos que levar um caso para supervisão é reinvestimento no desejo do analista, pelo reconhecimento da falta de saber.

Bem, hoje considero que minha inserção, pela primeira vez, em um cartel teve este mesmo significado, e que talvez esta se tenha dado, em grande parte, pelo calor excessivo do tacho.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

Trabalho desenvolvido junto ao Cartel sobre o Desejo do Analista e apresentado na Jornada de Cartéis da Biblioteca Freudiana de Curitiba em Novembro de 2001.

 

Referência Bibliográfica

LACAN J. O seminário – Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 270 p.

LEBRUNT, T., STRYCKMAN, N, BRUGGEN, B., &, C. VANDEVYVER. O conceito de transferência. In: Dorgeuille, C. & Chemama. Dicionário de Psicanálise – Freud & Lacan. Salvador: Ágalma, 1994. P 286 – 305.