Angustia e Contemporaneidade

Em primeiro lugar, o título deste trabalho propõe pensarmos numa certa relevância da angústia nos dias de hoje. Na sequência, evidencia a existência de particularidades da angústia e de suas manifestações na contemporaneidade. Estes dois indicadores podem ser desdobrados na direção de questões e impasses que se impõe ao manejo clínico da angústia na atualidade. Na realidade, se tomarmos como ponto de partida a clínica cotidiana, os aspectos acima indicados se apresentam de forma concomitante e não restitos ao tema da angústia que aqui nos concerne: as particulares e graves formas de sofrimento trazidas por sujeitos, digamos, um tanto apáticos, nos interrogam diariamente, impulsionando à produção teórica e à inovação clínica.

Paradoxalmente, tempo difícil e promissor para a Psicanálise. Tal afirmativa pode, com razão, ser contraposta à alegação de que esta dicotomia não é nova, pois desde o seu início a clínica psicanalítica sabe ser eficaz no tratamento do sofrimento humano, mas enfrenta uma série de dificuldades e questionamentos. Entretanto, os percalços advindos de uma posição subjetiva onde a busca por um saber inconsciente é sobrepujada por uma demanda de gozo, de um gozo-todo que a cultura propõe como necessário (Besset, 2002), impõe impasses bem específicos e, arrisco dizer, maiores do que aqueles presentes desde o nascimento da Psicanálise e atrelados a uma ordem social regida pela presença de uma forte instância terceira, da repressão, do sofrimento e da culpabilidade neurótica. Somamos a tal condição toda a carga de anestesia psíquica e anulação subjetiva que a indústria farmacêutica pode, alegremente, nos proporcionar e ainda a presença da solidão e do enfraquecimento dos laços sociais, pretensamente substituídos pela comunicação virtual.

Um cenário árido e, veremos, favorecedor, dentre outras coisas, da presença da angústia e das diferentes formas de atuações nas clínicas das toxicomanias, dos transtornos alimentares, da psicossomática, do pânico, das fobias e das melancolizações. Mas também, promissor, por, mais uma vez, a Psicanálise trabalhar para buscar formas de ludar com a dor e o sofrimento humanos, e mostrar-se capaz na renovação teórica e técnica.

Avançar na discussão acima esboçada a respeito da clínica da angústia na contemporaneidade exige a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito.

A obra freudiana apresenta duas teses sobre a angústia: na primeira, o recalque é postulado como produtor de angústia; na segunda, a angústia é anterior ao recalque e produz o mesmo. Embora Freud tenha priorizado a segunda tese, só possível a partir da segunda teoria das pulsões e da segunda tópica, não chega a descartar a primeira (Giles, 2007).

A construção da primeira teoria sobre a angústia está associada à diferenciação entre as neuroses atuais e as psiconeuroses; Neste contexto, as neuroses atuais, em especial a neurose de angústia, se caracterizam por um quantum de excitação sexual sem mediação simbólica e vivenciada diretamente no corpo sob a forma de angústia e, portanto, fora do recalque. Dito de outra forma, a angústia nas neuroses atuais é vista por Freud como uma energia livre decorrente da tensão física e sua ausência de intermediação psíquica. É interessante observar que nesta formulação temos algo esboçado na direção da segunda teoria onde a angústia será situada fora dor recalque por ser anterior ao mesmo e associada ao trauma, embora nem mesmo a primeira teoria da angústia estivesse ainda estabelecida.

Com a leitura sobre as psiconeuroses, temos a libidinização da tensão sexual, extrapolando a condição física desta tensão para o psiquismo. Freud considera os sintomas como indicadores de um excesso de libido e coloca a ideia de transformação deste excesso também em angústia. Tal excesso é vivenciado pelo eu como um perigo pulsional e estaria na base das psiconeuroses, pois frente a tal perigo o recalque atua como defesa. Com o recalque ocorre a separação entre ideia (representante representação) e afeto, sendo a angústia um dos possíveis destinos para o afeto (na condição de afeto livre). Portanto, temos a primeira tese sobre angústia, marcada por um caráter econômico em que a angústia é um resultado, uma manifestação subjetiva de uma quantidade de energia não dominada, um produto do recalque e já está associada a um caráter defensivo.

Este caráter defensivo é, nesse momento, enfatizado por Freud através da articulação da angústia a uma espécie de disposição preparatória para o perigo, pois à medida que o eu retira a libido dos representantes psíquicos, ele produz um nível de angústia suportável afim de que o eu não seja dominado pela angústia paralisante.

Com os elementos da segunda tópica e, em especial da segunda teoria pulsional, Freud (1996/1926) agrega à compreensão da angústia como libido transformada pelo efeito do recalque a ideia de uma angústia originária, associada ao trauma do nascimento, à imaturidade e dependência do humano, e, portando, anterior ao recalque. Assim temos a segunda tese freudiana sobre a angústia, de caráter dinâmico, onde o recalque não causa a angústia, pois ela está presente desde o início e por temê-la o eu recalca o que se apresenta como ameaçado por, de alguma forma,remeter à angústia originária (Giles, 2007).

Freud avalia que a imaturidade e dependência absolutas do bebê propiciam uma vivência de desamparo e de perigo de aniquilamento que é traumática por não ser representada psiquicamente, sendo, portanto, angustiante. Toda vez que algo remeter a isto que é da ordem do trauma o eu se prepara para uma vivência angustiante. Assim, a angústia como sinal põe em evidência a angústia como defesa do eu. Trata-se de uma reação a um perigo inespecífico para impedir que um pânico desordenado se apodere do sujeito (Kaufmann, 1996). De qualquer forma, para Freud, a angústia está associada à perda de objeto, pois o trauma se articula à separação e à perda da condição de falo para o Outro.

Para Lacan, a angústia resguarda sua condição, já estabelecida por Freud, de um afeto e de sinal, não de um perigo interno ou externo, mas sim de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995). Para além dos textos freudianos que teorizam sobre angústia, Lacan (2005/1962-63) prioriza O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas sim também como manifestação frente à faltada falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada. Assim, a angústia não é mais atribuída à falta, à perda do objeto, ao contrário, se presentifica no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante, ou seja, na possibilidade da falta vir a faltar.

Nesta direção, Lacan (205/1962-63) afirma ser angústia não sem objeto e, ainda, ser um afeto que não engana. É necessário especificar que o objeto em questão, objeto a, é aquele definido como causa do desejo, aquele que precisa faltar para que o sujeito possa desejar. Produzido como resto no circuito pulsional, o objeto a é o que escapa à libidinização e à simbolização. A angústia é produzida se esse objeto não faltar e alguma coisa se presentificar em seu lugar, anulando a possibilidade do desejo.

Assim a angústia não é sinal da falta, mas sim do fracasso desta ultima que é para o sujeito condição indispensável para sua existência desejante (Chemama, 1995). Desta forma, o que está em questão na angústia não é a dúvida, mas sim a certeza, por isso ser o afeto que não engana, de uma posição perante o desejo do Outro em que se corra o risco de devoração, onde o gozo do Outro se sobreponha ao desejo.

O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). Nesta direção, sabemos que o desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. Assim, peranteo enigma do desejo do Outro, que na verdade nada quer de mim, a angústia surge se o Outro não se apresentar e permanecer como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo, para ele.

Com estes fundamentos teóricos, não nos parece difícil interpretar as manifestações clínicas tão comuns em nossos dias pela via das patologias do ato (toxicomanias, pânico, bulimia e anorexia, melancolizações…), recursos frente à angústia e à inibição, como efeito da presença do Outro pouco faltante ou marcado mais pela falta imaginária do que pela falta simbólica. Posicionamento bastante condizente com o discurso social reinante de um imperativo necessário de ascensão ao gozo sem limites. Dessa maneira, nos deparamos com sujeitos tão apáticos, pouco desejantes, e também muito suscetíveis a melancolização e à angústia por uma falha, vacilação, naquilo que diz respeito à estrutura da falta e à possibilidade de ser a, causa do desejo para o Outro e não objeto de desejo do Outro.

No que concerne à condução clínica, Lacan afirma a angústia como necessária, filiando-se nos ensinamentos freudianos da angústia como sinal de alarme que possibilite ao eu o acionamento de defesas que impeçam o transbordamento da angústia de forma paralisante. Assim, ela também pode servir como sinal da análise dos limites entre desejo e o gozo, como indicador do quanto a estrutura do fantasma garante, para esse sujeito, o seu lugar no desejo. Em certa medida, parece-nos que a angústia neste nível de sinal tem fracassado em nossos dias, assim como o sintoma já não se apresenta mais tão clara e frequentemente: em geral se apresentam sob o signo da apatia alienante ou da angústia paralisante.

Neste contexto, certamente devemos nos haver com especificidades na condução clínica que implicam, de começo, dificuldades e maior tempo no estabelecimento transferencial e na função da demanda de análise. Manobras que viabilizem a saída da angústia paralisante e/ou da inibição não pela via do ato, mas da palavra, certamente necessitam que o desejo do analista possa se sustentar de forma eficaz, inclusive naquilo que diz respeito à prática da vacilação calculada.

Parece interessante que para lidarmos com aquilo que é exatamente da ordem de uma vacilação na estrutura, recorramos a outro campo também de vacilação, e que tenhamos constatado que esta última pode comportar atos de criação e subjetivação e não de fracasso e destituição, na renovação necessária da psicanálise e sua clínica.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

BESSET, V. L. A clínica da Angústia. São Paulo: Editora Escuta, 2002. 2016 p.

CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241 p.

FREUD, S. O Estranho [1917]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol IVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GILES, C. Sobre o conceito de angústia em Freud. InnRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p 11-21.

GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? InRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p. 11-21. p. 58-66.

KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 784 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 366 p.

 

Bibliografia Consultada

BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 418 p.

FREUD, S. Além do princípio de prazer [1920]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996 f.

FREUD, S. O ego e o id [1923]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. O mal-estar na civilização [1929]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. Conferência XXXI. Angústia e vida pulsional. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise [1932]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HARARI, R. O seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997. 241 p.

LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 552 p.

Sem Nome

Esboçando este trabalho, relativo ao desanolamento do Cartel sobre a Feminilidade, lembrei-me que elegi o tema em questão quando ouvia o Seminário de Charles Melman no ano passado. Melman falou, em algum momento, a respeito dos desencontros entre homens e mulheres e da impossibilidade de resposta, do lado masculino, à demanda feminina. Naturalmente ele articulou este aspecto ao fato da posição feminina não ser sustentada a partir do significante fálico, não havendo aí um significante que diga sobre ela.

Assim, se a problemática feminista situa-se ao redor da inexistência e do não-todo, torna-se hoje para mim significativo a tomada deste tema em um Cartel, por entendê-lo como um percurso de produção, de criação. E afina, não pode a criação ser definida como uma busca de resposta a esta posição feminina, na medida em que procura traçar significações exatamente aonde elas faltam? Particulares também me parece a composição deste grupo, cinco mulheres, e o longo caminho de estudos que escolhemos traçar, talvez numa vã tentativa de abrangência, de totalidade do tema, nesta busca de significações.

