Angústia e desejo de Freud a Lacan

ANGÚSTIA E DESEJO DE FREUD A LACAN

Angústia, em alemão ”Angst”, embora possa ter outros sentidos, é uma tradução que pode reportar-se ao medo. No viés que delineia o conceito de Angústia em Freud (1916-1917), refere-se a um afeto com reações corporais ou a sensações indefinidas, como um incômodo, por exemplo. O afeto que Freud refere não tem a ver com o sentimento de emoção; por outro lado essa sensação indefinida ou estranha se liga a um fenômeno oriundo do campo psíquico, sendo uma excitação que se refere à energia que investe o psiquismo.
Em 1926, Freud atribuiu angústia a uma energia psíquica, uma excitação, que se liga a uma representação para marcar um funcionamento no psiquismo do sujeito, compondo um representante da pulsão que o sujeito recalca. Esse representante é utilizado como um mecanismo de defesa atribuído a um caráter econômico. E o recalque faz menção a uma representação inconciliável, por exemplo, uma alergia ou um distúrbio respiratório. Freud (1926) ainda atribuiu a fobia como veiculada a um segundo objeto, cuja alusão (cavalo) é enlaçada ao medo, visto no caso do pequeno Hans, um estudo a acerca da neurose de angústia, atendido por Freud em 1909. Freud discute, inclusive, sobre a repetição como fixações que determinam os retornos do recalcado na cadeia pulsional como conteúdo a ser elaborado e que sempre reaparece nos sonhos, nos chistes, atos falhos, entre outros. Mais tarde, em 1933, Freud define que é o ego que recalca para evitar a representação daquilo que o sujeito não consegue lidar por ser assunto ainda intratável. E o afeto que fica fora do campo representacional e que não é nomeado equivale a uma angústia sem representação no corpo.
Sobre o arcabouço da construção teórica desenvolvida por Freud acerca da angústia no sujeito, assim como seus mecanismos de defesa, Lacan (1962- 1963/2005) retoma a teoria freudiana e salienta que as defesas não são construídas para barrar a angústia, mas diz respeito à resposta a algo que ela destina, ao que ele nomeia como signo no seminário “desejo do Outro”; é o que ocorre com a perda do limite do sujeito e faz menção a um vazio que não tem borda, a partir de algo que o captura e o aliena, embora tenha seu aspecto fenomênico, uma vez que se articula com o real, mas também não é sem objeto. Em relação ao termo ‘’objeto’’ me refiro ‘’objeto de desejo’’. Esse tal objeto não existe, uma vez que a pulsão não tem objeto definido, mas articula-
se entre a significação fálica, a falta de objeto e o tamponamento da falta. Pretendo desenvolver um pouco mais à frente deste texto sobre esses últimos conceitos, no intuito de discorrer um pouco mais sobre a angústia, o conceito em questão. Ocorre que, em 1974-1975, Lacan se distancia mais ainda de Freud e conceitua que angústia é invasão do real no imaginário bem como um desejo insabido, ou seja, a falta constituinte que se reporta à estrutura do sujeito articulando o desejo ao campo do gozo, bordejando o gozo do Outro na baila dos significantes e do enodamento borromeano na via daquilo que está no eixo da inibição, do sintoma e da angústia.
Essas saídas do sujeito no processo de castração vão designar três modos de exercer a função de nome-do-pai, dando a ele um nome por meio dos seguintes processos: privação, frustração e castração. Como resultantes, a inibição e o sintoma fazem menção à elaboração do sujeito diante da angústia de castração, dando também ao sujeito um lugar no mundo enquanto significante, de onde se sustenta no gozo através de uma nomeação do real realizada pelo imaginário e pelo simbólico. Por isso, ocorre uma estabilização dos fenômenos para o sujeito instituído, embora o sujeito faça sintoma como mecanismo de defesa.
Ainda ao que refere a angústia, Lacan em (1962-1963/2005), no primeiro capítulo de ‘’o seminário’’, livro 10, diz que a “estrutura da angústia faz menção à fantasia, por assim dizer, a mesma coisa, já que a angústia é invasão do real no imaginário”. Pode ocorrer que a angústia faça sintoma, por exemplo: xerostomia (boca seca), tremores, entre outros. Mas se o sintoma é definido como a invasão do simbólico no real, resultando da bricolagem do significante com o real, no caso da angústia o real presente no sintoma faz referência à satisfação pulsional, que, de maneira indireta, implica o corpo, uma vez que o significante organiza a forma de satisfação pulsional; logo, a falta que aparece no campo do desejo é o que o gozo pretende eliminar, ou seja, impede o sujeito de alcançar o objeto de satisfação. Por exemplo, é comum que o sujeito partilhe com o analista sua vontade de eliminar o sintoma que sustenta seu gozo no “impedimento’’, em contradição com o desejo de se manter impedido.
De acordo com Lacan seminário 10 (1962-1963/2005), “estar impedido é um sintoma (…)”, logo o impedimento que é suscitado no sujeito se liga a uma armadilha, na qual ele se vê embaraçado, ou melhor dizendo, capturado pela imagem especular – falo instituído pelo Outro – assim como dividido entre aquilo que concerne à captura

narcísica, a partir do investimento libidinal e o objeto de desejo, ao qual o sujeito se vê impedido à medida que se aproxima do objeto em questão em decorrência da angústia.
Voltando ao trecho do texto “tal objeto não existe, uma vez que a pulsão não tem objeto, mas articula-se entre a significação fálica, a falta de objeto e o tamponamento da falta” a fim de desenvolver um pouco mais, começo com a significação fálica e sua proximidade com a angústia a partir do exemplo que se segue para explicar de modo mais prático ao que pretendo abordar. Inicio discorrendo sobre a resposta a uma demanda, em que o sujeito se impõe em responder ao que se liga à sustentação fantasmagórica a partir do olhar do Outro e o seu real desejo que ainda está na via do Outro. Por exemplo, um sujeito que responde na posição de um significante negativo (ⱷ – falta mãe), ou seja, não sendo para o Outro o que se espera dele. Entretanto, o sujeito sustenta esse lugar mesmo que de modo conflitante, ao mesmo tempo em que ele faz de tudo para manter-se em tal lugar – gozo – articulado com o desejo do Outro. O impedimento pode aparecer quando o sujeito não consegue sustentar um projeto a partir da escolha de um objeto de desejo como objeto de satisfação. Pode ocorrer que o sujeito ainda não se desembaraçou e insiste em tamponar a falta pela via do desejo do Outro, uma condição em que se faz um nó – um empuxo como impedimento. Não há completude, mas aceitar a falta e buscar os mecanismos necessários para lidar com a angústia por meio de uma mudança subjetiva.
Não faltam casos clínicos para exemplificar, a começar por um discurso quase corriqueiro, principalmente em casos de adolescentes, assim como é possivel também em adultos, com esse enunciado: “eu não consigo fazer nada direito; gostaria muito de ter minha independência, mas sempre fracasso em qualquer coisa que resolvo fazer; eu não aguento mais, eu odeio quando minha mãe fica me cobrando”. Enunciação: “estou impedido de sair desse lugar de fracassado”, por outro lado, eu sou bem sucedido ao manter o significante “fracasso”, uma vez que o preço é alto, mas é desse lugar que me reconheço, tenho medo de saber que nada sou; ‘’fracassado é o lugar em que me sustento como o filho que sou, conferido por minha mãe” – desejo do Outro. Essa rachadura, a separação recalcada entre o Outro e o sujeito e o desejo do sujeito que ainda baila no desejo do Outro – sou ou não sou o falo? – surge como algo estranho nomeado como angústia por ser sentido pelo sujeito como algo inominável, uma vez que é impossivel ser para o Outro. Por outro lado, ‘’não ser’’, a partir do momento que começa tocar no significante da falta, provoca sensação de despedaçamento, ou seja, uma

angústia terrivel experimentanda pelo sujeito no processo de castração ou na queda do objeto.
Ainda sobre o significante ‘’falo’’ que contorna a problemática do ‘’eu ideal’’ ou ‘’ideal de eu’’, entra em jogo nessa lógica ⱷ+ falta a falta; ⱷ – falta mãe, veiculada ao desejo do Outro no ponto em que se faz um enigma. Esse ponto é justamente aquilo faz nó sintomático que ao mesmo tempo que encobre a sisão, revelando o que é ser um significante para outro significante, numa lógica em que a questão do falo para o sujeito, em um processo de análise, passa pelo predicado daquilo que é impossivel prever, pois quem sabe o insabido é o “sujeito suposto saber”, a saber, um equivoco possivel de vir a tona por meio da associação livre.
No seminário 20 “mais ainda”, Lacan (1972-1973 /2008) afirma que, frente ao impossível da relação sexual o sujeito só poderá contar com o falo pela via do imprevisto, ou seja, não se sabe o que vem do inconsciente e o que está na via de seu desejo, por isso a resistência; o que nos leva a pensar que no nível da incerteza do falo aborda-se o ponto chave, o ponto em que se anuncia o “objeto a” como sujeito causa do desejo e o que “não há como saber”, levando o sujeito lidar ou se haver com o imprevisto, um real que não se sabe, por exemplo o COVID 19. Não dá para prever também o modo singular de apreensão do real, o que também é gerador de angústia – o que no final de análise constitui-se como tratamento do “objeto a” e da angústia como algo que ficou paralizado, assim como a impossibilidade da relação sexual, ou seja, a completude, além das implicações enodadas com a privação tida como irreversível antes do sujeito iniciar um tratamento analítico – assim como um encontro amoroso, o que não implica ser vivido apenas pela via do pensamento. Nesse ponto, um processo de análise balizada pela transferência, bem como outros dispositivos para condução do tratamento, concordo com o que nos presenteia a Zeila em seu texto quando diz da acolhida e o cuidado que se impõe ao analista tratar um paciente em meio a uma crise de angústia. Não se trata de responder demandas, mas conduzir com uma delicadeza capaz de medir aquilo que o sujeito pode suportar durante o processo analítico. Achei pertinente os exemplos trazidos de Lacan, nos quais ele se colocou afetivamente, entre outros feitos com mestria. São medidas necessárias para trabalhar e lidar com a contigência que também suscita do lado do analista: “como lidar com a angústia diante do imprevisto da resistência de um processo analítico?”

“Contingência é aquilo que se resume o que submete a relação sexual a ser, para o ser falante, apenas o regime do encontro. Só como contingência é para a psicanálise, o falo, reservado nos tempos antigos aos mistérios, parou de não se inscrever. Nada mais”. (Lacan, 1977- 1978/1985 pág. 127).
Ao final de análise, enuncio que a contingência é o entendimento, a apreenção da incerteza daquilo que não há como saber vivenciando um real, na mais pura aceitação do que não se controla, de onde ressoa um sujeito que, ao mesmo tempo que tem ciência de sua impotência, se fortalece sustentado em si mesmo em meio a impossibilidade de tal controle, o que, paradoxalmente, se ampara diante da angústia provocada pela falta, ao mesmo tempo que faz laço de confiança em algo que não se sabe advindo do próprio sujeito.
Agradeço aos colegas esperando frutificar algumas discussões acerca do que eu não lembrei de mencionar.

FREUD, S. (1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
______ (1926) “Inibições, sintomas e angústia”, v.XX.
______ (1914) “Sobre o narcisismo: uma introdução”. v.XIV.
______ (1923) “Organização genital infantil”. v.XIX.
LACAN, J, (1962-1963/2005) O Seminário livro 10, A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1953-1954/1996) O Seminário livro 1, Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1977-1978/1985) O Seminário livro 2, O Eu na teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1972-1973/2008) O Seminário livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
LIMA, Mônica Assunção Costa. O sujeito da experiência psicanalítica entre o contingente e o necessário. Ágora (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 295-310, dez. 2002.