E, por estas e outras, me posiciono para escrever este trabalho de uma maneira bem diferente da usual. Em geral, primando pelo rigor teórico e temendo erros conceituais, me atenho aos textos estudados para o tema e aí componho algo. Desta vez, sentia desejo de um certo distanciamento teórico, de produzir um texto mais pessoa, menos técnico. E é nesse movimento que algumas idéias vão aparecendo e sobre elas vou escrevendo, talvez sem uma coerência absoluta, sem um fio condutor único, quem sabe com um caráter mesmo mais feminino, pois não é a loucura essencialmente feminina?

Bem, agora consigo entender porque temos o Dia Internacional das Mulheres e não existe o equivalente para os homens… Assim como porque o Movimento Feminista tem ares tão masculinos… Clamar, reivindicar, marcar uma existência de direito, assim como fazer semblante ao masculino não é para quem quer, mas para que não pode.

Certo dia, ao longo de nossos estudos, fui acometida por uma imagem: sentada na frente de uma belíssima penteadeira, vestimentas e penteado do início do século passado, eu retocava o pó-de-arroz e me preocupava com qual colar usar. Brinquei a respeito desta imagem com as colegas de Cartel, espécie de idealização avessa à condição da dita mulher moderna que para se fazer sujeito busca cada vez mais a negação de ser não-toda, num mundo onde isso acaba sendo muito custoso.

Custoso e duvidoso, pois a maternidade, ora indicada como matriz simbólica da feminilidade, parece reduzir-se a um espaço na agenda: programável, distancia-se do campo do desejo, mais uma tarefa, entre tantas, a cumprir…

Assisti recentemente um documentário genial de Marcelo Masagão, denominado “Nem gravata, nem honra”, a respeito da diferença entre homens e mulheres. Ali, na tomada de depoimentos de pessoas de uma pequena cidade do interior de São Paulo, entre tantos outros, dois elementos são apresentados: a mulher é dissimulada por natureza e gosta de romance.

Dissimulação e romance, máscara e demanda de amor, sem duvida dois aspectos atrelados à feminilidade, à posição feminina em sua luta de subjetivação, de fazer-se sujeito por debater-se com a falta de um significante que a enuncie.

A mascarada responde exatamente ao enigma da feminilidade, fazer-se desejar apesar de sua carência, mascarar a carência através de um corpo imaginariamente constituído como falo. Isso, ao mesmo tempo em que possa, a partir das identificações que permitam uma posição simétrica à da mão, portanto do lado da carência, desejar e amar um homem. Destino árduo e paradoxal que em tempos de “direitos iguais” parece ganhar requintes de dificuldades… Como é possível desejar e amar um homem a partir da pretensa igualdade? Como conciliar fragilidade nesta condição? Qual máscara usar no baile contemporâneo?

Romance, demanda de amor, o segundo aspecto aqui destacado será também uma tentativa de resposta ao primeiro? Pois parece que se tem algo do qual as mulheres não abrem mão, esse algo concerte exatamente à reivindicação de amor. O amor estabelece uma relação de sujeito a sujeito, da qual a mulher se beneficiaria exatamente por sua carência de subjetividade. É para serem sujeitos que as mulheres querem ser amadas, acreditando que assim serão dotadas daquilo que lhes falta: um significante que as diga.

Portanto não é pouco que este amor exige, pois demanda que ele possa mudar a ordem das coisas. Serge André nos fala o quanto este pedido de amor pode reivindicar, nesta tentativa de negação de ser não-toda, aludindo à seguinte fala de Julieta para Romeu: O que há num nome? O que chamamos rosa terio o mesmo perfume sob outro nome. Romeu, renuncia a teu nome; e em lugar deste nome, que não faz parte de ti, toma-me toda.

Então o que esta demanda de amor proclama, ou reclama, é uma revogação da lei, ou seja da castração, e, em seu lugar, a instauração de um estatuto particular, de uma regra, onde o ser mulher, o não toda, se transformaria em nome.

Sem Nome, além do título deste trabalho, era uma rede de sorveterias da cidade em que eu morava no início da minha adolescência. O sorvete era mesmo delicioso, a sorveteria famosa e eu me intrigava a respeito da escolha deste nome fantasia.

Achava mesmo que uma possível ausência de criatividade pudesse ser usada tão bem, pois Sem Nome era um “nome que pegou”, ninguém esquecia como se chamava a tal sorveteria… Acredito, que a capacidade criativa mascarada pela aparente simplicidade desta escolha e o fazer-se nome a partir de uma referência à ausência deste eram os elementos que me instigavam, e continuam a me intrigar, pois é sobre eles que estou escrevendo.

Mas será que o amor demandado pelas mulheres poderá recobri-las com o mesmo sucesso da sorveteria? Alcançará o amor este estatuto de traçar, delinear, criar significação onde ela inexista?

Deixo vocês com um poema de José Paulo Paes, que nos alcança a estas e tantas outas questões:

Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

 

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan 

Trabalho apresentado na Jornada de Carteis da Biblioteca Freudiana de Curitiba/2003, no desanolamento do Cartel sobre Feminilidade.

 

Referência Bibliográfica

ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 295 p.

FREUD, S. A feminilidade, 91932-3). Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ A dissolução do complexo de Édipo, (1924). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ Algumas conseqüências psíquicas da diferença sexual anatômica, (1925). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ Sobre a sexualidade feminina, (1931). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

MELMAN, C. Seminário: Novas Formas Clínicas, no início do terceiro milênio. Curitiba, abril, 2002.

PAES, J. P. Melhores Poemas. São Paulo: Global, 2000. 241 p.

É Possível Responder?

De início, reproduzo para vocês um e pequeno e curioso diálogo entre dois adolescentes:

“- Se eu não souber responder, vou chutar em c de Cristo ou d de Deus.”
“- E se você estiver em dúvida entre, exatamente, essas duas alternativas?”
“- Bom, aí eu vou em c de Cristo, porque d também pode ser de Diabo.”
“- Mas, veja bem, c também pode ser de Capeta!”
“- Ah… Então eu ponho a, de Amor!”

Nesta cena conversavam um rapaz e uma garota, ambos de quatorze anos a respeito de um simulado que estava prestes a ocorrer, Ainda que em tom de comicidade e de forma sutil, este diálogo pode remeter a aspectos cruciais e, muitas vezes, trágicos da adolescência hoje. Ao longo dos tempos, o caráter de crise marcou a época adolescente em nossas vidas. Crise ou, como diz Rassial (2000), estado-limite provisório na estrutura que deveria encerrar-se com o fim da adolescência, mas que pode também se encaminhar para o trágico. E sabemos ser este um desfecho hoje não raro – pela presença de graves acting outs ou de efetivas passagens ao ato – assim como por uma espécie de descaracterização da adolescência, pois ela tem sido recoberta pelo prolongamento da infância ou da latência, o que não nos distancia do trágico ainda que em outra vertente. É o que lemos em Lebrun (2010) a respeito da dificuldade de crescer e dos traços do adolescente hoje: “não mais um período de iniciação ou de provação, mas aquele de uma longa preservação do confronto com a realidade e com suas consequências, a manutenção precisamente na infância.” (p. 91).

Desta complexa trama que constitui a adolescência e dos vários fios através dos quais podemos tecer leituras e considerações sobre a mesma, proponho alguns comentários sobre a vertente por mim escutada a partir do recorte acima apresentado: a relação com o saber – no mais amplo sentido e em seus desdobramentos quanto às capacidades critica, reflexiva e criativa – e sua interface com a sexualidade. Assim, interrogo se é possível ao nosso adolescente responder, se ele pode autorizar-se a produzir respostas frente aos enigmas que devem estar se apresentando a ele (será que estão?).

Avalio o diálogo reproduzido como uma alusão ou mesmo um exemplo deste estado de impossibilidade ou de dificuldade de responder e também como característico de uma posição de distanciamento, de exterioridade, de passividade ou de alienação e, às vezes, de repulsa de nossos jovenzinhos frente ao saber. Penso que eles falam, nesta conversa, da ilusória e preguiçosa garantia de um “saber” alheio a si mesmo, alienado em uma suposta instância terceira, antes transcendente, hoje duvidosa: as letras minúsculas transitam errantemente entre Cristo e capeta, Deus e diabo. Longe de um ancoramento simbólico em seu necessário enodamento borromeano, tal posicionamento parece indicar um sujeito navegando ao léu, sem bússola e incapaz de traçar, de punho próprio, sua rota através das estrelas. Fiquei também sabendo que os elementos deste diálogo já constituem no meio onde ele foi produzido, uma espécie de gíria, pois quando alguém é interpelado sobre qual foi sua resposta para tal questão é habitual responder: “Ah, eu fui no c de Cristo!”, o que significa que não tinha a menor ideia do que se tratava na questão e assinalou uma das alternativas, mas não qualquer uma e, sim, aquela que Cristo lhe indicou: Cristo, protetoramente, respondeu por ele.

Para a palavra responder encontramos no dicionario (Ferreira, 2004) as seguintes definições: dar uma resposta ao que é dito, escrito ou perguntado; questionar ou apresentar razões contra (retrucar, responder a uma objeção); retribuir (responder a uma gentileza); repetir o som (o eco responde); fazer-se sentir por repercussão (a dor do braço me responde na cabeça); responsabilizar-se (ele responde pelo irmão, eu respondo por meus atos). Destaco este último significado, responder é responsabilizar-se, articulando-o aos dois primeiros: sou responsável por minhas respostas sejam elas questionadoras ou não. Ainda, recorrendo à etimologia da palavra responsabilidade, temos: vem do Latim responsus, particípio passado de respondere (responder, prometer em troca) a partir do prefixo re (de volta, para trás) mais spondere (garantir, prometer). Assim, responsabilidade se origina de responder que, por sua vez, comporta promessas e garantias.

Sustento uma posição frente ao outro quando respondo. Sustento na resposta uma posição de sujeito ao assumir a autoria de tais respostas, responsabilizando-me por elas. Afina, como á nos disse Lacan (1988) em 1965, por nossa posição de sujeito somos sempre responsáveis. Entretanto, se outro responde por mim, me eximo da responsabilidade, da autoria e das conseqüências deste ato. Dufour (2005) avalia que vivenciamos um declínio tanto do sujeito neurótico freudiano, quanto do sujeito crítico kantiano: ausência de responsabilização numa era de cabeças reduzidas. As cabeças se reduzem talvez numa razão inversamente proporcional ao aumento da massa muscular, dos corpos esculpidos pela malhação, pelos anabolizantes e pelas próteses de silicone. Assim, na impossibilidade de saber, chuto, e, muitas vezes, com violência. Déficit de atenção e dificuldades de aprendizagem, em especial da leitura e da escrita, inibições do pensar e da capacidade de criar, de inventar e reinventar o seu ser na conjunção de saber e fazer, dificuldades acompanhadas dos já comentados acting outs variados, da agitação motora, das transgressões de ordem social e sexual.