Apontamentos a partir do texto: “A angústia e desejo de Freud a Lacan”
Zeila Torezan

Se a vida fosse a mesma de antes, estaríamos reunidos no auditório de costume, teríamos ouvido a apresentação da Fátima (e não lido seu texto) e a minha intervenção seria feita a partir da fala dela, na função de debatedora. Mesmo a vida não sendo mais a mesma, me propus a ler e tentar trabalhar em parceria com ela de alguma forma, sempre com o desejo de seguirmos com o trabalho da ALPL. Como por esta via dos textos escritos, que escolhemos por ora, fica inviável um verdadeiro debate, logo não exerço aqui a função de debatedora, opto por escrever a respeito de alguns pontos abordados ou indicados no trabalho da Fátima. Agradeço à ela pelo texto e enfatizo a minha escolha: não vou comentar diretamento o texto (pelo fato de que não podemos dialogar por aqui), mas produzir algo a partir do que o trabalho dela me suscitou. Em função da proposta da Fátima de abordar a angústia e o desejo num percurso histórico, vou desenvolver meus apontamentos, procurando acompanhar e, se possível, ampliar um pouco o que o texto dela nos traz em duas vias que se entrelaçam: a relevância e particularidade clínica da angústia nos dias de hoje e a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito.
Paradoxalmente, vivemos um tempo difícil e promissor para a psicanálise. Sabemos que esta dicotomia não é nova, desde o seu início a clínica psicanalítica sabe ser eficaz no tratamento do sofrimento humano, mas enfrenta uma série de dificuldades, impasses e questionamentos. Entretanto, os percalços advindos de uma posição subjetiva onde a busca por um saber inconsciente é sobrepujada por uma demanda de gozo que a cultura propõe como necessário (Besset, 2002), produz impasses bem específicos e, arrisco dizer, maiores do que aqueles presentes desde o nascimento da Psicanálise e atrelados a uma ordem social regida pela presença de uma forte instância terceira, da repressão, do sofrimento e da culpabilidade neurótica. Um cenário árido e favorecedor, dentre outras coisas, da presença da angústia e das diferentes formas de atuações nas clínicas das toxicomanias, dos transtornos alimentares, da psicossomática, do pânico, das fobias e das melancolizações. Mas também, promissor, por, mais uma vez, a psicanálise trabalhar para buscar formas de lidar com a dor e o sofrimento humanos, e mostrar-se capaz de renovação teórica e técnica.
Não podemos esquecer também de toda a carga de anestesia psíquica e anulação subjetiva que a indústria farmacêutica pode, alegremente, nos proporcionar e ainda a presença da solidão e do enfraquecimento dos laços sociais, pretensamente substituídos pela comunicação virtual. Bem, mais do que nunca, com a pandemia e o isolamento dos corpos essas questões se intensificam. Chego a pensar se este mundo virtual em que agora fomos todos, em alguma medida, forçosamente mergulhados não tem potencial para se equiparar ou mesmo subrepujar as drogas farmacêuticas. Sem negar as inúmeras vantagens que essa via nos proporciona, ainda mais nos dias de hoje, não podemos fechar os olhos para os males que também comporta. E tais malefícios se aproximam daqueles das medicações: anestesia, entorpecimento, sedação intelectual, alegria virtual (e não química) de um mundo e de relações imaginários. Sim, recortes imaginários são necessários, hoje nos ajudam a quebrar o isolamento também, mas nos mantermos conectados não é estarmos próximos. Não podemos tomar uma coisa pela outra. Vocês poderiam dizer que estar geograficamente perto também não é, necessariamente, sinônimo de proximidade. Correto, mas não há nesse último caso a força, a amplitude, o poder e mesmo a sedução imaginários que o virtual comporta.
Avançar na discussão a respeito da clínica da angústia na contemporaneidade exige, como nos propôs a Fátima, a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito. Faço, então, alguns comentários a esse respeito, reforçando alguns pontos já tratados no texto da colega e ampliando alguns outros.
A obra freudiana apresenta duas teses sobre a angústia: na primeira, o recalque é postulado como produtor de angústia; na segunda, a angústia é anterior ao recalque e produz o mesmo. A construção da primeira teoria sobre a angústia está associada à diferenciação entre as
neuroses atuais e as psiconeuroses. As neuroses atuais, em especial a neurose de angústia, se caracterizam por um quantum de excitação sexual sem mediação simbólica e vivenciada diretamente no corpo sob a forma de angústia e, portanto, fora do recalque. Dito de outra forma, a angústia nas neuroses atuais é vista por Freud como uma energia livre decorrente da tensão física e sua ausência de intermediação psíquica. Com essa leitura sobre as psiconeuroses, temos a libidinização da tensão sexual, extrapolando a condição física desta tensão para o psiquismo. Freud considera os sintomas como indicadores de um excesso de libido e coloca a ideia de transformação deste excesso também em angústia. Tal excesso é vivenciado pelo eu como um perigo pulsional e estaria na base das psiconeuroses, pois frente a tal perigo o recalque atua como defesa. Com o recalque ocorre a separação entre ideia (representante representação) e afeto, sendo a angústia um dos possíveis destinos para o afeto (na condição de afeto livre). Portanto, temos a primeira tese sobre a angústia, marcada por um caráter econômico em que a angústia é um resultado, uma manifestação subjetiva de uma quantidade de energia não dominada, um produto do recalque e já está associada a um caráter defensivo. Este caráter defensivo é, nesse momento, enfatizado por Freud através da articulação da angústia a uma espécie de disposição preparatória para o perigo, pois à medida que o eu retira a libido dos representantes psíquicos, ele produz um nível de angústia suportável afim de que o eu não seja dominado pela angústia paralisante.
Com os elementos da segunda tópica e, em especial da segunda teoria pulsional, Freud (1996/1926) agrega à compreensão da angústia como libido transformada pelo efeito do recalque a ideia de uma angústia originária, associada ao trauma do nascimento, à imaturidade e dependência do humano, e, portanto, anterior ao recalque. Assim temos a segunda tese freudiana sobre a angústia, de caráter dinâmico, onde o recalque não causa a angústia pois ela está presente desde o início e por temê-la o eu recalca o que se apresenta como ameaçador por, de alguma forma, remeter à angústia originária (Giles, 2007). Freud avalia que a imaturidade e dependência absolutas do bebê propiciam uma vivência de desamparo e de perigo de aniquilamento que é traumática por não ser representada psiquicamente, sendo, portanto, angustiante. Toda vez que algo remeter a isto que é da ordem do trauma o eu se prepara para uma vivência angustiante. Assim, a angústia como sinal põe em evidência a angústia como defesa do eu, reação a um perigo inespecífico para impedir que um pânico desordenado se apodere do sujeito (Kaufmann, 1996).
Para Lacan, a angústia resguarda as condições de afeto e de sinal, não de um perigo interno ou externo, mas sim de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995). Lacan (2005/1962-63) prioriza, em Freud, O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas também como manifestação frente à falta da falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada. Assim, a angústia não é mais atribuída à falta, à perda do objeto, ao contrário, se presentifica no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante, ou seja, na possibilidade da falta vir a faltar. Nesta direção, Lacan (2005/1962-63) afirma ser a angustia não sem objeto e, ainda, ser um afeto que não engana. É necessário especificar que o objeto em questão, objeto a, é aquele definido como causa do desejo, aquele que precisa faltar para que o sujeito possa desejar. Produzido como resto no circuito pulsional, o objeto a é o que escapa à libidinização e à simbolização. A angústia é produzida se esse objeto não faltar e alguma coisa se presentificar em seu lugar, anulando a possibilidade do desejo. Assim a angústia não é sinal da falta, mas sim do fracasso desta última que é para o sujeito condição indispensável para sua existência desejante (Chemama, 1995). Desta forma, o que está em questão na angústia não é a dúvida, mas sim a certeza, por isso ser o afeto que não engana, de uma posição perante o desejo do Outro em que se corra o risco de devoração, onde o gozo do Outro se sobreponha ao desejo. O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). Nesta direção, sabemos que o desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. Assim, perante o enigma do desejo do Outro, que na verdade nada quer de mim, a angústia surge se o Outro não se apresentar e permanecer como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo, para ele.

Com estes fundamentos teóricos, não nos parece difícil interpretar as manifestações clínicas tão comuns em nossos dias pela via das patologias do ato (toxicomanias, pânico, bulimia e anorexia, melancolizações…), recursos frente à angústia e à inibição, como efeito da presença de um Outro pouco faltante ou marcado mais pela falta imaginária do que pela falta simbólica. Posicionamento bastante condizente com o discurso social reinante de um imperativo necessário de ascensão a um gozo sem limites. Dessa maneira, nos deparamos com sujeitos tão apáticos, pouco desejantes, e também muito suscetíveis à melancolização e à angústia por uma falha, vacilação, naquilo que diz respeito a estrutura da falta e à possibilidade de ser a, causa do desejo para o Outro e não objeto de desejo do Outro. No que concerne à condução clínica, Lacan afirma a angústia como necessária, fiando-se nos ensinamentos freudianos da angústia como sinal de alarme que possibilite ao eu o acionamento de defesas que impeçam o transbordamento da angústia de forma paralisante. Assim, ela também pode servir como sinal na análise dos limites entre desejo e o gozo, como indicador do quanto a estrutura do fantasma garante, para esse sujeito, o seu lugar no desejo. Em certa medida, parece-nos que a angústia neste nível de sinal tem fracassado em nossos dias, assim como o sintoma já não se apresenta mais tão clara e frequentemente: em geral se apresentam sob o signo da apatia alienante ou da angústia paralisante. Neste contexto, certamente devemos nos haver com especificidades na condução clínica que implicam, de começo, dificuldades e maior tempo no estabelecimento transferencial e na fundação da demanda de análise. Manobras que viabilizem a saída da angústia paralisante e/ou da inibição não pela via do ato, mas da palavra, certamente necessitam que o desejo do analista possa se sustentar de forma eficaz, inclusive naquilo que diz respeito à prática da vacilação calculada. Parece interessante que para lidarmos com aquilo que é exatamente da ordem de uma vacilação na estrutura, recorramos a um outro campo também de vacilação, e que tenhamos constatado que esta última pode comportar atos de criação e subjetivação e não de fracasso e destituição, na renovação necessária da psicanálise e sua clínica.
Referências
BESSET, V. L. A clínica da Angústia. São Paulo: Editora Escuta, 2002. 216p.
CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241p.
FREUD, S. O Estranho [1917]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GILES, C. Sobre o conceito de angústia em Freud. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p.11-21.
GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p.11-21. p.58-66.
KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 784p.
LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 366p.

Segurar pela mão, para não deixar cair

No evento de abertura dos trabalhos da ALPL deste ano, Edinei iniciou com uma leitura
sobre os caminhos, os motivos de nosso grupo ter eleito o tema da angústia como eixo de
2020, o que para mim foi muito interessante, pois, não pude estar presente na reunião de
definição do tema. Se me recordo, razoavelmente bem, ele identificou que a partir de uma
certa prevalência no grupo para o estudo do conceito de gozo ou para o trabalho com os
registros e a cadeia borromeana (RSI), ambos a partir de questões suscitadas pelo tema
do ano anterior (corpo e sintoma), a angústia emergiu como uma possibilidade de
contemplar os dois campos de estudo e, claro, como uma via interessante para a reflexão
e discussão de inumeráveis questões clínicas. Questões clínicas, seja no tocante à
estrutura do sujeito, às manifestações clínicas, às posições subjetivas, ao manejo
transferencial ou às articulações e efeitos do nosso tempo sobre o sujeito e a prática
clínica. Questões que, na realidade, nos ocupam sempre, todo o tempo, ainda que com
enfoques diferentes, seja lá qual for a temática conceitual em foco.
Bem, menos de um mês após estarmos todos juntos no referido evento, ouvindo e
dialogando, o Real encarnado na pandemia, que já se impunha ao redor do mundo, não
só bateu forte em nossa porta, ele a arrombou e entrou com tudo, sem pedir licença, como,
aliás, lhe é de costume. Assim, lamentavelmente, o tema da angústia se contextualizou,
ainda mais, num para além das motivações de nosso grupo e ganhou força, atualidade e
adequação também maiores, inquestionáveis e prementes. Neste momento, não há como
não nos debruçarmos sobre essa temática e todas as suas possíveis articulações. Inclusive,
a temática do corpo estudada no ano passado e já base para a escolha do tema atual se
atualiza e potencializa para o trabalho nesse momento onde vivemos um isolamento
global dos corpos, momento paradoxal em que o corpo escancaradamente frágil é também
um potencial disseminador da morte. Nos isolamos para não morrer e para não matar.
Como isso pode não angustiar alguém?