E neste difícil contexto de se fazer ser, a que amor se refere nosso jovem rapaz? Tempos atrás poderíamos escutar aí um enlace com a sexualidade, um arremesso do campo amoroso ao sexual. Seria, então, uma boa paquera, talvez o que chamamos (ou, melhor, chamávamos) de cantada, mas, pelo contexto de sua fala e pelos referenciais atuais, parece tratar-se de uma mor distante do humano e das possibilidades de ser no encontro com o outro sexo, amor por excelência, amor narcísico e totalizante. Um amor divino e etéreo que se basta pelo enunciado e produz falsas e malevolentes garantias de viver sem muitos esforços. E não é disso que se trata também na cotidiana “preferência” por uma existência fake, repleta de pretensos relacionamentos virtuais?

Silvia Amigo (2007) nos indica, de forma clara e consistente, a importância fundamental da criança vivenciar a alternância entre ser gozada e significada falicamente pelo Outro. Sabemos que a significação fálica não advirá se, num primeiro momento a criança não for tomada ilusoriamente como objeto de gozo, no entanto, é necessário que tal ilusão se dissipe e no distanciamento da obturação da falta, a criança evoque para o Outro a sua própria incompletude. Esta é a condição de base para que a falta em cada um dos registros possa se inscrever neste sujeito em constituição, condição para que a criança não seja toda capturada na imagem especular e que algo dela escape como apreendido pelo gozo do Outro, condição para que a criança adentre o campo da sexualidade.

Assim, quando chegada a adolescência, segundo despertar sexual como denomina Amigo (2007), segunda virada edípica, tempo de reescrita da falta em suas três instâncias,o sujeito deverá dispor das cartas necessárias para participar do jogo com boas chances de sair-se bem ainda que através da derrota em algumas partidas. Pois bem, se as bases da entrada na sexualidade foram estabelecidas, em face ao novo empuxo do real sexual que a adolescência produz o sujeito deverá encontrar, entre as cartas que porta e também no assentimento no Outro, o aval simbólico e a cobertura imaginária que permitam com que ele responda desde um lugar outro que não de bebezucho da mamãe ou de anjinho assexuado. Caso contrário, se frente a este empuxo do real o canal de união com a sexualidade se fecha, pode-se abrir o caminho para a morte.

Estamos de volta na possibilidade de responder, e agora explicito, responder ao empuxo do real sexual, construindo um saber que se conjugue com o fazer em vertentes de fazer com e de se fazer ser, num ato de autoria e de responsabilização. De posse desta possibilidade de percorrer os caminhos para a investigação da sexualidade, para o saber sobre o sexual, o estudo, a busca pelo conhecimento, as capacidades criativa, reflexiva e crítica podem aí se articular e, mais, tornarem-se, fonte de paixão e prazer. Para ser vivido de forma apaixonante, o estudo deve fazer corpo com a investigação sexual, se não, torna-se mera obrigação ou obediência (Amigo, 2007) ou, ainda, algo indiferente, inatingível e/ou repulsivo.

Uma mocinha muito simpática, de olhar vívido e curioso em época de vestibular veio falar comigo porque chorava a todo momento, dizia-se angustiada, temerosa e irritada, não conseguia dormir e estudar. Também não fazia amigos, todos ao redor eram concorrentes e só falavam de futilidades, não havia conversas inteligentes, não se indentificava com seus pares. Sua primeira frase foi ago como: “sempre fui boa aluna…  e agora… isso não é suficiente…”. Embora sua intenção fosse indicar que para entrar na faculdade não bastava ser boa, deveria ser a melhor, não é difícil escutar, para além deste enunciado, a insuficiência neste momento de sua vida da posição, da imagem de boa aluna ( e completo, de boa filha) para que ela pudesse responder, não apenas às questões dos vestibulares, mas às novas provas do real sexual e do encontro com o outro. Um sonho que disse ser “muito louco”: ela tinha um buraco na barriga que aumentava muito e como não encontrou quem a levasse ao hospital ela mesma resolveu suturá-lo e fazia isso com muita naturalidade, interesse e satisfação. Dizia-se muito curiosa e fascinada pelo funcionamento do corpo; o cérebro, os genes, os hormônios… E seu corpo respondia ao interesse: cólicas menstruais excessivas, dores de estômago, insônia, alergias, manchas na pele. Assim, num dado momento indagou: “você que é psicanalista, me diga, a sexualidade é assim tão importante nas nossas vidas?” Na verdade ela não demonstrava dúvidas quanto a isso e o difícil estavam em como responder à sexualidade em sua importância.

Melman (2009) propões que a crise atual da adolescência está atrelada ao fato de nós adultos não sabermos mais o que lhes dizer, pois os princípios e valores que orientaram as gerações anteriores parecem não ser mais de serventia para os jovens se posicionarem e serem reconhecidos. Hoje, avalia o autor, o reconhecimento social passa pela participação de uma cultura hedonista, na qual o consumo e a ostentação têm lugar de destaque. Acrescenta o fato inusitado de o assentimento para a sexualidade e o reconhecimento da identidade sexual subjulgarem-se à independência financeira. Além da necessária estranheza frente a esta situação – pois o que passa a validar a identidade de homem ou mulher é ser economicamente ativo, o que equivale a dizer que sou mulher ou homem através ou a partir do dinheiro – Melman também alerta para a indiferenciação aí presente, para o unissex, para uma identidade monossexuada, pois tal critério de reconhecimento se aplica igualmente a homens e mulheres. Mais uma vez, os jovens não estão aptos a responder à sexualidade e nós adultos estamos implicados nesta dificuldade através da incapacidade de transmitir-lhes elementos que possam ajudá-los na construção de suas respostas e na preparação para suas vidas, os habilitando para o crescimento.

Retomo o diálogo citado no inicio e complemento a cena com a presença de uma terceira personagem, outra mocinha da mesma idade dos dois primeiros, que acompanhava atenta e silenciosamente a conversa. Na verdade foi ela quem me narrou os fatos (e assim, em parte, inspirou o tema do trabalho) e ao final me disse, já nada silenciosamente, que o a de Amor, aquele Amor divino referido pelo rapaz, também poderia ser de ateu. Assim, faz referência não à Deus ou ao Diabo, não à Cristo ou ao Capeta, não ao Bem ou ao Mal, mas ao sujeito, ao humano. Sua observação é seguida da seguinte análise: muitos colegas rezam e não estudam, vão aos templos religiosos e não respeitam as regras e as pessoas na escola. Por fim, ela conclui dizendo: “… é claro que esse negócio não funciona!”.

É verdade, as cosas não tem mesmo funcionado muito bem hoje em dia no que tange à presença do sujeito e também a sua relação com o saber, pois para responder (e ser responsável) é preciso separar-se do Outro, é preciso sair da alienação e da cristalização, é preciso escrever e reescrever a falta e assim se fazer ser. Mas não esqueçamos que o a, referido pelos personagens seja ao Amor ou ao ateísmo, é para nós uma letrinha fundamental – aquela que representa o estatuto do objeto como faltante, da ordem da causa do desejo e que caracteriza a posição por excelência do analista – e, mais com ela também podemos escrever abertura. Sendo assim, mais do que nunca, vou de a.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan 

 

Referência Bibliográfica

AMIGO, Silvia. A clínica dos fracassos da fantasia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004.

HARARI, Roberto. Como se chama James Joyce? Salvador: Agalma; Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003.

LACAN, Jacques. A ciência e a verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LEBRUN, Jean Pierre. O mal-estar na subjetivação. Porto Alegre, CMC, 2009,

MELMAN, Charles. O que espera o adolescente da sexualidade e da morte. In: FLEIG, Conceição (org). Adolescente, sexo e morte. Porto Alegre, CMC, 2009.

RASSIAL. Jean Jacques. O sujeito em estado-limite. Rio de Janeiro. Companhia de Freud, 2000.

 

O Tacho e a Frigideira

Ao longo deste ano de trabalho, em um dado momento, destacou-separa mim uma colocação do psicanalista Isidoto Vegh, que ouvi na gravação de uma conferência por ele ministrada aqui em Curitiba, algo como: “o analista deve se analisar, e  muito, até o limite do possível, se não, não suporta estar nesta frigideira tantas vezes por dia.”

Acredito que esta metáfora ecoou em meus ouvidos porque o interesse por este cartel sobre o desejo do analista surgiu a partir de algumas inquietações em meu trabalho na enfermaria do Hospital Universitário de Londrina, e este eco produziu uma imagem, daquelas ao estilo das tirinhas da Mafalda, lá estava eu na enfermariam, num grande tacho, imersa em óleo quente.

As inquietações a que me refiro, dizem respeito à constatação de uma intensa, e peculiar, oscilação na minha capacidade e qualidade de trabalho com as pacientes internadas. Percebia claramente momentos em que conduzia entrevistas através de uma escuta analítica, atenta a produção de significantes e à emergência do sujeito inconsciente, e em outros, evidentemente aprisionada ao sentido, tangenciava a postura terapêutica.

Então, necessariamente, passei a me interrogar, não exclusivamente em minha análise, o que gerava esta incômoda e desmotivadora dicotomia, pois entendia que algo também do âmbito teórico deveria estar aí atrelado.

Esta percepção se associou ao fato, provavelmente por todos conhecido, de que no Brasil, em especial na última década, a bandeira da psicanálise no hospital foi içada, mas a impressão que tenho é que não se foi muito além disso. Impressão calcada na escassez de material bibliográfico nesta área, e portanto no pouco avanço teórico e prático aí presente.

Fato que gera estranheza, em virtude de ser essa vertente nitidamente controversa àquela que historicamente inaugurou os trabalhos “psi” em hospitais gerais, e que aí mantém predominância ao longo de meio século, a Psicologia Hospitalar. E esta estranheza agrega, para mim, mais interrogações: porque, a despeito de existirem alguns serviços onde trabalham psicanalistas, não há um desenvolvimento efetivo da Psicanálise nos Hospitais? Porque é praticamente inexistente a produção teórica nesta área?

Retomando, agora dentro do contexto acima, a esfera particular desta questão, as referidas oscilações na sustentação de uma escuta analítica nas enfermarias parecem apontar para, ou refletir, as dificuldades para não recuar ao desejo do analista.

Dificuldades que, ao meu ver, se acentuam muito no trabalho em hospital, pois os elementos que circunscrevem esta prática constituem demandas recorrentes para a promoção de saúde e “bem-estar”, comuns e pertinentes ao ideário médio, apropriadas, talvez, aos propósitos da Psicologia, mas inadequadas ao campo psicanalítico.

Refiro-me ao contexto institucional, partindo de seus objetivos e, consequentemente, refletindo no discurso predominante em toda a equipe de saúde, no qual o paciente é tratado como alguém, ou talvez seja mais adequado dizer algo, para o qual certamente se sabe o que é melhor.

Bem, e pela outra via, o paciente, na maioria das vezes já por sua estrutura, e ainda agravado pela condição de adoecimento, faz parceria neste jogo, se apresentando como este objeto, que entende que demandam, a ser cuidado, na espera de aquisição de saúde e bem-estar.

E o psicanalista, em sua função se posiciona desde o lugar da falta, pois não recuar ao desejo do analista significa suportar a própria castração. Assim, o analista, trabalhando com o conceito de transferência enquanto um fenômeno subjetivo e portanto concernente ao sujeito, estrutural e avesso às relações intersubjetivas, jamais contemplará qualquer tipo de “transmissão de bens”, ao contrário “ele sabe que deve oferecer um lugar vazio, que permite ao analisante articular seu desejo e não pretende poder oferecer o que falta ao outro” (Lebrun et al. 1994: 290).