1 Texto produzido para ser apresentado e debatido no Fórum da ALPL de 30/03/20 (o que não ocorreu
dado as medidas sanitárias na pandemia)
Ironia do destino? Acaso? Premonição? Recorrer ao imaginário e fazer uso dessas ou de
outras tantas explicações, não apenas para um suposto “acerto” na escolha antecipada do
tema, mas também para produzir algum sentido à loucura que estamos vivendo, faz parte
e é mesmo necessário para lidarmos com o sempre avassalador Real. Necessário, mas,
não suficiente. Para além de uma cobertura imaginária, a psicanálise nos convida a algo
mais. O convite é para lermos a nossa ex-istência como marcada por uma perda originária
e estrutural introduzida pela linguagem e, inexoravelmente, sofrendo os efeitos das três
dimensões: real, simbólico e imaginário. Dessa forma, a psicanálise demarca uma
diferença, tanto do ser, da criatura heterônoma fruto da religião, quanto do homem da
ciência, orgânico e autônomo, capaz de dominar o universo. Assim, nasce o conceito de
sujeito, marcado pela castração na origem, submetido aos efeitos das três dimensões que
passam a operar em sua ex-sistência mas, também, sempre responsável por sua posição.
Vejam, é um convite que, paradoxalmente, não nos poupa, eticamente, da angústia, pois,
responder por nossa posição também convoca angústia.
Resumindo, a angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito. Edinei
trabalhou sobre isso em sua intervenção, retomando o quadro da divisão do sujeito e nos
indicando que dois conceitos ganham centralidade no Seminário 10 (Lacan, 2005),
através do trabalho com a angústia: o objeto a como causa do desejo e o desejo do Outro.
Infelizmente, não estava presente na apresentação da Marina, inaugurando o Seminário
de Fundamentos deste ano, mas imagino que ela também deva ter tratado disso para
desdobrar o aforisma tema do encontro: “a angústia não é sem objeto”. Quero ainda
sublinhar e mais à frente comentar um pouco mais, a expressão citada por Edinei na
conferência inaugural, a partir do trabalho com o quadro apresentado no Seminário 10,
onde Lacan (2005) situa inibição, sintoma e angústia e suas articulações: a angústia está
no horizonte do trabalho analítico.
Muito bem, a angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito e assim se
articula ao objeto a e ao desejo do Outro (não se reduzindo, portanto, ao campo
fenomênico) e, ainda, está no horizonte da clínica psicanalítica. Mas, como vocês sabem,
a angústia também é um afeto e como tal é experimentado, vivido na experiência e,
portanto, é um conceito que mesmo não se reduzindo ao campo fenomênico, comunga
com ele. Aliás, é um afeto experimentado a qualquer tempo ou lugar, a angústia não
espera a análise para se manifestar como fenômeno na experiência, embora esteja no
horizonte do tratamento e possa surgir como fruto do trabalho. Muitas vezes, inclusive, é
esse afeto que leva alguém à análise e, nesses casos, ele está no início de uma psicanálise
e não apenas em seu horizonte. E, mais, não é um afeto qualquer, equiparável a outros, é
um afeto que ganha com Lacan um estatuto singular pelo fato de ser o único que não
engana o eu (diferentemente dos demais, como, por exemplo, o amor ou a culpa), não
engana o eu por ser um sinal do encontro com o real e a única tradução subjetiva (afeto)
do objeto a. “O que é buscado é, no Outro, a resposta à queda essencial do sujeito em sua
miséria suprema, e essa resposta é a angústia” (Lacan, 2005, p.182 – 6/3/63), expressão
fortíssima associando a angústia à essa experiência do encontro com o desejo do Outro e
também ao encontro com o objeto a sem as vestimentas do fantasma, angústia como a
tradução subjetiva (afeto) desse encontro.
Entretanto, embora a angústia possa ser vivenciada fora do dispositivo analítico, digamos,
na cena do mundo e não apenas da cena analítica, digo que como analistas nos ocupamos
prioritariamente daquela produzida em intensão e que se faz presente na estrutura e pela
estrutura (horizonte) do trabalho analítico. O que não invalida, de forma alguma, a
possibilidade e o interesse no trabalho, na investigação da angústia em extensão, ou seja,
na cena do mundo. Por exemplo: a angústia que estamos vivendo agora com a pandemia
nos mais diversos sentidos (isolamento dos corpos, medo da morte, consequências
econômicas e sociais), a angústia junto aos fenômenos socias e políticos (violência
urbana, governança, catástrofes naturais), a angústia frente à criação (inibição ao escrever,
criação artística). Um trabalho da psicanálise em extensão pode e deve se ocupar de
produzir uma leitura, de produzir teoria, de produzir um discurso que dialogue com
outros, a respeito da angústia atrelada e experimentada nessas circunstâncias. Até porque,
a cena analítica não está isolada e protegida da cena do mundo. Não vivemos numa bolha.
A cena do mundo chega à cena analítica junto com nossos analisantes e também conosco,
analistas. É o que eu enfatizava a pouco a respeito da atualização e potencialização de
questões também clínicas sobre o tema da angústia na pandemia.
Mas, acredito ser de extrema importância diferenciarmos e demarcarmos essas duas
instâncias (a intensão e a extensão) e avalio que a intensão ganha uma dimensão
prioritária para quem se dedica a conduzir análises. Não se trata de uma gradação de
importância, de uma valoração da intensão contra a extensão. Trata-se, apenas, de
responsabilidade, de ética, pois, uma vez abraçada a posição de analista, uma vez que as
portas de nossos consultórios estão abertas, entendo ser nosso dever a disponibilidade ao
trabalho. Para mim, disponibilidade ao trabalho clínico significa a máxima dedicação às
demandas que acolho, à escuta e, portanto, à atenção e investigação de todos os elementos
presentes na transferência e na direção da cura. E isso dá muito, muito trabalho e consome
muito tempo e energia. Como uma das marcas inexoráveis de uma análise é o óbvio fato
de que não dá para abraçar o mundo, escolhas precisam ser feitas. Assim, entendo que a
angústia que comunga com o dispositivo analítico, aquela que participa da estrutura do
dispositivo e que também é vivida na experiência do sujeito em análise como afeto, é
prioritária para o analista. Então, vamos à ela, à angústia em intensão, mais
especificamente, procurando desenvolver alguns pontos já mencionados acima e também
avançar em outros.
Observem, enfatizo que a angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito (e,
assim, se articula ao objeto a e ao desejo do Outro) e quando dizemos que ela está no
horizonte da clínica psicanalítica, significa que ela também está associada à estrutura do
dispositivo analítico (veremos isso mais detalhadamente). E ainda, sem nunca perder de
vista, a angústia é um afeto, afeto muito particular. No que tange ao trabalho analítico, a
angústia é, além de particular, um afeto paradoxal, na mesma direção que é paradoxal a
transferência, ou seja, a angústia é tanto condição quanto obstáculo para a análise.
Condição exatamente por ser esse afeto puro, não enganador, sinal de que o sujeito está
se deparando com questões essenciais à análise: o objeto a e o desejo do Outro. Por isso
dizemos comumente: sem angústia não há análise. Quando temos uma pessoa à nossa
frente, em entrevistas iniciais, que a despeito de nos ter procurado, o que pressupõe a
existência de algum sofrimento e o desejo de mudança, se apresenta ainda de certa forma
indiferente ao que fala e/ou aos nossos questionamentos, ou mesmo alguém que já iniciou
sua análise, que está no divã e que em determinados períodos não se deixa tocar, afetar
pela associação livre e seus desdobramentos, sabemos que temos que ser pacientes e
procurar operar com o máximo de rigor para que o dispositivo analítico funcione em sua
máxima potência e, com isso, a angústia se produza e com ela impulsione o trabalho e
alcance as questões essenciais à análise.
Quero sublinhar que não se trata de o analista induzir ou gerar angústia através de suas
intervenções ou manejo da transferência e, sim, de favorecer, desde o seu lugar e o desejo
do analista, o bom andamento do dispositivo para que a angústia possa advir. Sim, o bom
andamento do dispositivo para que a angústia possa advir, pois, desdobrando o que
indiquei acima, o dispositivo analítico tem por estrutura um funcionamento que convoca
a angústia. A simples presença do analista, desde que haja transferência, pois só assim há
analista, já é suficiente para que o analisante o coloque no lugar do Outro que deseja e
deseja algo além do que diz, algo que não se sabe bem o que é. Por mais cuidadosos que
sejamos com a nossa posição, isso é inexorável, inevitável, a presença do analista convoca
a angústia. Além disso, o analista é o suporte das projeções dos objetos a que compõem
o fantasma de seus analisantes, então, o objeto a compõem a cena analítica também
através da presença do analista. A esse respeito, Lacan (2005) observou que a estrutura
da angústia é a mesma do fantasma (14/11/62), com a diferença de que na angústia o a
está sem a cobertura imaginária do fantasma. Bem, o trabalho de análise vai desvestindo
o a, esse nada, oco, vazio que provoca a angústia. Por fim, a regra mais básica, falar em
associação livre, se levada seriamente, convoca a angústia, pois convida o sujeito à
responsabilidade e a avançar nas questões essenciais à análise e atreladas à angústia: o
objeto a e o desejo do Outro. Assim, a estrutura do dispositivo analítico provoca, no
sentido de favorecer e não de criar ou produzir, a angústia pois têm elementos comuns
em suas estruturas (a angústia e o trabalho analítico).
Insisto, não se trata de indução proposital de angústia através do analista e seu manejo
para que a análise avance. Não somos máquinas geradoras de angústia, nem se quisermos
não podemos, pois a angústia não é gerada, produzida por nada exterior, nem por
ninguém. Esse afeto é, sim, favorecido, provocado, tanto pelo dispositivo analítico em
sua estrutura, como acabo de mencionar, quanto por circunstâncias, como a atual, em que
o Real se apresenta nu e cru. Bem, o que pode acontecer é que a angústia seja provocada
em excesso de forma acidental, o que equivale a dizer que aí não há mais analista, pois
ele saiu de seu bom lugar. Por exemplo, se o dito analista passar ao ato, surtar,
enlouquecer durante uma sessão (e, observemos, não é impossível) e assim encarnar o
Real através da loucura ou se encarnar o Outro ou mesmo o objeto a que deve fazer
suporte. Fora isso, acredito que ele não tenha como “apresentar” o Real ao sujeito, porque
não há intermediário para o Real, ele dispensa apresentações. Portanto, não procede a
ideia de procurarmos “boas” intervenções que provoquem a angústia, não é possível e
não é necessário, a estrutura do dispositivo já se encarrega disso e, se somos demandados
no lugar de analistas, zelaremos para que a estrutura opere adequadamente.
Então vejam, o que o analista pode e deve fazer, além de ocupar e operar desde o seu
lugar para zelar pelo bom funcionamento do dispositivo, é intervir de forma a tentar
amenizar a angústia, tanto aquela já vivida pelo sujeito quando ele chega à análise, quanto
aquela naturalmente favorecida pelo trabalho analítico, quando avaliar que está num nível
insuportável. Assim, a meu ver, é mero imaginário, fantasia, a ideia, propagada por certos
analistas e manifestada por alguns analisantes ou mesmo em círculos socias, de que o
analista tem que ser duro, pegar pesado, ser cruel em suas intervenções, pois isso
“produziria” a angústia necessária ao movimento da análise. Isso não tem nenhum
fundamento lógico, puro imaginário, pura fantasia. Na verdade, entendo que se
ocuparmos tal posição, não há mais analista e, portanto, não há análise. O que há numa
circunstância dessas é gozo e não movimento pela angústia, gozo dos dois lados e isso
não é análise, isso obstaculiza e não movimenta o trabalho. E, companheira frequente do
gozo, haverá culpa. Esse afeto sim, a culpa, pode ser muito bem induzido por esse tipo de
postura, ou melhor, de impostura. Ela, a culpa, pode ser produzida por intervenções do
analista, pois o supereu nunca deixa a desejar quando é convocado, sabemos bem disso.
O analista deve ser preciso em suas intervenções, em seus cortes e precisão, ao contrário
de violência ou brutalidade, exige delicadeza, sutileza, e uma firmeza que advém da
tranquilidade e não da dureza, precisão cirúrgica. O que não impede que, eventualmente,
o analisante vivencie as intervenções de uma forma dura, que elas, muitas vezes, o toquem
de maneira dolorida. Mas, isso é muito diferente de o analista ter o propósito, a meta (e
mais, se regozijar com isso, gozar com o sofrimento) de inflingir dor em nome de uma
suposta técnica e/ou como resposta à demanda, até bem comum, de alguns analisantes:
“bata-me”. Ambos, supostamente, para a angústia ser “propositalmente produzida” e
gerar trabalho analítico. Não, com a psicanálise não se trata de resolver as coisas na
porrada. Isso é só mais uma ilusão para continuarmos gozando e, como analistas, devemos
estar bem advertidos disso.
Relembrando o paradoxo da angústia como possibilidade e como obstáculo para a análise,
observo que já fui introduzindo o segundo ponto, a angústia como o que pode fazer
obstáculo na clínica, a partir do que acabo de indicar sobre a necessidade de avaliarmos
o nível, o quantum de angústia e procurarmos intervir para amenizá-la, quando necessário.
O obstáculo pode se produzir exatamente se a angústia for, para o sujeito em questão,
insuportável. E obstáculo pode significar desde impasses ao trabalho (dificuldades na
fala, nas associações, atuações) até a passagem ao ato e/ou a ruptura da transferência. E
como podemos medir isso? É claro que não temos parâmetros que se generalizem para
todos e nem se trata de pensar no estabelecimento de um quantum ideal de angústia, mas
as dificuldades acima citadas, se percebidas rapidamente, podem servir de sinal, de alerta
de que o nível de angústia não está suportável. O manejo para a amenização da angústia
é muito simples, mas, como tudo na clínica, nada banal, pois, devemos operar tais gestos
e intervenções como todos os demais, ancorados em uma lógica e não ao acaso ou por um
jeito de ser: um sorriso ao chegar ou ao final da sessão, a oferta de um lenço ou a indicação
do banheiro para a pessoa se recompor antes de sair, uma observação que convoque um
chiste, uma pergunta se trouxe guarda-chuva, desejar uma boa semana, bom trabalho ou
uma boa viagem, uma sala de espera e de atendimento aconchegantes, a acolhida do
pedido de uma sessão a mais, o cuidado com o os horários, com a pontualidade… Sempre
dentro de um contexto do trabalho.
Aliás, temos vários relatos de analisantes de Lacan, está na internet e em alguns livros
também, de que ele usava exaustivamente esses recursos. Lembro agora de um relato no
qual ele põe a mão no casaco da pessoa na saída da sessão e diz de uma forma muito
amorosa: “esse casaco é muito fino para o clima que estamos meu querido, assim você
vai se resfriar!” Em outro relato ele telefona para a analisante que já faltara a seguidas
sessões e diz: “minha querida, quando voltarei a vê-la?” Ainda há vários relatos de que
ele chamava os analisantes de forma simpática e afável, quase sempre dizendo: “venha,
meu querido”. Recentemente, a coluna de Contardo Caligaris na Folha de São Paulo
(3/4/2020) trouxe mais um desses exemplos: ele conta de uma amiga que o encontrou
num café onde os analisantes e supervisionandos de Lacan se reuniam depois ou entre as
sessões, ela saiu de uma sessão absolutamente transtornada e angustiada, ficou ali
paralisada por um tempo e levantou-se dizendo que precisava voltar lá. Ele a esperou
retornar novamente, ela chegou sorrindo, aliviada, balançando a cabeça e lhe contou: “tive
uma sessão sobre os desejos mais duvidosos que pairavam sobre o meu berço; descobri
que sou filha de uma farsa sinistra. Enfim, saí da sessão péssima. Voltei para dizer a
Lacan: com a história que lhe contei, fico com a impressão de que estou fodida. E aí ele
me disse: Mas, minha querida, não é apenas uma impressão: com a história que é a sua,
você está mesmo fodida”. Enfim, são inúmeros os exemplos, o que me faz pensar ainda
mais, de onde diabos saiu essa infeliz e infundada ideia do analista lacaniano durão, rude,
violento, que bate pesado.
A guisa de conclusão, para o momento, e na direção da minimização da angústia quando
necessário, de oferecer acolhida e sustentação, além dos relatos daqueles que se
analisaram com Lacan, temos registros claros sobre isso em seu seminário sobre a
Angústia. Por exemplo, sobre o grande desafio, prova constante para o analista, que é
estar atento aos sinais e avaliar o nível de angústia que pode ser suportada por cada um:
“sentir o que o sujeito pode suportar de angústia, é o que lhes põe à prova todo instante”
(Lacan, 2005, p.15 – 14/11/62). Um pouco mais à frente (23/1/63), trabalhando sobre o
acting out, encontramos: “Em seus referenciais clínicos, observem a que ponto segurar
pela mão para não deixá-los cair é absolutamente essencial num certo tipo de relações de
sujeito. Quando se depararem com isso, vocês poderão ter certeza absoluta de que se trata
de um a para o sujeito” (p.136-37).
É isso, a angústia nos cerca por todos os lados, não há como escapar: está na estrutura do
conceito de sujeito, participa da estrutura do dispositivo analítico (horizonte), se
potencializa com o Real na cena do mundo. Na minha opinião, só encarando esse fato
podemos trabalhar de forma favorável, e reconhecê-lo implica considerar que não temos
alternativa a não ser seguir fielmente esses dois ensinamentos de Lacan: estarmos
advertidos ao desafio constante de avaliarmos o nível de angústia possível a cada um e a
cada momento (sim, para o mesmo sujeito, o nível de angústia não será o mesmo todo o
tempo!) e criarmos intervenções precisas e eficazes que sirvam como suporte, como uma
mão estendida, para não deixá-los cair.
Agradeço de coração aos que chegaram até aqui na leitura, sempre desejamos que nossas
letras sejam lidas. Mas, também registro meus sinceros agradecimentos aos que que não
puderam fazê-lo. Quiçá minha mão não tenha podido alcançá-los e segurá-los até o fim
do texto neste momento, pelos mais variados motivos!
Abril, 2020.
Zeila Torezan