Ainda temos que considerar que, na grande maioria das vezes, inversamente ao que ocorre no consultório, o analista vai até o paciente oferecer sua escuta, seja pela requisição de um terceiro, ou pela rotina de trabalho do primeiro.

Esta questão, sempre debatida nos colóquios e em alguns textos referentes à Psicanálise no hospital, via de regra evoca a formulação de Lacan de que “a oferta cria a demanda.“. Atualmente, escuto esta formulação não como uma resposta para o impasse citado, e sim como fonte de mais indagações.

Aliás, o mercado é regido por algo muito parecido, a ideia de que a oferta, a propaganda, gera uma “necessidade”. Mas sabemos que depende, e muito, de como e para quem a oferta é feita, e como o mercado não tem como contemplar as diferenças  individuais, aposta naquilo que considera funcionar para a maioria.

Bem, enfocar a individualidade, a particularidade de cada um, é o que há de fundamental, de precioso na escuta analítica, pois como nos coloca Lacan no encerramento do Seminário 11 (1998: 260): “O desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem, pela primeira vez, à posição de se assujeitar a ele“.

Mas se, para além de não oferecer respostas ou transmitir “bens”, o desejo do analista implica necessariamente em não demandar, me parece muito arriscado que no hospital, considerando os aspectos aqui já mencionados, a oferta acabe por produzir mais força na demanda de demanda que o circuito transferencial analítico contempla.

E esta demanda advinda de uma pessoa fisicamente debilitada, exalando sofrimento físico e muitas vezes estampado a figura da morte, não faz frigir o analista? E o óleo esquenta ainda mais com as convocações da equipe e da instituição para que se faça “alguma coisa”, demandas de eficácia e produtividade.

Sem desconsiderar, de forma alguma, a melhor suportabilidade da fritura por aqueles que estão em análise, e mais ainda por aqueles que nela já avançaram até o limite do possível, ainda assim entendo que nos deparamos aí com elementos significativos, no sentido do seu potencial para afetarem o narcisismo do analista, e portanto para estremecerem o desejo do analista.

Esta formulação tornou-se ainda mais consistente, quando ouvi alguns colegas psicanalistas ou em formação analítica que atuam em hospitais, identificarem uma maior “motivação” para o trabalho no momento em que se deparam com pacientes que enunciam uma demanda de cunho analítico, como se esse enunciado “tirasse” o analista do tacho.

E talvez, de maneira similar, seja alguma espécie de “conforto” que encontram os psicólogos quando, através de um posicionamento terapêutico, acreditam produzir algum tipo de “bem” para o paciente, amenizando os sentimentos de impotência favorecidos no contexto hospitalar.

Pelo que compreendi, a colocação inicialmente citada neste texto, apesar de indicar que de “somos feitos de substancia gozante“, e portando estamos sempre sujeitos à frigideira, refere-se a momentos particulares da clinica psicanalítica, nos quais o analista deve, e pode, suportar o calor e a dor da fritura, porque a despeito desta significar intensos ataques à aspectos importantes para a pessoa do analista, certamente não é como tal (pessoa) que ele aí está.

O que procurei desenvolver neste trabalho, é que no hospital estes momentos não são tão particulares assim, ao contrário, parecem ser extremamente freqüentes. Frequência tal que, por vezes, gere insuportabilidade da unção, a qual pode produzir alguns sintomas, como as referidas oscilações na qualidade do trabalho, desmotivação, paralisia, atuações humanitárias…

Sintomas que traduzem, portando, a impossibilidade da sustentação do desejo do analista, aquele que se mantém como enigma pelo fato de que nunca se satisfaz, e a conseqüente presentificação de uma demanda em seu lugar, aquela para a qual algo se torna objeto.

Lembro-me, auxiliada por meu caderninho de notas, que em uma de nossas reuniões de trabalho identificamos que levar um caso para supervisão é reinvestimento no desejo do analista, pelo reconhecimento da falta de saber.

Bem, hoje considero que minha inserção, pela primeira vez, em um cartel teve este mesmo significado, e que talvez esta se tenha dado, em grande parte, pelo calor excessivo do tacho.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

Trabalho desenvolvido junto ao Cartel sobre o Desejo do Analista e apresentado na Jornada de Cartéis da Biblioteca Freudiana de Curitiba em Novembro de 2001.

 

Referência Bibliográfica

LACAN J. O seminário – Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 270 p.

LEBRUNT, T., STRYCKMAN, N, BRUGGEN, B., &, C. VANDEVYVER. O conceito de transferência. In: Dorgeuille, C. & Chemama. Dicionário de Psicanálise – Freud & Lacan. Salvador: Ágalma, 1994. P 286 – 305.

Sublimação, Ato Criativo e Sujeito na Psicanálise

Para Isabela e Laura, que já me dedicaram
tantas das suas preciosas criações.

AGRADECIMENTOS

A despeito da solidão necessária nos momentos de estudo, reflexão e criação, uma tese não é produzida sem o auxílio e colaboração, direta e indireta, de muitas pessoas. Expresso minha profunda gratidão por todas elas e de forma particular:
ao Prof. Dr. Fernando Aguiar Brito de Souza, por sua efetiva contribuição para a realização desta tese e, sobretudo, pela postura sempre ética e respeitosa com que conduz o trabalho de orientação;
ao Prof. Dr. Kleber Prado Filho, à Prof. Dra. Mérite de Souza e ao Prof. Dr. Sérgio Scotti, pela participação e sugestões realizadas durante o exame de qualificação, momento crucial para o desenvolvimento desta tese;
ao Prof. Dr. André Gellis, ao Prof. Dr. Vinícius Darriba, à Prof. Dra. Mara Lago e ao Prof. Dr. Kleber Prado Filho, pela presença e contribuições realizadas durante a banca de defesa da tese;
à Prof. Dra. Mérite de Souza e ao Prof. Dr. Carlos Augusto Remor por aceitarem compor a banca examinadora de defesa como membros suplentes;
à psicanalista Angela Valore, por seu trabalho de todos esses anos, cujos efeitos estiveram presentes no percurso de pesquisa e podem ser lidos nas páginas desta tese;
ao meu marido e às minhas filhas, pelo carinho, incentivo e compreensão;
às minhas queridas irmãs, Denise e Dionete (in memorian), pelo amor que sempre me dedicaram;
aos meus pais, por tudo.

RESUMO

A tese, fruto de pesquisa teórica de orientação freudo-lacaniana, objetivou analisar os enlaces entre sublimação, ato criativo e sujeito e afirmar a presença do sujeito no ato criativo via sublimação. O método da releitura foi aplicado sobre os textos de Freud e Lacan que tratam dos conceitos em causa e as publicações de mesma orientação e tema semelhante. Partindo da noção de sujeito na psicanálise e de suas especificidades na contemporaneidade, fez-se uma retomada conceitual da sublimação em Freud e Lacan, seguida da discussão sobre o ato criativo. O percurso afirmou o sujeito na sublimação e no ato criativo, quando ocorre o afastamento do lugar de objeto e o reconhecimento e lide com o Real; quando o vazio da Coisa é contemplado. Considerou-se as possibilidades e os efeitos da sublimação nos dias de hoje, numa análise da relevância clínica do conceito de sublimação na contemporaneidade. Identificou-se uma aproximação entre o campo sublimatório e os efeitos do trabalho analítico. Sublimar não impede o adoecer e não tem compromisso com o aceitável, desejável ou elogiável socialmente, mas o valor da sublimação não pode ser negado, ainda mais em tempos tão funestos, quando reina a apatia e a dessubjetivação, quando o ato criativo sobrevive às minguas, à sombra de outras modalidades de ato, marcadas por condutas violentas, delirantes, transgressoras ou depressivas.
Palavras-chave: Sublimação; Ato criativo; Sujeito.

 

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Angústia e Sublimação

A sublimação afirma, em seu horizonte, a angústia. A Assertiva de Harari precede sua definição para a sublimação, estabelecida pelo seguinte par de aforismos: se “a angústia é a sem (-φ)”, a “sublimação é a não sem (-φ)” (Harari, 2001, p. 277). Tais formulações sugerem uma proximidade – ainda que demarquem uma essencial diferença – entre as duas condições, já que a angústia é afirmada pela sublimação e ambas contemplam em sua definição uma articulação entre o objeto a e a falta (-φ). Ainda, ao tomarmos a palavra horizonte em sua acepção mais comum – extensão ou espaço que a vista abrange ou extensão de uma ação – podemos ler que a sublimação afirma a angústia em toda a sua extensão, em todo o seu campo ou até onde se pode ver. Isso talvez estabeleça algo a mais que uma proximidade, quiçá, uma articulação entre as duas condições e nos remete ao trabalho de Lacan de resgatar a sublimação de importantes distorções que passaram a identificá-la a uma especie de “felicidade comportamental”, adaptada ao socialmente desejável. Sublimar não salva ninguém do sofrimento e do adoecimento, sublimar não impede ou anula a angústia, ao contrário, afirma-a.

Evoco também uma questão proposta por Cruglak (2001, p. 11), nos seguintes termos: “De que depende que um sujeito, frente à irrupção do Real, frente a contingências dramáticas da vida, produza um sintoma, uma criação, uma anorexia, uma adição, uma lesão ou outra manifestação no corpo?” Em minha interpretação, além de uma possível remissão ao clássico e cotidiano trânsito clinico entre a tríade inibição, sintoma e angústia, a pergunta de Cruglak faz uma alusão à sublimação, via ato criativo. Com esta alusão, a sublimação, em sua aproximação/vinculação da angústia, pode ser associada ao campo daquela tríade, campo das possíveis respostas do sujeito frente ao enigma do desejo do Outro.

Avalio que os aforismos/definições de Harari (2001) nos encaminham para a mesma direção apontada por Cruglak (2001) no desdobramento de sua questão: onde falta a castração imaginária, onde falta a falta, o a aparece e o sujeito se objetaliza à mercê do desejo do Outro: aí temos a angústia e a produção fenomênica. Entretanto, quando a castração pode ser preservada através de algum objeto, quando esse a, objeto criado, permite ao sujeito sua liberação da condição de objetalização, temos sublimação: lugar onde a falta não falta, exatamente por conta da criação de um objeto. Observo que a questão do sujeito, ou, o sujeito em questão interrogado em sua possibilidade de sê-lo, está presente nos dois casos. Ser ou não ser, eis a questão que tomo como central no que tange à proximidade/articulação entre angústia e sublimação.

Em conferência no Brasil, Michel Plon (2006, p.21) afirmou que o Seminário X, além do trabalho sobre o conceito de objeto a, foi um momento onde se implantou a “arquitetura lacaniana” de forma integral, começando, exatamente, “por esse ponto pivô que é sua concepção de sujeito”. Um sujeito que é determinado pelo significante que advém do campo do Outro e que só pode ser pela via de não sê-lo, por não sê-lo todo e por seu desejo ser o desejo do Outro. E é exatamente nos interstícios desta trama que envolve o sujeito e seu desejo, que é o desejo do Outro, que vemos angústia se desenhar.

A angústia, antes de tudo, afeta esse sujeito, provocando, assim, uma série de sensações que o alarmam. Alarme, sinal, temos aí outro atributo, ou talvez seja melhor dizer, função, da angústia. Sinal de um estremecimento da fronteira, da distância entre desejo e gozo, sinal de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995), sinal de que o sujeito está sob a ameaça do desaparecimento do seu desejo e, portanto, sob a ameaça de seu próprio desaparecimento.

Para além dos textos freudianos que teorizam sobre a angústia, Lacan (2005 /1962-63) prioriza O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas também como manifestação frente à falta da falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada, no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante. Assim, a angústia sinaliza a falha, a carência do apoio da falta para a existência do sujeito do desejo, evidenciando a certeza de uma posição perante o desejo do Outro em que há risco de devoração, de sobreposição do gozo do outro sobre o desejo. A angústia, portanto, não é sem objeto e é um afeto que não engana (Lacan, 2005/1962-63).

O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). O desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. perante o enigma do desejo do Outro, a angústia surge se o Outro não se apresentar como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo para ele. Todos estes elementos situam a angústia na ordem da estrutura, intimamente associada ao estatuto do sujeito, um fenômeno existencial, não sendo redutível a uma manifestação psicopatológica a ser simplesmente suprimida.

Também a sublimação está associada à ordem da estrutura e, como já enunciado, à questão do sujeito. Lacan (1997/1959-60) enfatiza a íntima articulação da sublimação com o campo pulsional. A sublimação se apresenta como a essência do funcionamento pulsional, pois é no circuito como desvio que se dá a satisfação pulsiona, e assim também o é com a sublimação que, por definição, se dá pelo desvio do alvo. A sublimação está no centro da economia libidinal, no âmago do funcionamento pulsional e, portanto, da constituição do sujeito.

Definida como um movimento capaz de elevar o objeto ao estatuto da CoisaI (Lacan, 1997/1959-60), a sublimação está vinculada à busca pela Coisa, associada aos primórdios da organização subjetiva onde as afirmações primeiras do que é bom se confirmam com a expulsão e negação do ruim. Com o vínculo ao vazio da Coisa, a sublimação é anterior a todo recalque e independente dos ditames do eu e da vontade, demonstrando a não assimilação deste conceito a ideias adaptativos e normativos, ou ao desejável socialmente. Além do mais, nesse distanciamento do eu é possível vislumbrar a presença do sujeito, marcado pela falta e sob a égide do inconsciente, avesso ao funcionamento da consciência e da razão. Ao mesmo tempo, a articulação da sublimação à pulsão, sua localização nos primórdios da organização e estruturação do psiquismo e, enfim, sua ligação com a Coisa, marcada pelo que está de fora do campo representacional, vinculam-na ao Real e à repetição.

Sabemos ser no momento de corte, da separação e queda do lugar de objeto que a identificação alienante é interrompida, viabilizando a inscrição pulsional, instaurando a falta e permitindo o desejo; em outras palavras, com o corte, tempo da separação, vemos surgir o sujeito. Lacan (2008 [1966-67]) articula o conceito de repetição ao corte, à separação e queda do lugar de objeto: respondendo ao mecanismo estruturante de busca pelo reencontro do objeto perdido, a repetição repete um fracasso que atesta, reafirma o impossível do gozo da Coisa. Então, na instalação da pulsão também se inaugura a repetição, ambas atreladas à constituição do psiquismo e do sujeito e à infindável busca de reencontro do objeto miticamente perdido, do reencontro da Coisa.

Me atenho também ao fato de Lacan (2008/1966-67),  em A Lógica do Fantasma, afirmar, de forma direta e clara, que a sublimação tem como sua estrutura fundamental a repetição – aquela que se inaugura com o corte e a constituição do Real pela exclusão de um resto pulsional não simbolizável. Para chegar nesta formulação Lacan (2008/1966-67, p. 209) parte da proposta de um vínculo da repetição com a passagem ao ato, que considera um “modo privilegiado e exemplar de instauração do sujeito”, confirmando a implicação de um sujeito nisso que em psicanálise denomina-se ato.

A definição de ato dada por Lacan (2008 [1966-67]) é composta pelos seguintes termos: o ato é significante, significante que se repete, mesmo que apenas em ações; o ato é a instauração do sujeito, através do ato o sujeito surge como efeito do corte, embora ele não se reconheça aí como tal. Estas formulações possibilitam a apreensão do que a passagem ao ato e o acting-out – duas modalidades de ato – comportam a repetição, clarificando o vínculo proposto entre esses dois conceitos de ato e repetição. O que está em questão é a repetição diferencial da ordem do Real, que impulsiona a insistência dos significantes na cadeia, fruto do corte, da separação que também permite o surgimento do sujeito. Afinal, a passagem ao ato  e o acting-out fazem corte, ou melhor, reeditam o corte fundador da repetição, uma vez que põem em cena o que escapou à simbolização e reafirmam a existência de um sujeito que, frente a angústia, rechaça a alienação ao Outro e busca presentificar a falta.

Por sua vez, o ato criativo presentifica a marca fundamental do sujeito, marca traduzida como o vazio, onde o Real pode ganhar forma na sublimação. E ainda, a sublimação libera o sujeito do aprisionamento neurótico do lugar de falo para o Outro: a obra, fruto do ato criativo, exerce a função de falo e permite assim a saída do lugar de objeto e o conseqüente advento do sujeito na sublimação. Situada na ordem de um gozo suplementar, a sublimação transcende o gozo fálico e possibilita o desprendimento do sujeito do lugar de falo para o Outro. Para tanto, é necessária a possibilidade de prescindir do significante do Nome do Pai para que um novo significante possa advir em seu lugar, dando vez e voz ao ato criativo. Obviamente, não há como prescindir de algo que não se tem, e para poder transcender este significante, para poder ir além desde Nome na produção de novos significantes, é preciso saber, ao menos em alguma medida, que o ato de criação não o anulará, que prescindir desde Nome não significa destruí-lo. Ao contrário, é operar fora de seus domínios, mas, em virtude de seus efeitos e corroborando a sua função de assunção subjetiva.

A sublimação é um caminho com o qual o sujeito pode dispor do vazio, ou seja, presentificar o vazio que o constitui através do ato criativo, talvez num desvio da inibição, do sintoma, da angústia, e, portanto, do acting-out e da passagem do ato. Desviar de algo, implica reconhecê-lo, afirmando a sua existência: a sublimação afirma, em seu horizonte, a angústia. Retomo o ponto onde vislumbrei a sublimação associada ao campo das respostas frente o desejo do Outro e remeto-me ao grafo do desejo, lembando que a angústia está localizada no topo, logo abaixo da fantasia, ou seja, é uma das últimas respostas protetoras frente ao desejo do Outro. Então, arrisco hipotetizar a presença da sublimação no grafo, próxima à angústia, acima do sintoma e da inibição, uma vez que ela implica em movimento, em ato de criação, de forma independente do recalque e permite ao sujeito distanciar-se de sua identificação fálica na medida em que a obra ocupa o lugar do que se era para o Outro (Pommier, 1990) assim, quando um objeto pode elevar-se à Coisa, o sujeito se liberta, mesmo que temporariamente, das vias de oferenda de seu corpo ao desejo do Outro.

Ainda, se pensarmos no nó borromeu, a angústia se localiza na zona de invasão do Real sobre o Imaginário, e a sublimação é, exatamente, a possibilidade de imaginarizar o Real. De poder fazer com o Real, elevando um objeto à dignidade da Coisa através do suporte do Imaginário. E não é também uma questão de dignidade o que entra em cena com a angústia? Não temos aí um sujeito, afetado, alarmado, lutando para manter a sua dignidade?

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241p.

CRUGLAK, Clara. Clínica da identificação. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001. 154p.

FREUD, S. O Estranho [1917]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? InRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p. 11-21. p. 58-66.

HARARI, R. O Seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Oficios, 1997. 241 p.

LACAN, J. A lógica do fantasma [1966-67]. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, publicação não comercial, 2008. 4540 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 366 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise [1959-60]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. 196 p.

LEBRUN, Jean-Pierre. Um mundo sem limite: ensaio para uma clínica psicanalítica do social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004. 218 p.

POMMIER, Gerard. O desenlace de uma análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. 217 p.

Um analista?

Proponho trabalharmos da forma como trabalha um analista, buscando ouvir os desdobramentos possíveis a partir da enunciação do nosso tema de hoje:

Um analista?

Considero que primeiro podemos ouvir esta questão como a busca de uma definição: Um analista, o que é isso? Ou ainda, para que serve?

Também é possível ouvir esta interrogação como constitutiva de uma dúvida: Um analista? Isso é possível? Isso existe?

Sugiro ainda a possibilidade de nos atermos no artigo indefinido utilizado, que pode nos levar a: singularidade, particularidade, um e não qualquer outro, um e não todos, não uma categoria; mas pode também sugerir unidade, integridade, existência ontológica, remetendo a ideia de ser analista, da concretude desta condição e até mesmo de totalidade, um que forma um todo. E, nas duas vertentes, se a frase é interrogativa, abre-se a possibilidade de resposta afirmativa ou negativa, ou seja, afirmando ou negando a referida singularidade, o status de categoria e/ou a condição ontológica.

Digam se ouvem nesta formulação algo mais.

Na verdade, estes três desdobramentos se articulam. Vejamos como, partindo da primeira forma de ouvir: o que é um analista? Comecemos pelo que não é: não é uma profissão, não é uma ocupação, não é uma condição, muito menos um dom.

Diz-se que é uma função.

E aí podemos escutar pelo lado daquilo que se exerce, de um lugar que se ocupa ou que se sustenta. Então não se é analista (e aí a condição ontológica já é negada), se está analista, faz-se analista.
Bem, mas dizemos que somos psicanalistas, nos apresentamos assim. Tudo bem, não há mal em dizê-lo em nosso cotidiano, mas estamos falando daquilo que se passa na transferência, na situação analítica, ali um analista não é. Aliás, esta é uma formulação de Lacan: a única maneira de ser analista é não sê-lo. E que maluquice é essa? Antes responder esta maluquice, vamos agregar mais uma.

A partir desta palavra função, evocamos a matemática e dizemos: o analista é uma função matemática.
Vocês se lembram do que é uma função matemática? O essencial desta definição, que é comum a qualquer um dos tipos de função matemática, é a existência de uma relação entre duas grandezas, entre duas variáveis. Assim, se muda a variável independente, x, muda também a variável dependente, y. Só há função se esta relação existir, se y se mantém constante a despeito da variação de x, não há função. Vejam se definimos o analista como uma função, ele não é per se, ele está, ele se faz na dependência da existência de relação entre duas variáveis, a saber, o desejo do analista e a demanda de análise, ou seja, na dependência da transferência.

Juntando uma maluquice com a outra, “ser não sendo” significa o reconhecimento da não ontologia, não há analista por si mesmo, a sustentação deste lugar se dá na cena analítica, na transferência e na dependência do operador fundamental que é o desejo do analista.