Angustia e Contemporaneidade

Em primeiro lugar, o título deste trabalho propõe pensarmos numa certa relevância da angústia nos dias de hoje. Na sequência, evidencia a existência de particularidades da angústia e de suas manifestações na contemporaneidade. Estes dois indicadores podem ser desdobrados na direção de questões e impasses que se impõe ao manejo clínico da angústia na atualidade. Na realidade, se tomarmos como ponto de partida a clínica cotidiana, os aspectos acima indicados se apresentam de forma concomitante e não restitos ao tema da angústia que aqui nos concerne: as particulares e graves formas de sofrimento trazidas por sujeitos, digamos, um tanto apáticos, nos interrogam diariamente, impulsionando à produção teórica e à inovação clínica.

Paradoxalmente, tempo difícil e promissor para a Psicanálise. Tal afirmativa pode, com razão, ser contraposta à alegação de que esta dicotomia não é nova, pois desde o seu início a clínica psicanalítica sabe ser eficaz no tratamento do sofrimento humano, mas enfrenta uma série de dificuldades e questionamentos. Entretanto, os percalços advindos de uma posição subjetiva onde a busca por um saber inconsciente é sobrepujada por uma demanda de gozo, de um gozo-todo que a cultura propõe como necessário (Besset, 2002), impõe impasses bem específicos e, arrisco dizer, maiores do que aqueles presentes desde o nascimento da Psicanálise e atrelados a uma ordem social regida pela presença de uma forte instância terceira, da repressão, do sofrimento e da culpabilidade neurótica. Somamos a tal condição toda a carga de anestesia psíquica e anulação subjetiva que a indústria farmacêutica pode, alegremente, nos proporcionar e ainda a presença da solidão e do enfraquecimento dos laços sociais, pretensamente substituídos pela comunicação virtual.

Um cenário árido e, veremos, favorecedor, dentre outras coisas, da presença da angústia e das diferentes formas de atuações nas clínicas das toxicomanias, dos transtornos alimentares, da psicossomática, do pânico, das fobias e das melancolizações. Mas também, promissor, por, mais uma vez, a Psicanálise trabalhar para buscar formas de ludar com a dor e o sofrimento humanos, e mostrar-se capaz na renovação teórica e técnica.

Avançar na discussão acima esboçada a respeito da clínica da angústia na contemporaneidade exige a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal conceito.

A obra freudiana apresenta duas teses sobre a angústia: na primeira, o recalque é postulado como produtor de angústia; na segunda, a angústia é anterior ao recalque e produz o mesmo. Embora Freud tenha priorizado a segunda tese, só possível a partir da segunda teoria das pulsões e da segunda tópica, não chega a descartar a primeira (Giles, 2007).

A construção da primeira teoria sobre a angústia está associada à diferenciação entre as neuroses atuais e as psiconeuroses; Neste contexto, as neuroses atuais, em especial a neurose de angústia, se caracterizam por um quantum de excitação sexual sem mediação simbólica e vivenciada diretamente no corpo sob a forma de angústia e, portanto, fora do recalque. Dito de outra forma, a angústia nas neuroses atuais é vista por Freud como uma energia livre decorrente da tensão física e sua ausência de intermediação psíquica. É interessante observar que nesta formulação temos algo esboçado na direção da segunda teoria onde a angústia será situada fora dor recalque por ser anterior ao mesmo e associada ao trauma, embora nem mesmo a primeira teoria da angústia estivesse ainda estabelecida.

Com a leitura sobre as psiconeuroses, temos a libidinização da tensão sexual, extrapolando a condição física desta tensão para o psiquismo. Freud considera os sintomas como indicadores de um excesso de libido e coloca a ideia de transformação deste excesso também em angústia. Tal excesso é vivenciado pelo eu como um perigo pulsional e estaria na base das psiconeuroses, pois frente a tal perigo o recalque atua como defesa. Com o recalque ocorre a separação entre ideia (representante representação) e afeto, sendo a angústia um dos possíveis destinos para o afeto (na condição de afeto livre). Portanto, temos a primeira tese sobre angústia, marcada por um caráter econômico em que a angústia é um resultado, uma manifestação subjetiva de uma quantidade de energia não dominada, um produto do recalque e já está associada a um caráter defensivo.

Este caráter defensivo é, nesse momento, enfatizado por Freud através da articulação da angústia a uma espécie de disposição preparatória para o perigo, pois à medida que o eu retira a libido dos representantes psíquicos, ele produz um nível de angústia suportável afim de que o eu não seja dominado pela angústia paralisante.

Com os elementos da segunda tópica e, em especial da segunda teoria pulsional, Freud (1996/1926) agrega à compreensão da angústia como libido transformada pelo efeito do recalque a ideia de uma angústia originária, associada ao trauma do nascimento, à imaturidade e dependência do humano, e, portando, anterior ao recalque. Assim temos a segunda tese freudiana sobre a angústia, de caráter dinâmico, onde o recalque não causa a angústia, pois ela está presente desde o início e por temê-la o eu recalca o que se apresenta como ameaçado por, de alguma forma,remeter à angústia originária (Giles, 2007).

Freud avalia que a imaturidade e dependência absolutas do bebê propiciam uma vivência de desamparo e de perigo de aniquilamento que é traumática por não ser representada psiquicamente, sendo, portanto, angustiante. Toda vez que algo remeter a isto que é da ordem do trauma o eu se prepara para uma vivência angustiante. Assim, a angústia como sinal põe em evidência a angústia como defesa do eu. Trata-se de uma reação a um perigo inespecífico para impedir que um pânico desordenado se apodere do sujeito (Kaufmann, 1996). De qualquer forma, para Freud, a angústia está associada à perda de objeto, pois o trauma se articula à separação e à perda da condição de falo para o Outro.

Para Lacan, a angústia resguarda sua condição, já estabelecida por Freud, de um afeto e de sinal, não de um perigo interno ou externo, mas sim de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995). Para além dos textos freudianos que teorizam sobre angústia, Lacan (2005/1962-63) prioriza O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas sim também como manifestação frente à faltada falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada. Assim, a angústia não é mais atribuída à falta, à perda do objeto, ao contrário, se presentifica no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante, ou seja, na possibilidade da falta vir a faltar.

Nesta direção, Lacan (205/1962-63) afirma ser angústia não sem objeto e, ainda, ser um afeto que não engana. É necessário especificar que o objeto em questão, objeto a, é aquele definido como causa do desejo, aquele que precisa faltar para que o sujeito possa desejar. Produzido como resto no circuito pulsional, o objeto a é o que escapa à libidinização e à simbolização. A angústia é produzida se esse objeto não faltar e alguma coisa se presentificar em seu lugar, anulando a possibilidade do desejo.

Assim a angústia não é sinal da falta, mas sim do fracasso desta ultima que é para o sujeito condição indispensável para sua existência desejante (Chemama, 1995). Desta forma, o que está em questão na angústia não é a dúvida, mas sim a certeza, por isso ser o afeto que não engana, de uma posição perante o desejo do Outro em que se corra o risco de devoração, onde o gozo do Outro se sobreponha ao desejo.

O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). Nesta direção, sabemos que o desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. Assim, peranteo enigma do desejo do Outro, que na verdade nada quer de mim, a angústia surge se o Outro não se apresentar e permanecer como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo, para ele.

Com estes fundamentos teóricos, não nos parece difícil interpretar as manifestações clínicas tão comuns em nossos dias pela via das patologias do ato (toxicomanias, pânico, bulimia e anorexia, melancolizações…), recursos frente à angústia e à inibição, como efeito da presença do Outro pouco faltante ou marcado mais pela falta imaginária do que pela falta simbólica. Posicionamento bastante condizente com o discurso social reinante de um imperativo necessário de ascensão ao gozo sem limites. Dessa maneira, nos deparamos com sujeitos tão apáticos, pouco desejantes, e também muito suscetíveis a melancolização e à angústia por uma falha, vacilação, naquilo que diz respeito à estrutura da falta e à possibilidade de ser a, causa do desejo para o Outro e não objeto de desejo do Outro.

No que concerne à condução clínica, Lacan afirma a angústia como necessária, filiando-se nos ensinamentos freudianos da angústia como sinal de alarme que possibilite ao eu o acionamento de defesas que impeçam o transbordamento da angústia de forma paralisante. Assim, ela também pode servir como sinal da análise dos limites entre desejo e o gozo, como indicador do quanto a estrutura do fantasma garante, para esse sujeito, o seu lugar no desejo. Em certa medida, parece-nos que a angústia neste nível de sinal tem fracassado em nossos dias, assim como o sintoma já não se apresenta mais tão clara e frequentemente: em geral se apresentam sob o signo da apatia alienante ou da angústia paralisante.

Neste contexto, certamente devemos nos haver com especificidades na condução clínica que implicam, de começo, dificuldades e maior tempo no estabelecimento transferencial e na função da demanda de análise. Manobras que viabilizem a saída da angústia paralisante e/ou da inibição não pela via do ato, mas da palavra, certamente necessitam que o desejo do analista possa se sustentar de forma eficaz, inclusive naquilo que diz respeito à prática da vacilação calculada.

Parece interessante que para lidarmos com aquilo que é exatamente da ordem de uma vacilação na estrutura, recorramos a outro campo também de vacilação, e que tenhamos constatado que esta última pode comportar atos de criação e subjetivação e não de fracasso e destituição, na renovação necessária da psicanálise e sua clínica.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

BESSET, V. L. A clínica da Angústia. São Paulo: Editora Escuta, 2002. 2016 p.

CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241 p.

FREUD, S. O Estranho [1917]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol IVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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GILES, C. Sobre o conceito de angústia em Freud. InnRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p 11-21.

GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? InRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p. 11-21. p. 58-66.

KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 784 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 366 p.

 

Bibliografia Consultada

BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 418 p.

FREUD, S. Além do princípio de prazer [1920]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996 f.

FREUD, S. O ego e o id [1923]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. O mal-estar na civilização [1929]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. Conferência XXXI. Angústia e vida pulsional. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise [1932]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HARARI, R. O seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997. 241 p.

LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 552 p.

Sem Nome

Esboçando este trabalho, relativo ao desanolamento do Cartel sobre a Feminilidade, lembrei-me que elegi o tema em questão quando ouvia o Seminário de Charles Melman no ano passado. Melman falou, em algum momento, a respeito dos desencontros entre homens e mulheres e da impossibilidade de resposta, do lado masculino, à demanda feminina. Naturalmente ele articulou este aspecto ao fato da posição feminina não ser sustentada a partir do significante fálico, não havendo aí um significante que diga sobre ela.

Assim, se a problemática feminista situa-se ao redor da inexistência e do não-todo, torna-se hoje para mim significativo a tomada deste tema em um Cartel, por entendê-lo como um percurso de produção, de criação. E afina, não pode a criação ser definida como uma busca de resposta a esta posição feminina, na medida em que procura traçar significações exatamente aonde elas faltam? Particulares também me parece a composição deste grupo, cinco mulheres, e o longo caminho de estudos que escolhemos traçar, talvez numa vã tentativa de abrangência, de totalidade do tema, nesta busca de significações.

E, por estas e outras, me posiciono para escrever este trabalho de uma maneira bem diferente da usual. Em geral, primando pelo rigor teórico e temendo erros conceituais, me atenho aos textos estudados para o tema e aí componho algo. Desta vez, sentia desejo de um certo distanciamento teórico, de produzir um texto mais pessoa, menos técnico. E é nesse movimento que algumas idéias vão aparecendo e sobre elas vou escrevendo, talvez sem uma coerência absoluta, sem um fio condutor único, quem sabe com um caráter mesmo mais feminino, pois não é a loucura essencialmente feminina?

Bem, agora consigo entender porque temos o Dia Internacional das Mulheres e não existe o equivalente para os homens… Assim como porque o Movimento Feminista tem ares tão masculinos… Clamar, reivindicar, marcar uma existência de direito, assim como fazer semblante ao masculino não é para quem quer, mas para que não pode.