Encaminhando as coisas desta maneira, o analista não existe (não há um ser aí) e também não forma uma categoria; mas embora não seja um ser singular, podemos afirmar a particularização desta função a cada vez que ela ocorra. Neste sentido o analista é sempre um com cada um dos seus analisantes.
Desta forma podemos também dizer que um analista está sempre em produção, nunca pronto, nunca terminado, nunca uma totalidade acabada.
Faço ainda uma última observação sobre a difícil tarefa de sustentar este lugar, um lugar de não ser, e aí também na direção já sabida por todos vocês: de dessubjetivação, de estar num lugar de falta de vazio, de semblante de objeto causa do desejo.

Evidentemente esta não é uma situação confortável, ausentar-se da condição de sujeito não é tarefa rotineira, não é nada fácil deixar de lado nossas convicções, pensamentos, afetos.
Gosto muito de uma observação feita por Isidoro Vegh em uma conferência, dizendo que o analista está em sua poltrona como que fritando, numa frigideira todo o tempo, queimando. Ninguém frita sem sentir dor, é dolorosa a posição do analista e para suportá-la, no sentido mesmo de sustentá-la, é necessário lançarmos mãos de dois dispositivos fundamentais: a análise pessoal e a instituição analítica.

Lacan afirmou que um analista se autoriza de si mesmo e por alguns outros. Como vimos, a produção de um analista é interminável e, embora a análise pessoal seja fundamental, ela não é suficiente.
O final de uma análise, que sabemos produzir um analista, nos permite suportar ser colocado na posição de a sem ser afetado por isso, pois sabemos que o desejo aí implicado não é nosso, não se refere a nós. Depois, a instituição ajuda a dar continuidade nesta interminável produção e é um espaço onde podemos dar provas de nosso saber e onde o reconhecimento dos pares ajuda a nos reconhecermos, facilitando a sustentação deste difícil lugar.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

Trabalho apresentado no Fórum da ALPL – 25/03/2013

Um Ato Analítico, Um Analista

De início, sobre o título deste trabalho, alguém poderia indagar: você não se equivocou na ordem das coisas? Não seria o inverso, um analista, um ato analítico? Afinal, não é necessário haver analista para que o ato se produza?

E na sequência, ainda sobre o título, nova objeção poderia ser feita ao artigo um utilizado, artigo este que, embora se classifique como indefinido, pode comportar paradoxalmente duas idéias distintas. Uma delas aponta para certa singularidade ou particularidade do ato e do analista, um e não qualquer outro, um e não todos, não uma categoria. A outra, ao contrário, pode sugerir para ambos os termos implicados a possibilidade de integridade, existência ontológica, concretude, totalidade ou universalização: um todo.

Respondo aos meus interlocutores imaginários que graças à inevitável equivocidade da linguagem realmente todas estas observações ou objeções procedem, mas apesar de terem lá a sua verdade não tornam inoperante meu tema e, portante, não invalidam outras possíveis articulações que procuro traçar neste texto.

No que concerne ao analista já sabemos não se tratar de uma profissão, ocupação, condição ou dom. Então, como pergunta Lacan no Seminário “O ato analítico”, logo no início da lição de 13 de março de 68: o que é ser psicanalista?

Algumas respostas possíveis: ser analista é, com sua presença, suportar fazer semblante do objeto que convém a cada analisante até o momento final de cair desta posição a fazer o luto desta perda. É reconhecer que a análise é apenas um dispositivo temporário, uma pretensa situação, e que o que se passa ali, incluindo o analista, é fruto do mesmo. Ou ainda: ser analista é trabalhar na direção de não sê-lo, é sustentar um lugar na transferência para sair dele. É saber que não se é analista (e aí a condição ontológica é negada), se está analista, faz-se analista na e pela transferência.

Diz-se também que o psicanalista se define como uma função matemática, ou seja, pela existência de uma relação entre duas grandezas ou entre duas variáveis. Numa função matemática, a mudança na variável independente x, deve produzir alteração também constante a despeito da variação de x, não há função.

Desta forma, se definimos o analista como uma função matemática, ele não é per se, ele está, ele se faz na dependência da existência de relação entre duas variáveis, a saber, o desejo do analista e a demanda de análise, ou seja, mais uma vez, na dependência da transferência.

Concluiu-se que o analista não participa de uma categoria ou classe, a profissão analista, e também não existe como entidade ou identidade acabada, não é um ser singular. Entretanto, penso que a função analista e efetiva, e, assim, se particulariza, a cada vez, a cada ato analítico.

Desta maneira, retornando ao artigo do título, o analista como função é sempre um, no sentido único, com cada um de seus analisantes ou, ainda, um a cada uma das sessões com cada um dos seus analisantes ou mais, um a cada um de seus atos em cada uma das sessões com cada um de seus analisantes. Neste ponto proponho uma leitura deste um em referência à forma como Lacan trabalha o traço unário no seminário IX, A Identificação.

O traço unário surge do apagamento do objeto, marcando a divisão do sujeito pela linguagem, o distanciamento do objeto e a pura diferença. O traço é significante de uma ausência que se presentifica a cada volta da repetição, onde Lacan localiza a origem do inconsciente e do desejo. Trata-se da marca primeira de surgimento do sujeito a partir do significante, todo significante tem o traço como suporte. Assim, o Um, do traço unário, é fundamento da diferença e não da unificação imaginária. Um como diferença, como ausência e como surgimento do significante. Assim também, um ato analítico, um analista, ambos como diferença e não unificação ou totalidade; como ausência, evanescentes e não ontológicos e, também, como produtos e produtores de significantes.

Com Lacan, nos desdobramentos de sua afirmação de que o ato é do analista e a tarefa é do analisante, encontramos as idéias de que o ato analítico instrumenta a tarefa ou habilita a marcha do analisante; que o ato só se confirma como tal a posteriori e que há ato analítico quando algo de novo pode começar. Assim, a intervenção do analista só será sancionada como ato se for eficaz em habilitar a tarefa do analisante e se, com ela, algo de novo puder começar.

Entendo que nesta articulação entre ato e tarefa, algo novo começa dos dois lados.

Do lado do analisante, trata-se da possibilidade de ler e de reescrever algum ponto de sua história de maneira alternativa às versões anteriores para poder fazer com os velhos traços o começo de um novo desenho, com os velhos movimentos, novos passos para uma nova coreografia. Passagem do eu não penso da alienação para o eu não sou, não sou o objeto que sustenta, faz suporte para o gozo do Outro.

Do lado do analista, a abertura ao novo deve ser condição de cada encontro, pois ele nada sabe antecipadamente sobre seu analisante, nem sobre o que será o percurso daquela análise e, tão pouco, qual será o seu fim. Assim, se há analista há sempre um novo começando a cada analisante, a cada sessão, a cada ato.

Mais uma vez retorno ao título do trabalho e agora peço que considerem o artigo um como indicador da abertura de uma série comportando ato e analista, um como o primeiro de outros que se seguem. Assim, poderíamos escrever: um ato analítico, um analista, um ato analítico, um analista… A partir desta série, um analista seguiu a um ato e precedeu a outro ou um analista esteve entre dois atos. Assim como o efeito de sujeito pode se produzir entre dois significantes, a função analista pode operar entre dois atos. Assim como o efeito de sujeito pode se produzir entre dois significantes, a função analista pode operar entre dois atos.

É verdade, se há analista pode haver ato, mas só com a confirmação do ato na tarefa do analisante é que se afirma ter havido analista. Por efeito de retroação, sabe-se ter havido, ou não, ato analítico e analista.

A produção de um analista é mesmo tarefa impossível, impossível de ser finalizada por completo e também por isso Lacan afirma que começamos a ser psicanalistas no final de uma análise. Mais uma vez, há ato (agora, final, do final de uma análise) onde algo novo começa (um analista).

Observem: o final de uma análise é só o começo. Certamente a nossa análise (ou análises) é condição fundamental para a passagem a analista, para a sustentação desta função. mas é só o começo e um começo muito particular, pois não pressupõe um fim. Para nós analistas, o ditado perde seu valor: nem tudo que começa, termina, ao menos não definitivamente.

Esta condição costuma provocar angústia, em especial aos habituados ao âmbito universitário e que inicia, um percurso com a psicanálise. Afinal, a vida escolar tem começo, meio e fim e com ele adquirimos títulos, diplomas, garantias. Já um analista que acompanha Lacan sabe que só os tolos esperam garantias. Mas este mesmo analista também sabe que o desconforto da ausência de garantias torna-se suportável através de uma análise que possa produzir a derrocada do Outro, libertando-o dos efeitos inibitórios destas ilusórias garantias e habilitando-o a fazer ali com.

Com isto não digo que a função analista se dê confortavelmente, sem dificuldades ou impasses. Muito pelo contrário, sustentar este lugar tem um custo pessoal significativo: pagamos com nosso ser, dele devemos abdicar, é o primeiro luto que o analista deve fazer para sustentar sua função através do desejo do analista. E depois, ao final de cada percurso analítico, novo luto do analista, agora da própria função, da pretensa situação instalada pela transferência, do lugar de semblante de causa de desejo sustentado.

Frente a estas e muitas outras dificuldades que a prática me apresenta, relembro e me amparo em algumas palavras de Lacan no seminário sobre a transferência: “Não sejamos demasiados otimistas, nem demasiados orgulhosos de nós mesmos, mas digamos ainda assim que vocês tiveram, todos quantos são, uma pequena preocupação quanto ao limite do deserto… Trata-se daquilo que está no coração da resposta que o analista deve dar para dar conta do poder da transferência. Essa posição, eu a distingo dizendo que no próprio lugar que é o seu, o analista deve se ausentar de todo ideal de analista” (p. 469).

Sem certezas e garantias, reconhecendo os limites e distante de um ideal, mas com o desejo de produzir algumas respostas, não todas e nem definitivas, dedico este texto à memória de uma ex-analisante cuja transferência foi suspensa, mas, infelizmente, não pode ser terminada. Restou para mim o trabalho de luto da função analista de uma forma mais difícil e dolorosa do que de costume e, também por isso, sigo trabalhando, compartilhando com vocês minhas letras e buscando abrir a cada momento em minha clínica, novas séries: um ato analítico, um analista, um ato analítico, um analista…

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan
Membro da ALPL
zeilatorezan@associacaolivrepsanalise.com.br

 

Referência Bibliográfica

Lacan, J. O ato psicanalítico. Porto Alegre: Escola de Estudos Freudianos, 2010.

Lacanm J. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Lacan, J. O seminário, livro 9: a identificação. Recife: CEF, 2003,

O Nome Que Cada Um Faz

Lacan apresenta, neste seminário 23, o Sinthoma como um elemento a mais, além dos três sobre o qual vinha trabalhando até então, a saber: o Real, o Simbólico e o Imaginário. Assim, o Sinthoma é um quarto elemento e é considerado neste seminário como necessário para um bom enlace destas três dimensões, RSI, da nossa existência. Mais um, para além dos três, que se diferencia dos demais e auxilia no enlace e limites destas três dimensões. Faço aqui uma pequena aproximação, guardadas as devidas diferenças, entre a função do Sinthoma e a função mais um no Cartel: auxiliar no enlace dos membros em sua tarefa, favorecendo os limites deste laço transferencial e o combate à cristalização das identificações e dos fenômenos de liderança.