Certo dia, ao longo de nossos estudos, fui acometida por uma imagem: sentada na frente de uma belíssima penteadeira, vestimentas e penteado do início do século passado, eu retocava o pó-de-arroz e me preocupava com qual colar usar. Brinquei a respeito desta imagem com as colegas de Cartel, espécie de idealização avessa à condição da dita mulher moderna que para se fazer sujeito busca cada vez mais a negação de ser não-toda, num mundo onde isso acaba sendo muito custoso.

Custoso e duvidoso, pois a maternidade, ora indicada como matriz simbólica da feminilidade, parece reduzir-se a um espaço na agenda: programável, distancia-se do campo do desejo, mais uma tarefa, entre tantas, a cumprir…

Assisti recentemente um documentário genial de Marcelo Masagão, denominado “Nem gravata, nem honra”, a respeito da diferença entre homens e mulheres. Ali, na tomada de depoimentos de pessoas de uma pequena cidade do interior de São Paulo, entre tantos outros, dois elementos são apresentados: a mulher é dissimulada por natureza e gosta de romance.

Dissimulação e romance, máscara e demanda de amor, sem duvida dois aspectos atrelados à feminilidade, à posição feminina em sua luta de subjetivação, de fazer-se sujeito por debater-se com a falta de um significante que a enuncie.

A mascarada responde exatamente ao enigma da feminilidade, fazer-se desejar apesar de sua carência, mascarar a carência através de um corpo imaginariamente constituído como falo. Isso, ao mesmo tempo em que possa, a partir das identificações que permitam uma posição simétrica à da mão, portanto do lado da carência, desejar e amar um homem. Destino árduo e paradoxal que em tempos de “direitos iguais” parece ganhar requintes de dificuldades… Como é possível desejar e amar um homem a partir da pretensa igualdade? Como conciliar fragilidade nesta condição? Qual máscara usar no baile contemporâneo?

Romance, demanda de amor, o segundo aspecto aqui destacado será também uma tentativa de resposta ao primeiro? Pois parece que se tem algo do qual as mulheres não abrem mão, esse algo concerte exatamente à reivindicação de amor. O amor estabelece uma relação de sujeito a sujeito, da qual a mulher se beneficiaria exatamente por sua carência de subjetividade. É para serem sujeitos que as mulheres querem ser amadas, acreditando que assim serão dotadas daquilo que lhes falta: um significante que as diga.

Portanto não é pouco que este amor exige, pois demanda que ele possa mudar a ordem das coisas. Serge André nos fala o quanto este pedido de amor pode reivindicar, nesta tentativa de negação de ser não-toda, aludindo à seguinte fala de Julieta para Romeu: O que há num nome? O que chamamos rosa terio o mesmo perfume sob outro nome. Romeu, renuncia a teu nome; e em lugar deste nome, que não faz parte de ti, toma-me toda.

Então o que esta demanda de amor proclama, ou reclama, é uma revogação da lei, ou seja da castração, e, em seu lugar, a instauração de um estatuto particular, de uma regra, onde o ser mulher, o não toda, se transformaria em nome.

Sem Nome, além do título deste trabalho, era uma rede de sorveterias da cidade em que eu morava no início da minha adolescência. O sorvete era mesmo delicioso, a sorveteria famosa e eu me intrigava a respeito da escolha deste nome fantasia.

Achava mesmo que uma possível ausência de criatividade pudesse ser usada tão bem, pois Sem Nome era um “nome que pegou”, ninguém esquecia como se chamava a tal sorveteria… Acredito, que a capacidade criativa mascarada pela aparente simplicidade desta escolha e o fazer-se nome a partir de uma referência à ausência deste eram os elementos que me instigavam, e continuam a me intrigar, pois é sobre eles que estou escrevendo.

Mas será que o amor demandado pelas mulheres poderá recobri-las com o mesmo sucesso da sorveteria? Alcançará o amor este estatuto de traçar, delinear, criar significação onde ela inexista?

Deixo vocês com um poema de José Paulo Paes, que nos alcança a estas e tantas outas questões:

Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

 

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan 

Trabalho apresentado na Jornada de Carteis da Biblioteca Freudiana de Curitiba/2003, no desanolamento do Cartel sobre Feminilidade.

 

Referência Bibliográfica

ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 295 p.

FREUD, S. A feminilidade, 91932-3). Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ A dissolução do complexo de Édipo, (1924). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ Algumas conseqüências psíquicas da diferença sexual anatômica, (1925). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

______ Sobre a sexualidade feminina, (1931). Obras Completas, Madri: Biblioteca Nueva, 1973.

MELMAN, C. Seminário: Novas Formas Clínicas, no início do terceiro milênio. Curitiba, abril, 2002.

PAES, J. P. Melhores Poemas. São Paulo: Global, 2000. 241 p.

É Possível Responder?

De início, reproduzo para vocês um e pequeno e curioso diálogo entre dois adolescentes:

“- Se eu não souber responder, vou chutar em c de Cristo ou d de Deus.”
“- E se você estiver em dúvida entre, exatamente, essas duas alternativas?”
“- Bom, aí eu vou em c de Cristo, porque d também pode ser de Diabo.”
“- Mas, veja bem, c também pode ser de Capeta!”
“- Ah… Então eu ponho a, de Amor!”

Nesta cena conversavam um rapaz e uma garota, ambos de quatorze anos a respeito de um simulado que estava prestes a ocorrer, Ainda que em tom de comicidade e de forma sutil, este diálogo pode remeter a aspectos cruciais e, muitas vezes, trágicos da adolescência hoje. Ao longo dos tempos, o caráter de crise marcou a época adolescente em nossas vidas. Crise ou, como diz Rassial (2000), estado-limite provisório na estrutura que deveria encerrar-se com o fim da adolescência, mas que pode também se encaminhar para o trágico. E sabemos ser este um desfecho hoje não raro – pela presença de graves acting outs ou de efetivas passagens ao ato – assim como por uma espécie de descaracterização da adolescência, pois ela tem sido recoberta pelo prolongamento da infância ou da latência, o que não nos distancia do trágico ainda que em outra vertente. É o que lemos em Lebrun (2010) a respeito da dificuldade de crescer e dos traços do adolescente hoje: “não mais um período de iniciação ou de provação, mas aquele de uma longa preservação do confronto com a realidade e com suas consequências, a manutenção precisamente na infância.” (p. 91).

Desta complexa trama que constitui a adolescência e dos vários fios através dos quais podemos tecer leituras e considerações sobre a mesma, proponho alguns comentários sobre a vertente por mim escutada a partir do recorte acima apresentado: a relação com o saber – no mais amplo sentido e em seus desdobramentos quanto às capacidades critica, reflexiva e criativa – e sua interface com a sexualidade. Assim, interrogo se é possível ao nosso adolescente responder, se ele pode autorizar-se a produzir respostas frente aos enigmas que devem estar se apresentando a ele (será que estão?).

Avalio o diálogo reproduzido como uma alusão ou mesmo um exemplo deste estado de impossibilidade ou de dificuldade de responder e também como característico de uma posição de distanciamento, de exterioridade, de passividade ou de alienação e, às vezes, de repulsa de nossos jovenzinhos frente ao saber. Penso que eles falam, nesta conversa, da ilusória e preguiçosa garantia de um “saber” alheio a si mesmo, alienado em uma suposta instância terceira, antes transcendente, hoje duvidosa: as letras minúsculas transitam errantemente entre Cristo e capeta, Deus e diabo. Longe de um ancoramento simbólico em seu necessário enodamento borromeano, tal posicionamento parece indicar um sujeito navegando ao léu, sem bússola e incapaz de traçar, de punho próprio, sua rota através das estrelas. Fiquei também sabendo que os elementos deste diálogo já constituem no meio onde ele foi produzido, uma espécie de gíria, pois quando alguém é interpelado sobre qual foi sua resposta para tal questão é habitual responder: “Ah, eu fui no c de Cristo!”, o que significa que não tinha a menor ideia do que se tratava na questão e assinalou uma das alternativas, mas não qualquer uma e, sim, aquela que Cristo lhe indicou: Cristo, protetoramente, respondeu por ele.

Para a palavra responder encontramos no dicionario (Ferreira, 2004) as seguintes definições: dar uma resposta ao que é dito, escrito ou perguntado; questionar ou apresentar razões contra (retrucar, responder a uma objeção); retribuir (responder a uma gentileza); repetir o som (o eco responde); fazer-se sentir por repercussão (a dor do braço me responde na cabeça); responsabilizar-se (ele responde pelo irmão, eu respondo por meus atos). Destaco este último significado, responder é responsabilizar-se, articulando-o aos dois primeiros: sou responsável por minhas respostas sejam elas questionadoras ou não. Ainda, recorrendo à etimologia da palavra responsabilidade, temos: vem do Latim responsus, particípio passado de respondere (responder, prometer em troca) a partir do prefixo re (de volta, para trás) mais spondere (garantir, prometer). Assim, responsabilidade se origina de responder que, por sua vez, comporta promessas e garantias.

Sustento uma posição frente ao outro quando respondo. Sustento na resposta uma posição de sujeito ao assumir a autoria de tais respostas, responsabilizando-me por elas. Afina, como á nos disse Lacan (1988) em 1965, por nossa posição de sujeito somos sempre responsáveis. Entretanto, se outro responde por mim, me eximo da responsabilidade, da autoria e das conseqüências deste ato. Dufour (2005) avalia que vivenciamos um declínio tanto do sujeito neurótico freudiano, quanto do sujeito crítico kantiano: ausência de responsabilização numa era de cabeças reduzidas. As cabeças se reduzem talvez numa razão inversamente proporcional ao aumento da massa muscular, dos corpos esculpidos pela malhação, pelos anabolizantes e pelas próteses de silicone. Assim, na impossibilidade de saber, chuto, e, muitas vezes, com violência. Déficit de atenção e dificuldades de aprendizagem, em especial da leitura e da escrita, inibições do pensar e da capacidade de criar, de inventar e reinventar o seu ser na conjunção de saber e fazer, dificuldades acompanhadas dos já comentados acting outs variados, da agitação motora, das transgressões de ordem social e sexual.

E neste difícil contexto de se fazer ser, a que amor se refere nosso jovem rapaz? Tempos atrás poderíamos escutar aí um enlace com a sexualidade, um arremesso do campo amoroso ao sexual. Seria, então, uma boa paquera, talvez o que chamamos (ou, melhor, chamávamos) de cantada, mas, pelo contexto de sua fala e pelos referenciais atuais, parece tratar-se de uma mor distante do humano e das possibilidades de ser no encontro com o outro sexo, amor por excelência, amor narcísico e totalizante. Um amor divino e etéreo que se basta pelo enunciado e produz falsas e malevolentes garantias de viver sem muitos esforços. E não é disso que se trata também na cotidiana “preferência” por uma existência fake, repleta de pretensos relacionamentos virtuais?

Silvia Amigo (2007) nos indica, de forma clara e consistente, a importância fundamental da criança vivenciar a alternância entre ser gozada e significada falicamente pelo Outro. Sabemos que a significação fálica não advirá se, num primeiro momento a criança não for tomada ilusoriamente como objeto de gozo, no entanto, é necessário que tal ilusão se dissipe e no distanciamento da obturação da falta, a criança evoque para o Outro a sua própria incompletude. Esta é a condição de base para que a falta em cada um dos registros possa se inscrever neste sujeito em constituição, condição para que a criança não seja toda capturada na imagem especular e que algo dela escape como apreendido pelo gozo do Outro, condição para que a criança adentre o campo da sexualidade.

Assim, quando chegada a adolescência, segundo despertar sexual como denomina Amigo (2007), segunda virada edípica, tempo de reescrita da falta em suas três instâncias,o sujeito deverá dispor das cartas necessárias para participar do jogo com boas chances de sair-se bem ainda que através da derrota em algumas partidas. Pois bem, se as bases da entrada na sexualidade foram estabelecidas, em face ao novo empuxo do real sexual que a adolescência produz o sujeito deverá encontrar, entre as cartas que porta e também no assentimento no Outro, o aval simbólico e a cobertura imaginária que permitam com que ele responda desde um lugar outro que não de bebezucho da mamãe ou de anjinho assexuado. Caso contrário, se frente a este empuxo do real o canal de união com a sexualidade se fecha, pode-se abrir o caminho para a morte.

Estamos de volta na possibilidade de responder, e agora explicito, responder ao empuxo do real sexual, construindo um saber que se conjugue com o fazer em vertentes de fazer com e de se fazer ser, num ato de autoria e de responsabilização. De posse desta possibilidade de percorrer os caminhos para a investigação da sexualidade, para o saber sobre o sexual, o estudo, a busca pelo conhecimento, as capacidades criativa, reflexiva e crítica podem aí se articular e, mais, tornarem-se, fonte de paixão e prazer. Para ser vivido de forma apaixonante, o estudo deve fazer corpo com a investigação sexual, se não, torna-se mera obrigação ou obediência (Amigo, 2007) ou, ainda, algo indiferente, inatingível e/ou repulsivo.

Uma mocinha muito simpática, de olhar vívido e curioso em época de vestibular veio falar comigo porque chorava a todo momento, dizia-se angustiada, temerosa e irritada, não conseguia dormir e estudar. Também não fazia amigos, todos ao redor eram concorrentes e só falavam de futilidades, não havia conversas inteligentes, não se indentificava com seus pares. Sua primeira frase foi ago como: “sempre fui boa aluna…  e agora… isso não é suficiente…”. Embora sua intenção fosse indicar que para entrar na faculdade não bastava ser boa, deveria ser a melhor, não é difícil escutar, para além deste enunciado, a insuficiência neste momento de sua vida da posição, da imagem de boa aluna ( e completo, de boa filha) para que ela pudesse responder, não apenas às questões dos vestibulares, mas às novas provas do real sexual e do encontro com o outro. Um sonho que disse ser “muito louco”: ela tinha um buraco na barriga que aumentava muito e como não encontrou quem a levasse ao hospital ela mesma resolveu suturá-lo e fazia isso com muita naturalidade, interesse e satisfação. Dizia-se muito curiosa e fascinada pelo funcionamento do corpo; o cérebro, os genes, os hormônios… E seu corpo respondia ao interesse: cólicas menstruais excessivas, dores de estômago, insônia, alergias, manchas na pele. Assim, num dado momento indagou: “você que é psicanalista, me diga, a sexualidade é assim tão importante nas nossas vidas?” Na verdade ela não demonstrava dúvidas quanto a isso e o difícil estavam em como responder à sexualidade em sua importância.

Melman (2009) propões que a crise atual da adolescência está atrelada ao fato de nós adultos não sabermos mais o que lhes dizer, pois os princípios e valores que orientaram as gerações anteriores parecem não ser mais de serventia para os jovens se posicionarem e serem reconhecidos. Hoje, avalia o autor, o reconhecimento social passa pela participação de uma cultura hedonista, na qual o consumo e a ostentação têm lugar de destaque. Acrescenta o fato inusitado de o assentimento para a sexualidade e o reconhecimento da identidade sexual subjulgarem-se à independência financeira. Além da necessária estranheza frente a esta situação – pois o que passa a validar a identidade de homem ou mulher é ser economicamente ativo, o que equivale a dizer que sou mulher ou homem através ou a partir do dinheiro – Melman também alerta para a indiferenciação aí presente, para o unissex, para uma identidade monossexuada, pois tal critério de reconhecimento se aplica igualmente a homens e mulheres. Mais uma vez, os jovens não estão aptos a responder à sexualidade e nós adultos estamos implicados nesta dificuldade através da incapacidade de transmitir-lhes elementos que possam ajudá-los na construção de suas respostas e na preparação para suas vidas, os habilitando para o crescimento.

Retomo o diálogo citado no inicio e complemento a cena com a presença de uma terceira personagem, outra mocinha da mesma idade dos dois primeiros, que acompanhava atenta e silenciosamente a conversa. Na verdade foi ela quem me narrou os fatos (e assim, em parte, inspirou o tema do trabalho) e ao final me disse, já nada silenciosamente, que o a de Amor, aquele Amor divino referido pelo rapaz, também poderia ser de ateu. Assim, faz referência não à Deus ou ao Diabo, não à Cristo ou ao Capeta, não ao Bem ou ao Mal, mas ao sujeito, ao humano. Sua observação é seguida da seguinte análise: muitos colegas rezam e não estudam, vão aos templos religiosos e não respeitam as regras e as pessoas na escola. Por fim, ela conclui dizendo: “… é claro que esse negócio não funciona!”.

É verdade, as cosas não tem mesmo funcionado muito bem hoje em dia no que tange à presença do sujeito e também a sua relação com o saber, pois para responder (e ser responsável) é preciso separar-se do Outro, é preciso sair da alienação e da cristalização, é preciso escrever e reescrever a falta e assim se fazer ser. Mas não esqueçamos que o a, referido pelos personagens seja ao Amor ou ao ateísmo, é para nós uma letrinha fundamental – aquela que representa o estatuto do objeto como faltante, da ordem da causa do desejo e que caracteriza a posição por excelência do analista – e, mais com ela também podemos escrever abertura. Sendo assim, mais do que nunca, vou de a.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan 

 

Referência Bibliográfica

AMIGO, Silvia. A clínica dos fracassos da fantasia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004.

HARARI, Roberto. Como se chama James Joyce? Salvador: Agalma; Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003.

LACAN, Jacques. A ciência e a verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LEBRUN, Jean Pierre. O mal-estar na subjetivação. Porto Alegre, CMC, 2009,

MELMAN, Charles. O que espera o adolescente da sexualidade e da morte. In: FLEIG, Conceição (org). Adolescente, sexo e morte. Porto Alegre, CMC, 2009.

RASSIAL. Jean Jacques. O sujeito em estado-limite. Rio de Janeiro. Companhia de Freud, 2000.

 

O Tacho e a Frigideira

Ao longo deste ano de trabalho, em um dado momento, destacou-separa mim uma colocação do psicanalista Isidoto Vegh, que ouvi na gravação de uma conferência por ele ministrada aqui em Curitiba, algo como: “o analista deve se analisar, e  muito, até o limite do possível, se não, não suporta estar nesta frigideira tantas vezes por dia.”

Acredito que esta metáfora ecoou em meus ouvidos porque o interesse por este cartel sobre o desejo do analista surgiu a partir de algumas inquietações em meu trabalho na enfermaria do Hospital Universitário de Londrina, e este eco produziu uma imagem, daquelas ao estilo das tirinhas da Mafalda, lá estava eu na enfermariam, num grande tacho, imersa em óleo quente.

As inquietações a que me refiro, dizem respeito à constatação de uma intensa, e peculiar, oscilação na minha capacidade e qualidade de trabalho com as pacientes internadas. Percebia claramente momentos em que conduzia entrevistas através de uma escuta analítica, atenta a produção de significantes e à emergência do sujeito inconsciente, e em outros, evidentemente aprisionada ao sentido, tangenciava a postura terapêutica.

Então, necessariamente, passei a me interrogar, não exclusivamente em minha análise, o que gerava esta incômoda e desmotivadora dicotomia, pois entendia que algo também do âmbito teórico deveria estar aí atrelado.

Esta percepção se associou ao fato, provavelmente por todos conhecido, de que no Brasil, em especial na última década, a bandeira da psicanálise no hospital foi içada, mas a impressão que tenho é que não se foi muito além disso. Impressão calcada na escassez de material bibliográfico nesta área, e portanto no pouco avanço teórico e prático aí presente.

Fato que gera estranheza, em virtude de ser essa vertente nitidamente controversa àquela que historicamente inaugurou os trabalhos “psi” em hospitais gerais, e que aí mantém predominância ao longo de meio século, a Psicologia Hospitalar. E esta estranheza agrega, para mim, mais interrogações: porque, a despeito de existirem alguns serviços onde trabalham psicanalistas, não há um desenvolvimento efetivo da Psicanálise nos Hospitais? Porque é praticamente inexistente a produção teórica nesta área?

Retomando, agora dentro do contexto acima, a esfera particular desta questão, as referidas oscilações na sustentação de uma escuta analítica nas enfermarias parecem apontar para, ou refletir, as dificuldades para não recuar ao desejo do analista.

Dificuldades que, ao meu ver, se acentuam muito no trabalho em hospital, pois os elementos que circunscrevem esta prática constituem demandas recorrentes para a promoção de saúde e “bem-estar”, comuns e pertinentes ao ideário médio, apropriadas, talvez, aos propósitos da Psicologia, mas inadequadas ao campo psicanalítico.

Refiro-me ao contexto institucional, partindo de seus objetivos e, consequentemente, refletindo no discurso predominante em toda a equipe de saúde, no qual o paciente é tratado como alguém, ou talvez seja mais adequado dizer algo, para o qual certamente se sabe o que é melhor.

Bem, e pela outra via, o paciente, na maioria das vezes já por sua estrutura, e ainda agravado pela condição de adoecimento, faz parceria neste jogo, se apresentando como este objeto, que entende que demandam, a ser cuidado, na espera de aquisição de saúde e bem-estar.

E o psicanalista, em sua função se posiciona desde o lugar da falta, pois não recuar ao desejo do analista significa suportar a própria castração. Assim, o analista, trabalhando com o conceito de transferência enquanto um fenômeno subjetivo e portanto concernente ao sujeito, estrutural e avesso às relações intersubjetivas, jamais contemplará qualquer tipo de “transmissão de bens”, ao contrário “ele sabe que deve oferecer um lugar vazio, que permite ao analisante articular seu desejo e não pretende poder oferecer o que falta ao outro” (Lebrun et al. 1994: 290).

Ainda temos que considerar que, na grande maioria das vezes, inversamente ao que ocorre no consultório, o analista vai até o paciente oferecer sua escuta, seja pela requisição de um terceiro, ou pela rotina de trabalho do primeiro.

Esta questão, sempre debatida nos colóquios e em alguns textos referentes à Psicanálise no hospital, via de regra evoca a formulação de Lacan de que “a oferta cria a demanda.“. Atualmente, escuto esta formulação não como uma resposta para o impasse citado, e sim como fonte de mais indagações.

Aliás, o mercado é regido por algo muito parecido, a ideia de que a oferta, a propaganda, gera uma “necessidade”. Mas sabemos que depende, e muito, de como e para quem a oferta é feita, e como o mercado não tem como contemplar as diferenças  individuais, aposta naquilo que considera funcionar para a maioria.

Bem, enfocar a individualidade, a particularidade de cada um, é o que há de fundamental, de precioso na escuta analítica, pois como nos coloca Lacan no encerramento do Seminário 11 (1998: 260): “O desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem, pela primeira vez, à posição de se assujeitar a ele“.

Mas se, para além de não oferecer respostas ou transmitir “bens”, o desejo do analista implica necessariamente em não demandar, me parece muito arriscado que no hospital, considerando os aspectos aqui já mencionados, a oferta acabe por produzir mais força na demanda de demanda que o circuito transferencial analítico contempla.

E esta demanda advinda de uma pessoa fisicamente debilitada, exalando sofrimento físico e muitas vezes estampado a figura da morte, não faz frigir o analista? E o óleo esquenta ainda mais com as convocações da equipe e da instituição para que se faça “alguma coisa”, demandas de eficácia e produtividade.

Sem desconsiderar, de forma alguma, a melhor suportabilidade da fritura por aqueles que estão em análise, e mais ainda por aqueles que nela já avançaram até o limite do possível, ainda assim entendo que nos deparamos aí com elementos significativos, no sentido do seu potencial para afetarem o narcisismo do analista, e portanto para estremecerem o desejo do analista.

Esta formulação tornou-se ainda mais consistente, quando ouvi alguns colegas psicanalistas ou em formação analítica que atuam em hospitais, identificarem uma maior “motivação” para o trabalho no momento em que se deparam com pacientes que enunciam uma demanda de cunho analítico, como se esse enunciado “tirasse” o analista do tacho.

E talvez, de maneira similar, seja alguma espécie de “conforto” que encontram os psicólogos quando, através de um posicionamento terapêutico, acreditam produzir algum tipo de “bem” para o paciente, amenizando os sentimentos de impotência favorecidos no contexto hospitalar.

Pelo que compreendi, a colocação inicialmente citada neste texto, apesar de indicar que de “somos feitos de substancia gozante“, e portando estamos sempre sujeitos à frigideira, refere-se a momentos particulares da clinica psicanalítica, nos quais o analista deve, e pode, suportar o calor e a dor da fritura, porque a despeito desta significar intensos ataques à aspectos importantes para a pessoa do analista, certamente não é como tal (pessoa) que ele aí está.

O que procurei desenvolver neste trabalho, é que no hospital estes momentos não são tão particulares assim, ao contrário, parecem ser extremamente freqüentes. Frequência tal que, por vezes, gere insuportabilidade da unção, a qual pode produzir alguns sintomas, como as referidas oscilações na qualidade do trabalho, desmotivação, paralisia, atuações humanitárias…

Sintomas que traduzem, portando, a impossibilidade da sustentação do desejo do analista, aquele que se mantém como enigma pelo fato de que nunca se satisfaz, e a conseqüente presentificação de uma demanda em seu lugar, aquela para a qual algo se torna objeto.

Lembro-me, auxiliada por meu caderninho de notas, que em uma de nossas reuniões de trabalho identificamos que levar um caso para supervisão é reinvestimento no desejo do analista, pelo reconhecimento da falta de saber.

Bem, hoje considero que minha inserção, pela primeira vez, em um cartel teve este mesmo significado, e que talvez esta se tenha dado, em grande parte, pelo calor excessivo do tacho.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

Trabalho desenvolvido junto ao Cartel sobre o Desejo do Analista e apresentado na Jornada de Cartéis da Biblioteca Freudiana de Curitiba em Novembro de 2001.

 

Referência Bibliográfica

LACAN J. O seminário – Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 270 p.

LEBRUNT, T., STRYCKMAN, N, BRUGGEN, B., &, C. VANDEVYVER. O conceito de transferência. In: Dorgeuille, C. & Chemama. Dicionário de Psicanálise – Freud & Lacan. Salvador: Ágalma, 1994. P 286 – 305.

Sublimação, Ato Criativo e Sujeito na Psicanálise

Para Isabela e Laura, que já me dedicaram
tantas das suas preciosas criações.

AGRADECIMENTOS

A despeito da solidão necessária nos momentos de estudo, reflexão e criação, uma tese não é produzida sem o auxílio e colaboração, direta e indireta, de muitas pessoas. Expresso minha profunda gratidão por todas elas e de forma particular:
ao Prof. Dr. Fernando Aguiar Brito de Souza, por sua efetiva contribuição para a realização desta tese e, sobretudo, pela postura sempre ética e respeitosa com que conduz o trabalho de orientação;
ao Prof. Dr. Kleber Prado Filho, à Prof. Dra. Mérite de Souza e ao Prof. Dr. Sérgio Scotti, pela participação e sugestões realizadas durante o exame de qualificação, momento crucial para o desenvolvimento desta tese;
ao Prof. Dr. André Gellis, ao Prof. Dr. Vinícius Darriba, à Prof. Dra. Mara Lago e ao Prof. Dr. Kleber Prado Filho, pela presença e contribuições realizadas durante a banca de defesa da tese;
à Prof. Dra. Mérite de Souza e ao Prof. Dr. Carlos Augusto Remor por aceitarem compor a banca examinadora de defesa como membros suplentes;
à psicanalista Angela Valore, por seu trabalho de todos esses anos, cujos efeitos estiveram presentes no percurso de pesquisa e podem ser lidos nas páginas desta tese;
ao meu marido e às minhas filhas, pelo carinho, incentivo e compreensão;
às minhas queridas irmãs, Denise e Dionete (in memorian), pelo amor que sempre me dedicaram;
aos meus pais, por tudo.