É muito interessante como a partir desta estrutura do Cartel que lhes apresentei, cada membro se singulariza neste processo de trabalho em grupo: o recorte do tema, a autoria e o estilo de cada um aí se produz. E para mim, neste momento de trabalho, o seminário O Sinthoma é marcado e me marca exatamente por questões referentes à singularidade, ao estilo, à autoria, ao nome que cada um faz e com o qual pode fazer sua existência. Entendo este como um dos eixos que Lacan trabalha neste seminário, ele utiliza a expressão fazer-se um nome a partir de uma leitura da escrita, da obra de Joyce, apostando que seu nome como escritor teve um papel fundamental em sua vida, papel de Sinthoma. A sua escrita, que parece almejar a criação de uma nova língua, teria feito para Joyce suplência de uma nomeação paterna talvez mais insuficiente do que a desejada. Joyce, escritor, fez-se um nome.

Acredito que Lacan não pretendeu construir o caso Joyce, bem que ele gostaria, lamenta não ter analisado Joyce, que, aliás, pelo que dizem, era crítico e avesso à psicanálise. Entendo que Lacan quiz aprender e criar com Joyce e sua escrita. Entendo que Lacan se interessou pela posição inventiva de Joyce frente à língua, por seu trabalho com a transliteraração e com a homofonia, pela forma como ele introduz na escrita um sem sentido ou um para além do sentido convencional ou gramatical da língua. Acho que se interessou por estas invenções de Joyce porque elas se aproximam muito de uma série de coisas muito importantes para a nossa clínica que foram criadas por Lacan.

Assim como Joyce, Lacan fala de uma nova língua, propõe que somos habitados por e nos ocupamos na clínica de uma nova língua, que denomina lalangue, e de um discurso sem palavras, ambos distantes do sentido e da estrutura da língua que aprendemos e intencionados usar em nossas sempre falhas tentativas de comunicação. Um outro interesse que acredito que Lacan teve no trabalho de Joyce foi a maneira como ele lida com o tempo. Não há uma simples linearidade no texto de Joyce, ele rompe com a cronologia e impõe uma lógica, uma lógica de associações e derivações centradas antes no próprio texto e não em uma razão ou em memórias. E é também com um tempo lógico e não cronológico que trabalhamos, não é o passado ou a memória que nos causa dificuldades, mas sim o Real e a detenção em tempos que não podem passar. Ainda considero que a construção da hipótese de que Joyce fez-se um nome através de sua escrita, de sua obra, tem para Lacan um valor comparativo com a sua proposta de que uma psicanálise também pode produzir esta função, nos dois sentidos que a expressão comporta: nomear-se e tornar-se um nome, fazer ser a partir deste nome.

Quando o título do meu trabalho se precipitou, quando a nomeação do meu texto se impôs para mim, imediatamente lembrei de uma situação que vou lhes contar. Ministrava na faculdade uma disciplina sobre toxicomanias e convidei profissionais de uma série de instituições de tratamento de toxicômanos para falarem de seus trabalhos. Uma destas instituições enviou para a apresentação além do psicólogo, um ex-paciente que se tornou funcionário deste local. Ele foi contando sobre a avalanches de perda sem sua vida em função das drogas, com destaque para a mulher que ele muito amava e como, a partir do tratamento, lutou para reconquistá-la. Com veemência, ele afirmou que as reconquistas se deram a partir do momento em que ele pode ter um nome e proclamou com emoção: “agora eu tenho um nome, eu tenho um nome!” E vejam que interessante, ele não fez nenhuma referência ao seu nome próprio.

Muitas vezes encontramos os saberes da psicanálise explicitados de forma lógica e simples, com a simplicidade que toda lógica porta, em frases de nossos analisantes ou em cenas como esta. Este rapaz estava dizendo que pode fazer-se uma nomeação, que algo lhe permitiu fazer um nome, um nome que lhe faltava, embora ele tivera sido batizado e registrado quando nasceu. Ele pode fazer um nome e com isso fazer coisas que antes não conseguia: trabalhar, amar, ter planos e objetivos.

Fazer-se um nome, saber fazer ali com, ser artesão de si mesmo, uma língua que se cria, um inconsciente que se inventa, são expressões que Lacan usa no período de trabalho no qual o seminário 23 foi proferido e nas quais os verbos se destacam:fazer, saber fazer, criar, inventar. Verbos que falam de uma atividade que considero fantástica e fundamental para nós psicanalistas. Mais do que ser envolvido e sofrer os efeitos da linguagem, fazemos com ela e com seus efeitos ao longo de nossas vidas e na nossa clínica. Uma psicanálise não é uma filosofia, ela deve implicar movimento e transformação. Este é um ponto importante quando Lacan passa a falar de um inconsciente real e não mais simbólico. Não se trata mais de produzir sentido, de compreender, mas de fazer parada em algo que insiste através do saber fazer com seu sintoma, da produção de novos gozos menos adoentados ou sofridos.

O nosso sujeito, o sujeito da psicanálise, está subposto a uma estrutura produzida pelo atravessamento e efeitos da linguagem no humano, efeitos em três dimensões, RSI, as quais operam na existência de forma articulada. Na medida em que são tomadas em conjunto, enlaçadas, cada dimensão se articula, se refere e faz limite em relação às outras. Estar subposto é estar debaixo desta estrutura e isto implica suportá-la, o sujeito é este que suporta, que carrega os efeitos do Real, do Simbólico e do Imaginário. Embora a estrutura seja una, RSI, pois estas dimensões formam e operam em cadeia, elas não são tomadas isoladamente, isto está longe de significar estabilidade e homogeneidade. A estrutura comporta movimento e mudança e contempla, sempre, a possibilidade de uma gama diferenciada de repostas do sujeito, respostas que denominamos de clínicas: inibições, sintomas, angústia, fenômenos elementares, fenômenos psicossomáticos. Todas estas manifestações podem ser lidas na escritura da cadeia borromeana, são respostas frente aos efeitos, aos movimentos, às invasões dos limites nesta cadeia de três dimensões que é a nossa existência.

Se vocês acompanham esta lógica, fica evidente que há para todos nós a possibilidade de produção das mais variadas respostas clínicas, sintomas não são exclusividade do grupo neuroses, assim como delírios e alucinações não são privilégio das psicoses e também as transgressões não são marca registrada das perversões. Bem, sempre soubemos disso, na medida que desde Freud não nos pautamos numa clínica fenomenológica. A diferença é que estas possibilidades de respostas variadas se tornam, nesta leitura que lhes apresento, um fato de estrutura e não mais uma montagem ou traços de um tipo clínico no outro. Com a expressão “um fato de estrutura”, quero indicar que a variabilidade de respostas está comportada na lógica, na escritura da cadeia borromeana pensada como estrutura. Assim, um sujeito pode estar psicótico e não sê-lo, pode neurotizar sua vida e não precisamos dizer que ele é neurótico, pode fazer muitas perversidades para consigo e os outros e não ser perverso. E mais, ele pode fazer tudo isto ao mesmo tempo: ter uma vida excessivamente regrada e ritualizada nos moldes obsessivos, o que não o impede de ter gozos perversos de várias formas ou de acreditar ser paranóicamente perseguido ou vigiado.

A tripartição freudiana se fundamenta na lógica edípica da castração, na fundação de um sujeito a partir da castração. Nesta outra lógica proposta por Lacan,em especial a partir da cadeia borromeana, o sujeito é parlêtre, é a perda estrutural de gozo introduzida pela linguagem e seus efeitos que nos caracteriza como sujeitos efunda a estrutura. Desta forma, a lógica edípica da castração deixa de ser o fundamentopara um diagnóstico, para uma classificação de acordo com a tripartição freudiana e adquire valor de leitura a respeito dos tempos do sujeito, tempos necessários de renovação de perdas de gozo, tempos de trabalho para o sujeito transformar a perdaestrutural de sua condição de parlêtre em falta, tempos que viabilizem um arranjo suficiente entre RSI, um enlace suficiente entre amor, desejo e gozo.

Que os arranjos e enlaces sejam suficientes, não significa que sejam absolutamente eficientes, ou seja, perfeitos. A estrutura é sempre falha, o sofrimento cotidiano na clínica e fora dela nos comprova este fato de estrutura. Como já vimos,uma psicanálise pode produzir formas menos sofridas de existir, pode viabilizar a criação de um saber fazer de outro modo, e, assim, diminuir os efeitos desta estrutura sempre falha. Nesta direção e acompanhando Lacan neste Seminário 23, fazer- se um nome é uma maneira de lidar com esta estrutura sempre falha na busca de rearranjos e enlaces que permitam mais tranquilidade, menos paralisia, mais criação, menos gozo podre. O nome que cada um faz e com o qual assina a autoria da obra que é a sua existência, o nome que cada um faz pode ter valor de Sinthoma. E, para tanto, não precisamos ser Joyce, escritor. Podemos ser, por exemplo, psicanalistas. Particularmente, acho este um nome muito interessante de fazer-se.

“Dígitos diminutos revelam-se tilintantes demais para frangalhonas frascárias. Anne escracha, flo escarrapacha – pode-se embora censurá-las?”

“Rochedo com abacaxi, limão cristalizado, amanteigado escocês. Uma garota açucarbesuntada padejando conchadas de creme para um irmão leigo. Alguma vaquinha escolar. Mau para os seus bandulhos. Fabricante de pastilhas e confeitos de Sua Majestade o Rei. Deus. Salve. Nosso. Sentado em seu trono, chupando jujubas vermelhas até o branco.”

“sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ela me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele para baixo de mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse eu quero Sims.”

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan
Membro da ALPL
zeilatorezan@associacaolivrepsicanalise.com.br

Sexo, Sexualidade e Sexuação

A partir da tríade amor, desejo e gozo sobre a qual trabalhamos neste ano na ALPL, elegi como título do texto de conclusão de cartel uma nova tríade: sexo, sexualidade e sexuação. Pretendo fazer um breve percurso sobre cada uma das tríades a fim de produzir uma articulação entre ambas, focando na importância dessa relação para o processo de sexuação. Ao longo do estudo do seminário 20, destacou-se para mim a proposição de Lacan sobre o que ele denomina sexuação. Tal interesse foi ganhando corpo em função de questões encontradas na prática clínica, em especial nos mais variados impasses frente às posições de homem e de mulher. Por fim, o recorte mais preciso da temática e a escolha do título se deram a partir de uma interlocução com a psicanalista argentina Alba Flesler.

AMOR, DESEJO E GOZO

Quando, seguindo Lacan, localizamos amor, desejo e gozo na cadeia borromeana, fica estabelecido que eles sofrem os efeitos das propriedades desta estrutura. Com a cadeia borromeana, real, simbólico e imaginário passam a ter o mesmo valor e operam de forma enlaçada e de maneira que essas dimensões fazem limites entre si. Portanto, ao situarmos a tríade em questão nessa estrutura borromeana, está proposto pensar amor, desejo e gozo também de forma enlaçada; não considerar uma hierarquia ou ordem valorativa entre eles e também reconhecer que cada um desses campos faz limite, faz borda aos demais. Com a cadeia borromeana, sabemos que quando uma dimensão não se delimita bem em relação à outra, temos excessos, invasões de um registro sobre o outro e, consequentemente, as nossas conhecidas manifestações clínicas. Seguindo a mesma lógica operatória, uma vez que amor, desejo e gozo estão localizados na estrutura borromeana, podemos ter falhas na delimitação de seus campos com a produção de excessos e invasões que ocasionem efeitos, digamos, de um certo descompasso ou um maior desarranjo entre os três campos, com consequências desagradáveis e complicadas. Vejamos alguns exemplos.