RESUMO

A tese, fruto de pesquisa teórica de orientação freudo-lacaniana, objetivou analisar os enlaces entre sublimação, ato criativo e sujeito e afirmar a presença do sujeito no ato criativo via sublimação. O método da releitura foi aplicado sobre os textos de Freud e Lacan que tratam dos conceitos em causa e as publicações de mesma orientação e tema semelhante. Partindo da noção de sujeito na psicanálise e de suas especificidades na contemporaneidade, fez-se uma retomada conceitual da sublimação em Freud e Lacan, seguida da discussão sobre o ato criativo. O percurso afirmou o sujeito na sublimação e no ato criativo, quando ocorre o afastamento do lugar de objeto e o reconhecimento e lide com o Real; quando o vazio da Coisa é contemplado. Considerou-se as possibilidades e os efeitos da sublimação nos dias de hoje, numa análise da relevância clínica do conceito de sublimação na contemporaneidade. Identificou-se uma aproximação entre o campo sublimatório e os efeitos do trabalho analítico. Sublimar não impede o adoecer e não tem compromisso com o aceitável, desejável ou elogiável socialmente, mas o valor da sublimação não pode ser negado, ainda mais em tempos tão funestos, quando reina a apatia e a dessubjetivação, quando o ato criativo sobrevive às minguas, à sombra de outras modalidades de ato, marcadas por condutas violentas, delirantes, transgressoras ou depressivas.
Palavras-chave: Sublimação; Ato criativo; Sujeito.

 

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Angústia e Sublimação

A sublimação afirma, em seu horizonte, a angústia. A Assertiva de Harari precede sua definição para a sublimação, estabelecida pelo seguinte par de aforismos: se “a angústia é a sem (-φ)”, a “sublimação é a não sem (-φ)” (Harari, 2001, p. 277). Tais formulações sugerem uma proximidade – ainda que demarquem uma essencial diferença – entre as duas condições, já que a angústia é afirmada pela sublimação e ambas contemplam em sua definição uma articulação entre o objeto a e a falta (-φ). Ainda, ao tomarmos a palavra horizonte em sua acepção mais comum – extensão ou espaço que a vista abrange ou extensão de uma ação – podemos ler que a sublimação afirma a angústia em toda a sua extensão, em todo o seu campo ou até onde se pode ver. Isso talvez estabeleça algo a mais que uma proximidade, quiçá, uma articulação entre as duas condições e nos remete ao trabalho de Lacan de resgatar a sublimação de importantes distorções que passaram a identificá-la a uma especie de “felicidade comportamental”, adaptada ao socialmente desejável. Sublimar não salva ninguém do sofrimento e do adoecimento, sublimar não impede ou anula a angústia, ao contrário, afirma-a.

Evoco também uma questão proposta por Cruglak (2001, p. 11), nos seguintes termos: “De que depende que um sujeito, frente à irrupção do Real, frente a contingências dramáticas da vida, produza um sintoma, uma criação, uma anorexia, uma adição, uma lesão ou outra manifestação no corpo?” Em minha interpretação, além de uma possível remissão ao clássico e cotidiano trânsito clinico entre a tríade inibição, sintoma e angústia, a pergunta de Cruglak faz uma alusão à sublimação, via ato criativo. Com esta alusão, a sublimação, em sua aproximação/vinculação da angústia, pode ser associada ao campo daquela tríade, campo das possíveis respostas do sujeito frente ao enigma do desejo do Outro.

Avalio que os aforismos/definições de Harari (2001) nos encaminham para a mesma direção apontada por Cruglak (2001) no desdobramento de sua questão: onde falta a castração imaginária, onde falta a falta, o a aparece e o sujeito se objetaliza à mercê do desejo do Outro: aí temos a angústia e a produção fenomênica. Entretanto, quando a castração pode ser preservada através de algum objeto, quando esse a, objeto criado, permite ao sujeito sua liberação da condição de objetalização, temos sublimação: lugar onde a falta não falta, exatamente por conta da criação de um objeto. Observo que a questão do sujeito, ou, o sujeito em questão interrogado em sua possibilidade de sê-lo, está presente nos dois casos. Ser ou não ser, eis a questão que tomo como central no que tange à proximidade/articulação entre angústia e sublimação.

Em conferência no Brasil, Michel Plon (2006, p.21) afirmou que o Seminário X, além do trabalho sobre o conceito de objeto a, foi um momento onde se implantou a “arquitetura lacaniana” de forma integral, começando, exatamente, “por esse ponto pivô que é sua concepção de sujeito”. Um sujeito que é determinado pelo significante que advém do campo do Outro e que só pode ser pela via de não sê-lo, por não sê-lo todo e por seu desejo ser o desejo do Outro. E é exatamente nos interstícios desta trama que envolve o sujeito e seu desejo, que é o desejo do Outro, que vemos angústia se desenhar.

A angústia, antes de tudo, afeta esse sujeito, provocando, assim, uma série de sensações que o alarmam. Alarme, sinal, temos aí outro atributo, ou talvez seja melhor dizer, função, da angústia. Sinal de um estremecimento da fronteira, da distância entre desejo e gozo, sinal de uma vacilação frente ao desejo do Outro (Chemama, 1995), sinal de que o sujeito está sob a ameaça do desaparecimento do seu desejo e, portanto, sob a ameaça de seu próprio desaparecimento.

Para além dos textos freudianos que teorizam sobre a angústia, Lacan (2005 /1962-63) prioriza O Estranho (Freud, 1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não apenas como resultante da perda, da falta, mas também como manifestação frente à falta da falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento da falta ali onde ela era esperada, no momento em que o objeto falha em se manifestar como faltante. Assim, a angústia sinaliza a falha, a carência do apoio da falta para a existência do sujeito do desejo, evidenciando a certeza de uma posição perante o desejo do Outro em que há risco de devoração, de sobreposição do gozo do outro sobre o desejo. A angústia, portanto, não é sem objeto e é um afeto que não engana (Lacan, 2005/1962-63).

O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo (Goldberg, 2007). O desejo se sustenta na estrutura do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se estabelece a angústia. perante o enigma do desejo do Outro, a angústia surge se o Outro não se apresentar como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo para ele. Todos estes elementos situam a angústia na ordem da estrutura, intimamente associada ao estatuto do sujeito, um fenômeno existencial, não sendo redutível a uma manifestação psicopatológica a ser simplesmente suprimida.

Também a sublimação está associada à ordem da estrutura e, como já enunciado, à questão do sujeito. Lacan (1997/1959-60) enfatiza a íntima articulação da sublimação com o campo pulsional. A sublimação se apresenta como a essência do funcionamento pulsional, pois é no circuito como desvio que se dá a satisfação pulsiona, e assim também o é com a sublimação que, por definição, se dá pelo desvio do alvo. A sublimação está no centro da economia libidinal, no âmago do funcionamento pulsional e, portanto, da constituição do sujeito.

Definida como um movimento capaz de elevar o objeto ao estatuto da CoisaI (Lacan, 1997/1959-60), a sublimação está vinculada à busca pela Coisa, associada aos primórdios da organização subjetiva onde as afirmações primeiras do que é bom se confirmam com a expulsão e negação do ruim. Com o vínculo ao vazio da Coisa, a sublimação é anterior a todo recalque e independente dos ditames do eu e da vontade, demonstrando a não assimilação deste conceito a ideias adaptativos e normativos, ou ao desejável socialmente. Além do mais, nesse distanciamento do eu é possível vislumbrar a presença do sujeito, marcado pela falta e sob a égide do inconsciente, avesso ao funcionamento da consciência e da razão. Ao mesmo tempo, a articulação da sublimação à pulsão, sua localização nos primórdios da organização e estruturação do psiquismo e, enfim, sua ligação com a Coisa, marcada pelo que está de fora do campo representacional, vinculam-na ao Real e à repetição.

Sabemos ser no momento de corte, da separação e queda do lugar de objeto que a identificação alienante é interrompida, viabilizando a inscrição pulsional, instaurando a falta e permitindo o desejo; em outras palavras, com o corte, tempo da separação, vemos surgir o sujeito. Lacan (2008 [1966-67]) articula o conceito de repetição ao corte, à separação e queda do lugar de objeto: respondendo ao mecanismo estruturante de busca pelo reencontro do objeto perdido, a repetição repete um fracasso que atesta, reafirma o impossível do gozo da Coisa. Então, na instalação da pulsão também se inaugura a repetição, ambas atreladas à constituição do psiquismo e do sujeito e à infindável busca de reencontro do objeto miticamente perdido, do reencontro da Coisa.

Me atenho também ao fato de Lacan (2008/1966-67),  em A Lógica do Fantasma, afirmar, de forma direta e clara, que a sublimação tem como sua estrutura fundamental a repetição – aquela que se inaugura com o corte e a constituição do Real pela exclusão de um resto pulsional não simbolizável. Para chegar nesta formulação Lacan (2008/1966-67, p. 209) parte da proposta de um vínculo da repetição com a passagem ao ato, que considera um “modo privilegiado e exemplar de instauração do sujeito”, confirmando a implicação de um sujeito nisso que em psicanálise denomina-se ato.

A definição de ato dada por Lacan (2008 [1966-67]) é composta pelos seguintes termos: o ato é significante, significante que se repete, mesmo que apenas em ações; o ato é a instauração do sujeito, através do ato o sujeito surge como efeito do corte, embora ele não se reconheça aí como tal. Estas formulações possibilitam a apreensão do que a passagem ao ato e o acting-out – duas modalidades de ato – comportam a repetição, clarificando o vínculo proposto entre esses dois conceitos de ato e repetição. O que está em questão é a repetição diferencial da ordem do Real, que impulsiona a insistência dos significantes na cadeia, fruto do corte, da separação que também permite o surgimento do sujeito. Afinal, a passagem ao ato  e o acting-out fazem corte, ou melhor, reeditam o corte fundador da repetição, uma vez que põem em cena o que escapou à simbolização e reafirmam a existência de um sujeito que, frente a angústia, rechaça a alienação ao Outro e busca presentificar a falta.

Por sua vez, o ato criativo presentifica a marca fundamental do sujeito, marca traduzida como o vazio, onde o Real pode ganhar forma na sublimação. E ainda, a sublimação libera o sujeito do aprisionamento neurótico do lugar de falo para o Outro: a obra, fruto do ato criativo, exerce a função de falo e permite assim a saída do lugar de objeto e o conseqüente advento do sujeito na sublimação. Situada na ordem de um gozo suplementar, a sublimação transcende o gozo fálico e possibilita o desprendimento do sujeito do lugar de falo para o Outro. Para tanto, é necessária a possibilidade de prescindir do significante do Nome do Pai para que um novo significante possa advir em seu lugar, dando vez e voz ao ato criativo. Obviamente, não há como prescindir de algo que não se tem, e para poder transcender este significante, para poder ir além desde Nome na produção de novos significantes, é preciso saber, ao menos em alguma medida, que o ato de criação não o anulará, que prescindir desde Nome não significa destruí-lo. Ao contrário, é operar fora de seus domínios, mas, em virtude de seus efeitos e corroborando a sua função de assunção subjetiva.

A sublimação é um caminho com o qual o sujeito pode dispor do vazio, ou seja, presentificar o vazio que o constitui através do ato criativo, talvez num desvio da inibição, do sintoma, da angústia, e, portanto, do acting-out e da passagem do ato. Desviar de algo, implica reconhecê-lo, afirmando a sua existência: a sublimação afirma, em seu horizonte, a angústia. Retomo o ponto onde vislumbrei a sublimação associada ao campo das respostas frente o desejo do Outro e remeto-me ao grafo do desejo, lembando que a angústia está localizada no topo, logo abaixo da fantasia, ou seja, é uma das últimas respostas protetoras frente ao desejo do Outro. Então, arrisco hipotetizar a presença da sublimação no grafo, próxima à angústia, acima do sintoma e da inibição, uma vez que ela implica em movimento, em ato de criação, de forma independente do recalque e permite ao sujeito distanciar-se de sua identificação fálica na medida em que a obra ocupa o lugar do que se era para o Outro (Pommier, 1990) assim, quando um objeto pode elevar-se à Coisa, o sujeito se liberta, mesmo que temporariamente, das vias de oferenda de seu corpo ao desejo do Outro.

Ainda, se pensarmos no nó borromeu, a angústia se localiza na zona de invasão do Real sobre o Imaginário, e a sublimação é, exatamente, a possibilidade de imaginarizar o Real. De poder fazer com o Real, elevando um objeto à dignidade da Coisa através do suporte do Imaginário. E não é também uma questão de dignidade o que entra em cena com a angústia? Não temos aí um sujeito, afetado, alarmado, lutando para manter a sua dignidade?

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

 

Referência Bibliográfica

CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes Médicas Sul, 1995. 241p.

CRUGLAK, Clara. Clínica da identificação. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001. 154p.

FREUD, S. O Estranho [1917]. InObras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? InRevista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990, p. 11-21. p. 58-66.

HARARI, R. O Seminário “a angústia” de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Oficios, 1997. 241 p.