Certa vez uma mulher disse com toda a sinceridade e sem metáforas que havia pensado em congelar seu bebê, pois não sabia como fazê-lo parar de chorar. Era atormentada pelo medo de que a criança morresse e alternava tempos de cuidados maciços e excessivos com esquecimentos e descuidos. Poucos anos depois a criança morreu com um diagnóstico impreciso. O apetite devorador do gozo em cena dirigido à criança não pode ser freado pelo amor e/ou pelo desejo.

Não é raro ouvir jovens dizerem-se sem gosto por nada, muitas vezes deslizam metonimicamente da uma escolha de curso a outra, de um ficante a outro, de um estilo a outro, de uma droga a outra. Outras vezes, talvez para se defenderem da corrida desenfreada do desejo, sofrem de intensa inibição e apatia. Seus pais, ainda que amorosos e liberais (talvez permissivos), são tidos por esses jovenzinhos como distantes e não interessados por eles. Façam o que fizerem, acreditam não haver satisfação por parte dos pais, parece não haver quantum de gozo ou de amor suficientes para enlaçar o desejo de forma a refreá-lo.

Meu filho é tudo para mim; foi sempre tudo muito: muito amor, muita proteção; sempre foi uma criança frágil; eu só tenho minha filha na vida…
Essas e outras frases estão, com frequência, na fala de mães de crianças e adolescentes, nem sempre no sentido cronológico do termo, às vezes no sentido lógico também. Não é raro receber telefonemas de mães de jovens adultos para agendar horário para eles, momento em que falam algumas frases como as citadas. Uma delas chegou a ir pessoalmente ao meu consultório, para me conhecer, antes que o filho de mais de 20 anos fosse se consultar. Tudo isso por amor. Muito amor, só por amor. Sabemos como o amor como um fim em si mesmo é mortífero. Em geral, estes jovens se apresentam tímidos, desnorteados, dependentes, um tanto deprimidos e inibidos, atormentados com a sexualidade e incapazes de realizar escolhas e tomar decisões.

Feita a leitura sobre a primeira tríade, passo a alguns comentários sobre a segunda, e seguindo a indicação que Alba Flesler me deu na referida interlocução, destaco a importância de diferenciarmos e, ao mesmo tempo, relacionarmos sexo, sexualidade e sexuação. Sim, é necessário considerar os três termos e mesmo a relação entre eles, o conceito de sexuação estabelecido por Lacan não nega a existência, a importância e os efeitos do sexo e da sexualidade. E, na medida em que delineamos as diferenças e a relações entre tais termos, nos deparamos com a importância do enlace de amor, desejo e gozo no casal parental e em suas funções materna e paterna para o processo da sexuação.

O SEXO

O sexo é biológico, não há como desconhecer que nascemos portadores de um sexo anatômico, que mesmo não sendo o destino, não é sem consequências em nossa existência. As expectativas dos pais para o nascimento de uma criança certamente incluem o imaginário sobre seu sexo anatômico e junto com ele há uma série definições pré-estabelecidas por serem associadas àquele sexo: o nome próprio, as roupas, acessórios, brinquedos, cores e decoração do quarto, os comportamentos e desenvolvimento esperados(meninas são mais calmas, delicadas e afetuosas, os meninos mais agitados, arteiros e independentes; as meninas falam e andam mais cedo; meninos gostam de matemática e as meninas de português). Portanto, não é tão simples quando todo esse imaginário é construído para um sexo e é o outro que aparece no exame de ultrassom ou na nascimento da criança. Era uma vez um casal que esperava o nascimento de seu primogênito, nasceu uma menina que recebeu o nome de Sidiney. Ela tornou-se freira e adotou um nome feminino, nome de uma santa pouco conhecida e que em sua origem latina significa gozo, prazer, júbilo. Insisto, o sexo com o qual nascemos, o sexo biológico não é para nós o destino, ele não sela ou define uma posição de homem ou de mulher, mas está implicado no processo de produção dessas posições.

A SEXUALIDADE

Portanto, não sendo o sexo o destino, a sexualidade não é determinada pelas gônadas sexuais. A sexualidade vai se imprimindo num corpo que porta um sexo e é tomado pelo Outro como objeto de amor, de desejo e de gozo. Trata-se da erotização do Outro sobre esse corpo que porta um sexo. À medida que a criança é tomada alternativamente como tampão e como causa da falta no Outro, o tempo pode passar para que ela chegue ao que Freud chama de primeiro despertar sexual, quando é necessário que caia o véu da inteireza materna, um tempo provocador de angústia pelo abalo do imaginário de ser o falo da mamãe, e tempo prévio à possibilidade de não mais ser o falo, mas de poder tê-lo.

Mais à frente, é necessário haver por parte dos pais o reconhecimento e a autorização para crescer e se apropriar de um saber sobre seu sexo e sobre a sexualidade. No denominado segundo despertar sexual, o real do sexo e da diferença sexual é colocado em cena novamente, se deparar com o outro e seu corpo é agora um fato concreto, nem sempre fácil de abordar. Assim, esse tempo se caracteriza como um novo momento de angústia, agora também frente à sexuação, à redistribuição dos gozos, inclusive para que haja o enlace entre amor, desejo e gozo e ao encontro com o outro.

Havia uma mocinha muito curiosa e fascinada pelo funcionamento do corpo (o cérebro, os genes, os hormônios), e seu corpo correspondia a esse interesse de forma dolorosa: cólicas menstruais excessivas, dores de estômago, insônia, alergias e manchas na pele. Um dia, ela me perguntou: “você que é psicanalista, me diga, a sexualidade é assim tão importante nas nossas vidas?” Na verdade ela não demonstrava dúvidas quanto a isso, o difícil estava em como responder à importância da sexualidade e da sexuação.

Observo que o corpo portador de um sexo torna-se também um corpo da sexualidade e pode haver aí um desencontro entre o esperado para o sexo anatômico, os chamados da sexualidade e a posição sexuada. De qualquer forma, a sexualidade não é sem o sexo e ambos estão implicados na sexuação.

A SEXUAÇÃO

Dizer que a sexuação é um fato de discurso e não é determinada pelo sexo anatômico, mas não é sem a sexualidade, indica a implicação e a importância desta última na sexuação e, portanto, nos remete ao operador fálico como central nesta concepção. Sobre esse ponto destaco um posicionamento de Alba Flesler (2010). Com uma prática clínica extensa com crianças e adolescentes, a autora atribui relevância ao desejo entre o casal parental e seus efeitos sobre o sujeito. Não é sem consequências para as funções materna e paterna o que se passa entre a mulher e o homem, ou seja, entre o casal parental.

Nesta direção, não é vã a afirmação de Lacan: um pai merece amor e respeito quando toma sua mulher no lugar de causa de seu desejo. Assim, ele pode exercer sua função de nominação e colocar as coisas em seus devidos lugares: nomeia-se como pai, nomeia aquela como sua mulher e a criança como seu filho. Para que os tempos passem, a criança cresça, a função fálica e a falta se inscrevam é necessário que os pais possam relançar suas apostas e contribuir para que novas perdas de gozo se dêem. Para nós, parlêtres, não há ganhos sem perdas. E esse jogo do quem perde, ganha, está atrelado ao lugar que a criança ocupa para os pais, à maneira como ela é tomada pelo amor, pelo desejo e pelo gozo dos pais e também pelos efeitos do enlace de amor, desejo e gozo no casal.

Acima observei que o operador fálico é central ao conceito de sexuação, pois bem, na leitura de Lacan, dizer-se homem ou mulher indica a existência de duas diferentes modalidades de gozo a partir da lógica fálica. A sexuação trata, portanto, de uma divisão entre os seres falantes em relação a dois modos de gozo e não em relação ao sexo anatômico. Lacan (1985) reune suas elaborações acerca da diferença entre homem e mulher em fórmulas matematizadas, conhecidas como as fórmulas quânticas da sexuação.

Fórmulas Quânticas da Sexuação Conforme Lacan

A leitura desse quadro e suas fórmulas indica que do lado homem para todos se cumprem a função fálica, mas isso só pode ocorrer porque existe ao menos um que escapou a ela, ao menos um diz não à castração, a exceção faz a regra e permite o fechamento do conjunto. Por sua vez, do lado mulher não há exceção que possa fazer regra ou conjunto. Toda mulher está submetida à lógica fálica e como não há uma que escape, essa lógica não funciona por completo, a mulher está “não-toda” na lógica fálica. Então, a lógica fálica não recobre totalmente o que é ser mulher, como recobre o que é ser homem. Isso permite que deste lado se vá mais além da lógica fálica, num mais-além do gozo fálico. Desse lado não há conjunto que se feche e não todo do sujeito está submetido à lógica fálica, todo sujeito, porém, não todo de cada sujeito. Aqui nos deparamos com o aforismo a mulher não existe, no sentido de que não existe um significante que a diga, que a defina por inteiro, e não há um conjunto das mulheres.

Enfatizo como a função fálica é central à sexuação, o falo simbólico introduz a lógica da incompletude, possibilitando haver também um gozo além do fálico. E como vimos acima, para que a inscrição fálica se dê, para que a falta opere, há todo um processo de sexualização do vivente que depende, entre outras coisas, de como a criança é tomada pelos pais no enlace de amor, desejo e gozo. A sexuação se associa à nossa condição fundamental de parlêtre, e por sermos seres de fala não há mais uma relação direta e completa com as coisas, o atravessamento da linguagem produz um rombo, um buraco estrutural em nossa existência. Mas, para que esse buraco estrutural seja elevado ao estatuto de falta, e o desejo possa advir, as funções de antecipação materna e de nominação paterna são fundamentais. Retomo e ressalto a importância da nominação nesse processo, é através da nominação que o pai interdita o gozo incestuoso afim de que novos gozos possam ser autorizados, inclusive aquele que tange à sexualidade e à autorização de uma posição sexuada.

O conceito de sexuação também permite concluir que não há para nós relação, proporção, no sentido lógico do termo entre os sexos. Não há acoplamento, não há adequação, não há encaixe perfeito entre os sexos de forma a produzir a anulação de dois e, portanto, da diferença. Então, duas posições sexuadas, dois modos de gozo: o gozo fálico do lado do homem e o mais além do gozo fálico do lado da mulher. Mas para chegarmos aí e podermos nos autorizar homem ou mulher, é necessário que sejamos tomados alternadamente no lugar de gozo e de significação fálica (e, para tanto, amor e desejo devem estar presentes), é necessário o enlace de amor, de desejo e de gozo para que de um sexo se chegue à sexuação, através da sexualidade.

Autora: Zeila Torezan

 

Referência Bibliográfica

Flesler, Alba. El niño en análisis y el lugar de los padres. Buenos Aires: Paidós, 2010.

Lacan, Jacques. O Seminário: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.