LACAN, J. A lógica do fantasma [1966-67]. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, publicação não comercial, 2008. 4540 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 366 p.

LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise [1959-60]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. 196 p.

LEBRUN, Jean-Pierre. Um mundo sem limite: ensaio para uma clínica psicanalítica do social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004. 218 p.

POMMIER, Gerard. O desenlace de uma análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. 217 p.

Um analista?

Proponho trabalharmos da forma como trabalha um analista, buscando ouvir os desdobramentos possíveis a partir da enunciação do nosso tema de hoje:

Um analista?

Considero que primeiro podemos ouvir esta questão como a busca de uma definição: Um analista, o que é isso? Ou ainda, para que serve?

Também é possível ouvir esta interrogação como constitutiva de uma dúvida: Um analista? Isso é possível? Isso existe?

Sugiro ainda a possibilidade de nos atermos no artigo indefinido utilizado, que pode nos levar a: singularidade, particularidade, um e não qualquer outro, um e não todos, não uma categoria; mas pode também sugerir unidade, integridade, existência ontológica, remetendo a ideia de ser analista, da concretude desta condição e até mesmo de totalidade, um que forma um todo. E, nas duas vertentes, se a frase é interrogativa, abre-se a possibilidade de resposta afirmativa ou negativa, ou seja, afirmando ou negando a referida singularidade, o status de categoria e/ou a condição ontológica.

Digam se ouvem nesta formulação algo mais.

Na verdade, estes três desdobramentos se articulam. Vejamos como, partindo da primeira forma de ouvir: o que é um analista? Comecemos pelo que não é: não é uma profissão, não é uma ocupação, não é uma condição, muito menos um dom.

Diz-se que é uma função.

E aí podemos escutar pelo lado daquilo que se exerce, de um lugar que se ocupa ou que se sustenta. Então não se é analista (e aí a condição ontológica já é negada), se está analista, faz-se analista.
Bem, mas dizemos que somos psicanalistas, nos apresentamos assim. Tudo bem, não há mal em dizê-lo em nosso cotidiano, mas estamos falando daquilo que se passa na transferência, na situação analítica, ali um analista não é. Aliás, esta é uma formulação de Lacan: a única maneira de ser analista é não sê-lo. E que maluquice é essa? Antes responder esta maluquice, vamos agregar mais uma.

A partir desta palavra função, evocamos a matemática e dizemos: o analista é uma função matemática.
Vocês se lembram do que é uma função matemática? O essencial desta definição, que é comum a qualquer um dos tipos de função matemática, é a existência de uma relação entre duas grandezas, entre duas variáveis. Assim, se muda a variável independente, x, muda também a variável dependente, y. Só há função se esta relação existir, se y se mantém constante a despeito da variação de x, não há função. Vejam se definimos o analista como uma função, ele não é per se, ele está, ele se faz na dependência da existência de relação entre duas variáveis, a saber, o desejo do analista e a demanda de análise, ou seja, na dependência da transferência.

Juntando uma maluquice com a outra, “ser não sendo” significa o reconhecimento da não ontologia, não há analista por si mesmo, a sustentação deste lugar se dá na cena analítica, na transferência e na dependência do operador fundamental que é o desejo do analista.

Encaminhando as coisas desta maneira, o analista não existe (não há um ser aí) e também não forma uma categoria; mas embora não seja um ser singular, podemos afirmar a particularização desta função a cada vez que ela ocorra. Neste sentido o analista é sempre um com cada um dos seus analisantes.
Desta forma podemos também dizer que um analista está sempre em produção, nunca pronto, nunca terminado, nunca uma totalidade acabada.
Faço ainda uma última observação sobre a difícil tarefa de sustentar este lugar, um lugar de não ser, e aí também na direção já sabida por todos vocês: de dessubjetivação, de estar num lugar de falta de vazio, de semblante de objeto causa do desejo.

Evidentemente esta não é uma situação confortável, ausentar-se da condição de sujeito não é tarefa rotineira, não é nada fácil deixar de lado nossas convicções, pensamentos, afetos.
Gosto muito de uma observação feita por Isidoro Vegh em uma conferência, dizendo que o analista está em sua poltrona como que fritando, numa frigideira todo o tempo, queimando. Ninguém frita sem sentir dor, é dolorosa a posição do analista e para suportá-la, no sentido mesmo de sustentá-la, é necessário lançarmos mãos de dois dispositivos fundamentais: a análise pessoal e a instituição analítica.

Lacan afirmou que um analista se autoriza de si mesmo e por alguns outros. Como vimos, a produção de um analista é interminável e, embora a análise pessoal seja fundamental, ela não é suficiente.
O final de uma análise, que sabemos produzir um analista, nos permite suportar ser colocado na posição de a sem ser afetado por isso, pois sabemos que o desejo aí implicado não é nosso, não se refere a nós. Depois, a instituição ajuda a dar continuidade nesta interminável produção e é um espaço onde podemos dar provas de nosso saber e onde o reconhecimento dos pares ajuda a nos reconhecermos, facilitando a sustentação deste difícil lugar.

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan

Trabalho apresentado no Fórum da ALPL – 25/03/2013

Um Ato Analítico, Um Analista

De início, sobre o título deste trabalho, alguém poderia indagar: você não se equivocou na ordem das coisas? Não seria o inverso, um analista, um ato analítico? Afinal, não é necessário haver analista para que o ato se produza?

E na sequência, ainda sobre o título, nova objeção poderia ser feita ao artigo um utilizado, artigo este que, embora se classifique como indefinido, pode comportar paradoxalmente duas idéias distintas. Uma delas aponta para certa singularidade ou particularidade do ato e do analista, um e não qualquer outro, um e não todos, não uma categoria. A outra, ao contrário, pode sugerir para ambos os termos implicados a possibilidade de integridade, existência ontológica, concretude, totalidade ou universalização: um todo.

Respondo aos meus interlocutores imaginários que graças à inevitável equivocidade da linguagem realmente todas estas observações ou objeções procedem, mas apesar de terem lá a sua verdade não tornam inoperante meu tema e, portante, não invalidam outras possíveis articulações que procuro traçar neste texto.

No que concerne ao analista já sabemos não se tratar de uma profissão, ocupação, condição ou dom. Então, como pergunta Lacan no Seminário “O ato analítico”, logo no início da lição de 13 de março de 68: o que é ser psicanalista?

Algumas respostas possíveis: ser analista é, com sua presença, suportar fazer semblante do objeto que convém a cada analisante até o momento final de cair desta posição a fazer o luto desta perda. É reconhecer que a análise é apenas um dispositivo temporário, uma pretensa situação, e que o que se passa ali, incluindo o analista, é fruto do mesmo. Ou ainda: ser analista é trabalhar na direção de não sê-lo, é sustentar um lugar na transferência para sair dele. É saber que não se é analista (e aí a condição ontológica é negada), se está analista, faz-se analista na e pela transferência.

Diz-se também que o psicanalista se define como uma função matemática, ou seja, pela existência de uma relação entre duas grandezas ou entre duas variáveis. Numa função matemática, a mudança na variável independente x, deve produzir alteração também constante a despeito da variação de x, não há função.

Desta forma, se definimos o analista como uma função matemática, ele não é per se, ele está, ele se faz na dependência da existência de relação entre duas variáveis, a saber, o desejo do analista e a demanda de análise, ou seja, mais uma vez, na dependência da transferência.

Concluiu-se que o analista não participa de uma categoria ou classe, a profissão analista, e também não existe como entidade ou identidade acabada, não é um ser singular. Entretanto, penso que a função analista e efetiva, e, assim, se particulariza, a cada vez, a cada ato analítico.

Desta maneira, retornando ao artigo do título, o analista como função é sempre um, no sentido único, com cada um de seus analisantes ou, ainda, um a cada uma das sessões com cada um dos seus analisantes ou mais, um a cada um de seus atos em cada uma das sessões com cada um de seus analisantes. Neste ponto proponho uma leitura deste um em referência à forma como Lacan trabalha o traço unário no seminário IX, A Identificação.

O traço unário surge do apagamento do objeto, marcando a divisão do sujeito pela linguagem, o distanciamento do objeto e a pura diferença. O traço é significante de uma ausência que se presentifica a cada volta da repetição, onde Lacan localiza a origem do inconsciente e do desejo. Trata-se da marca primeira de surgimento do sujeito a partir do significante, todo significante tem o traço como suporte. Assim, o Um, do traço unário, é fundamento da diferença e não da unificação imaginária. Um como diferença, como ausência e como surgimento do significante. Assim também, um ato analítico, um analista, ambos como diferença e não unificação ou totalidade; como ausência, evanescentes e não ontológicos e, também, como produtos e produtores de significantes.

Com Lacan, nos desdobramentos de sua afirmação de que o ato é do analista e a tarefa é do analisante, encontramos as idéias de que o ato analítico instrumenta a tarefa ou habilita a marcha do analisante; que o ato só se confirma como tal a posteriori e que há ato analítico quando algo de novo pode começar. Assim, a intervenção do analista só será sancionada como ato se for eficaz em habilitar a tarefa do analisante e se, com ela, algo de novo puder começar.

Entendo que nesta articulação entre ato e tarefa, algo novo começa dos dois lados.

Do lado do analisante, trata-se da possibilidade de ler e de reescrever algum ponto de sua história de maneira alternativa às versões anteriores para poder fazer com os velhos traços o começo de um novo desenho, com os velhos movimentos, novos passos para uma nova coreografia. Passagem do eu não penso da alienação para o eu não sou, não sou o objeto que sustenta, faz suporte para o gozo do Outro.

Do lado do analista, a abertura ao novo deve ser condição de cada encontro, pois ele nada sabe antecipadamente sobre seu analisante, nem sobre o que será o percurso daquela análise e, tão pouco, qual será o seu fim. Assim, se há analista há sempre um novo começando a cada analisante, a cada sessão, a cada ato.

Mais uma vez retorno ao título do trabalho e agora peço que considerem o artigo um como indicador da abertura de uma série comportando ato e analista, um como o primeiro de outros que se seguem. Assim, poderíamos escrever: um ato analítico, um analista, um ato analítico, um analista… A partir desta série, um analista seguiu a um ato e precedeu a outro ou um analista esteve entre dois atos. Assim como o efeito de sujeito pode se produzir entre dois significantes, a função analista pode operar entre dois atos. Assim como o efeito de sujeito pode se produzir entre dois significantes, a função analista pode operar entre dois atos.

É verdade, se há analista pode haver ato, mas só com a confirmação do ato na tarefa do analisante é que se afirma ter havido analista. Por efeito de retroação, sabe-se ter havido, ou não, ato analítico e analista.

A produção de um analista é mesmo tarefa impossível, impossível de ser finalizada por completo e também por isso Lacan afirma que começamos a ser psicanalistas no final de uma análise. Mais uma vez, há ato (agora, final, do final de uma análise) onde algo novo começa (um analista).

Observem: o final de uma análise é só o começo. Certamente a nossa análise (ou análises) é condição fundamental para a passagem a analista, para a sustentação desta função. mas é só o começo e um começo muito particular, pois não pressupõe um fim. Para nós analistas, o ditado perde seu valor: nem tudo que começa, termina, ao menos não definitivamente.

Esta condição costuma provocar angústia, em especial aos habituados ao âmbito universitário e que inicia, um percurso com a psicanálise. Afinal, a vida escolar tem começo, meio e fim e com ele adquirimos títulos, diplomas, garantias. Já um analista que acompanha Lacan sabe que só os tolos esperam garantias. Mas este mesmo analista também sabe que o desconforto da ausência de garantias torna-se suportável através de uma análise que possa produzir a derrocada do Outro, libertando-o dos efeitos inibitórios destas ilusórias garantias e habilitando-o a fazer ali com.

Com isto não digo que a função analista se dê confortavelmente, sem dificuldades ou impasses. Muito pelo contrário, sustentar este lugar tem um custo pessoal significativo: pagamos com nosso ser, dele devemos abdicar, é o primeiro luto que o analista deve fazer para sustentar sua função através do desejo do analista. E depois, ao final de cada percurso analítico, novo luto do analista, agora da própria função, da pretensa situação instalada pela transferência, do lugar de semblante de causa de desejo sustentado.

Frente a estas e muitas outras dificuldades que a prática me apresenta, relembro e me amparo em algumas palavras de Lacan no seminário sobre a transferência: “Não sejamos demasiados otimistas, nem demasiados orgulhosos de nós mesmos, mas digamos ainda assim que vocês tiveram, todos quantos são, uma pequena preocupação quanto ao limite do deserto… Trata-se daquilo que está no coração da resposta que o analista deve dar para dar conta do poder da transferência. Essa posição, eu a distingo dizendo que no próprio lugar que é o seu, o analista deve se ausentar de todo ideal de analista” (p. 469).

Sem certezas e garantias, reconhecendo os limites e distante de um ideal, mas com o desejo de produzir algumas respostas, não todas e nem definitivas, dedico este texto à memória de uma ex-analisante cuja transferência foi suspensa, mas, infelizmente, não pode ser terminada. Restou para mim o trabalho de luto da função analista de uma forma mais difícil e dolorosa do que de costume e, também por isso, sigo trabalhando, compartilhando com vocês minhas letras e buscando abrir a cada momento em minha clínica, novas séries: um ato analítico, um analista, um ato analítico, um analista…

Autora: Zeila Cristina Facci Torezan
Membro da ALPL
zeilatorezan@associacaolivrepsanalise.com.br

 

Referência Bibliográfica

Lacan, J. O ato psicanalítico. Porto Alegre: Escola de Estudos Freudianos, 2010.

Lacanm J. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Lacan, J. O seminário, livro 9: a identificação. Recife: CEF, 2003,